segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Cracóvia contra o cerco religioso-fascista

Grzegorz Ryś e a crise do catolicismo patriótico na Polônia

 

 Ao nomear Grzegorz Ryś cardeal-arcebispo de Cracóvia, o Vaticano abriu uma fissura no coração simbólico do catolicismo polaco. O conflito não é teológico, mas identitário: trata-se de decidir se a Igreja continuará sendo trincheira da nação ou se ousará existir sem inimigos permanentes.

Cracóvia não é apenas Cracóvia 

Na Polônia, poucas cidades concentram tanto poder simbólico quanto Cracóvia. Antiga capital real, centro intelectual e espiritual, a cidade de Karol Wojtyła é mais do que uma diocese: é o eixo moral da nação. Governar Cracóvia significa disputar a interpretação legítima da história polaca — e, por extensão, do próprio catolicismo nacional.

Foi por isso que a nomeação de Grzegorz Ryś como cardeal-arcebispo, em dezembro de 2025, provocou uma reação desproporcional ao evento em si. Não houve escândalo pessoal, heresia doutrinária ou ruptura canônica. Ainda assim, setores inteiros da Igreja e da extrema-direita política reagiram como se uma fortaleza tivesse sido tomada.

Ao fazer de Ryś um Cardeal e colocá-lo em Cracóvia, o Papa Francisco garantiu que a Polônia tenha uma voz progressista (ou ao menos moderada) no próximo Conclave.

Em um eventual Conclave em 2025 ou 2026, Ryś surge não apenas como um eleitor, mas como um papabile (candidato ao papado) para aqueles que desejam um "Papa do Leste" que entenda a democracia moderna e o diálogo com o Ocidente.

Com a posse de Ryś, a arquidiocese de Cracóvia deixa de ser o quartel-general do conservadorismo polaco para se tornar o laboratório de uma Igreja que busca recuperar a relevância entre os jovens, que se afastaram em massa durante a gestão anterior devido ao excesso de politização.

Ryś não chegou como revolucionário. Chegou como algo mais perigoso: um reformista silencioso.

Para os moderados e jovens, Ryś é um sopro de esperança para "trazer os fiéis de volta" através da empatia e do diálogo. Para os conservadores, ele é visto como uma ameaça à identidade católica tradicional da Polônia, acusado de "protestantizar" a Igreja ou ser "excessivamente diplomático" com o mundo moderno.

Ryś tem um perfil de "mãos limpas" e austeridade. Ao assumir uma das arquidioceses mais ricas e influentes do mundo católico, ele iniciou um processo de revisão de contas e propriedades. Isso gera pânico em setores que se beneficiaram de décadas de isenções e parcerias com governos conservadores passados. A polêmica aqui é menos teológica e mais pragmática e econômica.

Grzegorz Ryś é conhecido por:

Participar do "Przystanek Woodstock" (um dos maiores festivais de rock/alternativos da Europa) para falar com jovens que abandonaram a Igreja. Usar redes sociais de forma direta, sem a pompa tradicional do clero polaco.

A Polêmica: Para o clero mais velho, isso é visto como "diluição da fé" ou busca por popularidade barata. Para Ryś, é a única forma de salvar a Igreja em um país que está se secularizando mais rápido do que quase qualquer outro no mundo.

O fim da era Jędraszewski


 
Durante mais de uma década, Cracóvia esteve sob o comando de Marek Jędraszewski, figura central do episcopado nacionalista. Próximo do partido Direito e Justiça (PiS) e aliado estratégico do padre Tadeusz Rydzyk, Jędraszewski transformou a arquidiocese em bastião da guerra cultural.
 
Discursos contra minorias, ataques à União Europeia, resistência frontal às reformas do Papa Francisco e alinhamento explícito com campanhas eleitorais marcaram sua gestão.
 
Além de desrespeito total às regras sanitárias durante a epidemia da Covid-19. Jędraszewski defendeu abertamente a continuidade de grandes celebrações e peregrinações.
 
Em agosto de 2020, por exemplo, ele celebrou a Missa da Transfiguração e liderou pessoalmente um trecho da peregrinação anual de Cracóvia a Częstochowa, sem o uso de máscaras, argumentando que a "fome espiritual" não podia ser negligenciada, apesar dos riscos de contágio.
 
Para críticos e autoridades de saúde, essa postura incentivava aglomerações e desafiava as normas de segurança, sendo vista como uma priorização da tradição ritualística sobre a saúde pública. A Igreja não apenas comentava a política: participava dela como ator militante. 
 
Papa Francisco jamais o fez cardeal. E todos se perguntavam por quê? Seu sucessor, Papa Leão XIV, confirmou a exclusão. A mensagem vinda de Roma foi clara: aquela Igreja beligerante não representava o catolicismo universal.
 
Ryś entra em cena como antítese. Onde havia retórica de combate, ele propõe linguagem pastoral. Onde havia alinhamento automático com o poder, ele insiste na autonomia da fé.

Diferenças entre o arcebispo Jędraszewski e o Cardeal Ryś 

Aspecto

Marek Jędraszewski (Antecessor)

Grzegorz Ryś (Atual)

Perfil Político

Fortemente alinhado

à direita nacionalista (PiS).

Defende a independência total

da Igreja frente aos partidos.

Base Midiática

Apoiado pela Rádio Maryja e TV Trwam.

Focado em novos meios e

diálogo com a mídia secular.

