sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Diáspora Rasurada: a ucranianização da etnia polaca em Prudentópolis

Cais de desembarque na Ilha das Flores, na Baia da Guanabara, início do séc. XX

A história da imigração polaca para o Brasil, entre 1824 e 1989, foi marcada por um processo sistemático de ocultação, fragmentação e distorção de dados estatísticos e culturais. Durante décadas, narrativas tradicionais, fortemente condicionadas por uma perspectiva paranaense-centrista, contribuíram para subestimar a presença polaca no território brasileiro e limitar o reconhecimento de sua dimensão histórica.

O confronto com revisões historiográficas contemporâneas evidencia a magnitude dessa discrepância: de uma estimativa tradicional de 102 mil imigrantes, chega-se a um contingente de 592 mil polacos que vieram para o Brasil.

Esse apagamento não se restringiu aos números.

Envolveu a atuação de elites intelectuais, a intervenção nacionalista de ordens religiosas — notadamente os Padres Basilianos (1) — e os efeitos da Campanha de Nacionalização promovida durante o governo de Getúlio Vargas. Suas consequências também se materializaram na toponímia e no planejamento urbano, inscrevendo no espaço público as marcas de uma memória seletiva.

Reconhecer esse processo significa questionar versões consolidadas, recuperar informações relegadas ao esquecimento e restituir à imigração polaca a dimensão que lhe cabe na história do Brasil.

O Paradoxo dos Números e o "Invisibilismo" Geopolítico

Por mais de um século, a história da imigração no Brasil operou sob o dogma de balizas estatísticas oficiais severamente defasadas. As estimativas de Edmund Saporski (1920), os relatórios consulares de Kazimierz Głuchowski (1927) e os dados do Consulado Geral da Polônia (1937) balizavam o teto da imigração polaca entre 100 mil e 150 mil indivíduos.

Esse ecossistema numérico gerou um paradoxo demográfico insustentável: a incapacidade matemática de explicar como uma base tão exígua de pioneiros poderia ter gerado uma comunidade contemporânea de descendentes (a etnia polaca) estimada em mais de 5 milhões de pessoas.

A ruptura desse cenário consolidou-se com as investigações de Jan Pitoń, publicadas e expandidas pelo jornalista e historiador Ulisses Iarochinski (2023), e validadas cientificamente pelo historiador e arqueólogo Dr. Fabrício Vicroski. A revisão documental demonstrou que, entre 1824 e 1971, o número real de emigrantes polacos chegados ao Brasil foi da ordem de 592 mil indivíduos.

O principal motor desse apagamento inicial foi o "invisibilismo" geopolítico decorrente das Partilhas da Polônia (1795–1918). Sem um Estado soberano, os polacos que emitiam passaportes para as Américas vinham vinculados às potências ocupantes: quem partia de Varsóvia era registrado nos portos brasileiros como russo; os nativos da Galícia entravam como austríacos; e os originários da Posnânia ou Silésia eram carimbados como alemães/prussianos.

Historiadores tradicionais, como Ruy Christovam Wachowicz, incorreram em um erro metodológico primário ao aceitar a capa dos passaportes como definidora de nacionalidade, ignorando a filologia e a antroponímia dos registros paroquiais.

A desconstrução dos mitos fundadores
e a perversidade historiográfica

A historiografia oficial paranaense sacralizou as 32 famílias assentadas no Pilarzinho (Curitiba) em 1871 como o "Ano Zero" da imigração polaca. Essa narrativa atendeu a um projeto de centralização cultural e política, conferindo à elite intelectual curitibana o monopólio da interlocução com Varsóvia e o controle das verbas e do prestígio diplomático. Esse "Paraná-centrismo" de Wachowicz resultou no apagamento de fluxos migratórios mais antigos, mais expressivos e geograficamente dispersos, resgatados por Pitoń:

- O Grupo de Hieronim Durski (1863): Ativista político e intelectual refugiado do Levante de Janeiro contra o Império Russo, Durski estabeleceu-se em Curitiba quase uma década antes do Pilarzinho, mas foi omitido por não se enquadrar no arquétipo do "camponês católico dócil" desejado pelo governo provincial.

- O Espírito Santo (1847): A chegada de cerca de 200 famílias polacas nas colônias imperiais de Santa Leopoldina e Santa Teresa, oriundas de Poznań e Silésia com passaportes prussianos, foi completamente abafada, reduzindo erroneamente a história capixaba à imigração tardia de 1929 em São Gabriel da Palha.

- São Paulo, Rio de Janeiro e Goiás: Estados que absorveram milhares de polacos urbanos, operários ferroviários e artesãos que sofreram despolonização compulsória nos cartórios civis locais.

A Farsa da Pureza Étnica: O Caso de Prudentópolis
e a Engenharia Nacionalista

O município de Prudentópolis, tradicionalmente celebrado pelo poder público e pelo turismo oficial como a "Ucrânia Brasileira", serve como o maior laboratório de manipulação demográfica e identitária do Sul do país. Em sua formação original, a colônia abrigava 60% de rutenos (ucranianos) e 40% de polacos.

No entanto, a realidade histórica dessas populações era a bietnicidade da Galícia Oriental, moldada pelo conceito de gente Ruthenus, natione Polonus, fórmula que expressava uma identidade de origem rutena articulada a uma identificação nacional polaca. A dissolução artificial dessa convivência interétnica foi operada a partir da década de 1920 por meio de três mecanismos:

1. A Religião a Serviço da Divisão: A Atuação dos Padres Basilianos, liderados pela Ordem de São Basílio Magno, os padres ucranianos bizantinos importaram as tensões nacionalistas europeias para o solo paranaense. Utilizando o púlpito e o confessionário, os basilianos criminalizaram os casamentos mistos e o bilinguismo doméstico.

Passaram a classificar o rito bizantino como sinônimo de "pureza ucraniana" e o rito latino como "polaco", fragmentando irmãos de sangue em estatísticas opostas.

