Na minha infância, vivida entre migrantes de Minas Gerais e uma comunidade rodeada por imigrantes e descendentes vindos da Polônia — sem que se constituísse, de fato, uma colônia formal de polacos, já que Monte Alegre nunca o foi, pois a maioria ali chegara das várias colônias formadas no Paraná desde 1863 —, eu era chamado de polaco, polaquinho. Eram expressões de carinho. Talvez isso se explicasse pelos cabelos aloirados, ainda infantis, e pelo sobrenome difícil de pronunciar. Eu me sentia um polaqueiro — metade polaco, metade mineiro —, dadas as origens dos meus pais. Sou filho de polaco. E de uma mineira do Sul de Minas Gerais.
Não havia discriminação no tratamento. Muito pelo contrário. Era melhor ser chamado de polaco do que de Lício, Aronxinqui ou por algum apelido depreciativo, desses que grudam e ferem, desses que reduzem.
Monte Alegre, Harmonia, Cidade Nova, além de outros agrupamentos habitacionais como Lagoa, Fazenda Velha, Mina de Carvão, Imbaúzinho, Salto Aparado, Ilha do Bom Retiro, Antas, Km 28, Mauá, Miranda, Mirandinha, Bacia, Mandaçaia e Triângulo, eram povoados, em sua grande maioria, por operários, técnicos e engenheiros da etnia polaca. Tratava-se de um empreendimento expressivo dos irmãos Laffer, Elkanah e Kadyszewicz, vindos da antiga República das Duas Nações, Polônia-Lituânia, tornaram-se Klabin para se esconder do Tzar Russo ocupante. O cemitério de Harmonia confirma: a maioria dos sepultados é de origem polaca.
Esse agrupamento humano não se sentia discriminado por ser chamado de polaco. Talvez porque, nas colônias de onde vieram, o termo galicista — criado em Curitiba, em 1927 — não tenha chegado. Talvez também porque eles próprios, ou seus pais e avós, ao desembarcarem no Porto do Rio de Janeiro, recebiam documentos nos quais se podia ser: polaco austríaco, polaco russo ou polaco alemão. Até os rutenos, vindos da província austríaca chamada Galícia, recebiam a mesma designação de polacos.
Muitos de nossos antepassados foram resultado de uma história escrita de forma torta nos cartórios, onde o “polaco” foi traduzido — e, no processo, silenciado. O meu avô Bolesław virou Boleslau; não Bolek, mas Bóles. O Kazimierz do meu pai transformou-se em um estranho Cassemiro. E o que deveria ser um diminutivo carinhoso, Karzyk, tornou-se Cajo.
Essa descaracterização é profunda. Ainda hoje, ao apresentar meus passaportes brasileiro e/ou polaco na Polônia, vejo a originalidade do meu sobrenome — Jarosiński, com J no início e S no meio — perder-se na leitura oficial. Quando o funcionário do aeroporto, da universidade ou da prefeitura lê o meu nome desfigurado pela grafia brasileira, sou obrigado a responder, quase com humor: “Nie, nie jestem Chiński”. Não, não sou chinês. Chiński é chinês no idioma dos meus avôs.
Nesses momentos, percebo que meus passaportes, em vez de atestarem minhas origens, muitas vezes as ocultam. Por isso, a minha produção cultural, ao trazer à tona a memória desses imigrantes, é um gesto de retomada. Tento devolver aos nomes a dignidade que lhes foi retirada. Recuperar o som. Reafirmar a consciência. A identidade polaca, para mim, é uma forma de resistência viva. Não importa o que foi escrito no papel ou lido na fronteira; importa a linhagem de coragem moral que carrego das minhas origens, sejam elas de Wojcieszków, Łuków, Lublin, Stare Poręby-Dobre, Lubelska, Podlaska, Mazowszka, São Sebastião da Bela Vista, Botelhos, Castro ou Harmonia-Monte Alegre. Apesar de todas as tentativas de apagamento, essa essência permanece.
Mas essa percepção, construída na infância, iria mudar.