Temas Centrais

Combate a "ideologias modernas"

(LGBT, Ecologismo).

Transparência em abusos

e diálogo com jovens e ateus.

Estilo Litúrgico

Tradicionalista, focado em grandes

procissões e massas.

Intelectual, focado na

"Nova Evangelização" e

simplicidade.

Relação Papal

Resistência às reformas de

Francisco/Leão XIV.

Nomeado diretamente para

aplicar a agenda de Leão XIV.

Antemurale Christianitatis: a Polônia como destino armado

Para entender a violência simbólica dessa transição, é preciso recuar no tempo. A identidade polaca foi forjada na ideia de Antemurale Christianitatis — o Baluarte da Cristandade. A vitória de Jan III Sobieski sobre os muçulmanos turcos-otomanos, em Viena, em 1683, consolidou o mito fundador: a Polônia como escudo da Europa cristã. A Polônia salvou a Europa da invasão do Islamismo.
 
Esse imaginário atravessou séculos. Mudaram os inimigos, não a lógica. Otomanos deram lugar a russos, depois a alemães, ao comunismo soviético e, finalmente, ao “secularismo de Bruxelas”, à imigração e ao liberalismo cultural.
 
A Igreja tornou-se quartel-general dessa narrativa. Não apenas guardiã da fé, mas sentinela da civilização.
 
O problema desse modelo é simples: uma fortaleza precisa de inimigos para justificar sua existência.
 
Sobieski reciclado
 

Na Polônia contemporânea, o marechal-rei Sobieski não é tratado como personagem histórico, mas como arquétipo político. A Rádio Maryja do Padre fascista Tadeusz Rydzyk e seus satélites midiáticos transformaram o rei em símbolo eterno da defesa armada da identidade polaca.
 
Sobieski nunca aparece como diplomata, estadista ou homem de seu tempo. Surge apenas como guerreiro — modelo a ser imitado contra os “novos invasores”
 
Quando Ryś fala de acolhimento, caridade e diálogo, a resposta vem pronta: “E Viena?”. Como se o cristianismo polaco estivesse condenado a repetir eternamente 1683.
 
Ryś não nega Jan III Sobieski. Ele faz algo mais radical: retira Sobieski do presente político. Ao fazê-lo, desmonta a lógica de cerco permanente que sustenta o catolicismo patriótico.
 
Rydzyk e a construção do catolicismo eleitoral
 
Nenhuma figura encarna essa fusão entre fé, medo e poder como o padre Tadeusz Rydzyk. Seu império — Rádio Maryja, TV Trwam, universidades, fundações — não apenas evangelizou. Ele ensinou como votar.
 
Desde os anos 1990, Rydzyk fez de uma rádio clandestina, uma rede radiofônica que construiu uma base eleitoral disciplinada, sobretudo entre idosos e populações rurais. A mensagem era simples e eficaz: a Polônia está sob ataque, e apenas a extrema-direita nacionalista pode salvá-la. Em muito lembrando o nazismo de Adolf Hitler.
 
O PiS tornou-se o braço político dessa teologia do cerco. Em troca de apoio eleitoral, garantiu financiamento, privilégios e acesso ao Estado. A simbiose foi total.
 
2003: quando a Polônia quase disse não à Europa
 
 
O auge desse poder ocorreu no plebiscito de 2003 sobre a entrada da Polônia na União Europeia. A Rádio Maryja liderou uma campanha feroz contra a adesão, retratando Bruxelas como nova potência ocupante, hostil à fé e à soberania polaca.
 
O “não” era apresentado como ato de fidelidade religiosa. O “sim”, como traição nacional.
 
A Polônia esteve perigosamente perto de rejeitar a UE.
 
Dois atores impediram o isolamento histórico. O primeiro foi o Papa João Paulo II, que declarou de forma inequívoca que a adesão era compatível com o catolicismo e com a vocação europeia da Polônia. O segundo foi o jornal Gazeta Wyborcza, que enfrentou a Rádio Maryja no campo da opinião pública como nenhuma outra instituição secular ousou.
 
Naquela virada de sábado para domingo de votações no plebiscito, o cidadão polaco investido de Papa da maior igreja do Ocidente ordenou ao Padre Rydzyk e a todos os padres da rede de Rádio Maryja que em suas emissões e nas homilias das missas daquele domingo todos depois do culto todos os fiéis deveriam se dirigir aos postos eleitorais e votar Sim pela entrada na União Europeia. Isto, porque, o sábado tinha sido catastrófico, além do pouco comparecimento, o não estava vencendo.
 
Já o jornal saiu às bancas, ruas, meios de transporte ainda na virada da noite para a madrugada com edição extraordinária convocando o povo a votar Sim.
 
A vitória do “sim” foi apertada. O comparecimento ultrapassou os 50 por cento necessários para a aprovação. Para Rydzyk e seus aliados, ficou a convicção de que o Papa e a “elite liberal” haviam imposto sua vontade contra o “verdadeiro povo”.
 
Resultado do plebiscito
SIM - 13.514.872 / 77,45%
NÃO - 3.935.655 / 22,55%
 
Votos válidos - 17.450.527 / 99,28%
Votos inválidos ou brancos - 126.187 / 0,72%
Eleitores registrados - 29.864.969 / 58,85% 
 
Essa ferida nunca cicatrizou.
 