Essa "guerra santa" estendeu-se com violência ideológica por um vasto cinturão de municípios do interior do Paraná e Rio Grande do Sul: Irati, Mallet, Rio Azul, Rebouças, Cruz Machado, União da Vitória, Antônio Olinto, Paulo Frontin, Rio Claro do Sul, Ipiranga, Guarapuava, Pinhão, Reserva, Tibagi, Telêmaco Borba e Cascavel.

Do ponto de vista histórico, complexo e extremamente significativo para a formação social de Prudentópolis, estudos recentes de historiadores e cientistas sociais apontam para um profundo processo de “ucranização” identitária e cultural, fortemente conduzido pela atuação dos padres basilianos.

Quando os imigrantes eslavos — tanto rutenos nascidos nas terras polacas ocupadas pelo Império da Áustria quanto polacos — chegaram no final do século XIX e outros que foram transmigrados da região do entorno de Curitiba no início do século XX.

Ao serem assentados em Prudentópolis, encontraram um severo isolamento geográfico e espiritual. Assim, foram os padres basilianos do rito greco-bizantino ruteno que assumiram um papel que ia muito além do religioso.

Além de alfabetizadores e editores de jornais locais, como o Missionar e o Praciá, tornaram-se lideranças políticas e defensores da identidade nacional rutena, que, a partir dos anos 1920, passaria progressivamente a ser apresentada como ucraniana em solo brasileiro. A Igreja de rito bizantino tornou-se, assim, o centro da vida social e comunitária.

Nas colônias, as populações polaca e ucraniana reproduziam, em grande medida, a convivência trazida das terras de origem. Com o passar das gerações, os casamentos mistos tornaram-se comuns. Entretanto, diante da força ideológica, educacional e demográfica construída pelos basilianos, a balança cultural acabou pendendo de maneira acentuada para o lado ucraniano.

Muitas famílias de origem originalmente polaca acabaram assimiladas por esse processo: passaram a falar o ucraniano, adotaram o rito bizantino e, com o tempo, a memória familiar da origem polaca foi se diluindo diante da narrativa identitária predominante no município.

Daí decorre a existência de descendentes com sobrenomes originalmente polacos que, atualmente, se autodeclaram e se identificam integralmente como ucranianos.

Esse nacionalismo religioso e linguístico operou, sim, como um forte mecanismo de diferenciação diante do catolicismo romano. A manutenção da língua e do rito bizantino não constituía apenas uma escolha litúrgica, mas também parte de um projeto de preservação de uma “Ucrânia idealizada”, capaz de produzir uma coesão identitária que, ao longo das gerações, contribuiu para absorver, diluir ou marginalizar traços da presença polaca na região.

A identidade de Prudentópolis não brotou do nada.

Ela foi sendo ativamente moldada e consolidada pela liderança clerical ao longo do século XX. Embora, na área urbana, existam igrejas dos dois ritos, com duas de rito latino e duas de rito bizantino ruteno, é na zona rural que a dimensão dessa presença se torna mais evidente.

Segundo o boletim da Metropolia Católica Ucraniana São João Batista, de 2014, a estrutura religiosa do município contava então com 48 capelas do rito bizantino ucraniano. Do outro lado, eram 73 capelas do rito católico latino.

Dados divulgados posteriormente pela Rede Sul de Notícias, citando declaração do então presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Ademar Traiano, apontam para mais de 50 igrejas católicas de rito bizantino ucraniano e outros 70 templos do rito católico latino.

Os números revelam, portanto, uma presença expressiva dos dois ritos, mas não explicam, por si mesmos, a dimensão da influência cultural exercida pelo rito bizantino na formação da identidade de Prudentópolis. Essa influência ultrapassou a esfera estritamente litúrgica.

A Igreja de rito bizantino tornou-se também espaço de sociabilidade, alfabetização, imprensa, organização comunitária e afirmação étnica. Foi nesse ambiente que a identidade ucraniana passou a adquirir uma centralidade que alcançaria, ao longo das gerações, descendentes de diferentes origens eslavas.

Há, entretanto, uma particularidade que precisa ser ressaltada: tanto os católicos de rito bizantino ucraniano quanto os católicos de rito latino reconhecem o Papa de Roma como autoridade máxima.

Não se trata, portanto, de uma divisão entre uma Igreja subordinada a Roma e outra submetida aos Patriarcas de Moscou ou de Atenas. São duas tradições litúrgicas distintas dentro da mesma Igreja Católica.

Em Prudentópolis, porém, essa diferença ritual adquiriu também uma dimensão étnica, cultural e identitária, tornando-se um dos instrumentos pelos quais a identidade ucraniana foi preservada, afirmada e transmitida às novas gerações.

Quando a Prefeitura de Prudentópolis informa, em seus materiais institucionais, que 75% da população é de origem ucraniana, é necessário perguntar quais critérios foram utilizados para chegar a essa proporção.

É possível que esse percentual esteja incorporando ao conjunto da população de origem ucraniana os descendentes de polacos e de outras etnias que, ao longo das gerações, foram assimilados pelo processo de ucranização identitária e cultural ocorrido no município. Caso contrário, os números não fecham.

2. A Maquiagem Etimológica de Tarnopol

Para blindar Prudentópolis contra a sua herança polaca, as narrativas oficiais locais criaram a farsa linguística de que a cidade de Tarnopol (região de origem da maior parte dos colonos) era a junção da palavra eslava Tarno ("espinho") com o grego polis, significando "Cidade dos Espinhos".

O objetivo deliberado era ocultar que a cidade foi fundada em 1540 pelo magnata e general supremo (Hetman) polaco Jan Amor Tarnowski, sendo historicamente uma cidade de propriedade privada de uma das linhagens mais tradicionais da nobreza polaca (Szlachta).

Os "espinhos" pertenciam, na verdade, à etimologia da cidade de Tarnów (Polônia central), berço da família Tarnowski.

Outra informação relevante sobre aquela região da Polônia ocupada, publicada no livro Polacos do Brasil – a etnia em números e sobrenomes, deste autor, diz respeito à composição étnica da Galícia austríaca.

