segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Meus tetravôs polacos


Confesso que nem estava pensando nos meus parentes, nem polacos, nem mineiros, mas estava na Internet pesquisando sobre outras coisas que não ancestralidade e de repente apareceu um site polaco.

De brincadeira coloquei o nome dos meus trisavôs (pais do bisavô) para busca, algo que já tinha feito dezenas de vezes.

E não é que apareceu?

Jan (João) Jarosiński e Wiktoria Jackowska. Ele, com 29 anos, filho de Andrzej Jarosiński e Barbara Rogulska. Ela, filha de Józef Jackowski e Agnieszka Arament.

Casaram-se em 28 de outubro de 1878, na Vila de Stare Poręby, cidade de Dobre (50 km de Varsóvia), voivodia da Mazóvia.

Não bastasse esta descoberta, não é que apareceram dois filhos do casal?

Stanisław (Estanislau), nascido em 4 de maio de 1879 e PIOTR (Pedro - meu bisavô), em 22 de dezembro de 1880, ambos em Stare Poręby.

Andrzej e Barbara, Józef e Agnieszka são meus tetravôs polacos!!!

Já estive em Dobre, Mińsk Mazowiecki, Siedlce e Varsóvia algumas vezes e não tinha encontrado estes dados, que estão nos arquivos de uma das Cúrias de Varsóvia, no bairro de Praga, do outro lado do rio Vístula, e onde Polański gravou várias cenas de seu filme "O Pianista".


Poręby Stare pertenceu ao município de Radzymina, distrito de Rudzienko, paróquia de Stanisławów. Está distante 35 de Radzymina e era habitada por 12 pessoas em 254 m² de terra.

Em 1827, existiam 10 casas de 87 m² cada. Fazia parte da vila de Dobre. Mas em 1880, foi separada de Dobre e de Rudzienko. Havia, então, no lugar uma fábrica de vidro com 30 trabalhadores e uma fábrica de alcatrão.

Dobre, o atual distrito a que pertence Poręby Stare foi criado em 1530 e elevado a categoria de cidade em 1852.

Em 17 de fevereiro de 1831, na vila de Makówiec Duży, ocorreu uma batalha entre as tropas polacas comandadas pelo general Jan Skrzynecki e o batalhão russo liderado pelo general Rosen.


A escritora e poeta Maria Konopnicka descreveu essa batalha em um belo poema intitulado "Bitwa pod Dobrem", começando com as palavras: "Como Dwernicki em Stoczek, sim Skrzynecki em Dobrem ...".

Antes da Segunda Guerra Mundial, muitos polacos de origem judaica viviam em Dobre. De acordo com os dados do censo de 1921, 373 deles viviam em Dobre, o que constituía 34% da população da vila. Em 15 de setembro de 1942, os polacos- judeus de Dobre foram deportados para o campo de extermínio de Treblinka e a sinagoga da cidade foi destruída.

De acordo com o Censo Nacional de População e Habitação de 2011, a população da vila de Poręby Stare é de 94 pessoas, dos quais 50,0% são mulheres e 50,0% são homens.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Vinte e um anos do livro SAGA DOS POLACOS

 


Meu livro SAGA DOS POLACOS - A POLÔNIA E SEUS EMIGRANTES NO BRASIL completou agora no final de novembro 21 anos de seu lançamento.

O livro causou-me várias alegrias e algumas decepções. Amado por uns e desprezado por outros, Saga dos Polacos continua vendendo e servindo de referência bibliográfica para vários trabalhos de conclusão de cursos de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado em universidade do Brasil e do exterior.

A maior alegria foi por causa dele ser agraciado com 4 cursos na Polônia com bolsa do ministério da educação daquele país: 2 de idioma e cultura polaca, 1 mestrado em cultura internacional e 1 doutorado em história.

As decepções foram várias, a começar por 3 agressões em Erechim-RS, São Paulo-SP e Curitiba-PR. Sem contar o desprezo de preconceituosos poloneses e polônicos que insistem em manchar com seu ódio e preconceito a bela palavra gentílica Polaca.

Reproduzo o prefácio do professor doutor argentino-brasileiro Hugo Daniel Mengarelli, que soube entender a importância de Saga dos Polacos para os milhares de brasileiros descendentes de imigrantes polacos:

Conheci Ulisses lá pelos idos de 1976, tão logo havia eu chegado a Curitiba na condição de imigrante argentino. Leitor de Érico Veríssimo, interessado pelo Brasil e seu futuro, não nos surpreende que venha a se preocupar por aqueles que deixaram a vida e o sangue para fazê-lo arvorar, por aqueles que estão na origem deste Ulisses Iarochinski. O resultado é uma consequência lógica, se quiser necessária: Saga dos Polacos.

Pretender que seja um livro de história é uma exigência a que a obra não se propõe, exigir que seja uma exaltação polonesa dos polacos é contrária à visão do autor. Entretanto é um livro de notável pesquisa e ricas informações, feito com a paixão de um descendente que rende homenagem a uma etnia da qual nosso Estado não pode deixar de sentir orgulho. Quem pode falar do Paraná sem falar dessa força, desse espírito que os polacos imprimiram? Paraná é tão polaca que quando casei com Jandyra (em tupy: "doce como mel") eu disse, casei com uma autêntica paranaense (na realidade ela não é tupy e sim filha e neta de polacos.)