Ao chegar a Curitiba para os estudos secundários e universitários — e também para o teatro e o cinema — já não era mais simples falar, nem se apresentar como polaco. Na cidade que consagrou o termo “polonês”, o antigo gentílico passou a soar como ofensa. Algo depreciativo. “Pejorativo”, como diziam os curitibanos mais conservadores.
Com o tempo, e já trabalhando em um dos jornais da cidade, passei a escrever obrigado aquele termo estranho aos meus ouvidos: polonês. Quase todas `as vezes por correção dos revisores. Soava artificial, mas era o que se esperava numa sociedade que havia inventando um outro gentílico. Publiquei séries de artigos no caderno cultural em que empregava os dois termos como sinônimos, numa tentativa de conciliação — ou de adaptação. A primeira grande série, com nove edições, chamou-se “Polonês – um povo sofrido”. Vieram outras. Entre elas, “Lech Wałęsa – o sindicalista que mudou o mundo” e “A Curitiba que eu Sou”. Em todas, a revisão insistia com o galicismo.
Certa vez, já repórter de televisão, fui interrompido durante uma entrevista. O entrevistado, presidente de uma associação folclórica, reagiu ao ouvir a minha palavra preferida: polaco. Disse que não admitia aquela expressão, por considerá-la pejorativa. Perguntei o que havia de pejorativo nela. Não soube responder. Virou as costas. E encerrou a entrevista. A indignação ficou — não apenas pelo gesto, mas pelo vazio da justificativa.
Os anos passaram. Outros caminhos profissionais se impuseram. Outros temas. Até que surgiu a Internet, abrindo um campo novo de possibilidades. Resolvi aprender HTML por conta própria — comprando livros, testando, errando — e criei um portal no ciberespaço. Dei-lhe o nome de Saga dos Poloneses e passei a reunir ali informações sobre a história da Polônia e de seus emigrantes no Brasil.
Era outro tempo. Poucos acessos. Quase ninguém tinha computador. Menos ainda sabia o que era um e-mail. Ainda assim, procurei anunciantes, patrocinadores, alguma forma de sustentar a iniciativa. Afinal, Curitiba concentra uma das maiores comunidades de descendentes de polacos do mundo. Mas não houve retorno. A Internet ainda não era vista como mídia. Não havia mercado. Não havia monetização. Era cedo demais.
Foi então que um cônsul da Polônia — que anos antes já me havia fornecido material para reportagens — sugeriu transformar o site em livro. A ideia fazia sentido. Naquele momento, as pessoas ainda liam. E liam em papel.
Lancei-me, então, à escrita de um livro sobre a história da Polônia e a saga daqueles emigrantes, marcados por uma condição que beirava a servidão em terras dominadas por monarquias absolutistas que não toleravam a existência de uma Polônia republicana.
Veio, então, o dilema.
Dos poloneses?
Ou dos polacos?
A palavra saga já estava definida. Carrega a ideia de travessia, de percurso, de feitos acumulados no tempo. Remete à Odisseia, à longa viagem de Odisseu, rei de Ítaca — meu nome em latim, aquele mesmo do livro de Joyce.
Restava o gentílico. “Poloneses” pesava. Excesso de letras. Excesso de forma. Decidi, enfim:
Saga dos Polacos.
Planejei lançar o livro em cidades do Sul do Brasil que, em muitos casos, sequer conheciam um lançamento literário. Cidades de forte presença da etnia polaca. Era ali que fazia sentido começar.
Foram 27 cidades. Da capital São Paulo à pequena Itaporanga, no interior paulista.
E lá fui eu.
Em Erechim, no Rio Grande do Sul, após a apresentação, sentei-me para os autógrafos. Havia fila. Atrás de mim, um imenso banner com a capa do livro. Um homem saiu da fila. Aproximou-se. Apontou para o banner.
— Você é burro! Aqui não tem polacos. Só poloneses.
E me atingiu com dois murros no ombro.
