sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O ASSALTO ÀS PALAVRAS POLACAS

Da diáspora rasurada à identidade cultural: quando até a comida perde a nacionalidade

Por Ulisses Iarochinski

O apagamento começa pelas palavras

A diáspora polaca não foi rasurada apenas nos mapas, nas estatísticas migratórias, nos registros de desembarque ou nas narrativas oficiais construídas posteriormente. O apagamento também aconteceu — e continua acontecendo — no vocabulário, nos nomes, nas palavras que identificam uma origem, nos livros, nos dicionários, nas referências culturais e até na maneira como determinados alimentos são apresentados ao mundo.

Quando uma palavra deixa de ser usada, quando um nome é substituído por outro, quando uma tradição passa a ser atribuída exclusivamente a um povo diferente daquele que a preservou e transmitiu, não estamos diante de uma simples mudança de vocabulário. Estamos diante de um processo que pode alterar a memória coletiva, deslocar pertencimentos e, com o passar das gerações, fazer com que descendentes deixem de reconhecer a própria história.

Em A Diáspora Rasurada, procurei demonstrar como a presença migratória polaca no Brasil foi fragmentada, diminuída e, em muitos casos, ocultada pelas estatísticas e pela historiografia. Agora, é necessário avançar para outra dimensão desse mesmo fenômeno: o assalto às palavras polacas. Porque a rasura não termina quando se apaga um número. Ela prossegue quando se apaga o nome que identifica uma pessoa, uma família, uma língua, uma receita ou uma tradição.

A palavra é também um documento histórico. Às vezes, é o único vestígio que resta de uma memória que os registros oficiais não tiveram interesse em preservar.

E, quando até a comida perde a nacionalidade, é preciso perguntar quem ganhou com esse desaparecimento.

1. O que já estava documentado em 2010: Polaco na literatura brasileira

A discussão sobre o uso da palavra Polaco no português brasileiro não começou agora. Publiquei em 2010, no livro Polaco – Identidade Cultural do Brasileiro Descendente de Imigrantes da Polônia, uma pesquisa específica sobre a presença dessa palavra na literatura brasileira, em jornais, documentos e publicações anteriores a 1930.

Naquela investigação, examinei obras e textos produzidos em diferentes momentos da história brasileira e constatei que Polaco era a forma normalmente empregada. Não aparecia como uma exceção, como um regionalismo ou como uma expressão secundária. Era a palavra corrente para identificar os naturais da Polônia e seus descendentes.

Um dos exemplos examinados foi As Aventuras do Dr. Bogoloff, de Lima Barreto. Na obra, o escritor utiliza duas vezes a palavra Polaco e não emprega a forma que posteriormente se tornaria predominante no Brasil.

O episódio também revela o preconceito que já recaía sobre os imigrantes eslavos, especialmente quando seus sobrenomes terminavam em formas como -itch, -off ou -sky.

O personagem é submetido à suspeita policial de que seria cafetão ou anarquista simplesmente por causa de seu nome e de sua origem. Isto, porque a máfia Zvi Migdał de origem judaica promovia tráfico de escravas brancas (judias) da Europa para a Argentina.

Em 1880, o Imperador brasileiro Dom Pedro II expulsou do Brasil, 20 judeus por este crime.

A palavra, portanto, já estava presente na literatura brasileira, mas também começava a carregar o peso de preconceitos sociais que seriam utilizados, mais tarde, para justificar seu abandono.

Entretanto, o documento mais significativo que examinei naquela pesquisa foi uma publicação de 1927: A Polônia na Literatura Brasileira, sob o pseudônimo de Fredecensis, e editada por Plácido e Silva & Cia. Ltda.

Não se trata de uma referência encontrada casualmente muitos anos depois. O livro foi objeto de análise em minha pesquisa publicada em 2010. Examinei suas 210 páginas e fiz um levantamento das formas utilizadas em seu conteúdo.

O resultado foi o seguinte: a palavra Polaco aparece 99 vezes; a forma polonez, com suas variações, aparece 45 vezes; e a forma polono aparece sete vezes.

Mas a contagem, por si só, não é o aspecto mais revelador. O que importa é onde cada uma dessas formas aparece. As 45 ocorrências de polonez estão concentradas nos títulos dos capítulos, nos intertítulos, no índice e nas legendas das ilustrações, ou seja, na diagramação cuidadosa do livro. Já os textos reunidos na coletânea, escritos por diferentes autores brasileiros entre 1863 e 1926, empregavam apenas Polaco.

Essa diferença é fundamental.

O volume reúne trechos de escritores como Castro Alves, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Nestor Victor e Silveira Netto, além de manifestações de Rui Barbosa. São textos produzidos em décadas diferentes, por autores diferentes, em circunstâncias históricas distintas. E, nesses textos, a palavra utilizada é Polaco.

Rui Barbosa, por exemplo, empregou a palavra ao defender a causa da independência da Polônia. Na Conferência de Petrópolis, em 17 de março de 1917, declarou:

“Os polacos eram um povo que havia conquistado as sympathias do mundo pelas injustiças políticas que, ha mais de um século, os governos autocratas da Russia, da Allemanha e da Austria faziam cair sobre a sua cabeça”.

Monteiro Lobato, ao escrever sobre a morte de Henryk Sienkiewicz, autor de Quo Vadis?, também utilizou a palavra. Em seu texto, registrou: “Com a morte de Henrique Sienkiewicz desapparece o polaco vivo mais notável e uma verdadeira figura universal”.

O Visconde de Taunay, por sua vez, escreveu à colônia polaca do Paraná, mencionando os núcleos de Pilarzinho, Abranches, Santo Inácio, Nova Orleans, D. Pedro e Thomaz Coelho, além dos padres Francisco Xavier Gorowski e Ludowico Przytarski. Também empregou Polaco ao se referir aos imigrantes e seus descendentes.

Em sua carta, Taunay lembrava que os polacos estabelecidos no Brasil gozavam de segurança e liberdade, enquanto seus compatriotas na Europa sofriam perseguições e injustiças. Conclamava os paranaenses a escreverem aos que haviam permanecido além-mar, dizendo que aqui existia uma “Nova Polonia”, em contraposição às desgraças e incertezas da “Velha Polonia”.

O mesmo Visconde de Taunay registrou notícia publicada pelo Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, em 18 de novembro de 1885, sobre a expulsão dos polacos das províncias orientais do Reino da Prússia.

São referências literárias, políticas e jornalísticas que demonstram a presença consolidada da palavra no português brasileiro muito antes de 1927.

Há ainda um detalhe particularmente significativo na coletânea de Fredecensis. Um dos capítulos tem como título simplesmente Polaco. Nele, uma criança reclama que um colega a chama dessa maneira, com desprezo, como se a palavra fosse um insulto.

A autora, Julia Lopes de Almeida, em texto publicado originalmente em 1920, utiliza Polaco em toda a narrativa. O preconceito está presente na situação descrita, mas a palavra utilizada pela escritora continua sendo aquela que identificava a origem do menino.

O livro de 1927, portanto, apresenta duas linguagens distintas: a dos textos originais, produzidos por escritores brasileiros entre 1863 e 1926, e a da organização editorial da coletânea, na qual aparece a forma polonez nos títulos, intertítulos, índice e legendas.

Não considero essa distribuição um detalhe sem importância.

Ela é o centro da questão.

O levantamento quantitativo e a localização das ocorrências foram publicados em meu livro de 2010. A diferença entre o vocabulário dos textos originais e o vocabulário introduzido na estrutura editorial da coletânea constitui um dado documental que precisa ser considerado por qualquer investigação sobre a mudança terminológica ocorrida no Brasil. 

Não estamos diante de uma palavra que simplesmente desapareceu porque outra, espontaneamente, passou a ser preferida pelos falantes. Há uma mudança que merece ser investigada em seu contexto histórico, político e institucional.

2. 1927: o testemunho de Edwino Donato Tempski

Além da documentação literária examinada em 2010, há um testemunho que recebi pessoalmente do médico, pesquisador e historiador Edwino Donato Tempski.

Durante uma entrevista que realizei com ele para o meu programa Polska, na TV Educativa do Paraná de 1992, Tempski relatou que, em 1927, teria ocorrido uma intervenção para substituir a palavra Polaco por outra denominação no Brasil. A informação estava relacionada à atuação de representantes da comunidade polaca e do Consulado Geral da Polônia em Curitiba.