Ryś e a desativação do púlpito político
 
É nesse campo minado que Ryś assume Cracóvia. Sua primeira decisão simbólica foi clara: o púlpito não é palanque. Homilias eleitorais foram proibidas. Auditorias financeiras iniciadas. Comissões independentes para investigar abusos sexuais anunciadas.
 
Nada disso altera a doutrina. Tudo isso altera o poder.
 
Ryś não é liberal teológico. Mantém posições tradicionais sobre aborto, sacerdócio e família. O que ele recusa é transformar esses temas em armas eleitorais.
 
Para a direita religiosa, isso é devastador. Uma fé sem mobilização política perde utilidade estratégica.
 
Migração, medo e linguagem cristã
 
O conflito se intensificou quando Ryś criticou discursos anti-imigração feitos em Jasna Góra. Para a ala nacionalista, acolher o estrangeiro é esquecer Sobieski. Para Ryś, usar Sobieski para justificar o medo é trair o cristianismo.
 
Não se trata de política migratória. Trata-se de linguagem moral. Ryś pede conversão do vocabulário. A direita responde com acusação de fraqueza.
 
João Paulo II: herói nacional ou legado universal?
 

Aqui está o nervo exposto. Para muitos polacos, João Paulo II não é apenas santo — é o herói libertador da pátria. Sua imagem foi capturada como ícone do nacionalismo religioso.
 
Ryś, ironicamente um dos maiores especialistas em Wojtyła, propõe outra leitura. Resgata o papa do ecumenismo, dos direitos humanos, da Europa plural. Não nega o anticomunismo, mas recusa reduzi-lo a isso.
 
Ao fazê-lo, ele rompe o monopólio simbólico da direita sobre o Papa Polaco.
 
A fratura geracional
 
A juventude polaca, seculariza-se rapidamente, mas mantém rituais. Sai nas baladas de sábado à noite e só volta para casa lá pelas 4 horas da manhã. Em sua maioria, bêbada de cerveja e vodca. Mas, religiosamente se levanta para ir à “missa das 10 horas”, menos por fé profunda e mais por herança cultural. Ryś aposta nesse espaço ambíguo.
 
Ele sabe que, se a Igreja continuar sendo museu da Guerra Fria, morrerá com seus veteranos.
 
O risco é alto: desagradar os mais velhos sem conquistar plenamente os jovens.
 
Depois de Tadeusz Rydzyk
 

Mesmo quando Rydzyk sair de cena, o fenômeno persistirá. Há dinheiro, mídia, formação ideológica e estética de combate — dos “Guerreiros de Maria” às novas plataformas digitais. 
 
O próximo líder será, possivelmente, mais jovem e mais radical. A convicção de ser “mais católico que Roma” já está instalada.
 
Ryś não enfrenta um homem. Enfrenta uma cultura secular.
 
 
Fortaleza ou farol
 
Cúria Metropolitana de Cracóvia
com a foto de São João Paulo II, na janela acima do portão principal


O que está em jogo em Cracóvia não é a fé católica. É sua função política. Durante séculos, o catolicismo polaco foi trincheira. Ryś propõe que volte a ser farol.
 
Sobieski continuará na história. João Paulo II continuará nos altares. A missa das 10 horas continuará cheia. Mas o sentido dessa missa — cerco ou abertura, guerra ou evangelização, medo ou liberdade — está sendo decidido agora.
 
E é por isso que Grzegorz Ryś assusta tanto.
 
Quem é Ryś 
 
Grzegorz Wojciech Ryś é um cardeal polaco da Igreja Católica, desde 2025 é o arcebispo da Arquidiocese de Cracóvia.
 
Nascimento: 9 de fevereiro de 1964 (idade 61 anos), Cracóvia, Polônia
Pais: Maria Ryś Irmãos: Janusz Ryś
Livros: Rekolekcje, Duch Święty, Inkwizycja.
Formação: Uniwersytet Papieski Jana Pawła II. Wydział Historii i Dziedzictwa Kulturowego (2000).
Nomeado arcebispo: 14 de setembro de 2017.
 
 
Estudos Iniciais: Frequentou a Pontifícia Academia de Teologia de Cracóvia (atual Universidade Pontifícia João Paulo II), onde estudou Teologia e História da Igreja.
Doutorado e Pós-Doutorado: Obteve doutorado em Teologia e, posteriormente, um pós-doutorado (habilitação) em História, especializando-se em história medieval.
Carreira Acadêmica: Além dos estudos, Grzegorz Ryś teve uma longa carreira como professor na mesma instituição onde se formou. Ele é conhecido por ser um historiador, ecumenista e evangelizador, com um estilo de comunicação acessível e profundo 
 
 
Texto: Ulisses iarochinski 
 

domingo, 30 de novembro de 2025

Polônia: Traição, Memória e as Feridas de Duas Ocupações


Este artigo é importante para o nosso grupo. Tivemos momentos de atrito, e parte da razão é que o ponto de vista polaco quase nunca é reconhecido. É hora de dar um passo atrás e examinar essa história através dos olhos deles. Muitas pessoas não sabem o que os polacos viram, e o uso indiscriminado da palavra antissemitismo é ridículo.

Isso é ódio aos judeus por serem judeus, mas, como aponto em meu ensaio, muitos polacos tinham ressentimentos em relação aos judeus que eram razoáveis e racionais, mas ainda assim seriam chamados de antissemitas - muitos de vocês testemunharam essa manobra.

Então, vamos ter um artigo factual, objetivo e imparcial sobre a visão polaca dos judeus entre 1939 e 1956.

