segunda-feira, 13 de abril de 2026

POLAQUICE: IDENTIDADE, LINGUAGEM E RESISTÊNCIA

Na minha infância, vivida entre migrantes de Minas Gerais e uma comunidade rodeada por imigrantes e descendentes vindos da Polônia — sem que se constituísse, de fato, uma colônia formal de polacos, já que Monte Alegre nunca o foi, pois a maioria ali chegara das várias colônias formadas no Paraná desde 1863 —, eu era chamado de polaco, polaquinho. Eram expressões de carinho. Talvez isso se explicasse pelos cabelos aloirados, ainda infantis, e pelo sobrenome difícil de pronunciar. Eu me sentia um polaqueiro — metade polaco, metade mineiro —, dadas as origens dos meus pais. Sou filho de polaco. E de uma mineira do Sul de Minas Gerais.

Não havia discriminação no tratamento. Muito pelo contrário. Era melhor ser chamado de polaco do que de Lício, Aronxinqui ou por algum apelido depreciativo, desses que grudam e ferem, desses que reduzem.

Monte Alegre, Harmonia, Cidade Nova, além de outros agrupamentos habitacionais como Lagoa, Fazenda Velha, Mina de Carvão, Imbaúzinho, Salto Aparado, Ilha do Bom Retiro, Antas, Km 28, Mauá, Miranda, Mirandinha, Bacia, Mandaçaia e Triângulo, eram povoados, em sua grande maioria, por operários, técnicos e engenheiros da etnia polaca. Tratava-se de um empreendimento expressivo dos irmãos Laffer, Elkanah e Kadyszewicz, vindos da antiga República das Duas Nações, Polônia-Lituânia, tornaram-se Klabin para se esconder do Tzar Russo ocupante. O cemitério de Harmonia confirma: a maioria dos sepultados é de origem polaca.

Esse agrupamento humano não se sentia discriminado por ser chamado de polaco. Talvez porque, nas colônias de onde vieram, o termo galicista — criado em Curitiba, em 1927 — não tenha chegado. Talvez também porque eles próprios, ou seus pais e avós, ao desembarcarem no Porto do Rio de Janeiro, recebiam documentos nos quais se podia ser: polaco austríaco, polaco russo ou polaco alemão. Até os rutenos, vindos da província austríaca chamada Galícia, recebiam a mesma designação de polacos.

Muitos de nossos antepassados foram resultado de uma história escrita de forma torta nos cartórios, onde o “polaco” foi traduzido — e, no processo, silenciado. O meu avô Bolesław virou Boleslau; não Bolek, mas Bóles. O Kazimierz do meu pai transformou-se em um estranho Cassemiro. E o que deveria ser um diminutivo carinhoso, Karzyk, tornou-se Cajo.

Essa descaracterização é profunda. Ainda hoje, ao apresentar meus passaportes brasileiro e/ou polaco na Polônia, vejo a originalidade do meu sobrenome — Jarosiński, com J no início e S no meio — perder-se na leitura oficial. Quando o funcionário do aeroporto, da universidade ou da prefeitura lê o meu nome desfigurado pela grafia brasileira, sou obrigado a responder, quase com humor: “Nie, nie jestem Chiński”. Não, não sou chinês. Chiński é chinês no idioma dos meus avôs.

Nesses momentos, percebo que meus passaportes, em vez de atestarem minhas origens, muitas vezes as ocultam. Por isso, a minha produção cultural, ao trazer à tona a memória desses imigrantes, é um gesto de retomada. Tento devolver aos nomes a dignidade que lhes foi retirada. Recuperar o som. Reafirmar a consciência. A identidade polaca, para mim, é uma forma de resistência viva. Não importa o que foi escrito no papel ou lido na fronteira; importa a linhagem de coragem moral que carrego das minhas origens, sejam elas de Wojcieszków, Łuków, Lublin, Stare Poręby-Dobre, Lubelska, Podlaska, Mazowszka, São Sebastião da Bela Vista, Botelhos, Castro ou Harmonia-Monte Alegre. Apesar de todas as tentativas de apagamento, essa essência permanece.

Mas essa percepção, construída na infância, iria mudar.

Ao chegar a Curitiba para os estudos secundários e universitários — e também para o teatro e o cinema — já não era mais simples falar, nem se apresentar como polaco. Na cidade que consagrou o termo “polonês”, o antigo gentílico passou a soar como ofensa. Algo depreciativo. “Pejorativo”, como diziam os curitibanos mais conservadores.

Com o tempo, e já trabalhando em um dos jornais da cidade, passei a escrever obrigado aquele termo estranho aos meus ouvidos: polonês. Quase todas `as vezes por correção dos revisores. Soava artificial, mas era o que se esperava numa sociedade que havia inventando um outro gentílico. Publiquei séries de artigos no caderno cultural em que empregava os dois termos como sinônimos, numa tentativa de conciliação — ou de adaptação. A primeira grande série, com nove edições, chamou-se “Polonês – um povo sofrido”. Vieram outras. Entre elas, “Lech Wałęsa – o sindicalista que mudou o mundo” e “A Curitiba que eu Sou”. Em todas, a revisão insistia com o galicismo.

Certa vez, já repórter de televisão, fui interrompido durante uma entrevista. O entrevistado, presidente de uma associação folclórica, reagiu ao ouvir a minha palavra preferida: polaco. Disse que não admitia aquela expressão, por considerá-la pejorativa. Perguntei o que havia de pejorativo nela. Não soube responder. Virou as costas. E encerrou a entrevista. A indignação ficou — não apenas pelo gesto, mas pelo vazio da justificativa.