Segundo G. W. Prothero, a população da Galícia, de acordo com o último censo oficial então disponível, apresentava a seguinte composição:

De acordo com o último censo oficial, a Galícia possuía 8.025.600 habitantes (Galicia do Oeste 2.689.800, Leste 5.335.800). Do número total, 4.672.000 eram registrados como polacos, 3.208.000 falantes da língua rutena e 90.000 falantes da língua alemã (austríacos). A proporção das nacionalidades era calculada em 58,6% polacos, em 40% russos e rutenos e 1,1% austríacos. Os judeus, embora falassem iídiche entre si, eram registrados como falantes da língua polaca e, portanto, eram contados como judeus da Galícia em número de 872.000 habitantes ou cerca de 11% da população total, o que pode ser tomado como representativo do número de judeus não assimilados na Polônia.(2)

É importante observar como essas categorias eram empregadas naquele contexto histórico. Os rutenos que viviam nas terras da Galícia não constituíam uma população que pudesse ser simplesmente transportada, em termos nacionais e territoriais, para a atual definição de “ucranianos”.

A própria fonte utilizada por Prothero empregava as categorias “russos e rutenos” para designar parte significativa dessa população, dentro das classificações políticas e linguísticas vigentes naquele período. Os imigrantes rutenos que chegaram a Prudentópolis eram, portanto, oriundos de territórios que pertenciam à então Polônia ocupada pelo Império Austro-Húngaro, particularmente de regiões que hoje se encontram em diferentes Estados nacionais.

Parte dessa população procedia de áreas da Podólia, da Volínia e da Małopolska (Pequena Polônia), regiões cuja configuração política e territorial não pode ser simplesmente projetada sobre o mapa contemporâneo da Ucrânia.

As duas principais cidades da ocupação austríaca eram Cracóvia (Kraków) com 174 mil habitantes e Lwów (Leões) com 206 mil habitantes. A população total da Galícia Austríaca, entre 1890 e 1910, não se alterou muito, em que pese a saída dos emigrantes conhecida como “Febre Brasileira”. A grande maioria dos rutenos assentada na Colônia Prudentópolis era da Galícia do Oeste, onde os polacos eram maioria com 96% da população. E este território, efetivamente sempre foi da República polaca. Em nenhum momento, ele pertenceu a Rutênia (antes era território Viking).(3)

Por isso, afirmar que todos os descendentes atualmente identificados como ucranianos em Prudentópolis descendem de imigrantes que “vieram da Ucrânia” constitui uma simplificação temporal e geográfica.

A Ucrânia contemporânea é uma realidade territorial e política posterior a essas migrações. Para compreender a origem daqueles imigrantes, é necessário retornar às fronteiras, aos impérios, às denominações étnicas e às classificações linguísticas existentes na época em que deixaram suas terras de origem.

3. O Paradoxal Sequestro do Salame Cracóvia (1960)

O embutido defumado mais famoso da culinária de Prudentópolis sintetiza esse apagamento identitário. Criada em 1960 nas dependências do Açougue Alvorada, a receita original de carne suína nobre defumada nasceu sob a direta sugestão e inspiração do colono polaco Dionísio (Diozísio) Opuszkiewicz (transcrita na burocracia local sob deformações fonéticas variadas), dono do Açougue Alvorada, que ofereceu ao amigo, também polaco, Lucas (Łukasz) Usoski (Ozowski), que foi quem nominou o embutido de Cracóvia, pois fazia lembrar a Kiełbasa krakowska ou Krakowiak, o requintado salame de partes nobres das carnes de suíno, produzido a centenas de anos na capital cultural da Polônia.

Posteriormente, a consolidação comercial, a produção em massa e a preservação tradicional do embutido foram desenvolvidas e operadas pela tradicional família Machulek (pronuncia-se Márrúlék) — um sobrenome de raiz polaca (um diminutivo derivado de Mach, variante de Maciej / Matias). 

Apesar do nome da cidade de origem, da sugestão inicial de Usoski e do sobrenome eslavo-polaco dos produtores históricos (os Machulek e os Opuszkiewicz), o produto foi capturado pelo marketing municipal moderno e carimbado de forma monolítica como um patrimônio exclusivo da "cultura ucraniana".





 4. As deturpações junto ao INPI

O fenômeno descrito no registro do INPI com precisão documental e histórica possui nomes muito claros na sociologia, na antropologia e na ciência política.

Quando um grupo minoritário, suas produções e sua memória são sistematicamente engolidos pela narrativa de um grupo hegemônico, estamos diante de um processo de etnocídio cultural espontâneo (ou etnocídio estatístico), operado por meio do revisionismo histórico institucional e do sequestro de patrimônio identitário.

No jargão técnico da sociologia das migrações, o que ocorre em Prudentópolis pode ser definido como uma ucranização por assimilação hegemônica. Essa deturpação, agora oficializada no documento do INPI (Registro BR402023000016-5), desvela três graves abusos historiográficos que o seu artigo denuncia:

A. Etnocídio Estatístico e Apropriação Indébita de Dados

Quando a Associação dos Produtores de Embutidos de Prudentópolis (APEP) — presidida pela própria família Machulek — preenche uma ficha pública federal alegando que "80% da população do município é de ucranianos", sem qualquer amparo em censos oficiais confiáveis, o documento revela um processo de construção institucional dessa narrativa identitária.

Nem o IBGE, em nenhum de seus censos, jamais categorizou a população de Prudentópolis dessa forma baseando-se em critérios científicos de ancestralidade pura. Trata-se do uso de estimativas panfletárias e infladas para forçar o Estado a chancelar uma hegemonia artificial.

B. Sequestro de Patrimônio Cultural (Apropriação Cultural Reversa)

O termo técnico para o que fizeram com a Cracóvia criada em 1960 é sequestro de patrimônio. O Dossiê Técnico do INPI confessa a participação de Lucas Ozowski (Usoski) e da linhagem Opuszkiewicz, mas a narrativa da APEP e do material de divulgação do Sebrae reconstrói o fato carimbando-os como "descendentes de ucranianos".