Procurei ajuda com os olhos. Não veio. Levantei-me. Recolhi o material. Saí. Não seria agredido. Nem reagiria.
Mas esta não foi a única vez.
Em São Paulo, um casal de idosos repetiu a mesma frase. E virou a mesa com todos os exemplares sobre mim.
Em Curitiba, durante outra noite de autógrafos, o presidente da entidade interrompeu o evento, chamou o evento de “palhaçada” e lançou meus livros pela janela. E ninguém reagiu. Saí dali como entrei.
Mas não do mesmo modo. Não fiquei frustrado.
Pelo contrário: saí decidido.
Certo de que minha missão seria a de defender um termo que atravessou séculos, que existe em pelo menos outras três línguas, o lusitano, o castelhano e o italiano, palavra que carrega som, história e identidade. No Brasil, mais especificamente em Curitiba, no entanto, uma elite conservadora conseguiu apagá-lo. E o mais grave: o patrulhamento ideológico, que antes vinha de fora, passou a vir de dentro. Da própria comunidade. Que não admite — ainda hoje — ser chamada de polaca.
Mas aquele primeiro livro rendeu frutos. Passou a ser reconhecido em dissertações e teses mundo afora, seja em citações, seja em referências bibliográficas. E em diversos idiomas.
Impressionou-me a repercussão do meu trabalho que, a princípio, era solitário e eivado de críticas. Era como ver aquele esforço atravessar fronteiras tão distintas. Ver obras minhas — para citar apenas três, entre as 21 já publicadas, como Saga dos Polacos, Polaco e Polacos do Brasil — sendo citadas em universidades da Finlândia a Polônia colocava uma quase epopeia paranaense em um patamar global de estudos sobre migrações e identidade.
Sentia que meu trabalho passava a exigir uma envergadura compatível com veículos que tratam a informação com a seriedade de um jornal de registro. Assim, quando o jornal Gazeta do Povo, em 2010, dedicou oito colunas ao meu segundo livro, Polaco – identidade cultural do brasileiro descendente de imigrantes da Polônia, este cumpriu, de certa forma, o papel de ponte entre a academia internacional e o cidadão curitibano.
Ao se tornar referência em países como Angola e Vietnã, minha pesquisa demonstra que a questão do “ser polaco” em Curitiba serve de espelho para compreender como povos deslocados por invasões mantêm sua essência em qualquer parte do mundo. Trata-se de um conteúdo que exige esforço, permanência e resiliência — e não apenas o imediatismo de um portal digital, como o que substituiu o antigo site dos anos 1990, Saga dos Poloneses, e que veio a se consolidar no blogspot, já com duas décadas, Jarosiński do Brasil.
Mas antes é preciso destacar: foi justamente Saga dos Polacos que abriu portas. A partir dele, recebi bolsa de estudos do Ministério da Educação da Polônia para cursos de idioma e cultura polaca, seguidos de mestrado em estudos de cultura internacional e doutorado em história na mais antiga universidade da Polônia, a Universidade Iaguelônica, em Cracóvia.
E foi lá, caminhando pelo bosque Planty que circunda a cidade medieval de Kopernik e subindo a colina do Przegorzały, que me deparei com um termo que soou, para mim, como uma forma sutil de discriminação ao sangue que corre nas minhas veias. Sabe-se lá quando surgiu — talvez no século XIX, talvez no início do XX, ainda sob a Polônia ocupada pelas monarquias vizinhas — aquele termo discriminatório: polonijne.
Para mim, ele é a representação da tentativa de dividir os de mesma origem em categorias distintas: os que nascem na Polônia seriam “poloneses”; os que nascem fora, “polonijne” ou “polônicos”. Este último mais usado no Brasil, já que nos demais países lusófonos se preservaram o termo polaco em convivência mais natural sem o adjetivo funesto.
Não me restou dúvida alguma. Aquela palavra divisionista é a típica barreira da burocracia acadêmica e diplomática ignorando a realidade da identidade.