Tempski era autor de Quem é o Polonês?, publicado pelo Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. Seu relato merece ser considerado pelo que é: um testemunho oral transmitido diretamente a mim por um pesquisador que se dedicou ao assunto.

É importante distinguir as naturezas das fontes.

O levantamento que publiquei em 2010 é uma análise documental de uma obra impressa em 1927. O relato de Tempski é um testemunho oral sobre a intervenção que teria ocorrido naquele mesmo ano. São elementos diferentes, mas convergentes no tempo e no problema que revelam.

A coincidência entre o ano da publicação de Fredecensis e o ano apontado por Tempski torna ainda mais relevante a investigação da mudança. A presença de polonez na estrutura editorial da coletânea, em contraste com o emprego de Polaco nos textos brasileiros originais, não pode ser ignorada.

O que precisa ser esclarecido é a extensão da intervenção, quem participou dela, quais foram os argumentos apresentados e por quais meios a nova forma foi difundida. Para transformar o testemunho oral em demonstração documental completa do episódio, é necessário localizar registros administrativos, correspondências, atas, publicações institucionais ou a gravação e eventual transcrição da entrevista.

Isso não diminui a importância do que já está documentado.

Ao contrário: define com precisão o que a pesquisa de 2010 demonstrou e o que o testemunho de Tempski acrescenta.

O que não se pode fazer é tratar a mudança como se fosse uma evolução espontânea e desprovida de agentes históricos.

3. Quando a palavra se transforma em ofensa

A palavra Polaco também foi submetida a outro processo: a associação preconceituosa com características físicas e comportamentos atribuídos indiscriminadamente a pessoas de origem eslava.

Em minha pesquisa de 2010, examinei a associação entre Polaco e a palavra loiro. No Brasil, as duas expressões passaram a ser utilizadas, em determinados contextos, como se fossem sinônimos. Uma pessoa de cabelos claros podia ser chamada de polaca, mesmo sem qualquer ascendência da Polônia.

Essa associação não tem fundamento etimológico.

A cor dos cabelos não define nacionalidade, origem familiar ou pertencimento cultural. Suecos, alemães, russos, italianos, franceses, espanhóis e portugueses também podem ser loiros. Nem por isso passam a ser naturais da Polônia.

Outra associação preconceituosa aproximou a palavra polaca da prostituição. O problema não estava na origem da palavra, mas no uso social depreciativo que passou a ser feito dela, atingindo mulheres e homens de origem eslava.

Talvez essa associação com a jovens judias traficadas por seus cafetões e vendidas aos prostíbulos do Rio de Janeiro, tenha sido a casa fundamental da mudança do gentílico.

O episódio narrado por Lima Barreto, no qual um personagem é suspeito de cafetinagem por causa do sobrenome, mostra que a hostilidade contra pessoas com nomes eslavos já existia no início do século XX. A literatura brasileira registrou esse preconceito antes mesmo da mudança terminológica que se consolidaria posteriormente.

É necessário separar as coisas: uma palavra pode ser utilizada como insulto sem que seu significado original seja ofensivo. O fato de alguém empregar Polaco de maneira depreciativa não transforma a palavra em sinônimo de inferioridade, nem autoriza que se apague seu sentido de origem.

O preconceito não pode ser utilizado como justificativa para eliminar a identidade de quem foi alvo dele.

4. A palavra também é território

O problema não se limita ao gentílico.

A substituição de palavras acontece quando expressões próprias de uma língua são abandonadas em favor de formas estrangeiras que passam a dominar o comércio, a publicidade, os cardápios, os dicionários e as traduções.

A palavra é um território simbólico.

Quem nomeia também participa da construção da memória. A língua polaca possui um vocabulário que identifica alimentos, bebidas, técnicas de preparo, utensílios, costumes familiares e práticas transmitidas entre gerações. Quando essas palavras desaparecem do uso cotidiano, perde-se mais do que uma expressão estrangeira. Perde-se uma forma de reconhecer a experiência histórica de um povo.

É o que acontece quando alguém conhece chucrute, mas não sabe o que é kapusta kiszona; quando conhece a palavra internacionalizada para a vodca, mas desconhece wódka; quando reconhece um cogumelo pelo nome comercial italiano, mas nunca ouviu falar de grzyby; quando come uma torta de maçãs sem saber que existe uma tradição polaca chamada szarlotka.

Não se trata de exigir que todos os brasileiros aprendam a língua polaca para frequentar um restaurante.

Trata-se de reconhecer que a tradução não deveria apagar a origem, e que a circulação internacional de um produto não deveria transformar automaticamente a identidade de quem o produziu ou preservou.

5. Piwo: a cerveja e a disputa pela memória

A cerveja é um dos exemplos mais interessantes dessa disputa.

Na Polônia, a palavra piwo identifica uma bebida profundamente incorporada à vida cotidiana, à história econômica e aos costumes sociais. A cultura cervejeira polaca tem registros medievais e não pode ser reduzida à narrativa que apresenta a tradição germânica como origem única da cerveja moderna.

As crônicas medievais, os registros de produção, as regulamentações locais e a existência de estabelecimentos dedicados à fabricação e ao consumo da bebida precisam ser examinados em conjunto. A história da cerveja na Europa Central é anterior à formação dos Estados nacionais modernos e atravessa territórios que mudaram de fronteira inúmeras vezes.

Há uma tradição cervejeira polaca antiga, com centros produtores, técnicas, variedades e formas de organização econômica próprias.

A história de piwo não começa quando a indústria cervejeira alemã se torna internacionalmente conhecida, nem pode ser contada apenas a partir das normas que ficaram famosas no Ocidente.

É preciso, porém, distinguir a antiguidade da produção, a história das técnicas, a evolução dos estilos e a origem das palavras. Uma coisa não comprova automaticamente a outra. O próprio vocabulário revela essas camadas.

Piwo é a palavra polaca para cerveja.

Karczma identifica a antiga hospedaria ou taberna, lugar de passagem, alimentação, bebida e sociabilidade. Piwnica é a adega ou porão, espaço associado à conservação de alimentos e bebidas. A palavra browar, hoje utilizada para cervejaria, tem origem germânica. Isso não significa que a produção de cerveja tenha sido ensinada aos polacos pelos germânicos.

A história de uma palavra não é necessariamente a história da atividade que ela designa.

Quando Bolesław I foi coroado o primeiro rei da Polônia, em 18 de abril de 1025, o reino polaco já contava com uma impressionante rede de 400 cervejarias ativas, enquanto o vizinho Sacro Império Germânico ainda não registrava nenhuma oficial comercialmente. Uma tradição imperial que ferve muito antes de muitos gigantes do mercado atual.

Bolesław I ficou historicamente conhecido pela alcunha de Traciwąs (O Bebedor de Cerveja / O que molha o bigode na cerveja), dada pelo cronista contemporâneo Thietmar de Merseburgo devido ao seu apreço pela bebida.

O que me interessa aqui é chamar a atenção para a facilidade com que uma tradição antiga pode ser apresentada ao mundo sob a marca de outra cultura, enquanto seu vocabulário original desaparece da memória de quem a consome.

O piwo precisa ser reconhecido como parte da história cultural polaca, sem que isso implique negar a existência de tradições cervejeiras igualmente antigas em outros povos europeus.

6. Wódka: uma palavra, uma história e uma disputa

A wódka é outro exemplo de como a memória cultural pode ser reduzida a uma associação nacional simplificada. No imaginário internacional, a bebida costuma ser identificada quase exclusivamente com a Rússia.

Entretanto, há documentação polaca antiga relacionada à palavra wódka. Um registro de 1405, associado a documentos judiciais de Sandomierz, é frequentemente citado na discussão sobre a história do termo.

A existência desse registro é relevante, mas é necessário compreender o contexto em que a palavra era empregada.

Os usos antigos não correspondem automaticamente à bebida comercial e às formas de consumo que conhecemos hoje.

A história da destilação, dos preparados medicinais, das bebidas alcoólicas e da produção comercial precisa ser examinada em suas diferentes etapas.

A Polônia possui uma tradição própria de produção e consumo de wódka, assim como a Rússia e outros territórios da Europa Oriental e Central desenvolveram suas histórias particulares.

O que não é aceitável é transformar uma tradição compartilhada e historicamente complexa em uma narrativa exclusiva, apagando os registros polacos e a participação da Polônia na história da bebida.