Os anos passaram. Outros caminhos profissionais se impuseram. Outros temas. Até que surgiu a Internet, abrindo um campo novo de possibilidades. Resolvi aprender HTML por conta própria — comprando livros, testando, errando — e criei um portal no ciberespaço. Dei-lhe o nome de Saga dos Poloneses e passei a reunir ali informações sobre a história da Polônia e de seus emigrantes no Brasil.

Era outro tempo. Poucos acessos. Quase ninguém tinha computador. Menos ainda sabia o que era um e-mail. Ainda assim, procurei anunciantes, patrocinadores, alguma forma de sustentar a iniciativa. Afinal, Curitiba concentra uma das maiores comunidades de descendentes de polacos do mundo. Mas não houve retorno. A Internet ainda não era vista como mídia. Não havia mercado. Não havia monetização. Era cedo demais.

Foi então que um cônsul da Polônia — que anos antes já me havia fornecido material para reportagens — sugeriu transformar o site em livro. A ideia fazia sentido. Naquele momento, as pessoas ainda liam. E liam em papel.

Lancei-me, então, à escrita de um livro sobre a história da Polônia e a saga daqueles emigrantes, marcados por uma condição que beirava a servidão em terras dominadas por monarquias absolutistas que não toleravam a existência de uma Polônia republicana.

Veio, então, o dilema.
Dos poloneses?
Ou dos polacos?

A palavra saga já estava definida. Carrega a ideia de travessia, de percurso, de feitos acumulados no tempo. Remete à Odisseia, à longa viagem de Odisseu, rei de Ítaca — meu nome em latim, aquele mesmo do livro de Joyce.

Restava o gentílico. “Poloneses” pesava. Excesso de letras. Excesso de forma. Decidi, enfim:

Saga dos Polacos.

Planejei lançar o livro em cidades do Sul do Brasil que, em muitos casos, sequer conheciam um lançamento literário. Cidades de forte presença da etnia polaca. Era ali que fazia sentido começar.

Foram 27 cidades. Da capital São Paulo à pequena Itaporanga, no interior paulista.

E lá fui eu.

Em Erechim, no Rio Grande do Sul, após a apresentação, sentei-me para os autógrafos. Havia fila. Atrás de mim, um imenso banner com a capa do livro. Um homem saiu da fila. Aproximou-se. Apontou para o banner.

— Você é burro! Aqui não tem polacos. Só poloneses.

E me atingiu com dois murros no ombro.
Procurei ajuda com os olhos. Não veio. Levantei-me. Recolhi o material. Saí. Não seria agredido. Nem reagiria.

Mas esta não foi a única vez.

Em São Paulo, um casal de idosos repetiu a mesma frase. E virou a mesa com todos os exemplares sobre mim.

Em Curitiba, durante outra noite de autógrafos, o presidente da entidade interrompeu o evento, chamou o evento de “palhaçada” e lançou meus livros pela janela. E ninguém reagiu. Saí dali como entrei.

Mas não do mesmo modo. Não fiquei frustrado.
Pelo contrário: saí decidido.

Certo de que minha missão seria a de defender um termo que atravessou séculos, que existe em pelo menos outras três línguas, o lusitano, o castelhano e o italiano, palavra que carrega som, história e identidade. No Brasil, mais especificamente em Curitiba, no entanto, uma elite conservadora conseguiu apagá-lo. E o mais grave: o patrulhamento ideológico, que antes vinha de fora, passou a vir de dentro. Da própria comunidade. Que não admite — ainda hoje — ser chamada de polaca.

Mas aquele primeiro livro rendeu frutos. Passou a ser reconhecido em dissertações e teses mundo afora, seja em citações, seja em referências bibliográficas. E em diversos idiomas.

Impressionou-me a repercussão do meu trabalho que, a princípio, era solitário e eivado de críticas. Era como ver aquele esforço atravessar fronteiras tão distintas. Ver obras minhas — para citar apenas três, entre as 21 já publicadas, como Saga dos Polacos, Polaco e Polacos do Brasil — sendo citadas em universidades da Finlândia a Polônia colocava uma quase epopeia paranaense em um patamar global de estudos sobre migrações e identidade.

Sentia que meu trabalho passava a exigir uma envergadura compatível com veículos que tratam a informação com a seriedade de um jornal de registro. Assim, quando o jornal Gazeta do Povo, em 2010, dedicou oito colunas ao meu segundo livro, Polaco – identidade cultural do brasileiro descendente de imigrantes da Polônia, este cumpriu, de certa forma, o papel de ponte entre a academia internacional e o cidadão curitibano.

Ao se tornar referência em países como Angola e Vietnã, minha pesquisa demonstra que a questão do “ser polaco” em Curitiba serve de espelho para compreender como povos deslocados por invasões mantêm sua essência em qualquer parte do mundo. Trata-se de um conteúdo que exige esforço, permanência e resiliência — e não apenas o imediatismo de um portal digital, como o que substituiu o antigo site dos anos 1990, Saga dos Poloneses, e que veio a se consolidar no blogspot, já com duas décadas, Jarosiński do Brasil.

Mas antes é preciso destacar: foi justamente Saga dos Polacos que abriu portas. A partir dele, recebi bolsa de estudos do Ministério da Educação da Polônia para cursos de idioma e cultura polaca, seguidos de mestrado em estudos de cultura internacional e doutorado em história na mais antiga universidade da Polônia, a Universidade Iaguelônica, em Cracóvia.

E foi lá, caminhando pelo bosque Planty que circunda a cidade medieval de Kopernik e subindo a colina do Przegorzały, que me deparei com um termo que soou, para mim, como uma forma sutil de discriminação ao sangue que corre nas minhas veias. Sabe-se lá quando surgiu — talvez no século XIX, talvez no início do XX, ainda sob a Polônia ocupada pelas monarquias vizinhas — aquele termo discriminatório: polonijne.