Ao transformar Usoski, Opuszkiewicz e os próprios Machulek (cuja raiz é puramente polaca) em "ucranianos", o município pratica uma canibalização de identidade: eles não conseguem negar que o embutido tem nome polaco e sobrenomes polacos, então eles "ucranianizam" as pessoas à força na canetada burocrática.

O trabalho dos padres basilianos na ucranização do município de Prudentópolis se revela na enorme quantidade igrejas e capelas

C. A Síndrome da Amnésia Coletiva Induzida

O fato de os atuais membros da família Machulek assinarem e defenderem essa petição declarando-se ucranianos é o ápice do alienamento cultural.

 Isso pode ser interpretado como um dos efeitos de longo prazo da pressão histórica e cultural exercida pelas lideranças comunitárias e clericais no passado foi tão profunda que gerou uma geração de descendentes incapazes de ler a gramática e a herança do próprio sobrenome polaco-eslavo que carregam.

Eles foram ensinados a ter vergonha ou a esquecer a raiz polaca em prol do "selo comercial" e do monopólio político que a etiqueta ucraniana confere à cidade.

D. O Nome da Deturpação

Se você precisar dar um nome a isso em suas discussões, palestras ou artigos, utilize os termos:

Monopolização Identitária Coercitiva: O ato de apagar a pluralidade formadora biétnica (rutenos + polacos) para vender uma marca monolítica e lucrativa.

Falsificação Documental Historiográfica: O uso de instâncias de registro do Estado (como o INPI) para validar mentiras estatísticas e omitir as verdadeiras linhagens fundadoras.

Essa ficha técnica da APEP protocolada no INPI não desmente o este artigo; pelo contrário, ela é a prova material do crime de apagamento que se está denunciando. É a prova impressa de que o poder público e o comércio local preferem oficializar o folclore e o revisionismo a reconhecer a verdadeira, mista e rica história de Prudentópolis.

4. A Caneta do Cartório e a Apropriação do Espaço Urbano em Curitiba

O desaparecimento estatístico e visual dos polacos concretizou-se na mutilação dos sobrenomes e no desenho urbano das cidades. Sobrenomes polacos clássicos foram reescritos em Prudentópolis e demais colônias para eliminar marcadores linguísticos (os dígrafos sz, cz e o sufixo -ski): Tarnowski foi reduzido a Ternoski; Paszko foi neutralizado como Pasko. Essa mutação quebrou as cadeias genealógicas e facilitou o enquadramento dessas famílias nas listas de outras etnias.

Na capital paranaense, Curitiba, o apagamento espacial assumiu contornos geográficos agressivos. Os tradicionais bairros Bigorrilho e Mercês, habitados historicamente por contingentes operários e agrícolas biétnicos, foram submetidos a um processo de gentrificação da memória.

A imposição de marcos bizantinos e o rebatizamento de praças (como a Praça Ucrânia) criaram enclaves cenográficos. Posteriormente, a instalação de um templo e de um grupo folclórico de rito e cultura ortodoxa na Vila Guairá buscou estender esse domínio territorial eclesiástico oriental para além dos eixos coloniais tradicionais que hoje formam os bairros.

A maior ironia desse apagamento materializa-se na Rua Cândido Hartmann, que corta a Praça Ucrânia e serve de artéria de ligação entre o centro da cidade e a histórica colônia polaca do Santo Inácio.

1. O poder público e a especulação imobiliária limparam o nome da colônia polaca da mente urbana, rebatizando a região sob a etiqueta de Parque Barigui.

2. O homenageado da via, Cândido Hartmann, é consensualmente repetido pela população como de origem alemã, quando as revisões documentais comprovaram tratar-se de um cidadão de etnia e origem polaca vindo de zonas de ocupação prussiana.

A Campanha de Nacionalização de Getúlio Vargas (1938) funcionou como o golpe de misericórdia nesse caos identitário, ao fechar as escolas polacas, queimar arquivos comunitários e impor o aportuguesamento forçado, cristalizando as mentiras burocráticas do século XIX.

5. Conclusão: Contra o Apagamento, a Memória Documental

A história da imigração polaca na América do Sul ainda está longe de ser uma história concluída. O que este estudo procura demonstrar é que o problema não reside apenas na insuficiência de números, na perda de documentos ou nas dificuldades inerentes à classificação dos imigrantes provenientes de territórios que, durante mais de um século, estiveram submetidos a diferentes Estados imperiais.

O problema é mais profundo: a própria construção da memória migratória foi condicionada por categorias políticas, administrativas, religiosas e culturais que nem sempre correspondiam à identidade daqueles que atravessaram o Atlântico.

O polaco que chegava ao Brasil trazendo um passaporte russo, austríaco ou prussiano não deixava de ser polaco porque o documento de viagem o vinculava à potência que ocupava sua terra.

Do mesmo modo, o habitante da Galícia que podia ser simultaneamente ruteno e polaco pela origem, polaco pela cultura, católico latino ou bizantino pelo rito e cidadão do Império Austro-Húngaro não cabe nas gavetas étnicas rígidas que posteriormente foram construídas pelos Estados, pelas instituições religiosas e pelas narrativas nacionalistas.

É justamente nesse ponto que a expressão “diáspora rasurada” adquire seu sentido histórico. Não se trata de afirmar que toda classificação administrativa tenha sido deliberadamente fraudulenta, nem de substituir uma narrativa nacionalista por outra.

Trata-se de reconhecer que sucessivas classificações produziram perdas de informação. Sobrenomes foram alterados, topônimos desapareceram, escolas foram fechadas, arquivos comunitários foram destruídos ou dispersos, e pessoas passaram a ser registradas segundo a nacionalidade do Estado que lhes concedera o documento, e não necessariamente segundo sua origem histórica, seu sangue mesclado, sua língua, sua cultura ou a forma como se reconheciam.

A consequência foi uma espécie de efeito cascata da documentação: um registro equivocado ou simplificado podia alimentar estatísticas posteriores; essas estatísticas podiam orientar estudos historiográficos; os estudos podiam consolidar uma determinada narrativa; e a narrativa, por sua vez, retornava à sociedade como uma verdade aparentemente incontestável.