A palavra wódka não é um detalhe folclórico.

É parte de um vocabulário cultural que merece ser conhecido em sua forma original.

7. Kapusta kiszona: quando o repolho vira chucrute

Talvez um dos exemplos mais cotidianos seja o repolho fermentado. Na mesa polaca, kapusta kiszona é muito mais do que um acompanhamento. 

É um alimento preservado por fermentação, utilizado em diferentes preparações e associado a uma longa tradição doméstica.

No Brasil, porém, tornou-se comum conhecer o produto pelo nome chucrute, adaptação da palavra francesa choucroute, derivada de formas germânicas relacionadas a Sauerkraut.

A questão não é proibir o uso de uma palavra que já se incorporou ao português.

O problema aparece quando o nome comercial ou estrangeiro se torna a única referência conhecida e a palavra polaca desaparece, como se a tradição não tivesse história própria na Polônia e consequentemente no mundo.

A fermentação do repolho é uma técnica antiga e compartilhada por diferentes povos europeus, particularmente na Europa Central e Oriental. Talvez não seja, inteiramente, correto reivindicar exclusividade polaca sobre um método que atravessou fronteiras e foi desenvolvido em muitas comunidades, mas que teve início na Polônia.

Mas também não é correto ignorar a importância que kapusta kiszona possui na cozinha polaca, sua presença em preparações como o bigos e os recheios de pierogi, e a transmissão familiar dessa prática.

O nome importa porque identifica uma tradição concreta.

Quando uma família polaca prepara kapusta kiszona, não está simplesmente reproduzindo uma receita genérica de repolho azedo.

Está preservando uma prática que recebeu de seus antepassados.

8. Barszcz: uma palavra que exige precisão

A disputa em torno do barszcz exige ainda mais cuidado, porque envolve histórias culinárias de povos vizinhos que compartilharam territórios, técnicas, ingredientes e séculos de convivência.

Na tradição polaca, o Barszcz Czerwony possui uma preparação característica, frequentemente associada ao kwas buraczany, o fermentado de beterraba.

Pode ser servido como um caldo vermelho, límpido e aromático, acompanhado de uszka, pequenas massas recheadas que lembram o formato de orelhas.

Também existe o Barszcz Biały, além de outras preparações que demonstram a variedade de uma tradição culinária que não pode ser resumida a uma única receita.

A preparação ucraniana conhecida internacionalmente como borshch possui sua própria história, seus ingredientes, suas variações regionais e seu significado cultural.

A UNESCO reconheceu a cultura de preparo do borshch ucraniano como patrimônio cultural imaterial que necessita de salvaguarda urgente.

Vale ressaltar que o termo barszcz é traduzido para alemão e inglês como Borscht, o que leva o leitor desatento a imaginar que o Barszcz é ucraniano e não polaco.

Esse reconhecimento não elimina a tradição polaca do barszcz, nem transforma toda sopa de beterraba da Europa Oriental em uma única receita nacional.

É preciso reconhecer as diferenças sem fabricar fronteiras culinárias artificiais. O Barszcz Czerwony polaco e o borshch ucraniano não devem ser tratados como pratos idênticos para que se reconheça a contribuição histórica de ambos os povos.

A existência de uma tradição não exige o apagamento da outra.

O que para os ucranianos é borshch (barszcz em polaco), na verdade é o Buraki (sopa cremosa) para os polacos, e não o caldo de beterraba azeda chamada Barszcz.

O problema começa quando a palavra polaca desaparece dos cardápios, das traduções e das referências culturais, enquanto uma denominação internacional passa a representar todas as preparações, sem distinção de origem, técnica ou contexto.

O mesmo cuidado vale para o pierogi ruskie.

A expressão ruskie remete à Rutênia, e não à Rússia moderna. O prato está ligado a uma história de fronteiras, convivência e circulação cultural entre comunidades polacas e rutenas.

Não é correto transformar essa herança complexa em prova automática de propriedade exclusiva de um único Estado contemporâneo.

A história dos alimentos não respeita as fronteiras políticas atuais. Mas isso não significa que as palavras originais devam ser abandonadas.

9. Grzyby: os cogumelos que chegam ao Brasil com outro nome

Em uma visita a uma propriedade produtora de cogumelos em Radzyń Podlaski, no nordeste da Polônia, ouvi do proprietário uma observação que me chamou a atenção.

Ele explicou que utilizava empresas de embalagem italianas para comercializar seus cogumelos no Brasil como funghi secchi. A razão era simples: o mercado brasileiro reconhecia com muito mais facilidade a referência italiana do que a polaca.

O produto podia nascer nas florestas polacas, ser colhido e preparado por produtores da Polônia, mas chegava ao consumidor brasileiro com uma identificação comercial associada à Itália.

O relato é um exemplo concreto de como a força de uma marca cultural pode ser maior do que a origem do produto.

Não é necessário afirmar que todo cogumelo vendido como funghi tenha essa trajetória. O que importa é a situação que me foi relatada e que revela uma estratégia comercial: utilizar uma denominação reconhecida pelo consumidor para facilitar a entrada no mercado.

Na Polônia, grzyby são parte de uma tradição profundamente enraizada.

A colheita de cogumelos, o grzybobranie, mobiliza famílias inteiras durante o outono. É uma prática de convivência, conhecimento da floresta, reconhecimento das espécies e transmissão de saberes entre gerações.

Entre os cogumelos conhecidos estão o borowik, o podgrzybek, o rydze e o kurki.

Cada um tem suas características e seus usos culinários.

O borowik, frequentemente identificado no comércio internacional com o nome italiano porcini, é especialmente valorizado. Ou, no Brasil como shiitake.

A Polônia possui uma produção importante de cogumelos cultivados e uma tradição de coleta de espécies silvestres.

Mas, no imaginário brasileiro, cogumelos costumam ser associados ao champignon da culinária francesa ou aos cogumelos utilizados na gastronomia japonesa.

A experiência do produtor de Radzyń Podlaski demonstra como a origem de um alimento pode ficar escondida atrás de uma marca comercial mais conhecida.

O cogumelo continua sendo polaco, mesmo quando chega ao Brasil com uma embalagem italiana.

A palavra grzyby merece, portanto, ser apresentada ao público brasileiro. Não como curiosidade exótica, mas como parte de uma cultura alimentar que tem raízes profundas.

10. Szarlotka: a torta que também tem memória

A szarlotka é outra preparação que merece ser reconhecida dentro da tradição culinária polaca.

Trata-se de uma torta de maçãs que possui diferentes receitas e formas de apresentação. Sua presença na cozinha doméstica polaca está ligada ao uso de frutas, massas, especiarias e técnicas de confeitaria transmitidas entre famílias.

A história das tortas de maçã, naturalmente, não pertence a um único povo. Há preparações semelhantes em diferentes países europeus, com nomes, ingredientes e métodos próprios.

Não seria correto afirmar que toda torta de maçã tem origem polaca, mas se constatamos que a szalotka existe desde a idade média e foi dado este nome a princesa Charlotte da França, que visitava Cracóvia, aí fica difícil aceitá-la como austríaca ou alemã com o nome de apfelstrudel. Mesmo porque a Polônia é a maior produtora e exportadora de maçãs da Europa e a quarta no mundo.

O que precisa ser reconhecido é que a szarlotka possui uma identidade própria na Polônia.

Seu nome, suas receitas e sua presença na vida cotidiana fazem parte de um patrimônio culinário que não deveria ser reduzido a uma genérica torta europeia.

Quando uma receita é apresentada sem qualquer referência à sua tradição, a memória cultural que a acompanha desaparece.

E, quando o nome original é substituído por uma denominação comercial mais conhecida, o consumidor perde a oportunidade de reconhecer a diversidade de suas origens.

11. Prudentópolis: a disputa pela identidade e pela memória dos antepassados

No Paraná, a questão da identidade cultural polaca ganha uma dimensão ainda mais delicada quando se observa a formação histórica de comunidades como Prudentópolis, Irati, Mallet e Rio Azul.

A história daquela região não pode ser compreendida por meio de uma classificação homogênea de todos os imigrantes e seus descendentes.

As famílias que chegaram ao Paraná vinham de territórios que, no século XIX, estavam submetidos a diferentes poderes políticos e administrativos. 