Para mim, ele é a representação da tentativa de dividir os de mesma origem em categorias distintas: os que nascem na Polônia seriam “poloneses”; os que nascem fora, “polonijne” ou “polônicos”. Este último mais usado no Brasil, já que nos demais países lusófonos se preservaram o termo polaco em convivência mais natural sem o adjetivo funesto.

Não me restou dúvida alguma. Aquela palavra divisionista é a típica barreira da burocracia acadêmica e diplomática ignorando a realidade da identidade.

Ao empregar termos distintos para designar os da terra e os da diáspora, essas instituições acabam por criar uma hierarquia artificial. O sangue e a cultura não se alteram conforme a fronteira. Por isso mesmo, não se justificam. O termo polaco, ao contrário, unifica essa identidade sem as divisões impostas pelo protocolo.

Essa insistência em “polônico” soa quase clínica, distante, enquanto “polaco” permanece orgânico, histórico, enraizado. Nos demais países lusófonos, essa naturalidade foi preservada. No Brasil, porém, criou-se um nó linguístico — e, com ele, uma tensão que ultrapassa a linguagem e alcança a própria percepção de identidade.

Depois de 40 anos de produção, com meus livros circulando pelo mundo, meu blog sendo acessado em todas as línguas, meu canal de YouTube sendo estudado, percebo que há ainda pouco movimento entre jovens pesquisadores, professores, doutores, mestres e cientistas no Brasil no sentido de adotar essa luta pela preservação da terminologia original. Persistem, em grande medida, os termos que considero inadequados — polonês, polônico e, mais grave, polonijne.

São poucos os trabalhos que tomaram consciência da necessidade de restaurar a dignidade do termo polaco. Existem, é verdade, ao menos três dissertações recentes em universidades que passaram a utilizá-lo abertamente. E isso sem teimosia perante a censura. Mas há também outras que me criticam por empregar um termo que consideram obsoleto e pejorativo. Em algumas, sou classificado como “cabeça dura”.

Prefiro outro conceito.

Assumo, sem constrangimento, o rótulo de “Polaco do Kontra”, como chegou a destacar o jornal Gazeta do Povo. Ser chamado assim acaba sendo, para mim, um elogio. É a prova de que minha obra não é passiva. Ela provoca. E, sobretudo, exige posicionamento.

O fato de existirem dissertações dedicadas a criticar o uso do termo original — preferindo a terminologia consolidada pela elite polaca curitibana a partir de 1927 — sim, foi neste ano e nesta cidade que o galicismo foi implantado como mãos de ferro — demonstra que há, de fato, um desconforto instalado. De certo modo, indica que o consenso acadêmico, e talvez também o diplomático, vem sendo tensionado.

Na ciência, quando alguém é chamado de “cabeça dura” por sustentar uma terminologia, muitas vezes isso revela menos um erro individual e mais a resistência de estruturas que evitam rever seus próprios fundamentos. A realidade vivida — nas ruas, nas famílias, na memória — nem sempre coincide com a linguagem normatizada.

Ao assumir o “contra” — ou przekora, ou kontra — inscrevo-me, conscientemente, em uma tradição de pensamento que não se submete a modismos linguísticos nem a consensos frágeis. A etnia polaca carrega este traço de sobrevivência ou de orgulho, ou seja a recusa em se curvar ao que é imposto de fora. O próprio hino traz o verso Jeszcze Polska nie zginęła (A Polônia ainda não pereceu).

As dissertações que já adotam o termo polaco indicam que esse movimento começa a produzir efeitos. Ainda que pontuais, revelam a formação de uma continuidade. De outro lado, as críticas mantêm o debate vivo e evidenciam algo essencial: enquanto “polonês” e “polônico” dependem de validação constante, “polaco” se sustenta pela própria história, pela oralidade, pela memória coletiva.

E é aí que reside o ponto central. Não se trata de uma disputa semântica. Trata-se de uma disputa por legitimidade histórica.

De quem nomeia.
De quem define.
E de quem resiste.
Porque, ao fim de tudo, as palavras que sobrevivem não são as impostas — são as vividas.

E “polaco” foi a primeira palavra com que me reconheceram.

Veio antes da dúvida. Antes da correção. Antes do constrangimento. Antes da tentativa de ajuste, da imposição, do patrulhamento ideológico.

Ficou no âmago. Ficou.

E “polaco”, mais do que um termo, é isso: uma permanência. Uma imanência. Aquilo que não se separa daquilo que se é.

Texto: Ulisses Iarochinski

segunda-feira, 30 de março de 2026

3000

Há números que são apenas números.
E há números que carregam vida.

Este não.

Este é tempo.

Tempo medido não em dias, nem em anos, mas em insistência. Em permanência. Em fidelidade a uma ideia que nasceu lá atrás, naquele verão polaco de 2005, quando um estudante brasileiro, sozinho numa casa universitária em Przegorzały, decidiu que não deixaria morrer aquilo que já havia começado com o portal “Saga dos Polacos”.

Assim nasceu o JAROSIŃSKI DO BRASIL.

O primeiro texto — “Porque Polaco!” — não foi apenas um artigo.

Foi uma tomada de posição.
Um gesto.
Uma escolha.

E talvez tudo o que veio depois já estivesse contido ali.

Não havia projeto de longevidade.
Não havia cálculo de alcance.
Não havia sequer a certeza de continuidade.

Havia apenas uma inquietação.

E uma recusa.