É nesse circuito que o Paraná-centrismo, as disputas identitárias da antiga Galícia, a nacionalização varguista e determinadas formas posteriores de institucionalização da memória precisam ser analisados. Não como fenômenos isolados, mas como partes de processos históricos que contribuíram, em diferentes momentos e por diferentes razões, para tornar algumas presenças mais visíveis que outras.

O caso de Prudentópolis é particularmente revelador porque permite observar, no mesmo território, a convivência histórica de populações cuja experiência não pode ser reduzida às categorias nacionais atualmente utilizadas.

A história dos rutenos, dos polacos e de seus descendentes exige uma leitura capaz de compreender a fluidez das identidades no mundo centro-oriental europeu e a maneira como essas identidades foram posteriormente reorganizadas no Brasil.

Isso não significa negar a existência da imigração ucraniana, tampouco reivindicar para os polacos tudo aquilo que posteriormente foi incorporado à cultura ucraniana no Paraná.

Significa, antes, recusar a transformação de uma história complexa em uma identidade única e retrospectivamente pura. Uma sociedade de imigração não é um mosaico formado por peças que chegaram prontas ao porto.

Ela é um processo histórico no qual línguas, religiões, sobrenomes, casamentos, costumes, memórias e pertencimentos se cruzam, se transformam e, muitas vezes, entram em conflito.

A mesma cautela deve ser aplicada à história material. Uma rua, uma praça, um bairro, uma igreja, um monumento, uma receita culinária ou um sobrenome não constituem, isoladamente, uma prova suficiente de pertencimento étnico.

Mas, quando confrontados com registros civis, paroquiais, mapas, documentos de imigração, correspondências, jornais, fotografias, testemunhos orais e outras fontes primárias, podem revelar aquilo que as estatísticas nacionais deixaram escapar.

Por isso, a revisão aqui proposta não pretende simplesmente trocar um número por outro ou uma etiqueta étnica por outra.

O objetivo é reconstruir os mecanismos pelos quais a presença polaca foi fragmentada nos documentos e posteriormente recomposta pela historiografia de maneira incompleta.

A revisão dos números da imigração brasileira, nesse sentido, possui importância que ultrapassa a dimensão estatística. Se novas pesquisas documentais demonstrarem que centenas de milhares de indivíduos classificados historicamente como russos, austríacos, alemães ou prussianos eram, em diferentes graus e contextos, oriundos das terras polacas, a própria escala da diáspora precisará ser reconsiderada.

E, com ela, terão de ser revisitadas as interpretações sobre colonização, urbanização, trabalho, religião, escolarização, organização comunitária e formação cultural brasileira.

A diáspora polaca foi, portanto, muito mais diversa do que as narrativas nacionais posteriores permitiram enxergar. Reconstruí-la exige uma mudança de método: seguir as pessoas antes das etiquetas administrativas; seguir os documentos antes das tradições repetidas; e seguir as trajetórias familiares antes das fronteiras políticas que mudaram sobre elas.

É nesse sentido que este artigo propõe uma revisão da memória da imigração polaca. Não para construir uma nova pureza étnica — o que reproduziria exatamente o erro que se pretende combater —, mas para devolver complexidade àquilo que foi simplificado. A história não precisa de identidades puras.

Precisa de documentos, de comparação entre fontes, de crítica historiográfica e, sobretudo, da disposição de reconhecer as zonas de contato, contradição e mestiçagem cultural que constituem a experiência humana.

Se a diáspora foi rasurada, a tarefa do historiador não é escrever uma nova legenda sobre a rasura. É recuperar, tanto quanto as fontes permitirem, aquilo que existia por baixo dela. Porque apagar uma identidade da estatística não elimina a pessoa que a carregou.

Apagar um sobrenome do mapa não elimina a família que o transmitiu.

E apagar uma memória dos documentos não significa que ela tenha deixado de existir.

E talvez seja esta a maior inquietação que permanece depois de percorrer os caminhos dessa diáspora rasurada: não basta denunciar o que os impérios fizeram ontem se continuarmos permitindo que outras narrativas nacionais façam hoje, exatamente aquilo que condenamos naqueles impérios.

Durante as Partilhas, a Alemanha, a Rússia e a Áustria retiraram dos polacos a soberania sobre sua terra e, com ela, muitas vezes, o direito de nomear a própria história.

Séculos depois, vemos fenômeno semelhante quando elementos da cultura polaca são despojados de sua origem, recebem nova grafia, nova pronúncia e nova nacionalidade — a szarlotka transformada em strudel, o sernik convertido em cheesecake, a piwo reduzida a beer, a wódka transformada em vodka — e, no Paraná, quando o Krakowiak, criado por polacos, passa a ser apresentado como “cracóvia” de origem ucraniana, ou quando os pisanki polacos são rebatizados institucionalmente como “pêssankas” e incorporados a um patrimônio que apaga sua procedência.

 O que mais inquieta, porém, não é apenas a apropriação: é o silêncio daqueles que deveriam reconhecer e defender essa memória.

Uma comunidade que assiste passivamente à substituição de seus nomes, de seus símbolos, de sua gastronomia e de suas tradições corre o risco de perder não apenas a memória do passado, mas também a capacidade de reconhecer a si mesma no presente.

Não se trata de reivindicar uma “pureza polaca” — seria repetir o mesmo erro essencialista que este artigo quer combater.

Trata-se de exigir o direito elementar de que cada cultura seja chamada pelo seu nome e tenha reconhecida a sua origem.

Se os polacos não defenderem a própria memória, outros escreverão por eles a história que lhes convém — e, quando finalmente perceberem a rasura, talvez já não reste ninguém capaz de ler o que estava escrito sob ela.