A Polônia havia sido repartida entre Rússia, Prússia e Áustria, e as fronteiras não correspondiam às identidades culturais que as populações preservavam.

Na parte oriental dos antigos territórios da República das Duas Nações Polônia Lituânia, havia populações polacas, rutenas e de outras origens, com diferentes tradições religiosas, linguísticas e comunitárias.

A administração austríaca agrupou territórios diversos sob a designação de Galícia, mas essa unidade administrativa não transformou a região em uma população etnicamente homogênea.

É necessário distinguir Małopolska, Podólia, Volínia, Rutênia Vermelha e as demais regiões históricas, além de considerar a trajetória particular de cada família.

O fato de uma pessoa ter nascido em território que hoje pertence à Ucrânia não permite concluir, automaticamente, que ela se identificava como ucraniana.

Da mesma forma, um sobrenome, isoladamente, não comprova uma identidade nacional.

É preciso examinar registros de nascimento, casamento, religião, idioma, documentos de imigração, propriedade de terras, correspondência e memória familiar.

A passagem de uma identidade rutena para uma identidade ucraniana, por exemplo, precisa ser compreendida dentro do processo histórico de formação do nacionalismo ucraniano no século XIX e no início do século XX.

Não se pode projetar retrospectivamente a realidade política atual sobre pessoas que viveram em outros contextos.

No Paraná, a presença e a influência da Ordem de São Basílio Magno e de seus religiosos tiveram papel importante na organização de comunidades de rito oriental.

A atuação dos padres basilianos na vida religiosa, educacional e cultural de Prudentópolis merece investigação histórica, sobretudo quando se pretende compreender como as instituições religiosas contribuíram para consolidar determinadas narrativas de pertencimento.

A questão que proponho não é negar a identidade ucraniana de quem assim se reconhece, nem desconsiderar a importância da cultura rutena ou das tradições ucranianas no Paraná.

É perguntar se, na construção de uma identidade comunitária predominante, outras origens familiares foram absorvidas, esquecidas ou deixadas em segundo plano.

A existência de famílias polacas em comunidades de maioria rutena ou ucraniana não pode ser descartada por conveniência narrativa.

Tampouco se deve atribuir automaticamente a todos os descendentes de imigrantes uma identidade que não foi demonstrada por documentação ou por sua própria memória familiar.

A história de cada família precisa ser recuperada.

É nesse contexto que a gastronomia também se torna documento.

Um sobrenome, uma receita, uma palavra preservada em casa, uma maneira de preparar determinado alimento podem ajudar a reconstruir trajetórias que os registros oficiais não explicam completamente.

A linguiça Cracóvia, produzida em Prudentópolis, é um exemplo interessante dessa relação entre memória, produto e identidade. A história de sua criação é associada ao charcuteiro Dionísio Opuchkevitch e à sugestão do nome por Lucas Ozowski, em referência à cidade de Kraków e à tradição de embutidos polacos.

A semelhança com a kiełbasa krakowska é evidente como referência culinária, mas a Cracóvia paranaense adquiriu características próprias, ligadas à produção local e à história de seus fabricantes.

A receita brasileira não precisa ser confundida com uma reprodução integral da preparação europeia para que se reconheça sua relação cultural com a Polônia.

O que merece ser investigado, nesse caso, é a trajetória das pessoas envolvidas, suas origens familiares, a história do estabelecimento e a razão pela qual o nome Kraków foi escolhido.

A documentação e os testemunhos dos envolvidos são essenciais para que a memória não seja substituída por uma versão conveniente.

A Cracóvia de Prudentópolis pode ser, ao mesmo tempo, um produto paranaense com identidade própria e uma expressão da herança culinária polaca.

Uma coisa não exclui a outra.

E os sobrenomes do envolvidos demonstra que são de origem polaca e não ucraniana ou rutena.

12. O dicionário também participa da disputa

O apagamento cultural não acontece apenas nas instituições, nas escolas, nos livros de história ou nas relações comunitárias.

Ele também se reproduz nos dicionários, nas traduções automáticas, nas publicações gastronômicas e nos mecanismos de busca.

Quando uma palavra polaca é traduzida sempre por uma expressão de outra língua, sem explicação de sua origem, a tradução deixa de ser uma ferramenta de aproximação e passa a ser um instrumento de invisibilidade.

É necessário que os dicionários registrem as palavras originais, suas variações, seus contextos e suas relações históricas.

O mesmo vale para os livros de culinária, os cardápios de restaurantes, as embalagens de produtos e os textos jornalísticos.

Não se trata de impedir a tradução.

Trata-se de não confundir tradução com substituição cultural.

Uma receita pode ser explicada em português e continuar sendo identificada como polaca.

Um alimento pode ser apresentado ao consumidor brasileiro sem que se elimine seu nome original. Uma bebida pode ser conhecida internacionalmente por uma palavra adaptada e, ainda assim, ter sua denominação polaca preservada.

A língua não precisa ser uma barreira.

Pode ser uma ponte.

13. A recuperação da palavra é também recuperação da memória

A história polaca foi marcada por partilhas territoriais, ocupações, deslocamentos populacionais e períodos em que a própria existência de um Estado polaco independente foi interrompida.

Durante mais de um século, gerações viveram sob administrações estrangeiras, mas preservaram língua, religião, costumes, literatura, música e tradições familiares.

A ausência de um Estado não significou ausência de uma nação. A perda de fronteiras não significou perda de cultura.

Por isso, é tão importante reconhecer que o apagamento pode continuar mesmo depois da recuperação da independência política. Uma nação pode voltar a existir no mapa e continuar invisível em narrativas culturais construídas por outros.

No Brasil, a história da imigração polaca precisa ser recuperada em suas dimensões demográfica, documental, linguística e cultural.

A palavra Polaco faz parte dessa recuperação.

O mesmo acontece com piwo, wódka, kapusta kiszona, barszcz, grzyby, szarlotka e tantas outras expressões que identificam experiências e tradições.

Não se trata de transformar cada prato em disputa nacional, nem de reivindicar exclusividade sobre alimentos que atravessaram fronteiras e foram compartilhados por diferentes povos.

Trata-se de reconhecer a contribuição polaca, preservar os nomes originais e impedir que a memória seja reduzida a uma versão comercial ou politicamente conveniente.

A pesquisa publicada em 2010 sobre a literatura brasileira anterior a 1930 demonstrou que Polaco era uma palavra de uso corrente e que, na coletânea de 1927 organizada por Fredecensis, a forma polonez aparece na estrutura editorial, enquanto os textos originais reunidos no volume mantêm Polaco.

O testemunho de Edwino Donato Tempski acrescenta uma informação oral sobre uma intervenção ocorrida naquele mesmo ano. Esses elementos precisam ser considerados em qualquer investigação séria sobre a substituição terminológica no Brasil.

A palavra não é um detalhe.

É identidade.

É memória.

É história.

E recuperar uma palavra não significa apenas voltar a pronunciá-la. Significa devolver a ela o sentido que foi sendo encoberto, reconhecer as pessoas que a utilizaram e restabelecer o direito de uma comunidade de nomear a própria origem.

O assalto às palavras polacas não começou na cozinha, nem termina nos dicionários. Ele atravessa a literatura, a imigração, a religião, a história, a economia e a memória familiar.

Quando uma palavra desaparece, alguém deixa de ser reconhecido. Quando uma receita perde seu nome, uma tradição fica escondida.

Quando uma comunidade esquece a origem de seus antepassados, outra narrativa ocupa o espaço vazio.

É por isso que a luta pela palavra é também uma luta pela memória.

E a memória não pode continuar sendo rasurada.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E DOCUMENTAIS

1. IAROCHINSKI, Ulisses. Polaco – Identidade Cultural do Brasileiro Descendente de Imigrantes da Polônia. 2010. Especialmente p. 65–79, seção “Polaco na Literatura”. Tradução para o português da Dissertação de Mestrado em Cultura Internacional, curso de Kulturaznastwo, Faculdade de Estudos Regionais, Universidade Iaguielônica de Cracóvia, Polônia.