Traição, Memória e as Feridas de Duas Ocupações: A relação entre as comunidades polaca e judaica durante a Segunda Guerra Mundial e nos anos que se seguiram foi moldada por sofrimento, medo, coragem e - em alguns momentos - profundo ressentimento mútuo. 

Essas tensões não surgiram de ideologia ou hostilidade antiga. Elas vieram da experiência vivida. Eles vieram de dois povos presos entre dois impérios totalitários, cada um dos quais buscava destruir o Estado polaco e erradicar a vida judaica. Para entender a amargura que surgiu, é preciso confrontar verdades incômodas sem cair em acusações coletivas.

Trauma, proximidade e memória muitas vezes distorcem a realidade, e atos isolados, mas altamente visíveis, podem projetar longas sombras que superam em muito seu peso estatístico. Meu objetivo é contar essa história de forma clara, sem ódio e sem eufemismos.

I. 1939–1941:

A ocupação soviética e a primeira ruptura quando a União Soviética invadiu o leste da Polônia, em 17 de setembro de 1939, o Estado polaco entrou em colapso sob a pressão de dois exércitos invasores.

Em muitas cidades do leste — Lwów, Białystok, Baranowicze, Grodno — muitos judeus acolheram abertamente o Exército Vermelho e houve, de fato, pogroms cometidos contra os polacos. Eles acreditavam, sinceramente ou ingenuamente, que o poder soviético oferecia proteção contra o extermínio alemão ou contra o nacionalismo polaco pré-guerra (estavam enganados).

Isso era real, mas não universal. Surgiu de:

• Medo dos alemães.

• Simpatia pelo socialismo entre alguns jovens judeus.

• Queixas sobre a exclusão social pré-guerra.

• A crença — equivocada — de que a URSS oferecia igualdade.

Tudo isso aconteceu apesar de a Polônia ter concedido aos judeus séculos de proteção e liberdade incomparáveis na Europa, especialmente considerando que muitos viviam segregados, resistiam à assimilação e, frequentemente, não lutavam pelo Estado que os abrigava.

Os polacos viam algo completamente diferente. Enquanto a NKVD desmantelava as instituições polacas, deportava mais de 300.000posteriormente 1,5 milhão — de cidadãos polacos, prendia oficiais e executava milhares, incluindo os assassinados de Katyń, eles também viam judeus ingressando na milícia soviética, na polícia auxiliar e em funções administrativas.

A visão de jovens judeus usando braçadeiras soviéticas enquanto famílias polacas eram encurraladas em trens rumo à taiga (floresta boreal de grande coníferas) parecia uma traição em sua forma mais pura. Eles marchavam, jovens judeus cuspindo em oficiais e dizendo-lhes que a Polônia estava morta.

Não importava que a maioria dos judeus também fosse vítima dos soviéticos ou que muitos judeus odiassem o regime soviético. Emocionalmente, a visibilidade de uma grande minoria ofuscava o silêncio ou a impotência da maioria. Essa ferida, formada não por ideologia, mas por inúmeros encontros pessoais, arderia pelo resto da guerra.

Como poderia ser diferente?

II. Sob o Domínio Alemão:

Coerção, Colaboração e o Espelho Trágico A ocupação alemã criou uma categoria separada de intermediários judeus: os Judenräte e a Polícia do Gueto Judeu. Essas instituições foram projetadas pelos alemães e operavam sob coerção, mas muitas vezes se comportavam de maneira dura, às vezes brutal. Havia indivíduos que agiam com coragem, mas muitos sucumbiram à corrupção, à autopreservação ou ao abuso de poder, e eram dezenas de milhares.

Os polacos não tinham nada parecido, nenhum governo, nenhum funcionário público, eles tinham a "Polícia Azul", com 9.000 policiais em todo o país, usada para o trânsito. Estimava-se que 50% deles faziam parte da Resistência e, em certo momento, vários foram assassinados por não atirarem em judeus. Notavelmente, alguns judeus culpavam os polacos por sua situação, quando havia escassez de alimentos, e houve casos de judeus atirando pedras em polacos.

Mesmo que o Gueto de Varsóvia tenha sido mantido vivo pela boa vontade dos polacos, ao mesmo tempo eles estavam sendo assassinados. É importante notar também que nenhuma outra nação fez mais pelos judeus do que os polacos. O governo polaco no exílio implorou por ajuda muitas vezes, mas foi ignorado. Ironicamente, Jan Karski, que compartilhou o Holocausto, foi desprezado por Roosevelt e chamado de mentiroso pelo juiz judeu da Suprema Corte. Aliás, Karski também foi um dos primeiros a testemunhar a tomada do poder pelos soviéticos e ainda assim ajudou os judeus.

Do ponto de vista externo, os polacos viam a polícia judaica cumprindo ordens alemãs, realizando batidas e participando da máquina que esmagava tanto judeus quanto, às vezes, polacos. As nuances, a coerção, o desespero, os colapsos morais sob o terror raramente sobreviveram na memória pública.

Enquanto isso, os polacos sofriam sua própria catástrofe: execuções em massa, deportações, fome e trabalho forçado em uma escala sem paralelo na Europa Ocidental.

Eles foram o primeiro alvo da aniquilação racial e política alemã. Assim, as duas comunidades devastadas viam os piores reflexos uma da outra: os polacos viam colaboradores judeus; os judeus viam indiferença ou hostilidade polaca. Nenhum dos lados conseguiu enxergar o quadro completo, e ambos julgaram com base nos momentos mais difíceis que haviam enfrentado.