Ao empregar termos distintos para designar os da terra e os da diáspora, essas instituições acabam por criar uma hierarquia artificial. O sangue e a cultura não se alteram conforme a fronteira. Por isso mesmo, não se justificam. O termo polaco, ao contrário, unifica essa identidade sem as divisões impostas pelo protocolo.
Essa insistência em “polônico” soa quase clínica, distante, enquanto “polaco” permanece orgânico, histórico, enraizado. Nos demais países lusófonos, essa naturalidade foi preservada. No Brasil, porém, criou-se um nó linguístico — e, com ele, uma tensão que ultrapassa a linguagem e alcança a própria percepção de identidade.
Depois de 40 anos de produção, com meus livros circulando pelo mundo, meu blog sendo acessado em todas as línguas, meu canal de YouTube sendo estudado, percebo que há ainda pouco movimento entre jovens pesquisadores, professores, doutores, mestres e cientistas no Brasil no sentido de adotar essa luta pela preservação da terminologia original. Persistem, em grande medida, os termos que considero inadequados — polonês, polônico e, mais grave, polonijne.
São poucos os trabalhos que tomaram consciência da necessidade de restaurar a dignidade do termo polaco. Existem, é verdade, ao menos três dissertações recentes em universidades que passaram a utilizá-lo abertamente. E isso sem teimosia perante a censura. Mas há também outras que me criticam por empregar um termo que consideram obsoleto e pejorativo. Em algumas, sou classificado como “cabeça dura”.
Prefiro outro conceito.
Assumo, sem constrangimento, o rótulo de “Polaco do Kontra”, como chegou a destacar o jornal Gazeta do Povo.
Ser chamado assim acaba sendo, para mim, um elogio. É a prova de que minha obra não é passiva. Ela provoca. E, sobretudo, exige posicionamento.
O fato de existirem dissertações dedicadas a criticar o uso do termo original — preferindo a terminologia consolidada pela elite polaca curitibana a partir de 1927 — sim, foi neste ano e nesta cidade que o galicismo foi implantado como mãos de ferro — demonstra que há, de fato, um desconforto instalado. De certo modo, indica que o consenso acadêmico, e talvez também o diplomático, vem sendo tensionado.
Na ciência, quando alguém é chamado de “cabeça dura” por sustentar uma terminologia, muitas vezes isso revela menos um erro individual e mais a resistência de estruturas que evitam rever seus próprios fundamentos. A realidade vivida — nas ruas, nas famílias, na memória — nem sempre coincide com a linguagem normatizada.
Ao assumir o “contra” — ou przekora, ou kontra — inscrevo-me, conscientemente, em uma tradição de pensamento que não se submete a modismos linguísticos nem a consensos frágeis. A etnia polaca carrega este traço de sobrevivência ou de orgulho, ou seja a recusa em se curvar ao que é imposto de fora. O próprio hino traz o verso Jeszcze Polska nie zginęła (A Polônia ainda não pereceu).
As dissertações que já adotam o termo polaco indicam que esse movimento começa a produzir efeitos. Ainda que pontuais, revelam a formação de uma continuidade. De outro lado, as críticas mantêm o debate vivo e evidenciam algo essencial: enquanto “polonês” e “polônico” dependem de validação constante, “polaco” se sustenta pela própria história, pela oralidade, pela memória coletiva.
E é aí que reside o ponto central. Não se trata de uma disputa semântica. Trata-se de uma disputa por legitimidade histórica.
De quem nomeia.
De quem define.
E de quem resiste.
Porque, ao fim de tudo, as palavras que sobrevivem não são as impostas — são as vividas.
E “polaco” foi a primeira palavra com que me reconheceram.
Veio antes da dúvida. Antes da correção. Antes do constrangimento. Antes da tentativa de ajuste, da imposição, do patrulhamento ideológico.
Ficou no âmago. Ficou.
E “polaco”, mais do que um termo, é isso: uma permanência. Uma imanência. Aquilo que não se separa daquilo que se é.
Texto: Ulisses Iarochinski