2. FREDECENSIS. A Polônia na Literatura Brasileira. Curitiba: Editores Plácido e Silva & Cia. Ltda., 1927.

3. ALAMANAQUE LUD. Coletânea organizada pela redação do jornal LUD. 

4. BARRETO, Lima. As Aventuras do Dr. Bogoloff. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 2001. p. 27–28.

5. UNESCO. Culture of Ukrainian borscht cooking. Lista do Patrimônio Cultural Imaterial que Necessita de Salvaguarda Urgente. Inscrição em 2022. É importante para a passagem sobre o borshch ucraniano. A própria UNESCO esclarece que a inscrição não implica exclusividade ou propriedade sobre a tradição, reconhecendo que ela é compartilhada com outras comunidades da região. UNESCO Intangible Cultural Heritage+1 

6.  OXFORD COMPANION TO SPIRITS & COCKTAILS. Verbete “Vodka”. Oxford University Press. Referência complementar para a história da wódka. O verbete informa que a palavra aparece em documentos judiciais polacos de 1405, provavelmente ainda com o sentido de medicamento destilado, e não necessariamente de bebida alcoólica de consumo corrente. Spirits & Distilling

2. Testemunhos e documentos históricos

6. TEMPSKI, Edwino Donato. Quem é o Polonês? Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. O relato sobre a intervenção de 1927 foi transmitido pessoalmente a Ulisses Iarochinski durante entrevista para o programa Polska, da TV Educativa do Paraná. Para a bibliografia definitiva, será importante acrescentar os dados editoriais da obra e, se possível, a data da entrevista ou a identificação da gravação.

7. TAUNAY, Visconde de. Carta dirigida à colônia polaca do Paraná. Documento reproduzido parcialmente na coletânea A Polônia na Literatura Brasileira, de Fredecensis (1927), e analisado por Ulisses Iarochinski em Polaco – Identidade Cultural do Brasileiro Descendente de Imigrantes da Polônia (2010).

8. JORNAL DO COMMERCIO. Rio de Janeiro, 18 nov. 1885. Notícia sobre a expulsão de polacos das províncias orientais da Prússia, mencionada na pesquisa de 2010.

3. Fontes de pesquisa e memória do autor

• Relato de visita a Radzyń Podlaski, Polônia: informação transmitida pessoalmente ao autor pelo proprietário de uma unidade produtora de cogumelos, a respeito da comercialização no Brasil sob a denominação italiana funghi secchi.

• História da linguiça Cracóvia, em Prudentópolis: informações sobre Dionísio Opuchkevitch e Lucas Ozowski.

• Memória familiar e tradições culinárias: relatos e práticas transmitidos entre gerações, identificados como testemunhos orais.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Diáspora Rasurada: a ucranianização da etnia polaca em Prudentópolis

Cais de desembarque na Ilha das Flores, na Baia da Guanabara,
início do século XX

A história da imigração polaca para o Brasil, entre 1824 e 1989, foi marcada por um processo sistemático de ocultação, fragmentação e distorção de dados estatísticos e culturais. Durante décadas, narrativas tradicionais, fortemente condicionadas por uma perspectiva paranaense-centrista, contribuíram para subestimar a presença polaca no território brasileiro e limitar o reconhecimento de sua dimensão histórica.

O confronto com revisões historiográficas contemporâneas evidencia a magnitude dessa discrepância: de uma estimativa tradicional de 102 mil imigrantes, chega-se a um contingente de 592 mil polacos que vieram para o Brasil.

Esse apagamento não se restringiu aos números.

Envolveu a atuação de elites intelectuais, a intervenção nacionalista de ordens religiosas — notadamente os Padres Basilianos (1) — e os efeitos da Campanha de Nacionalização promovida durante o governo de Getúlio Vargas. Suas consequências também se materializaram na toponímia e no planejamento urbano, inscrevendo no espaço público as marcas de uma memória seletiva.

Reconhecer esse processo significa questionar versões consolidadas, recuperar informações relegadas ao esquecimento e restituir à imigração polaca a dimensão que lhe cabe na história do Brasil.

O Paradoxo dos Números e a "Invisibilização" Geopolítica

Por mais de um século, a história da imigração no Brasil operou sob o dogma de balizas estatísticas oficiais severamente defasadas. As estimativas de Edmundo Saporski (1920), os relatórios consulares de Kazimierz Głuchowski (1927) e os dados do Consulado Geral da Polônia (1937) balizavam o teto da imigração polaca entre 100 mil e 150 mil indivíduos.

Esse ecossistema numérico gerou um paradoxo demográfico insustentável: a incapacidade matemática de explicar como uma base tão exígua de pioneiros poderia ter gerado uma comunidade contemporânea de descendentes (a etnia polaca) estimada em mais de 5 milhões de pessoas.

A ruptura desse cenário consolidou-se com as investigações de Jan Pitoń, publicadas e expandidas pelo jornalista e historiador Ulisses Iarochinski (2023), e validadas cientificamente pelo historiador e arqueólogo Dr. Fabrício Vicroski. A revisão documental demonstrou que, entre 1824 e 1971, o número real de emigrantes polacos chegados ao Brasil foi da ordem de 592 mil indivíduos.

O principal motor desse apagamento inicial foi o "invisibilismo" geopolítico decorrente das Partilhas da Polônia (1795–1918). Sem um Estado soberano, os polacos que emitiam passaportes para as Américas vinham vinculados às potências ocupantes: quem partia de Varsóvia era registrado nos portos brasileiros como russo; os nativos da Galícia entravam como austríacos; e os originários da Posnânia ou Silésia eram carimbados como alemães/prussianos.

Historiadores tradicionais, como Ruy Christovam Wachowicz, incorreram em um erro metodológico primário ao aceitar a capa dos passaportes como definidora de nacionalidade, ignorando a filologia e a antroponímia dos registros paroquiais.

A desconstrução dos mitos fundadores
e a perversidade historiográfica

A historiografia oficial paranaense sacralizou as 32 famílias assentadas no Pilarzinho (Curitiba) em 1871 como o "Ano Zero" da imigração polaca. Essa narrativa atendeu a um projeto de centralização cultural e política, conferindo à elite intelectual curitibana o monopólio da interlocução com Varsóvia e o controle das verbas e do prestígio diplomático. Esse "Paraná-centrismo" de Wachowicz resultou no apagamento de fluxos migratórios mais antigos, mais expressivos e geograficamente dispersos, resgatados por Pitoń:

- O Grupo de Hieronim Durski (1863): Ativista político e intelectual refugiado do Levante de Janeiro contra o Império Russo, Durski estabeleceu-se em Curitiba quase uma década antes do Pilarzinho, mas foi omitido por não se enquadrar no arquétipo do "camponês católico dócil" desejado pelo governo provincial.

- O Espírito Santo (1847): A chegada de cerca de 200 famílias polacas nas colônias imperiais de Santa Leopoldina e Santa Teresa, oriundas de Poznań e Silésia com passaportes prussianos, foi completamente abafada, reduzindo erroneamente a história capixaba à imigração tardia de 1929 em São Gabriel da Palha.

- São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás: Estados que absorveram milhares de polacos urbanos, operários ferroviários e artesãos que sofreram despolonização compulsória nos cartórios civis locais.

A Farsa da Pureza Étnica: O Caso de Prudentópolis
e a Engenharia Nacionalista

O município de Prudentópolis, tradicionalmente celebrado pelo poder público e pelo turismo oficial como a "Ucrânia Brasileira", serve como o maior laboratório de manipulação demográfica e identitária do Sul do país. Em sua formação original, a colônia abrigava 60% de rutenos (ucranianos) e 40% de polacos.

No entanto, a realidade histórica dessas populações era a bietnicidade da Galícia Oriental, moldada pelo conceito de gente Ruthenus, natione Polonus, fórmula que expressava uma identidade de origem rutena articulada a uma identificação nacional polaca. A dissolução artificial dessa convivência interétnica foi operada a partir da década de 1920 por meio de três mecanismos:

1. A Religião a Serviço da Divisão: A Atuação dos Padres Basilianos, liderados pela Ordem de São Basílio Magno, os padres ucranianos bizantinos importaram as tensões nacionalistas europeias para o solo paranaense. Utilizando o púlpito e o confessionário, os basilianos criminalizaram os casamentos mistos e o bilinguismo doméstico.

Passaram a classificar o rito bizantino como sinônimo de "pureza ucraniana" e o rito latino como "polaco", fragmentando irmãos de sangue em estatísticas opostas.