III. Polônia do Pós-Guerra:

A Ferida Final e Mais Dolorosa A ruptura mais profunda ocorreu após a derrota alemã. Quando os soviéticos reentraram na Polônia em 1944-1945, instalaram um estado fantoche comunista apoiado pelo Ministério da Segurança Pública (MBP/UB).

No caos da libertação e da ocupação, os soviéticos elevaram deliberadamente minorias — incluindo judeus — a posições de autoridade. Isso não ocorreu porque os judeus buscavam perseguir os polacos.

Ocorreu porque:

• Muitos comunistas polacos haviam morrido.

• Moscou favorecia minorias que, presumia-se não serem leais ao antigo Estado polaco.

• Muitos acreditavam que o comunismo oferecia segurança após o Holocausto. Mas as consequências para a memória polaca foram catastróficas. Judeus nos Serviços de Segurança Pesquisas sérias — tanto polacas quanto judaicas — tornam impossível negar que:

• Os judeus estavam desproporcionalmente representados na liderança inicial da UB.

• Alguns oficiais judeus participaram diretamente de interrogatórios, tortura, repressão e assassinatos.

• Promotores e juízes judeus desempenharam papéis importantes em julgamentos-espetáculo e execuções stalinistas. Nomes como Jakub Berman, Józef Różański (Goldberg) e Roman Romkowski (Nussbaum) aparecem repetidamente em documentos de arquivo que descrevem o aparato de terror. 

Aos olhos dos polacos que já haviam sofrido duas ocupações genocidas, a participação judaica no sistema stalinista, tornou-se o golpe final no ressentimento da guerra.

Pilecki e “Nil”: 

Mártires da Polônia Stalinista Dois dos maiores heróis de guerra da Polônia — Witold Pilecki (ironicamente, o homem que tentou impedir o Holocausto assassinado por judeus) e o General Emil “Nil” Fieldorf — foram capturados, torturados e executados pelo regime comunista.

Em seus casos:

• Oficiais judeus estiveram envolvidos em interrogatórios.

• Promotores judeus assinaram ou apoiaram as acusações.

• Funcionários judeus da UB (Polícia Nacional da Polônia) ajudaram a cumprir as ordens de Moscou. Isso não justifica a afirmação de que “Judeus mataram Pilecki” ou “Judeus mataram Nil”. A cadeia de comando levava a Stalin, à NKVD e às autoridades comunistas polacas, mas os responsáveis eram de origem judaica. Mas, emocionalmente, a memória nunca é puramente lógica. Os polacos viram comunistas judeus ajudando os soviéticos a assassinar as mesmas pessoas que arriscaram tudo para resistir a Hitler.

Depois da guerra, depois dos guetos, depois de Auschwitz, isso pareceu uma traição elevada à tragédia. Para os polacos que reconstruíam suas vidas em um país arruinado, a participação judaica na repressão do Exército Nacional parecia uma cruel inversão da realidade: os judeus se viam como vítimas; os polacos os viam, injustamente de forma coletiva, mas compreensivelmente de forma emocional, como agentes de uma tirania estrangeira. Esse choque de memórias permanece entre os pontos mais sensíveis da história polaco-judaica.

IV. O Paradoxo Trágico da Vitimização

Mútua Ambos os povos foram vítimas — contudo, cada um viu no outro o reflexo do seu próprio sofrimento.

• Judeus se lembravam dos polacos que os denunciaram ou traíram.

• Polacos se lembravam dos judeus que cooperaram com os soviéticos, serviram na polícia dos guetos ou trabalharam na UB (União das Nações Unidas).

• Cada lado se lembrava do pior; cada lado esquecia o melhor. Nenhum agente soviético jamais foi levado à justiça. Israel, a nação tão ávida por encontrar criminosos de guerra, não extraditou Solomon Morel, um masoquista que dirigiu um campo de concentração no pós-guerra. Outros também ficaram livres porque usaram o antissemitismo como desculpa para não receberem um julgamento justo. E pairando sobre tudo estava o genocídio alemão, o terror soviético e a destruição de uma civilização multiétnica que existira — de forma instável, imperfeita — mas unida, por séculos.

V. Em direção a uma história honesta, sem culpa coletiva

O registro histórico exige honestidade:

• Alguns judeus colaboraram com os soviéticos entre 1939 e 1941.

• Alguns judeus serviram em estruturas criadas pelos alemães.

• Alguns judeus foram cúmplices do terror stalinista após a guerra.

• Essas ações, embora em número limitado, tiveram um enorme impacto simbólico na sociedade polaca.

Mas a precisão também importa:

• A maioria dos judeus foram vítimas, não colaboradores.

• Alguns judeus lutaram bravamente em unidades partidárias polacas e soviéticas. • Judeus foram assassinados tanto por soviéticos quanto por alemães.

• A participação judaica na UB não representou “a nação judaica”.

• O sofrimento polaco sob ambos os regimes totalitários foi imenso, real e incomparável na Europa Ocidental.

A história não se beneficia do silêncio ou da culpa coletiva. Ela se beneficia apenas da verdade — complexa, incômoda, humana. E às vezes, quando ouvimos histórias antigas e confiáveis contadas décadas depois, devemos lembrar que a memória é maleável. As pessoas embelezam, reinterpretam ou transferem a culpa para aliviar a própria consciência. Uma pessoa que não foi heroica no passado pode mais tarde inventar um alter ego e, nessa reorganização psicológica, os polacos se tornam o bode expiatório perfeito.