Recusa em aceitar que a história dos polacos fosse diluída, simplificada ou traduzida por conveniência. Recusa em aceitar que a língua portuguesa — que por séculos disse polaco sem constrangimento — passasse a pedir desculpas por si mesma.

Porque antes de 1927, ninguém hesitava.

Nem o povo.
Nem a imprensa.
Nem os grandes nomes.

Castro Alves escreveu.
Rui Barbosa disse.
E tantos outros repetiram — sem medo, sem cálculo, sem filtro:

POLACO.

Direto do POLAK. Sem intermediários. Sem vergonha.

A palavra não nasceu como ofensa.

Foi transformada.

E quando foi transformada, não foi pelo povo.

Foi por uma elite.

Curitiba, em 1927.

Um gesto aparentemente pequeno. Uma escolha “elegante”. Um afastamento calculado daquele polaco que incomodava — o polaco da enxada, o polaco da colônia, o polaco ridicularizado, o polaco da Nhanhã, o polaco sem bandeira, o polaco chamado de burro, o polaco “preto do avesso”.

E então veio a tentativa de correção.

Mas não foi correção.

Foi ruptura.

Dividiu.
Classificou.
Hierarquizou.

E este blog nasceu contra essa ruptura.

Nasceu para dizer não.

Não à vergonha disfarçada de sofisticação.
Não à substituição disfarçada de evolução.
Não à ideia de que mudar o nome mudaria a história.

Porque não muda.

O nome pode ser trocado.
Mas a origem não.
O sangue não.
A memória não.

E há algo ainda mais silencioso — e talvez mais profundo — do que a troca de uma palavra.

A deformação dos nomes.

Porque não foi apenas o polaco que se tentou corrigir.

Foram também os próprios polacos.

Seus nomes foram traduzidos, adaptados, domesticados, até perderem a forma original — e, com ela, o reconhecimento.

BOLESŁAW tornou-se Boleslau.
KAZIMIERZ virou Cassemiro.
JAROSIŃSKI foi transformado em iarochinski.

E o que parece pequeno — um acento perdido, uma letra trocada, um som simplificado — torna-se, com o tempo, um corte.

Porque quando esses descendentes retornam à Polônia, muitas vezes já não são reconhecidos nem pelo próprio nome.

É como se a história tivesse sido reescrita na grafia.

Como se a identidade tivesse sido suavizada até desaparecer.

E, ainda assim, permanece.

Porque o que corre — aqui, lá, em qualquer lugar — é o mesmo:

POLKA KREW.

Hoje, este blog chega à postagem de número 3000.

Não como quem alcança uma meta.

Mas como quem comprova uma travessia.

Foram mais de 1 milhão e 350 mil acessos, quase dois mil comentários, leitores espalhados por dezenas de países — do Brasil à Polônia, dos Estados Unidos ao Uzbequistão, de Bangladesh à Irlanda — e uma constatação silenciosa:

A Polônia, escrita em português do Brasil, encontrou seu espaço.

Mas não qualquer espaço.

Um espaço com posição.

Aqui, nunca se escreveu por conveniência.
Nunca se escreveu para agradar.
Nunca se escreveu para caber.

Escreveu-se para afirmar.

E afirmar, muitas vezes, é desagradar.

É contrariar convenções.
É ferir expectativas.
É dizer o que não se quer ouvir.

Mesmo quando isso custa.

Porque este blog sustenta, desde o início, uma convicção que não é apenas linguística.

É histórica.
É cultural.
É identitária.

Aqui, existem apenas duas palavras possíveis:

POLACO E POLACA.

E isso não é teimosia.

É memória.

Ao longo dessas três mil postagens, este espaço fez mais do que informar.

Registrou.
Documentou.
Conectou.

Trouxe ao português do Brasil uma Polônia que antes estava dispersa, distante ou inacessível — sua arte, sua cultura, sua política, sua história profunda, suas contradições, sua religiosidade, sua culinária, seu idioma, suas guerras, suas reconstruções.

E, sobretudo, seus emigrantes.

Os polacos espalhados pelo mundo.

Os que ficaram.
Os que partiram.
Os que chegaram.
Os que nasceram aqui — e nunca deixaram de pertencer àquela Polônia lá.

Porque ser polaco não é geografia.

É permanência.

Se este blog tem algum mérito, não está nos números.

Está na continuidade.

Porque é fácil começar.

Difícil é não parar.

Difícil é escrever no inverno e no verão, na pressa e no cansaço, na abundância e na falta de tempo, na certeza e na dúvida — e ainda assim manter uma linha, uma voz, uma coerência.

Três mil textos não se escrevem apenas.

Três mil textos se suportam apenas.

Talvez...
Há cansaço aqui.
Há insistência.
Há teimosia.

E há também, sim, alguma delicadeza.

Mas ela não vem antes.

Ela vem depois.

Como resto.
Como sobrevivência.

Este blog não buscou unanimidade.

E nunca terá.

Porque não foi feito para agradar.

Foi feito para afirmar.

E, paradoxalmente, isso também é um gesto de cuidado.

Porque só se defende aquilo que se ama.

E há amor aqui.

Um amor duro.
Sem ornamento.
Que não se ajoelha.

Mas amor.

Amor pela Polônia — não a dos cartões-postais, mas a real, contraditória, ferida e reconstruída.

Amor pelos polacos — os que foram chamados de tudo, menos pelo que eram.

Se há algo que três mil textos podem afirmar, é isto:

A identidade não se negocia.

Não se adapta.
Não se corrige para caber melhor.

Ela se sustenta.

Mesmo quando incomoda.
Mesmo quando cansa.
Mesmo quando parece inútil.

Porque, no fim, não é sobre palavras.

É sobre pertencimento.