Essa "guerra santa" estendeu-se com violência ideológica por um vasto cinturão de municípios do interior do Paraná e Rio Grande do Sul: Irati, Mallet, Rio Azul, Rebouças, Cruz Machado, União da Vitória, Antônio Olinto, Paulo Frontin, Rio Claro do Sul, Ipiranga, Guarapuava, Pinhão, Reserva, Tibagi, Telêmaco Borba e Cascavel.

Do ponto de vista histórico, complexo e extremamente significativo para a formação social de Prudentópolis, estudos recentes de historiadores e cientistas sociais apontam para um profundo processo de “ucranização” identitária e cultural, fortemente conduzido pela atuação dos padres basilianos.

Quando os imigrantes eslavos — tanto rutenos nascidos nas terras polacas ocupadas pelo Império da Áustria quanto polacos — chegaram no final do século XIX e outros que foram transmigrados da região do entorno de Curitiba no início do século XX.

Ao serem assentados em Prudentópolis, encontraram um severo isolamento geográfico e espiritual. Assim, foram os padres basilianos do rito greco-bizantino ruteno que assumiram um papel que ia muito além do religioso.

Além de alfabetizadores e editores de jornais locais, como o Missionar e o Praciá, tornaram-se lideranças políticas e defensores da identidade nacional rutena, que, a partir dos anos 1920, passaria progressivamente a ser apresentada como ucraniana em solo brasileiro. A Igreja de rito bizantino tornou-se, assim, o centro da vida social e comunitária.

Nas colônias, as populações polaca e ucraniana reproduziam, em grande medida, a convivência trazida das terras de origem. Com o passar das gerações, os casamentos mistos tornaram-se comuns. Entretanto, diante da força ideológica, educacional e demográfica construída pelos basilianos, a balança cultural acabou pendendo de maneira acentuada para o lado ucraniano.

Muitas famílias de origem originalmente polaca acabaram assimiladas por esse processo: passaram a falar o ucraniano, adotaram o rito bizantino e, com o tempo, a memória familiar da origem polaca foi se diluindo diante da narrativa identitária predominante no município.

Daí decorre a existência de descendentes com sobrenomes originalmente polacos que, atualmente, se autodeclaram e se identificam integralmente como ucranianos.

Esse nacionalismo religioso e linguístico operou, sim, como um forte mecanismo de diferenciação diante do catolicismo romano. A manutenção da língua e do rito bizantino não constituía apenas uma escolha litúrgica, mas também parte de um projeto de preservação de uma “Ucrânia idealizada”, capaz de produzir uma coesão identitária que, ao longo das gerações, contribuiu para absorver, diluir ou marginalizar traços da presença polaca na região.

A identidade de Prudentópolis não brotou do nada.

Ela foi sendo ativamente moldada e consolidada pela liderança clerical ao longo do século XX. Embora, na área urbana, existam igrejas dos dois ritos, com duas de rito latino e duas de rito bizantino ruteno, é na zona rural que a dimensão dessa presença se torna mais evidente.

Segundo o boletim da Metropolia Católica Ucraniana São João Batista, de 2014, a estrutura religiosa do município contava então com 48 capelas do rito bizantino ucraniano. Do outro lado, eram 73 capelas do rito católico latino.

Dados divulgados posteriormente pela Rede Sul de Notícias, citando declaração do então presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Ademar Traiano, apontam para mais de 50 igrejas católicas de rito bizantino ucraniano e outros 70 templos do rito católico latino.

Os números revelam, portanto, uma presença expressiva dos dois ritos, mas não explicam, por si mesmos, a dimensão da influência cultural exercida pelo rito bizantino na formação da identidade de Prudentópolis. Essa influência ultrapassou a esfera estritamente litúrgica.

A Igreja de rito bizantino tornou-se também espaço de sociabilidade, alfabetização, imprensa, organização comunitária e afirmação étnica. Foi nesse ambiente que a identidade ucraniana passou a adquirir uma centralidade que alcançaria, ao longo das gerações, descendentes de diferentes origens eslavas.

Há, entretanto, uma particularidade que precisa ser ressaltada: tanto os católicos de rito bizantino ucraniano quanto os católicos de rito latino reconhecem o Papa de Roma como autoridade máxima.

Não se trata, portanto, de uma divisão entre uma Igreja subordinada a Roma e outra submetida aos Patriarcas de Moscou ou de Atenas. São duas tradições litúrgicas distintas dentro da mesma Igreja Católica.

Em Prudentópolis, porém, essa diferença ritual adquiriu também uma dimensão étnica, cultural e identitária, tornando-se um dos instrumentos pelos quais a identidade ucraniana foi preservada, afirmada e transmitida às novas gerações.

Quando a Prefeitura de Prudentópolis informa, em seus materiais institucionais, que 75% da população é de origem ucraniana, é necessário perguntar quais critérios foram utilizados para chegar a essa proporção.

É possível que esse percentual esteja incorporando ao conjunto da população de origem ucraniana os descendentes de polacos e de outras etnias que, ao longo das gerações, foram assimilados pelo processo de ucranização identitária e cultural ocorrido no município. Caso contrário, os números não fecham.

2. A Maquiagem Etimológica de Tarnopol

Para blindar Prudentópolis contra a sua herança polaca, as narrativas oficiais locais criaram a farsa linguística de que a cidade de Tarnopol (região de origem da maior parte dos colonos) era a junção da palavra eslava Tarno ("espinho") com o grego polis, significando "Cidade dos Espinhos".

O objetivo deliberado era ocultar que a cidade foi fundada em 1540 pelo magnata e general supremo (Hetman) polaco Jan Amor Tarnowski, sendo historicamente uma cidade de propriedade privada de uma das linhagens mais tradicionais da nobreza polaca (Szlachta).

Os "espinhos" pertenciam, na verdade, à etimologia da cidade de Tarnów (Polônia central), berço da família Tarnowski.

Outra informação relevante sobre aquela região da Polônia ocupada, publicada no livro Polacos do Brasil – a etnia em números e sobrenomes, deste autor, diz respeito à composição étnica da Galícia austríaca.

Segundo G. W. Prothero, a população da Galícia, de acordo com o último censo oficial então disponível, apresentava a seguinte composição:

De acordo com o último censo oficial, a Galícia possuía 8.025.600 habitantes (Galicia do Oeste 2.689.800, Leste 5.335.800). Do número total, 4.672.000 eram registrados como polacos, 3.208.000 falantes da língua rutena e 90.000 falantes da língua alemã (austríacos). A proporção das nacionalidades era calculada em 58,6% polacos, em 40% russos e rutenos e 1,1% austríacos. Os judeus, embora falassem iídiche entre si, eram registrados como falantes da língua polaca e, portanto, eram contados como judeus da Galícia em número de 872.000 habitantes ou cerca de 11% da população total, o que pode ser tomado como representativo do número de judeus não assimilados na Polônia.(2)

É importante observar como essas categorias eram empregadas naquele contexto histórico. Os rutenos que viviam nas terras da Galícia não constituíam uma população que pudesse ser simplesmente transportada, em termos nacionais e territoriais, para a atual definição de “ucranianos”.

A própria fonte utilizada por Prothero empregava as categorias “russos e rutenos” para designar parte significativa dessa população, dentro das classificações políticas e linguísticas vigentes naquele período. Os imigrantes rutenos que chegaram a Prudentópolis eram, portanto, oriundos de territórios que pertenciam à então Polônia ocupada pelo Império Austro-Húngaro, particularmente de regiões que hoje se encontram em diferentes Estados nacionais.

Parte dessa população procedia de áreas da Podólia, da Volínia e da Małopolska (Pequena Polônia), regiões cuja configuração política e territorial não pode ser simplesmente projetada sobre o mapa contemporâneo da Ucrânia.

As duas principais cidades da ocupação austríaca eram Cracóvia (Kraków) com 174 mil habitantes e Lwów (Leões) com 206 mil habitantes. A população total da Galícia Austríaca, entre 1890 e 1910, não se alterou muito, em que pese a saída dos emigrantes conhecida como “Febre Brasileira”. A grande maioria dos rutenos assentada na Colônia Prudentópolis era da Galícia do Oeste, onde os polacos eram maioria com 96% da população. E este território, efetivamente sempre foi da República polaca. Em nenhum momento, ele pertenceu a Rutênia (antes era território Viking).(3)

Por isso, afirmar que todos os descendentes atualmente identificados como ucranianos em Prudentópolis descendem de imigrantes que “vieram da Ucrânia” constitui uma simplificação temporal e geográfica.