Esta é a tragédia de dois povos feridos pela história: cada um lembrando o que mais os magoou, cada um convencido de que sozinhos não pouparam nada e cada um carregando cicatrizes que ainda influenciam a forma como veem o outro hoje.

Ainda assim, eis a questão que ninguém quer abordar, mas que permanece no centro de todo este debate como um fio desencapado: Se as posições fossem invertidas e fossem os polacos que estivessem passando fome, sendo caçados e implorando por abrigo, as famílias judias teriam arriscado seus próprios filhos para escondê-los?

Analisei a história, os padrões, o comportamento e as fronteiras culturais existentes. E, para ser brutalmente honesto, acredito que a resposta seria: pouca ou nenhuma. E isso importa, porque se uma comunidade não pode, de boa-fé, dizer que teria feito mais, como ousa condenar os polacos por, supostamente, não terem feito o suficiente, especialmente quando os polacos eram a única nação na Europa onde ajudar judeus significava morte imediata para toda a família?

Como alguém ousa, com a segurança da retrospectiva, acusar os polacos de falha moral quando nenhuma outra nação ocupada enfrentou esse nível de terror, e quando não temos nenhuma evidência — nenhuma — de que eles próprios teriam corrido riscos maiores? 

Julgamento sem autorreflexão é hipocrisia. Se alguém não consegue imaginar sacrificar sua própria mãe, pai, filhos e lar por estranhos sob um regime genocida, então essa pessoa não tem absolutamente nenhuma legitimidade moral para julgar aqueles que enfrentaram exatamente esse pesadelo. Esse duplo padrão deve ser confrontado de frente. Porque sem honestidade de ambos os lados, a conversa não é história, é acusação sem responsabilização. Espero que esta visão geral ajude a dar alguma perspectiva sobre a situação dos polacos

Texto: Edward Reid
Tradução: Ulisses Iarochinski 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Mariś emociona em Curitiba



Na noite desta terça-feira, Curitiba, recebeu um espetáculo que não ganhou imagens das televisões, nem das mídias sociais da internet. E por isso faço aqui, neste meu blog, a apresentação de um grupo sui geniris de idosos de Varsóvia, o MARIŚ (pronuncia-se márich), ou em português do Brasil: Mariazinha.
 

 
 
Senhoras e senhores ao redor dos 70 anos, dançam e cantam há décadas, começaram esta epopéia cultural e artística no Grupo de Canto e Dança da Universidade Politécnica de Varsóvia quando ainda eram estudantes da área tecnológica.
 
 

 
Sim! Eles se apresentaram na Sociedade Polono Brasileira Marechal Piłsudski junto com o grupo folclórico polaco mais antigo do mundo, O Wisła - Grupo Folclórico Polonês do Paraná. 
 
 

 
FOI LINDO, FOI EMOCIONANTE DE AS LÁGRIMAS TEIMAREM EM FICAR CAINDO SABE SE LÁ DE ONDE. TALVEZ DO CORAÇÃO POLACO QUE LEMINSKI COLOCOU EM POEMA.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Milhares de ucranianos estão deixando a Ucrânia

Foto: Aleksei Vitvitsky

Cerca de 100.000 homens entre 18 e 22 anos deixaram a Ucrânia rumo à Polônia em dois meses, segundo jornal britânico The Telegraph.

O jornal informa que isso acontece após o governo ucraniano relaxar as restrições para cruzar a fronteira.

"A guarda de fronteira da Polônia disse que 99.000 homens ucranianos com idades entre 18 e 22 anos cruzaram a fronteira – a principal rota para fora do país – desde que os regulamentos para garantir que Kiev tivesse soldados suficientes foram relaxados no final de agosto", especifica a reportagem.

O jornal informa que de janeiro até o final de agosto, cerca de 45.300 homens ucranianos de 18 a 22 anos entraram na Polônia.

O jornalista sublinha que essa saída em massa dos homens ucranianos já provocou reclamações até na Alemanha. O crescente número de ucranianos aumentará a pressão sobre o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, para reduzir o apoio aos refugiados da Ucrânia.
O chanceler Joachim-Friedrich Martin Josef Merz  

Neste contexto, o partido de oposição alemão Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), que lidera nas pesquisas, exige que Berlim suspenda os pagamentos de ajuda aos ucranianos e se opõe ao apoio militar a Kiev.

"Não temos interesse em que jovens ucranianos passem seu tempo na Alemanha [...]. A recente mudança na lei [ucraniana] levou a uma tendência de emigração que devemos abordar", finaliza a publicação, citando Jurgen Hardt, chefe de política externa do partido alemão dos democratas-cristãos (CDU, na sigla em alemão), liderado por Merz.

O governo ucraniano, no final de agosto de 2025, autorizou a saída do país para todos os homens com idade entre 18 e 22 anos inclusive.

A mídia ucraniana informou posteriormente que muitos jovens estão saindo em massa da Ucrânia, e vídeos de fugas bem-sucedidas do país se espalharam pelas redes sociais ucranianas.

Anteriormente, a saída de homens da Ucrânia com idades entre 18 e 60 anos estava proibida durante a lei marcial. A evasão do serviço militar durante a mobilização é punível com responsabilidade criminal, com penas de até cinco anos de prisão.