Este blog nunca quis ser neutro.

E nunca será.

Porque neutralidade, aqui, seria esquecimento.

E esquecer — isso sim — seria o verdadeiro erro.

Se no texto número 1 havia uma afirmação,
no texto número 3000 há uma confirmação.

Se antes havia inquietação,
agora há consciência.

Se antes havia impulso,
agora há raiz.

E raízes não pedem permissão.

Elas rompem.

Texto número 3000.

Não como ponto final.
Não como celebração.

Mas como prova.

De que permaneceu.

E de que continua.

E depois vem aquele e diz:

Isto tudo é de um ser polêmico.

Talvez.

Mas se dizer o que está documentado,
o que está escrito,
o que sempre foi dito — é ser polêmico...

Então já não sei mais o que é.

Prefiro ficar com a verdade.

Mesmo quando incomoda.


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Texto: Ulisses iarochinski

quinta-feira, 26 de março de 2026

Coração que bate pelas origens e pela justiça

Ao encerrarmos esta noite, após percorrermos a memória física da Capela de Czermna, onde o tempo se torna osso, e a arte dos nossos mestres do pôster, onde a alma polaca se torna cor e forma — percebo que meu trabalho não é apenas documentar o que está longe. É documentar o que, apesar de tudo, insiste em pulsar aqui dentro.

Iarochinski exibindo um de seus livros


Hoje, 24 de março, a Polônia celebra o Dia Nacional da Memória dos Polacos que Salvaram Judeus. É uma data que nos lembra que, nos tempos mais sombrios do fascismo nazista e da opressão soviética, a identidade do Polaco não se definiu pela submissão, mas pela coragem ética de proteger a vida.

Como bem lembrou hoje o Consulado Geral da Polônia em Curitiba, nas redes sociais, recordamos a missão do Grupo Ładoś, em Berna, Suíça. Entre 1941 e 1943, diplomatas polacos e líderes judeus, como Abraham Silberschein e Chaim Eiss, uniram forças em uma operação de coragem silenciosa. Eles emitiram passaportes latino- americanos para oferecer reconhecimento jurídico a milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Para esses diplomatas — Aleksander Ładoś, Konstanty Rokicki, Stefan Ryniewicz e Juliusz Kühl — cada documento preenchido manualmente não era apenas burocracia; era uma tentativa concreta de proteger vidas. Em um contexto onde uma decisão administrativa assumia um significado humanitário profundo, eles provaram que a cooperação e a escolha humana podem ampliar as possibilidades de sobrevivência, mesmo sob as limitações mais severas.

E essa coragem também teve rosto brasileiro e, orgulhosamente, rosto paranaense. Não podemos esquecer de Aracy de Carvalho, nossa conterrânea, que em Hamburgo arriscou tudo para emitir vistos a refugiados. Nem do embaixador Luiz Martins de Souza Dantas e sua esposa Elisa, que em Paris transformaram o consulado brasileiro em um porto seguro. Eles entenderam que a humanidade está acima de qualquer ideologia de extrema-direita ou ditadura.

Muitos de nossos antepassados foram o resultado de uma história escrita torto nos cartórios, onde o Polaco foi 'traduzido' e silenciado. O meu avô Bolesław virou Boleslau e não Bolek, mas Bóles; o Kazimierz do meu pai virou um estranho Cassemiro, e o que era para ser um diminutivo carinhoso Karzyk virou Cajo.

Essa descaracterização é tão profunda que, ainda hoje, ao apresentar meus passaportes brasileiro e/ou polaco, na Polônia, vejo a originalidade do meu sobrenome Jarosiński, com J no início e S no meio, ser perdida na leitura oficial. Quando o funcionário polaco do aeroporto, da universidade ou da prefeitura lê o meu nome desfigurado pela grafia brasileira, sou obrigado a responder, quase jocosamente: 'Nie, nie jestem Chiński' (Não, não sou chinês). Isto devido ao abrasileiramento de silabas originais polacas de siński para chinski. Trocou a sonoridade do S polaco pelo CH português. Em alguns cartórios para outros sobrenomes com a mesmas duas sílabas para xinski.

Nesse momento, percebo que meus passaportes, em vez de atestar minhas origens, muitas vezes as esconde. Por isso, estar aqui hoje, compartilhando estas imagens, estes banners da minha produção cultural e lembrando desses heróis, é um ato de retomada. Estamos devolvendo a esses nomes a dignidade que lês foi subtraída.

Estamos recuperando o som original e a consciência de que nossa identidade é uma resistência viva. Não importa o que foi escrito no papel ou lido na fronteira; o que importa é a linhagem de coragem moral que carregamos das nossas origens, sejam elas de Helenów-Wojcieszków, Stare Poręby-Dobre, São Sebastião da Bela Vista, Botelhos, Castro e Harmonia-Monte Alegre. Encerro com a certeza de que, apesar de todas as tentativas de apagamento, nossa essência permanece intacta.

"Moje serce bije po polsku." Meu coração bate em polaco.

Pronunciamento feito após a exibição dos meus filmes documentários "Capela das Caveiras" e "Cartazes da Imaginação", na Casa da Cultura Polônia Brasil, Sociedade Polono Brasileira Tadeusz Kościuszko.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Editorial do Blog II

Este blog não nasceu com a pretensão de ser um jornal — e tampouco se propõe a assumir, em qualquer momento, a forma ou o compromisso daquilo que convencionalmente se entende por imprensa.

Ele se constitui, antes, como um espaço de registro, reflexão e interpretação, onde a informação não se apresenta dissociada da experiência de quem a observa, e onde a escrita, longe de buscar abrigo na neutralidade aparente, assume o risco — e a responsabilidade — de se posicionar.