A Ucrânia contemporânea é uma realidade territorial e política posterior a essas migrações. Para compreender a origem daqueles imigrantes, é necessário retornar às fronteiras, aos impérios, às denominações étnicas e às classificações linguísticas existentes na época em que deixaram suas terras de origem.

3. O Paradoxal Sequestro do Salame Cracóvia (1960)

O embutido defumado mais famoso da culinária de Prudentópolis sintetiza esse apagamento identitário. Criada em 1960 nas dependências do Açougue Alvorada, a receita original de carne suína nobre defumada nasceu sob a direta sugestão e inspiração do colono polaco Dionísio (Diozísio) Opuszkiewicz (transcrita na burocracia local sob deformações fonéticas variadas), dono do Açougue Alvorada, que ofereceu ao amigo, também polaco, Lucas (Łukasz) Usoski (Ozowski), que foi quem nominou o embutido de Cracóvia, pois fazia lembrar a Kiełbasa krakowska ou Krakowiak, o requintado salame de partes nobres das carnes de suíno, produzido a centenas de anos na capital cultural da Polônia.

Posteriormente, a consolidação comercial, a produção em massa e a preservação tradicional do embutido foram desenvolvidas e operadas pela tradicional família Machulek (pronuncia-se Márrúlék) — um sobrenome de raiz polaca (um diminutivo derivado de Mach, variante de Maciej / Matias). 

Apesar do nome da cidade de origem, da sugestão inicial de Usoski e do sobrenome eslavo-polaco dos produtores históricos (os Machulek e os Opuszkiewicz), o produto foi capturado pelo marketing municipal moderno e carimbado de forma monolítica como um patrimônio exclusivo da "cultura ucraniana".





 4. As deturpações junto ao INPI

O fenômeno descrito no registro do INPI com precisão documental e histórica possui nomes muito claros na sociologia, na antropologia e na ciência política.

Quando um grupo minoritário, suas produções e sua memória são sistematicamente engolidos pela narrativa de um grupo hegemônico, estamos diante de um processo de etnocídio cultural espontâneo (ou etnocídio estatístico), operado por meio do revisionismo histórico institucional e do sequestro de patrimônio identitário.

No jargão técnico da sociologia das migrações, o que ocorre em Prudentópolis pode ser definido como uma ucranização por assimilação hegemônica. Essa deturpação, agora oficializada no documento do INPI (Registro BR402023000016-5), desvela três graves abusos historiográficos que o seu artigo denuncia:

A. Etnocídio Estatístico e Apropriação Indébita de Dados

Quando a Associação dos Produtores de Embutidos de Prudentópolis (APEP) — presidida pela própria família Machulek — preenche uma ficha pública federal alegando que "80% da população do município é de ucranianos", sem qualquer amparo em censos oficiais confiáveis, o documento revela um processo de construção institucional dessa narrativa identitária.

Nem o IBGE, em nenhum de seus censos, jamais categorizou a população de Prudentópolis dessa forma baseando-se em critérios científicos de ancestralidade pura. Trata-se do uso de estimativas panfletárias e infladas para forçar o Estado a chancelar uma hegemonia artificial.

B. Sequestro de Patrimônio Cultural (Apropriação Cultural Reversa)

O termo técnico para o que fizeram com a Cracóvia criada em 1960 é sequestro de patrimônio. O Dossiê Técnico do INPI confessa a participação de Lucas Ozowski (Usoski) e da linhagem Opuszkiewicz, mas a narrativa da APEP e do material de divulgação do Sebrae reconstrói o fato carimbando-os como "descendentes de ucranianos".

Ao transformar Usoski, Opuszkiewicz e os próprios Machulek (cuja raiz é puramente polaca) em "ucranianos", o município pratica uma canibalização de identidade: eles não conseguem negar que o embutido tem nome polaco e sobrenomes polacos, então eles "ucranianizam" as pessoas à força na canetada burocrática.

O trabalho dos padres basilianos na ucranização do município de Prudentópolis se revela na enorme quantidade igrejas e capelas

C. A Síndrome da Amnésia Coletiva Induzida

O fato de os atuais membros da família Machulek assinarem e defenderem essa petição declarando-se ucranianos é o ápice do alienamento cultural.

 Isso pode ser interpretado como um dos efeitos de longo prazo da pressão histórica e cultural exercida pelas lideranças comunitárias e clericais no passado foi tão profunda que gerou uma geração de descendentes incapazes de ler a gramática e a herança do próprio sobrenome polaco-eslavo que carregam.

Eles foram ensinados a ter vergonha ou a esquecer a raiz polaca em prol do "selo comercial" e do monopólio político que a etiqueta ucraniana confere à cidade.

D. O Nome da Deturpação

Se você precisar dar um nome a isso em suas discussões, palestras ou artigos, utilize os termos:

Monopolização Identitária Coercitiva: O ato de apagar a pluralidade formadora biétnica (rutenos + polacos) para vender uma marca monolítica e lucrativa.

Falsificação Documental Historiográfica: O uso de instâncias de registro do Estado (como o INPI) para validar mentiras estatísticas e omitir as verdadeiras linhagens fundadoras.

Essa ficha técnica da APEP protocolada no INPI não desmente o este artigo; pelo contrário, ela é a prova material do crime de apagamento que se está denunciando. É a prova impressa de que o poder público e o comércio local preferem oficializar o folclore e o revisionismo a reconhecer a verdadeira, mista e rica história de Prudentópolis.

4. A Caneta do Cartório e a Apropriação do Espaço Urbano em Curitiba

O desaparecimento estatístico e visual dos polacos concretizou-se na mutilação dos sobrenomes e no desenho urbano das cidades. Sobrenomes polacos clássicos foram reescritos em Prudentópolis e demais colônias para eliminar marcadores linguísticos (os dígrafos sz, cz e o sufixo -ski): Tarnowski foi reduzido a Ternoski; Paszko foi neutralizado como Pasko. Essa mutação quebrou as cadeias genealógicas e facilitou o enquadramento dessas famílias nas listas de outras etnias.

Na capital paranaense, Curitiba, o apagamento espacial assumiu contornos geográficos agressivos. Os tradicionais bairros Bigorrilho e Mercês, habitados historicamente por contingentes operários e agrícolas biétnicos, foram submetidos a um processo de gentrificação da memória.

A imposição de marcos bizantinos e o rebatizamento de praças (como a Praça Ucrânia) criaram enclaves cenográficos. Posteriormente, a instalação de um templo e de um grupo folclórico de rito e cultura ortodoxa na Vila Guairá buscou estender esse domínio territorial eclesiástico oriental para além dos eixos coloniais tradicionais que hoje formam os bairros.

A maior ironia desse apagamento materializa-se na Rua Cândido Hartmann, que corta a Praça Ucrânia e serve de artéria de ligação entre o centro da cidade e a histórica colônia polaca do Santo Inácio.

1. O poder público e a especulação imobiliária limparam o nome da colônia polaca da mente urbana, rebatizando a região sob a etiqueta de Parque Barigui.

2. O homenageado da via, Cândido Hartmann, é consensualmente repetido pela população como de origem alemã, quando as revisões documentais comprovaram tratar-se de um cidadão de etnia e origem polaca vindo de zonas de ocupação prussiana.

A Campanha de Nacionalização de Getúlio Vargas (1938) funcionou como o golpe de misericórdia nesse caos identitário, ao fechar as escolas polacas, queimar arquivos comunitários e impor o aportuguesamento forçado, cristalizando as mentiras burocráticas do século XIX.

5. Conclusão: Contra o Apagamento, a Memória Documental

A história da imigração polaca na América do Sul ainda está longe de ser uma história concluída. O que este estudo procura demonstrar é que o problema não reside apenas na insuficiência de números, na perda de documentos ou nas dificuldades inerentes à classificação dos imigrantes provenientes de territórios que, durante mais de um século, estiveram submetidos a diferentes Estados imperiais.

O problema é mais profundo: a própria construção da memória migratória foi condicionada por categorias políticas, administrativas, religiosas e culturais que nem sempre correspondiam à identidade daqueles que atravessaram o Atlântico.

O polaco que chegava ao Brasil trazendo um passaporte russo, austríaco ou prussiano não deixava de ser polaco porque o documento de viagem o vinculava à potência que ocupava sua terra.