Fontes The Telegraph

terça-feira, 14 de outubro de 2025

O SANGUE QUE CORRE NAS MINHAS VEIAS É O MESMO.

Paulina Babiński-Hażelski e Bolesław Filip-Jarosiński
avôs polacos de Ulisses Iarochinski nascidos na Polônia

Quando comecei as pesquisas para criar meu portal Saga dos Polacos no ano de 1998, deparei-me com alguns preconceitos arraigados entre a comunidade de descendentes de imigrantes polacos no Brasil.

Palavras como Polonês, criado por uma elite em Curitiba, em 1927, para substituir o genuíno termo adotado em Portugal e consequentemente em 8 países lusófonos oficialmente, provocou-me uma aflição.

Piotr Jackowski-Jarosiński e Anna Ognik-Filip
bisavôs de Ulisses Iarochinski nascidos na Polônia

Mais recentemente comecei a ouvir de "doutos" que eu não era polaco, mas polônico, ou em idioma da Polônia: polonijne.

Ambos horríveis e preconceituosos. No meu blogspot, e no meu canal de YouTube que completaram 20 anos, neste ano da graça de 2025, alerto aos visitantes que a única palavra gentílica para os polacos e seus descendentes em qualquer país do planeta é uma só: POLACO.

Neste blog, todos os textos apresentam tão somente as palavras ... polaco e polaca (também no plural), pois o autor está convicto que estes sejam os termos adequados e corretos para denominar o gentílico (e seus descendentes) da Polônia em língua portuguesa, como aliás, fazem os demais 7 países lusófonos ao redor do mundo. Se polaco é pejorativo para alguns, polonês é preconceituoso para outros tantos.

Por que?

Porque “Polonijny” é um termo que nasceu da burocracia estatal e diplomática da Polônia do pós-guerra, quando o país precisava nomear “os seus” espalhados pelo mundo — mas acabou soando como uma categoria administrativa, quase de exterioridade, como se os descendentes de polacos fossem “os de fora”.

Na prática, porém, os nascidos em outros países, são os mesmos, herdeiros do mesmo sangue, da mesma memória, da mesma língua ancestral — ainda que a língua tenha adormecido em algumas famílias, a cultura e o afeto pela Polônia permanecem vivos. Usar “społeczność polskiego pochodzenia” (comunidade de origem polaca) ou “potomkowie Polaków” (descendentes de polacos) é uma escolha de respeito — ela reconecta a diáspora à sua fonte, sem paternalismo nem hierarquia.

Anna Baniński e Wiktorio Hażelski
bisavôs de Ulisses Iarochinski nascidos na Polônia


O sentimento expresso em de que o sangue que corre nas veias dos descendentes é o mesmo dos que vivem na Polônia atual — ecoa fortemente na ideia de Polska poza granicami, a Polônia viva e espalhada pelo mundo, que não se mede por fronteiras, mas por memória, afeto e cultura.

Assim, a todos aqueles que acreditam ser Polaco um termo pejorativo, deveriam procurar saber porque este termo polonez (quando foi criado ainda não havia sido feita a reforma ortográfica de 1941) foi imposto para a grande comunidade de descendentes de imigrantes da Polônia nascidos no Brasil.

Ainda da fundação da mais antiga sociedade de imigrantes polacos da América Latina, a Sociedade Tadeusz Kościuszko, o termo polonijne já existia lá na Polônia ocupada por Rússia, Alemanha e Áustria. Tanto é verdade que a entidade recebeu o nome de Sociedade Polono Brasileira Tadeusz Kościuszko, e não Polônica.

Polônico nunca foi adotado em Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor Leste. Isso para não falar em Goa, Macau, Itália, Espanha e outros 26 países hispânicos. Todos herdeiros do termo Latim Polonia (sem acento circunflexo), usado pela diplomacia e academia polaca da Polônia.

A comunidade brasileira de descendentes de polacos permanece como um testemunho vivo da permanência da cultura e do espírito nacional da Polônia. Iniciativas artísticas conjuntas, não são apenas expressões de memória em torno de grandes criadores, mas também formas de preservar e desenvolver a identidade polaca em um novo contexto cultural. Por meio do teatro, da música, do artesanato, da poesia, do folclore e da palavra, constrói-se uma ponte entre o passado e o presente, entre a Polônia e o Brasil — uma ponte erguida com gratidão, paixão e o desejo constante de diálogo entre povos unidos pela história e por valores compartilhados.

Estes termos inventados por conveniência, vergonha ou patrulhamento ideológico, servem apenas para dividir, nunca para somar.

Se Portugal decidiu que era POLACO, que assim seja, agora, como no outrora Reino Unido Portugal, Brasil e Algarve.

MOJE SERCE BIJE PO POLSKU!!!


quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Drones russos foram abatidos na Polônia

Drone russo abatido a 300 metros de uma casa na cidade de Radzyń Podlaski,
 na Voivodia da Podláquia

Drones que entram nos céus da Polônia vindos do leste devem ser abatidos, disse ministro da defesa.

O ministro da Defesa polaco, Władysław Kosiniak-Kamysz, disse nesta terça-feira (9/9) que o exército do país deve interceptar drones que invadam o espaço aéreo pelo leste, acrescentando que a decisão final cabe ao Comando Operacional.

O comentário foi feito um dia após destroços de um drone com marcas em cirílico terem sido encontrados na vila de Polatycze distrito de de Terespol, na cidade de Biała Podlaska, na Voivodia de Lublin, no leste da Polônia, na noite de domingo para segunda-feira, a cerca de 300 metros da fronteira com a Bielorrússia.