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Referências Bibliográficas

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Notas:
(1) Da Ordem de São Basílio Magno ou Ordem Basiliana de São Josafat

(2) PROTHERO, G.W. AUSTRIAN POLAND, H.M. Stationery Office, London, 1920. p.3 tradução do autor. IN: IAROCHINSKI, Ulisses. Polacos do Brasil: A etnia em números e sobrenomes. Curitiba: Edição do Autor, 2023. p.519

(3) PROTHERO, G.W. IN: IAROCHINSKI, Ulisses. Polacos do Brasil – a etnia em números e sobrenomes. Edição do Autor. Curitiba. 2023. p. 520, 521









quinta-feira, 1 de outubro de 2026

AH! O ZAPIEKANKA POLACO

O sanduíche polaco zapiekanka (plural: zapiekanki) recebeu esse nome devido ao seu método de preparo ao forno. A palavra deriva diretamente do verbo zapiekać, que significa "assar um prato de modo que os seus ingredientes se combinem e uma crosta crocante e dourada se forme por cima".

Em uma tradução mais livre e culinária para o português, a palavra significa algo como "gratinado" ou "tostado".

Na Polônia, o termo zapiekanka é genérico e também serve para designar qualquer tipo de caçarola, escondidinho ou prato gratinado feito no forno. No entanto, a palavra ficou mundialmente famosa para se referir especificamente à icônica comida de rua do país: a meia baguete aberta, tradicionalmente coberta com cogumelos e queijo derretido, levada ao forno até ficar crocante e finalizada com "ketchup".

QUEM INVENTOU?

Não há um único inventor oficial ou "autor" com nome e sobrenome creditado pela criação do zapiekanka. Assim como acontece com muitas comidas de rua tradicionais ao redor do mundo, ele nasceu de forma espontânea a partir da criatividade popular e da necessidade. No entanto, a história aponta duas figuras centrais que permitiram que o sanduíche existisse:

1. O "facilitador" político: Edward Gierek.
Na década de 1970, a Polônia vivia sob o regime socialista soviético. O líder do partido na época, Edward Gierek, havia passado a juventude na França e na Bélgica. Nostálgico e considerando o pão francês prático e saboroso, ele comprou oficialmente da França uma licença de fabricação de baguetes para a Polônia. Sem essa decisão política, o pão que serve de base para o sanduíche simplesmente não existiria no país.

2. A criatividade dos pequenos comerciantes.
Com as baguetes disponíveis, mas enfrentando uma época de forte racionamento de carne no país, os donos de pequenos quiosques de comida (uma vertente privada permitida pelo governo conhecida como "pequena gastronomia") precisaram improvisar.

Eles juntaram o novo pão aos ingredientes locais mais baratos e abundantes da época: cogumelos cultivados (champignons) e queijo.

• Há registros históricos locais, como na capital Varsóvia, de que um dos primeiros lugares a vender e popularizar a versão de cogumelos com pão foi um famoso bar chamado Murzynek, administrado na época por uma mulher chamada Sra. Nadarzyńska e sua sócia.

Portanto, o "autor" do zapiekanka é, na verdade, o próprio povo polaco, que usou a criatividade para criar um "substituto da pizza" em tempos de escassez.

O zapiekanka tradicional e popular é feito com o pieczarka, que é o nome em polaco para o cogumelo-de-paris ou champignon comum cultivado.

Na década de 1970, durante aquele período, o governo polaco incentivou o cultivo industrial em larga escala de pieczarki por serem baratos e fáceis de produzir em estufas, tornando-se o recheio padrão do sanduíche de rua.

Borowik szlachetny (Boletus edulis)

O borowik (ou, no plural, borowiki), conhecido no Brasil como Porcini, é o rei dos cogumelos silvestres da floresta polaca. A relação entre eles explica a confusão:

• O Clássico de Rua: O sanduíche barato que você compra nas praças da Polônia usa o pieczarka ralado ou picado.

• A Versão Premium ou Caseira: Como os polacos são absolutamente apaixonados por colher cogumelos silvestres no final do verão e início do outono (grzybobranie), é extremamente comum que as pessoas usem o borowik para fazer zapiekanki (forma plural) artesanais em casa.

Muitos restaurantes e quiosques também vendem uma versão gourmet recheada com borowik salteado na manteiga.

Então, se você comer um na rua, o padrão econômico histórico será o pieczarka. Mas, se você usar o borowik, transformará o clássico socialista em um prato de alta gastronomia!


Na Plac Nowy, o coração do bairro de Kazimierz, em Cracóvia, comer um zapiekanka ali, diretamente dos icônicos quiosques do Okrąglak (o prédio circular no centro da praça), é a experiência mais autêntica que existe. 

Okrąglak é um pequeno pavilhão comercial cilíndrico localizado bem no centro da Praça Nowy, em Cracóvia. Seu formato e localização o tornam difícil de passar despercebido. O edifício foi construído no início do século XX, mais precisamente em 1900, segundo o projeto do engenheiro Władysław Klimczak. À primeira vista, pode parecer discreto, mas desempenhou uma função muito importante para os moradores de Kazimierz na época.  

Quando se encontra um quiosque que prepara a versão com o borowik legítimo naquela praça, a experiência muda completamente de nível. O sabor intenso e amadeirado do porcini florestal combina perfeitamente com a base de queijo derretido e o pão tostado na hora, superando de longe o pieczarka do dia a dia.

Kazimierz (Casimiro) é justamente famoso por manter vivas essas variações mais ricas e tradicionais. A janelinha voltada para a direção do Rynek Główny (a Praça do Mercado Principal de Cracóvia) é estrategicamente uma das mais disputadas e fáceis de localizar no Okrąglak!

Fica posicionada exatamente no lado norte do edifício circular, olhando em direção à ulica (rua) Sebastiana ou Estery, que apontam para o centro histórico da cidade.

Nesse lado do prédio operam alguns dos quiosques mais tradicionais e premiados da praça, como o famoso Endzior ou o Bar Lusterka. Eles são conhecidos justamente por caprichar nas receitas e oferecer ingredientes mais nobres, como o legítimo borowik.


Comer um zapiekanka ali, observando o movimento de Kazimierz, é um clássico de Cracóvia.

RECEITA COM BOROWIKI

Ingredientes: 
• 1 meia baguete (ou pão francês comprido) cortada ao meio no sentido do comprimento.
• 150g de cogumelos Borowiki (Porcini) frescos ou congelados, picados em cubos pequenos (se usar secos, hidrate-os em água morna antes).
• 1/2 cebola pequena picada bem fininha.
• 1 colher de sopa de manteiga.
• 150 g de queijo gouda, edam ou mussarela ralado grosso.
• Sal, pimenta-do-reino moída na hora e uma pitada de tomilho fresco.
• Cebolinha picada (opcional, para finalizar).