Do mesmo modo, o habitante da Galícia que podia ser simultaneamente ruteno e polaco pela origem, polaco pela cultura, católico latino ou bizantino pelo rito e cidadão do Império Austro-Húngaro não cabe nas gavetas étnicas rígidas que posteriormente foram construídas pelos Estados, pelas instituições religiosas e pelas narrativas nacionalistas.

É justamente nesse ponto que a expressão “diáspora rasurada” adquire seu sentido histórico. Não se trata de afirmar que toda classificação administrativa tenha sido deliberadamente fraudulenta, nem de substituir uma narrativa nacionalista por outra.

Trata-se de reconhecer que sucessivas classificações produziram perdas de informação. Sobrenomes foram alterados, topônimos desapareceram, escolas foram fechadas, arquivos comunitários foram destruídos ou dispersos, e pessoas passaram a ser registradas segundo a nacionalidade do Estado que lhes concedera o documento, e não necessariamente segundo sua origem histórica, seu sangue mesclado, sua língua, sua cultura ou a forma como se reconheciam.

A consequência foi uma espécie de efeito cascata da documentação: um registro equivocado ou simplificado podia alimentar estatísticas posteriores; essas estatísticas podiam orientar estudos historiográficos; os estudos podiam consolidar uma determinada narrativa; e a narrativa, por sua vez, retornava à sociedade como uma verdade aparentemente incontestável.

É nesse circuito que o Paraná-centrismo, as disputas identitárias da antiga Galícia, a nacionalização varguista e determinadas formas posteriores de institucionalização da memória precisam ser analisados. Não como fenômenos isolados, mas como partes de processos históricos que contribuíram, em diferentes momentos e por diferentes razões, para tornar algumas presenças mais visíveis que outras.

O caso de Prudentópolis é particularmente revelador porque permite observar, no mesmo território, a convivência histórica de populações cuja experiência não pode ser reduzida às categorias nacionais atualmente utilizadas.

A história dos rutenos, dos polacos e de seus descendentes exige uma leitura capaz de compreender a fluidez das identidades no mundo centro-oriental europeu e a maneira como essas identidades foram posteriormente reorganizadas no Brasil.

Isso não significa negar a existência da imigração ucraniana, tampouco reivindicar para os polacos tudo aquilo que posteriormente foi incorporado à cultura ucraniana no Paraná.

Significa, antes, recusar a transformação de uma história complexa em uma identidade única e retrospectivamente pura. Uma sociedade de imigração não é um mosaico formado por peças que chegaram prontas ao porto.

Ela é um processo histórico no qual línguas, religiões, sobrenomes, casamentos, costumes, memórias e pertencimentos se cruzam, se transformam e, muitas vezes, entram em conflito.

A mesma cautela deve ser aplicada à história material. Uma rua, uma praça, um bairro, uma igreja, um monumento, uma receita culinária ou um sobrenome não constituem, isoladamente, uma prova suficiente de pertencimento étnico.

Mas, quando confrontados com registros civis, paroquiais, mapas, documentos de imigração, correspondências, jornais, fotografias, testemunhos orais e outras fontes primárias, podem revelar aquilo que as estatísticas nacionais deixaram escapar.

Por isso, a revisão aqui proposta não pretende simplesmente trocar um número por outro ou uma etiqueta étnica por outra.

O objetivo é reconstruir os mecanismos pelos quais a presença polaca foi fragmentada nos documentos e posteriormente recomposta pela historiografia de maneira incompleta.

A revisão dos números da imigração brasileira, nesse sentido, possui importância que ultrapassa a dimensão estatística. Se novas pesquisas documentais demonstrarem que centenas de milhares de indivíduos classificados historicamente como russos, austríacos, alemães ou prussianos eram, em diferentes graus e contextos, oriundos das terras polacas, a própria escala da diáspora precisará ser reconsiderada.

E, com ela, terão de ser revisitadas as interpretações sobre colonização, urbanização, trabalho, religião, escolarização, organização comunitária e formação cultural brasileira.

A diáspora polaca foi, portanto, muito mais diversa do que as narrativas nacionais posteriores permitiram enxergar. Reconstruí-la exige uma mudança de método: seguir as pessoas antes das etiquetas administrativas; seguir os documentos antes das tradições repetidas; e seguir as trajetórias familiares antes das fronteiras políticas que mudaram sobre elas.

É nesse sentido que este artigo propõe uma revisão da memória da imigração polaca. Não para construir uma nova pureza étnica — o que reproduziria exatamente o erro que se pretende combater —, mas para devolver complexidade àquilo que foi simplificado. A história não precisa de identidades puras.

Precisa de documentos, de comparação entre fontes, de crítica historiográfica e, sobretudo, da disposição de reconhecer as zonas de contato, contradição e mestiçagem cultural que constituem a experiência humana.

Se a diáspora foi rasurada, a tarefa do historiador não é escrever uma nova legenda sobre a rasura. É recuperar, tanto quanto as fontes permitirem, aquilo que existia por baixo dela. Porque apagar uma identidade da estatística não elimina a pessoa que a carregou.

Apagar um sobrenome do mapa não elimina a família que o transmitiu.

E apagar uma memória dos documentos não significa que ela tenha deixado de existir.

E talvez seja esta a maior inquietação que permanece depois de percorrer os caminhos dessa diáspora rasurada: não basta denunciar o que os impérios fizeram ontem se continuarmos permitindo que outras narrativas nacionais façam hoje, exatamente aquilo que condenamos naqueles impérios.

Durante as Partilhas, a Alemanha, a Rússia e a Áustria retiraram dos polacos a soberania sobre sua terra e, com ela, muitas vezes, o direito de nomear a própria história.

Séculos depois, vemos fenômeno semelhante quando elementos da cultura polaca são despojados de sua origem, recebem nova grafia, nova pronúncia e nova nacionalidade — a szarlotka transformada em strudel, o sernik convertido em cheesecake, a piwo reduzida a beer, a wódka transformada em vodka — e, no Paraná, quando o Krakowiak, criado por polacos, passa a ser apresentado como “cracóvia” de origem ucraniana, ou quando os pisanki polacos são rebatizados institucionalmente como “pêssankas” e incorporados a um patrimônio que apaga sua procedência.

 O que mais inquieta, porém, não é apenas a apropriação: é o silêncio daqueles que deveriam reconhecer e defender essa memória.

Uma comunidade que assiste passivamente à substituição de seus nomes, de seus símbolos, de sua gastronomia e de suas tradições corre o risco de perder não apenas a memória do passado, mas também a capacidade de reconhecer a si mesma no presente.

Não se trata de reivindicar uma “pureza polaca” — seria repetir o mesmo erro essencialista que este artigo quer combater.

Trata-se de exigir o direito elementar de que cada cultura seja chamada pelo seu nome e tenha reconhecida a sua origem.

Se os polacos não defenderem a própria memória, outros escreverão por eles a história que lhes convém — e, quando finalmente perceberem a rasura, talvez já não reste ninguém capaz de ler o que estava escrito sob ela.

BIBLIOGRAFIA

- Agência Polaca Interpress. A Polônia na segunda guerra mundial 1939 – 1945. Varsóvia. Almanach Polonii II. Polônia. 1969. S.n. 1962.

- Anais da Comunidade brasileiro polonesa. Superintendência das Comemorações do Centenário da Imigração Polonesa do Paraná. Volumes I a XIII. Gráfica Vicentina. Curitiba

- AVNI, Haim. Argentina and the Jews: A History of Jewish Immigration. New York: University of Alabama Press, 1991.

GŁUCHOWSKI, Kazimierz. Os Poloneses no Brasil. Porto Alegre: Oficinas Gráficas da Livraria do Globo, 1927.

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Notas:
(1) Da Ordem de São Basílio Magno ou Ordem Basiliana de São Josafat

(2) PROTHERO, G.W. AUSTRIAN POLAND, H.M. Stationery Office, London, 1920. p.3 tradução do autor. IN: IAROCHINSKI, Ulisses. Polacos do Brasil: A etnia em números e sobrenomes. Curitiba: Edição do Autor, 2023. p.519

(3) PROTHERO, G.W. IN: IAROCHINSKI, Ulisses. Polacos do Brasil – a etnia em números e sobrenomes. Edição do Autor. Curitiba. 2023. p. 520, 521