Escrever, neste caso, é também reconhecer o lugar de onde se escreve. E esse lugar não é abstrato. Ele se constrói na condição de brasileiro, descendente de polacos, atento à trajetória histórica da Polônia, marcada não apenas por episódios de afirmação, mas sobretudo por rupturas, invasões e tentativas reiteradas de apagamento, que deixaram marcas profundas não só no território, mas na memória de seu povo.

Não se trata, portanto, de uma escolha arbitrária de enfoque, mas de uma perspectiva que se impõe pela própria natureza dos fatos. É nesse ponto que, por vezes, surgem os desencontros. Algumas manifestações de leitores revelaram desconforto diante de determinadas posições aqui expressas — o que, em si, não constitui qualquer anomalia, mas antes sinaliza que o texto cumpriu uma de suas funções mais elementares: provocar reação.

O problema, no entanto, não reside na discordância, que é legítima e até desejável, mas na forma como ela se apresenta quando substitui o argumento pela rotulação apressada, quando termos como “preconceito”, “ufanismo” ou “fascismo” passam a operar não como categorias de análise, mas como expedientes de encerramento do debate.

A história, nesse contexto, não pode ser tratada como um ornamento retórico, acionado apenas quando conveniente. Episódios como as invasões, ocupações e Partições da Polônia, entre tantos outros momentos decisivos, não pertencem a um passado inerte. Eles atravessam o tempo, informam sensibilidades e ajudam a compreender por que determinados acontecimentos contemporâneos são percebidos — e sentidos — de maneira distinta. Ignorar esse percurso não produz equilíbrio; produz apenas simplificação.

Isso não significa, por outro lado, que se deva recorrer a generalizações ou à fixação de identidades coletivas como categorias imutáveis. A complexidade histórica exige discernimento — e é precisamente nesse espaço de tensão entre memória e interpretação que este blog se insere. Se há, por vezes, indignação no tom, ela não decorre de um impulso gratuito, mas de uma reação a leituras que desconsideram contextos, relativizam fatos ou, não raro, os distorcem.

Ao longo de seu percurso de mais de 20 anos, este blog manteve-se fiel àquilo que o definiu desde o início: um espaço livre, independente, alheio a compromissos comerciais ou editoriais externos, onde escrever é também assumir uma posição diante do mundo. Isso implica, inevitavelmente, a possibilidade de discordância — e até de desconforto.

Mas implica, sobretudo, a recusa em reduzir a complexidade da história e do presente a fórmulas simples ou a julgamentos apressados. Aos que aqui chegam com disposição para compreender, ainda que discordem, permanece aberto o diálogo. Aos que preferem a segurança dos rótulos, talvez reste a ilusão de ter respondido — quando, na verdade, apenas se evitou a pergunta.

Assinado: Ulisses Iarochinski

Casa da Cultura exibe dois filmes de Iarochinski

Exibição de documentários sobre arte e cultura polaca em Curitiba.

Na terça-feira, 24 de março, às 20 horas, a Casa da Cultura Polônia Brasil, na sede da Sociedade Polono-Brasileira Tadeusz Kościuszko promove uma sessão especial de cinema documental, exibindo dois filmes produzidos e dirigidos pelo jornalista e cineasta Ulisses Iarochinski.



Os documentários Capela das Caveiras e Cartazes da Imaginação conduzem o público por duas dimensões distintas — mas profundamente complementares — da cultura polaca: a arte contemporânea e a memória histórica. Enquanto o primeiro revela um dos mais singulares monumentos funerários da Europa, o segundo mergulha no universo criativo do cartaz artístico.

Juntos, os filmes formam um percurso sensível entre imaginação, cultura visual e reflexão sobre a condição humana. Capela das Caveiras apresenta a impressionante Kaplica Czaszek, localizada na região histórica de Kłodzko. Construída no século XVIII pelo sacerdote Wacław Tomaszek, a capela é revestida por milhares de crânios e ossos humanos, reunidos como memorial das guerras e epidemias que marcaram a história europeia. Ao revelar esse lugar singular, o documentário convida o espectador a refletir sobre a transitoriedade da vida, a memória coletiva e a relação entre cultura, fé e história.



Já em Cartazes da Imaginação, o protagonista é o artista e professor Jerzy Piotr Kunce, representante da tradição da Escola Polaca do Cartaz. O documentário acompanha sua visita ao Brasil, suas reflexões sobre criação e ensino do design e seus encontros com artistas e estudantes em Curitiba, além da exposição de seus trabalhos no Museu Oscar Niemeyer.
O filme revela como o cartaz pode ser, ao mesmo tempo, linguagem artística e instrumento de pensamento visual.

Ulisses Iarochinski é ator, jornalista, escritor e cineasta com trajetória ligada à pesquisa histórica e cultural da Europa Central e da imigração polaca no Brasil. Autor de vários livros sobre história e cultura, também dirigiu documentários dedicados a temas históricos e artísticos. Em seus filmes, investiga personagens, lugares e tradições que revelam aspectos pouco conhecidos da cultura europeia e de suas conexões com o Brasil.

Data: 24 de março (terça-feira)
Horário: 20h Local: Casa da Cultura Polônia Brasil / Sociedade Polono-Brasileira Tadeusz Kościuszko
Endereço: Rua Ébano Pereira, no 502 – Curitiba.

domingo, 1 de março de 2026

E o filme "A Bela Polônia" estreou

Na quarta-feira, dia 25 de fevereiro, na Casa da Cultura Polônia Brasil - Sociedade Polono Brasileira Tadeusz Kościuszko, em Curitiba, aconteceu a estreia mundial do filme:



Entre paisagens monumentais e uma história marcada pela resistência, o filme “A Bela Polônia” convida o espectador a descobrir a alma de um país que nunca se deixou apagar.