Modo de preparo:

1. Refogue os cogumelos:
Em uma frigideira, derreta a manteiga e doure a cebola. Adicione os borowiki picados e refogue em fogo médio-alto até que fiquem macios e percam o excesso de água. Tempere com sal, pimenta e o tomilho.

2. Monte a base:
Distribua o refogado de cogumelos generosamente sobre as duas metades da baguete. Cubra tudo com uma camada farta de queijo ralado.

3. Asse (Air Fryer ou Forno):
Na Air Fryer: Pré-aqueça a 180°C. Coloque as metades com cuidado e asse por cerca de 5 a 7 minutos, até que o queijo esteja completamente derretido, borbulhando e com pontos dourados, e as bordas do pão estejam bem crocantes.
No Forno: Asse a 200°C por 8 a 10 minutos (use a função Grill nos minutos finais, se tiver).

4. Finalize:
Retire com cuidado, salpique a cebolinha por cima e sirva imediatamente enquanto o queijo está puxando.

EXPORTAÇÃO

Em italiano, "funghi secchi" significa apenas "cogumelos secos/desidratados". O termo não se refere a uma espécie específica de cogumelo, mas sim ao método de desidratação.

Na prática, a relação com o borowik funciona assim: A espécie idêntica é Funghi Secchi do tipo Porcini.

O legítimo borowik polaco (cientificamente Boletus edulis) é exatamente o mesmo cogumelo que os italianos chamam de Porcini.

No Brasil, é encontrado em empórios ou supermercados pacotes de funghi secchi importados da Itália, escritos especificamente "Porcini" ou "Tipo Porcini". Estes são exatamente os mesmos borowiki desidratados.

Como usar o Funghi Secchi do Brasil no Zapiekanka: independentemente de comprar o Porcini italiano (idêntico) ou o chileno, o processo para o recheio exige uma hidratação prévia, já que eles são secos:

1. Hidrate: coloque uma porção do funghi secchi em uma tigela com água morna por cerca de 15 a 20 minutos, até que fiquem bem macios.

2. Pique e Refogue: Retire os cogumelos da água, esprema levemente para tirar o excesso de umidade e pique-os em pedacinhos para colocar no pão. Refogue normalmente na manteiga com cebola, como na receita anterior.

NA PODLÁQUIA

O autor desta matéria (Ulisses Iarochinski) teve a oportunidade de, ao visitar uma fazenda de produção de cogumelos na cidade de Radzyń Podlaska, no Nordeste da Polônia, ouvir do proprietário que usava os empacotadores da Itália para vender seus cogumelos no Brasil como funghi secchi, porque o Brasil desconhece que a Polônia é a pátria do grzyb.

Muitas vezes o marketing global rasura a verdadeira origem dos produtos. O produtor de Radzyń Podlaski, do ponto de vista comercial e histórico, encontrou um modo de exportar para os famosos restaurantes italianos de São Paulo.

Aqui, compram lebre por coelho!

A Polônia é, historicamente, uma das maiores potências mundiais na colheita e exportação de cogumelos silvestres (grzyby), mas enfrenta um "apagamento comercial" por dois motivos principais:

1. A Itália detém o monopólio da marca "Porcini".

Mundialmente, a palavra italiana "porcini" e o termo Funghi Secchi viraram sinônimos de cogumelo desidratado de alta qualidade. O consumidor brasileiro comum, quando vai a um empório, associa o produto imediatamente à Toscana ou à gastronomia italiana.

Sabendo disso, as empresas italianas compram o cogumelo polaco in natura (ou recém-seco) a preços competitivos, empacotam-no na Itália com selos e design italianos e o revendem para o mundo.

O cogumelo nasce nas florestas polacas, mas chega ao Brasil com "passaporte italiano".

2. A Polônia é a verdadeira pátria do Grzyb.

A cultura do grzybobranie (a colheita de cogumelos) está no DNA polaco. Enquanto em muitos países a micologia é um nicho, na Polônia ela é uma tradição nacional, quase um esporte de outono praticado por famílias inteiras.

Além disso, geograficamente, o país possui o clima perfeito e imensas florestas de pinheiros e carvalhos que geram safras gigantescas de borowiki, podgrzybki e mais de uma dezena de outros tipos.

A Polônia é uma potência de produção que abastece a Europa silenciosamente.

O que o proprietário da fazenda contou a Iarochinski faz todo sentido econômico: para que ele consiga acessar o mercado brasileiro e obter valor agregado, ele precisa se render à "grife" que a Itália construiu, já que o Brasil ainda desconhece a riqueza da tradição micológica polaca.

É mais um exemplo de como a história e a contribuição cultural da Polônia — seja na imigração, na história ou até na culinária — muitas vezes acabam ficando escondidas sob outras narrativas.

A relação da Polônia com os cogumelos vai muito além de um hábito culinário; trata-se de uma verdadeira potência econômica global e de um dos pilares mais profundos da identidade cultural do país.

A Polônia consolidou-se como o maior exportador de cogumelos frescos do mundo, respondendo por cerca de 38,8% das exportações globais do produto, movimentando mais de 600 milhões de dólares anualmente.

No continente europeu, o país domina quase um terço de toda a produção. O universo dos cogumelos polacos (grzyby) divide-se fundamentalmente em dois setores:

1. O Gigante Industrial: O cultivo de Pieczarki (Champignons).
Embora as florestas tenham a fama cultural, a liderança econômica da Polônia no mercado mundial é impulsionada pela produção controlada em estufas de alta tecnologia.

• Volume: O país colhe cerca de 330.000 a 360.000 toneladas de cogumelos cultivados por ano.
• Destinos: Os principais compradores são vizinhos europeus como a Alemanha, o Reino Unido e a França.
• Inovação: O setor passou por uma enorme modernização. Hoje, os grandes produtores polacos utilizam sistemas automatizados de inteligência artificial (IA) e monitoramento de Internet das Coisas (IoT) para controlar perfeitamente a umidade, a temperatura e a esterilização das estufas.

