quinta-feira, 11 de junho de 2026

FIFA exige que Haiti tire "bandeira da Polônia" da camisa.

 
A bandeira da Polônia hasteada aparece na parte inferior das camisas

 
Integrante do Grupo C da Copa do Mundo, junto com o Brasil, o Haiti foi proibido pela FIFA de estampar um símbolo nacional na camisa oficial que usará durante o Mundial. A seleção havia divulgado o uniforme, que tinha uma ilustração representando a batalha de Vertières que culminou na independência do Haiti, em 1803.
 
De acordo com a empresa de material esportivo, a FIFA entendeu que havia no uniforme uma mensagem política, fato que é proibido pelo regulamento da entidade. O traje gerou confusão entre torcedores nas redes sociais pela presença da bandeira, que é muito parecida com a da Polônia.
 
Embora, o país europeu tenha ajudado no processo de independência dos caribenhos, a homenagem não se refere a parceria entre os países, segundo a empresa.
 
Entenda a relação entre Haiti e Polônia
 
A história se iniciou em 1802, quando os haitianos, até então colonizados pela França, começaram a se organizar e aumentar seus movimentos pela luta pela independência do país. Buscando inibir o aumento da revolta no Haiti, Napoleão Bonaparte - Imperador da França - enviou tropas para o Caribe e, entre eles, haviam os soldados das chamadas "Legiões Polacas", que integravam o Exército Francês.
 
A mudança na "Batalha de Vertières" ocorreu quando os soldados polacos se simpatizaram com a luta haitiana e decidiram mudar de lado, se juntando aos manifestantes pela luta contra os franceses. A ajuda dos polacos foi crucial para que, no fim do conflito, o povo haitiano conseguisse assegurar a independência do país. Os legionários polacos nunca mais voltaram para a Europa.
 
Por isso muitos negros haitianos hoje assinam sobrenomes autenticamente polacos. As Legiões Polacas foram recrutadas por Napoleão sob a promessa que daria a independência da Polônia invadira e ocupadas pelos Reino da Rússia, Império da Áustria e Reino da Prússia. Uma das consequências da parceria foi a criação do Reino do Congresso da Polônia, mas que não teve vida longa com a morte de Napoleão e aquela região polaca voltou ao domínio russo até 1918.
 
Como reconhecimento, Jean-Jacques Dessalines, primeiro governante do país caribenho, deu a cidadania haitiana aos polacos como forma de agradecimento. Mais de dois séculos depois, essa amizade ganhou mais um capítulo com a homenagem nas três camisas da seleção haitiana preparadas para o Mundial.
 
Nas três versões do uniforme do Haiti, há a ilustração do processo de independência do país caribenho, com a bandeira polaca em destaque no canto inferior direito.
 
As Legiões Polacas estavam entre o exército francês que invadiu a a Espanha e Portugal. Tanto que a família real portuguesa de Dom João IV transferiu o reino em 1808 para o Rio de Janeiro.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Os Colégios Polacos do Paraná - uma resposta histórica aos preconceitos

Casa principal do Colégio Mikołaj Koperniko de Mallet - PR

 
Durante décadas, os descendentes de imigrantes polacos no Brasil foram alvo de estereótipos depreciativos, expressos em expressões como “polaco burro”, “polaco sem bandeira”, “polaco preto do avesso” ou “polaco da nhanha”. Tais rótulos, repetidos sem conhecimento histórico, contrastam profundamente com a realidade educacional construída pelas comunidades polacas, especialmente no Paraná.
 
Entre os exemplos mais notáveis destacam-se o Colégio Nicolau Copérnico, de Mallet, e o Colégio Henryk Sienkiewicz, de Curitiba, instituições que figuraram entre as experiências educacionais mais avançadas do Brasil nas primeiras décadas do século XX.
 
O Colégio Nicolau Copérnico, fundado em 1911, possuía uma estrutura pedagógica que ultrapassava em muito o ensino elementar oferecido pela maioria das escolas rurais brasileiras da época. Seu currículo abrangia não apenas alfabetização e matemática, mas também línguas, ciências naturais, geografia, história, artes, higiene, trabalhos manuais e formação profissional. O objetivo era formar cidadãos preparados para a agricultura, o comércio, a indústria, o funcionalismo público e as profissões liberais.
 
A formação linguística merecia destaque especial. Os alunos estudavam simultaneamente língua polaca e portuguesa, e em determinados períodos também latim, alemão e francês. O ensino das línguas não se limitava à gramática: incluía literatura, redação, declamação, interpretação de textos, correspondência comercial e exercícios de expressão oral. No curso secundário, o francês era ensinado com rigor suficiente para permitir leitura, escrita e conversação, utilizando jornais, revistas, livros e cartões postais como material didático.
 