Do coração da Europa emerge um território moldado por contrastes: montanhas cobertas de neve, planícies férteis, florestas ancestrais, cidades reconstruídas pedra por pedra e uma identidade que sobreviveu a invasões, ocupações e guerras.



É esse país que o documentário dirigido, produzido, narrado e montado por Ulisses Iarochinski, revela ao longo de uma hora de uma jornada profundamente sensorial e histórica. 

Com uma narrativa poética e imagens cinematográficas, o filme percorre desde as praias do Mar Báltico até os picos dos Cárpatos, passando por lagos cristalinos, florestas primárias, minas esculpidas em sal e cidades que carregam cicatrizes e orgulho.



A geografia não é apenas cenário: ela se torna personagem, desenhando o destino deste povo do centro geodésico da Europa, ponte natural entre o leste e o oeste. O filme entrelaça natureza, cultura e memória. Revisita momentos decisivos da história polaca — da formação do Estado medieval ao desaparecimento do país do mapa europeu, da devastação da Segunda Guerra Mundial ao renascimento democrático pós -1989.

Personagens históricos como Nicolau Copérnico, Maria Skłodowska-Curie, Fryderyk Chopin, Irena Sendlerowa, Lech Wałęsa e João Paulo II surgem como símbolos de uma nação que influenciou o mundo muito além de suas fronteiras.

A obra destaca a força da fé, das tradições e da vida cotidiana: festas religiosas, casamentos, danças folclóricas, arquitetura, culinária que traduz afeto, resistência e identidade.

Dos pierogi ao bigos, das sopas que aquecem os invernos rigorosos, o filme mostra como a cultura polaca é viva e pulsante. Mais do que um retrato turístico ou histórico, “A Bela Polônia” é uma declaração de amor a um país que transformou dor em força, memória em futuro e resistência em beleza.

Um documentário que não apenas informa, mas emociona.

Marli Wor (Presidente da Casa da Cultura) e Ulisses Iarochinski (cineasta)

Este é o 42º filme documentário do cineasta Ulisses Iarochinski, que começou sua carreira cinematográfica aos 17 anos com o filme “Telefonada” (composto por animações técnicas e interpretações de atores).

Ficha Técnica:
Duração: 60 minutos
Direção, Produção, Narração e Montagem: Ulisses Iarochinski

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A Grande Revolta Eslava

Por volta de 982, o poder imperial germânico nas terras eslavas estendia-se para leste até o rio Neisse (Nysa Łużycka), na Lusácia, e para sul até os Montes Metalíferos (em tcheco: Krušné Hory).

Após a derrota de Oto II em Stilo, em 983, os veleti, eslavos polábios, rebelaram-se contra seus senhores alemães, desencadeando uma grande revolta conhecida como a Grande Revolta Eslava (Slawenaufstand). Os eslavos polábios destruíram os bispados de Havelberg e Brandemburgo.

De acordo com o cronista alemão, bispo Thietmar de Merseburgo, a causa de sua queda foi a germanização e cristianização forçadas dos eslavos associados a essas duas igrejas, que duraram décadas. Thietmar atribui a revolta aos maus-tratos infligidos pelos alemães aos eslavos: "Guerreiros que antes eram nossos servos agora recuperaram sua liberdade como resultado de nossos erros." 

Nos territórios obodritas ao longo do rio Elba, os Veleti instigaram uma revolta com o objetivo de abolir o domínio feudal e o cristianismo, contando com significativo apoio da população obodrita e de seu líder, Mściwoj.

Soldados da Marca do Norte, da Marca de Meissen, da Marca da Lusácia, bem como o Bispo de Halberstadt e o Arcebispo de Magdeburgo, uniram forças para derrotar os eslavos perto de Stendal. Contudo, o Império foi forçado a recuar para a margem ocidental do Elba. A bem-sucedida política de cristianização dos eslavos pelo Império foi frustrada, e o controle político sobre a Marca de Billung e a Marca do Norte (territórios a leste do Elba) foi perdido.

Em menos de uma década após sua morte, a obra de uma vida inteira de Oto I, dedicada à conversão dos eslavos, foi desfeita. Os territórios eslavos a leste do Elba permaneceram pagãos por mais de um século antes que a atividade missionária fosse retomada.

No mapa: A Marca do Norte (marcada em vermelho) entre a Marca de Billung, ao norte, e a Marca Oriental Saxônica (Marca da Lusácia), ao sul. Tanto a Marca de Billung quanto a Marca do Norte foram perdidas após a Grande Revolta Eslava.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

2025: 156 mil jovens deixaram a Ucrânia


O policiamento de fronteira da Polônia com a Ucrânia, informou que cerca de 156 mil homens com idades entre 18 e 22 anos entraram no país vindos do país vizinho durante os quatro últimos meses do ano passado.
 
As autoridades polacas explicam que as travessias dos jovens ocorreram após o governo da Ucrânia autorizar homens nessa faixa etária a deixar o país, a partir do fim de agosto.
 
Até então, a maioria dos homens com idade entre 18 e 60 anos estava impedida de sair do país, em razão da ordem de mobilização geral emitida após a invasão russa.
 
O governo daquele país afirma que o afrouxamento da restrição tem como objetivo oferecer oportunidades de estudo no exterior aos jovens, para que possam contribuir para o desenvolvimento da Ucrânia no futuro.
 
No entanto, Oleksandr Hladun, especialista em questões demográficas da Ucrânia, disse que a medida enfraquece o potencial demográfico e econômico do país. Ele acrescentou que alguns desses jovens podem retornar no futuro, mas não está claro quantos o farão. O especialista alertou que a situação pode trazer graves consequências para o futuro do país.
 