2. A Tradição Florestal: Borowiki, Rydze, Kurki e outros
Paralelamente à indústria de estufas, existe o mercado dos cogumelos silvestres, que nascem espontaneamente nas vastas florestas polacas durante o outono.

• As joias da coroa: O mais nobre é o borowik (Porcini), mas o país também exporta volumes massivos de kurki (Chanterelles, amarelos e muito valorizados na alta gastronomia europeia) e rydze (Lactarius deliciosus).
• A colheita nacional (Grzybobranie): Diferente de outros países onde a busca por cogumelos é restrita a especialistas, na Polônia o direito de colher nas florestas públicas é livre e protegido por lei.

No final de agosto e início de setembro costumam se realizar Festivais do Cogumelo. Todas saem com sua vasilhas da praça central das cidades e correm para os bosques, florestas a colher cogumelos. Existem diversos prêmios como, para aquele que voltar antes, aquele que trouxer a maior quantidade, a maior variedade, e até para o último de retorna da colheita. É uma imensidade de cores e tamanhos, e todos sabem reconhecer o venenoso.

É um traço cultural tão forte que o clássico poema épico nacional Pan Tadeusz, de Adam Mickiewicz, dedica um capítulo inteiro a descrever detalhadamente um dia de colheita de cogumelos pela aristocracia polaca.

Como o produtor de Radzyń Podlaski revelou, a Polônia fornece a matéria-prima bruta de altíssima qualidade (seja o champignon fatiado ou o borowik desidratado), que depois é processada, fracionada e vendida globalmente sob marcas de outros países europeus que detêm maior apelo comercial histórico no Ocidente, como a Itália.

MAS COGUMELO É COISA DE JAPONÊS

No Brasil, cogumelo é coisa de francês e principalmente de japonês e expõe perfeitamente como a história da imigração e a globalização moldaram o paladar brasileiro, criando um monopólio cultural sobre o ingrediente.

No Brasil, o cogumelo realmente ganhou rosto e nacionalidade:
para o grande público, ele é ou o champignon em conserva do estrogonofe (herança francesa adaptada) ou o shiitake e o shimeji na chapa com shoyu (herança japonesa).

Esse fenômeno de o brasileiro associar o cogumelo quase exclusivamente à cultura japonesa e ignorar a tradição europeia (como a polaca ou a própria italiana) se explica por três fatores principais:

1. O pioneirismo agrícola japonês no Brasil.
A associação não é por acaso. Os responsáveis por introduzir o cultivo comercial de cogumelos no Brasil foram justamente os imigrantes japoneses, na década de 1930, na região de Mogi das Cruzes, em São Paulo. Eles trouxeram as técnicas de cultivo e, mais tarde, na década de 1970, popularizaram o shiitake e o shimeji. Como foram eles que desbravaram a produção nacional, a identidade do cogumelo no imaginário brasileiro fixou-se na culinária asiática.

2. O Boom dos Restaurantes Japoneses e o "Efeito Shoyu"
Nas últimas décadas, a comida japonesa virou um fenômeno de massas no Brasil, presente de grandes restaurantes a praças de alimentação de shoppings. O shimeji e o shiitake servidos na chapa quente viraram os principais pratos de entrada e opções vegetarianas nesses locais. Foi por meio dessa culinária que a classe média brasileira perdeu o preconceito de comer cogumelos frescos, consolidando a ideia de que "cogumelo é coisa de japonês".

3. O Champignon Francês e a "gourmetização" do passado.
Antes da invasão oriental, o único cogumelo que o brasileiro conhecia era o champignon de Paris, trazido pela forte influência da gastronomia francesa no século XX.

Porém, ele chegava quase sempre em conserva (na salmoura), perdendo a textura original para virar o coadjuvante do estrogonofe nacional. O brasileiro se acostumou com o cogumelo de vidro ou lata, sem associá-lo a um produto nobre da terra ou da floresta.

O Grande Contraste com a Europa Central e Oriental
Enquanto no Brasil, o cogumelo é visto como algo exótico, técnico e oriental, na Europa — especialmente na Polônia — ele é um elemento folclórico, nativo e comunitário.

Para um polaco, o cogumelo não vem de uma bandeja de isopor do supermercado ou de um restaurante asiático; ele vem da caminhada de domingo na floresta pública, colhido com as próprias mãos, passado de geração em geração.

Essa barreira cultural no Brasil faz com que histórias como a daquele produtor de Radzyń Podlaski aconteçam: se ele tentasse vender o cogumelo com a identidade polaca (grzyb), o mercado brasileiro provavelmente não entenderia a conexão e não compraria.

Ao rotular como funghi secchi italiano, ele pega "carona" no prestígio que a Itália já tem por aqui com as massas e risotos. É uma verdadeira miopia gastronômica nossa, que aos poucos começa a mudar à medida que mais pessoas descobrem a riqueza das tradições culinárias europeias.

AS DIFERENÇAS

A diferença entre os cogumelos japoneses (Shiitake e Shimeji) e o Borowik polaco (Porcini) é profunda, dividindo-se entre a forma como crescem, a textura e o perfil de sabor. Enquanto os asiáticos trazem a identidade do toque oriental, o polaco carrega a essência densa das florestas europeias. 



O segredo está no "Umami" versus "Terra"

Os cogumelos japoneses são conhecidos cientificamente por possuírem uma alta concentração de aminoácidos que ativam as papilas gustativas para o sabor Umami. Eles reagem perfeitamente bem com elementos salgados e fermentados, como o molho de soja (shoyu) e o saquê culinário.

Já o Borowik é apreciado pela sua pureza florestal. Ele não precisa (e não deve) ser mascarado por molhos orientais fortes. Seu sabor se destaca quando combinado com gorduras simples que absorvem seus compostos aromáticos, como a manteiga, o creme de leite fresco (ou nata) e ervas delicadas como o tomilho.



Texto: Ulisses Iarochinski