O livro faz um percurso pela história da Polônia, tão sofrida e castigada ao longo dos séculos, e também pela história da imigração, não menos sofrida e castigada. Vida dura como pedra, mas não é em pedra dura onde melhor se lavra? Ulisses nos conta como eles mesmos lavraram em pedra dura, desafiaram a intempérie com suas butkas e domy, atravessaram as falsas promessas com suas wielki wosy, aqueceram suas noites com Kapuśniaki e adoçaram seus silêncios e suas broncas com sernik

Deparando-nos com a riqueza da etimologia das palavras, podemos notar que sendo o polaco eslavo, e o termo słowianie em polaco significa "verbo", "palavra", que é a arma da criação do mundo, e sua raiz sław significa "glória", deparamo-nos também que slavo em latim significa "escravo". Que relação poderia haver entre palavra, glória e escravo? Conforme nos ensinou Hegel, é o escravo quem faz a história - apesar de que seja o senhor quem leva a glória. Mas enquanto que o senhor precisa do escravo para se reconhecer, o escravo se reconhece através do seu próprio trabalho. Noutras palavras, ninguém escapa de ser escravo, mas parece que o senhor é o pior deles, já que precisa do outro para se reconhecer. Um, escravo do reconhecimento, o outro do trabalho. Não é que estes eslavos tinham como farol a frase da Bíblia: o trabalho dignifica? Se o verbum divino - palavra em latim - criou o mundo o trabalho humano deu a continuidade, essa é a glória neste povo de palavra. E não devemos em grande parte a esta gente o fato de sermos reconhecidos no Brasil como um povo trabalhador? Os primeiros plantaram batatas para fazerem crescer médicos, artistas, e poetas.

Ulisses preocupa-se em recuperar o termo polaco ao invés de polonês, pois que este surge do preconceito com os "polacos", do preconceito do sofrimento desta gente. Assim como os jovens da aristocracia paranaense usurpavam o corpo de uma polaquinha, também usurpavam a indígena, a negra, a italiana, a ucraniana, etc.. Preconceitos à parte, dos encantos femininos, quem é o verdadeiro escravo? Disse Golias a Sanuel: Escolham um de vocês para lutar contra mim. Se ele for suficientemente forte para me vencer, nós seremos seus escravos.(Livro de Samuel 17). Davi não era suficientemente forte, mas astuto o suficiente. A condição da mulher é outorgar na sua alteridade, um lugar ao homem. A força está no Dom e não no surrupiar, este livro nos mostra muito bem isso. Por quê negar aquilo que nos faz raiz, seja por seus aspectos positivos ou negativos? Ou por acaso todos os imigrantes de qualquer etnia foram fora de série, ninguém roubou, matou ou traiu? A história, não só na Polônia, nos fala disso, mas, por exemplo, nem por isso todos os italianos são carcamani. O termo "polonês" de alguma maneira surrupia o que de mais sacrificado, doloroso e glorioso este povo encerra. O grande poeta falou : Meu coração polaco voltou, e voltará sempre enquanto hajam Leminskis, Iarochinskis, Morozowiczs, Osinskis, etc. Voltarão através desta mistura "viralata" que tanto dignifica esta terra. E será mesmo que existe alguma raça pura, ou a história já se encarregou de "viralatá-la"?

O povo polaco é fundamentalmente sua língua e se ele existe hoje como nação foi porque existiram Kosciuszkos e Piłsudskis que falavam polaco, porque existiu uma religião, a católica, que os manteve unido diante da invasão protestante e ortodoxa, e porque eram slavos, eram verbo, palavra, escravos. Senão como poderiam ser tão facilmente enganados com as promessas feitas pela elite brasileira se eles não fossem gentes de palavra? Como bons eslavos sonhavam com a liberdade, não foi por acaso nas senzalas que surgiram os Quilombos?

Ulisses Iarochinski nos toca fundo quando fala de Cruz Machado e de todo o drama que representa este nome para a coletividade polaca, mas ao mesmo tempo que caboclos tiravam vantagem de um povo de figura e língua estranha, tinha outros como o farmacêutico Antiocho Pereira que entregou-se por inteiro, como um "Bom Samaritano", para salvar a este povo da epidemia.

Passarão os anos e o Brasil haverá de integrar as etnias que o engrandeceram e enalteceram, assim como a selva Amazônica tomou conta da Transamazônica. Mas marcas de sua passagem continuarão sto lat sto lat , "cem anos cem anos" nos hábitos, nos costumes e na origem gravada nos sobrenomes Leminski, Wachowicz, Nadolny, Saporski, Morozowicz, Iarochinski, Bodziak, etc.. Niech żyje żyje nam, que viva que viva para nós, paranaenses e brasileiros. 

 Hugo Mengarelli - Professor de Teatro e Cinema da UFPR. Diretor da Companhia de Teatro PalavrAção da UFPR e dramaturgo.