O programa de História e Geografia era igualmente abrangente. Os estudantes aprendiam História do Brasil, História Universal, História da Polônia, Geografia Física, Cosmografia e Corografia do Brasil. Estudavam continentes, oceanos, sistemas políticos, relações econômicas internacionais, além da formação histórica brasileira e europeia. Também eram incentivados a compreender a realidade local, os municípios, os Estados e as características geográficas do Paraná e do Brasil.
 
Nas ciências, o currículo impressiona ainda mais. Os alunos frequentavam disciplinas como Zoologia, Botânica, Somatologia (estudo do corpo humano), Mineralogia, Higiene, Ciências Naturais e Ciências Físicas. Aprendiam anatomia dos vertebrados, morfologia das plantas, composição dos solos, fertilizantes, minerais, geologia, saúde pública e prevenção de doenças. Havia conteúdos relacionados à vacinação contra varíola e febre tifoide, primeiros socorros, transmissão de enfermidades por insetos, saneamento e cuidados com a alimentação.
 
A preocupação com a higiene e a saúde era tão intensa que o tema aparecia constantemente em reuniões pedagógicas e palestras para professores e colonos. Considerava-se que a escola deveria formar hábitos de limpeza, organização e prevenção de doenças, valores ainda pouco difundidos em muitas regiões do Brasil daquela época.
 
Também chamam atenção os conteúdos ligados à formação cívica e moral. Os estudantes aprendiam direitos e deveres dos cidadãos, organização administrativa do país, funcionamento das eleições, respeito às leis, convivência social, solidariedade, comportamento público e responsabilidade individual. O ensino procurava formar cidadãos conscientes e participativos.
 
Outro aspecto notável era o ensino artístico. As aulas de desenho evoluíam desde representações simples até paisagens, mapas, sólidos geométricos, animais, plantas e exercícios de imaginação. Os alunos praticavam modelagem em barro, ornamentação, estudos de cor, aquarela e composição artística. Muitos trabalhos preservados demonstram domínio de geometria, observação da natureza e criatividade.
 
A educação física, os jogos ginásticos, a música, o canto coral, o teatro e os trabalhos manuais complementavam a formação. Os registros mostram ainda ensaios teatrais, atividades musicais e excursões pedagógicas a outras cidades e regiões, recursos extremamente modernos para a época.
 
A organização escolar também impressionava. As aulas ocorriam em regime praticamente integral, geralmente das 8h às 15h, seis dias por semana. Os alunos permaneciam grande parte do dia envolvidos em atividades acadêmicas e culturais, numa época em que boa parte da população rural brasileira tinha acesso apenas a alguns anos de instrução elementar.
 
A preocupação com a formação profissional era explícita. Jovens interessados na agricultura estudavam solo, plantas, fertilizantes e produção agrícola. Aqueles inclinados ao comércio e à indústria recebiam preparação em matemática, contabilidade, idiomas e correspondência comercial. A escola buscava responder às necessidades econômicas concretas das comunidades de imigrantes.
 
Os resultados apareceram rapidamente. O Colégio Nicolau Copérnico formou comerciantes, industriais, funcionários públicos, militares, professores, engenheiros e profissionais de diversas áreas. Sua reputação tornou-se tão sólida que atraía estudantes de outras regiões do Paraná e até de outros Estados brasileiros. Muitos destes estudantes de outras cidades e Estados moravam no internato do próprio colégio.
 
O mesmo espírito orientava o Colégio Henryk Sienkiewicz, em Curitiba, que juntamente com o Copérnico representou o ápice da educação comunitária polaca no Brasil. Essas instituições não eram escolas isoladas, mas parte de um amplo sistema educacional mantido pelas associações de imigrantes, que compreendia dezenas de estabelecimentos espalhados pelo Paraná. Em 1937 existiam 167 escolas polacas no Estado, a maioria oferecendo ensino bilíngue e currículo estruturado.
 
Essa experiência educacional foi interrompida pela política de nacionalização do Estado Novo. Em 1938, as novas normas determinaram o uso exclusivo da língua portuguesa no ensino e inviabilizaram a continuidade das escolas étnicas, levando ao desaparecimento gradual de instituições como o Nicolau Copérnico e o Henryk Sienkiewicz em sua forma original.
 
A análise de seus currículos permite uma conclusão inequívoca: os colégios polacos do Paraná estavam muito à frente do seu tempo. Enquanto preconceitos simplificavam e ridicularizavam uma comunidade inteira, suas escolas ofereciam ensino multilíngue, formação científica, educação artística, preparação profissional e sólida formação cívica.
 
Longe da caricatura construída pelos estereótipos, a realidade demonstra que os imigrantes polacos ergueram algumas das instituições educacionais mais completas e modernas do Brasil das primeiras décadas do século XX. A melhor resposta aos velhos preconceitos está justamente nos documentos escolares que sobreviveram: eles revelam uma comunidade que apostou na educação como principal instrumento de ascensão social, preservação cultural e integração ao Brasil.
 
Texto: Ulisses Iarochinski