Fonte: NHK World Japan 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Horbatowski faleceu repentinamente

Com profunda tristeza que me despeço do Dr. hab. Piotr Horbatowski, meu diretor de teatro em três peças, em Cracóvia, na Polônia, que faleceu repentinamente, neste sábado, 10 de janeiro.

Hobartowski nasceu em 27 de junho de 1965. Frequentou a Escola de Ensino Médio XVII LO de Varsóvia Andrzej Frycz Modrzewski. Graduou-se em Polonística na Uniwersytet Jagielloński de Cracóvia, onde obteve os títulos de mestre, doutor e habilitado (pós-doutorado)

Sob sua direção atuei como ator nas peças:
 
- 2004 –Samochawała, Criação Coletiva, direção Piotr Herbatowski, Studio Teatralny – Cracóvia/Polônia, Ator entre outros personagens interpretando a menina Zosia Zamosia do poema de Julian Tuwin.
 
- 2005 – Nie Ma Lekko, de Piotr Herbatowski, direção Piotr Herbatowski, Studio Teatralny – Cracóvia/Polônia.
- 2006 – Jak w Raju, de Piotr Herbatowski, direção Piotr Herbatowski, Studio Teatralny – Cracóvia/Polônia.
 

 Horbatowski foi professor de letras polaca, dramaturgo e diretor de teatro. Com um dos títulos mais altos do sistema de ensino da Polônia era Professor Doutor Habilitado, e funcionário da Universidade Iaguielônica.
 
Diretor do Instituto de Glotodidática Polonista da Universidade Iaguielônica, eminente professor e organizador da vida acadêmica, pesquisador que esteve vinculado à Universidade por mais de três décadas.
 
 
Ele foi um historiador de renome do teatro polaco, particularmente, nos territórios polacos, que atualmente estão na Ucrânia desde 1946, e nos antigos territórios orientais da República das Duas Nações (Polônia-Lituânia).
 
Publicou dois livros pioneiros sobre a vida teatral polaca em Kiev, sua monografia sobre a vida teatral polaca em Lwów durante a Segunda Guerra Mundial e um terceiro que está para ser publicado agora em 2026.
 
 
Nos últimos anos, sua paixão foi a cooperação teatral polaco-ucraniana, à qual dedicou seu livro de 2025, " Teatro em Frente à Guerra" (Wydawnictwo UJ).
 
Ele amava as pessoas e idealizava e praticava seu trabalho acadêmico principalmente por meio de diálogos estimulantes. Isso o tornou um educador valioso e querido, um raro exemplo de acadêmico que realizou plenamente seu verdadeiro potencial como professor. Era um diretor de teatro criativo, animado e que dava liberdade aos atores e atrizes sugerirem ideias e performances. Ele fez enormes contribuições para o ensino da língua e cultura polacas em todo o mundo – particularmente para o teatro, que utilizou criativamente em suas aulas. 
 
Trabalhou por muitos anos fora da Polônia: nos EUA, Coreia, Japão e China. Sua personalidade extraordinária, seu estilo único e sua abertura para com os outros deixaram uma marca indelével em todos os lugares. Ele era um homem bom, cheio de alegria e vida. 
 
Sua morte repentina é simplesmente inacreditável. ​
 
 
 O Professor Horbatowski concentrou seu trabalho científico no estudo da história da atividade cultural dos polacos no exterior, com ênfase especial nas regiões do Leste e Extremo Oriente. 
 
No campo da glotodidática polonista, buscou soluções inovadoras – criou um conceito autoral de ensino através do teatro e do uso da redação de jornais estudantis na educação linguística e cultural. Ministrou suas aulas com paixão, inspirando gerações sucessivas de estudantes na Polônia e no mundo.
 
Seu legado acadêmico e didático inclui inúmeros projetos e bolsas de estudo, incluindo programas financiados pela União Europeia, pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Ministério da Educação e Ciência. ​
 
Exerceu diversas funções fundamentais nas estruturas da Universidade Iaguielônica: foi Diretor da Escola de Língua e Cultura Polaca da UJ (2005–2009, 2011–2012), Diretor do Centro de Língua e Cultura Polaca no Mundo da UJ (2012–2016) e, desde 2021, chefiava o Instituto de Glotodidática Polonista da UJ.
 
Representou a universidade em diversas instituições estrangeiras como Professor Visitante. Foi bolsista da Fundação Kościuszko e da Universidade de Kiev e, desde 2023, atuava como especialista no Instituto de Desenvolvimento da Língua Polaca, em Varsóvia. 
 
 

 Lembrarei dele como um homem cheio de bondade, energia e abertura, para quem o trabalho e o contato com as pessoas eram uma verdadeira paixão.
 
Sua contribuição para o desenvolvimento da glotodidática e da educação polonista permanecerá como uma marca duradoura na história do Instituto. ​
 
Uno-me ao luto da família e dos entes queridos, dos ​ funcionários do Instituto de Glotodidática Polonista da Universidade Iaguielônica, e dos meus colegas de palco espalhados por vários países. ​ 
 
Definições:
 
- Dr. hab. / prof. UJ: são títulos acadêmicos polacos, específicos do sistema europeu.
 
- "Dr. hab." refere-se ao doutor habilitado (um nível acima do doutorado), e "prof. UJ" indica que ele possuía o cargo de professor na Universidade Iaguielônica. ​
 
- Glotodidática: É o termo técnico para a didática do ensino de línguas.
 
- Polonista/Polonística: Refere-se aos estudos da língua, cultura e literatura polaca.