O incidente ocorreu após um caso semelhante na mesma província de Lublin, quando destroços de um drone foram descobertos a 50 quilômetros da fronteira do país com a Ucrânia, em guerra, no último sábado.

As autoridades disseram que o primeiro drone não tinha marcas militares e que o segundo era de contrabando. Além disso, em agosto, um drone entrou na Polônia vindo da Bielorrússia e explodiu em um milharal na Voivodia de Lublin.

Kosiniak-Kamysz afirmou que o objeto provavelmente era um drone russo e descreveu o incidente como "uma provocação da Federação Russa".

Em entrevista à Radio Zet, na terça-feira, Kosiniak-Kamysz disse que a decisão de derrubar drones estrangeiros exige "discernimento e habilidade", observando que a Polônia, que enfrenta uma guerra em andamento, geralmente lida com drones armados, de disfarce ou de contrabando.

"Esta é uma decisão difícil... Há dias em que mais de 800 drones sobrevoam a Ucrânia. Os incidentes que ocorreram na Polônia desde que o conflito armado entrou em seu quarto ano estão se repetindo em outros países também, e cada um está considerando como responder", continuou.

Ele acrescentou que "este é o comandante operacional e todo o sistema de defesa aérea que têm que decidir se a interceptação causa maior ou menor dano aos civis". Ele também se dirigiu aos moradores das cidades e vilas que fazem fronteira com os países do leste, prometendo que os serviços tomarão todas as medidas possíveis para garantir sua segurança em meio aos ataques russos à Ucrânia.

Enquanto isso, Maciej Duszczyk, vice-ministro do Ministério do Interior, repetiu a afirmação de Kosiniak-Kamysz, na terça-feira, de que os drones pousando em solo polaco são provavelmente iscas e anunciou que Varsóvia solicitou à Comissão Europeia que facilitasse a construção do chamado "muro de drones"

"Também solicitamos financiamento à Comissão Europeia na semana passada, provavelmente para grande parte desta barreira para drones", disse Duszczyk, referindo-se ao projeto conjunto da Polônia com os países bálticos, Finlândia e Noruega.

Duszczyk disse que mesmo quando essas armas entram no espaço aéreo do país, elas não representam uma ameaça à Polônia, pois logo são redirecionadas para a Ucrânia para atacar seu oeste. "O custo de derrubá-los pode ser maior do que simplesmente deixá-los voar", acrescentou.

Falando sobre os drones de contrabando, Duszczyk explicou que a maioria deles entra ilegalmente na Polônia, transportando cigarros não tributados da Bielorrússia e acabando nas mãos de agentes de fronteira polacos. Os drones mais recentes, no entanto, não eram desse tipo.

ATAQUES NA MADRUGADA DE QUARTA-FEIRA

Polônia abateu drones russos em seu espaço aéreo e chama a incursão de "ato de agressão".  

A Polônia disse que enviou suas próprias defesas aéreas e as da OTAN para abater drones na quarta-feira (10/9) após um ataque aéreo russo no oeste da Ucrânia, a primeira vez na guerra da Ucrânia, que Varsóvia engajou ativos em seu espaço aéreo.

O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, afirmou estar em "contato constante" com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte.

Tusk convocou uma reunião de emergência do conselho de ministros para as 8h (06h00 GMT), informou um porta-voz do governo. O comando militar polaco disse que drones violaram repetidamente o espaço aéreo polaco durante o ataque russo na fronteira, no oeste da Ucrânia, mas que as operações contra essas violações já foram concluídas.

Os radares rastrearam mais de 10 objetos voadores e aqueles que poderiam representar uma ameaça foram "neutralizados", disse o comando. "Alguns dos drones que entraram em nosso espaço aéreo foram abatidos. Buscas e esforços para localizar os possíveis locais de queda desses objetos estão em andamento", afirmou a empresa em um comunicado.

O governo pediu que as pessoas ficassem em casa, citando as regiões de Podlasie, Mazóvia e Lublin como as de maior risco, acrescentando: "Este é um ato de agressão que representa uma ameaça real à segurança dos nossos cidadãos".

Desde o início da guerra em 2022, houve vários incidentes de drones russos entrando no espaço aéreo de Estados que fazem fronteira com a Ucrânia, incluindo Polônia e Romênia, mas até agora eles conseguiram evitar derrubá-los.

Autoridades citaram o perigo físico que tais ações poderiam causar e o desejo de evitar uma escalada nas tensões entre a Rússia e a OTAN. O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, disse que as violações do espaço aéreo polaco mostram que o presidente russo, Vladimir Putin, está expandindo sua guerra e testando o Ocidente. "Quanto mais tempo ele não enfrentar forças para responder, mais agressivo ele se tornará", disse Sybiha no X.

"Uma resposta fraca agora provocará ainda mais a Rússia — e então os mísseis e drones russos voarão ainda mais para dentro da Europa."

AEROPORTO FECHADO

O aeroporto Chopin, em Varsóvia, o maior do país, fechou seu espaço aéreo por várias horas antes de reabrir. A empresa informou que haveria interrupções e atrasos ao longo do dia. A maior parte da Ucrânia, incluindo as regiões ocidentais da Volínia e Lwów, que fazem fronteira com a Polônia, estava sob alertas de ataque aéreo durante quase toda a noite, de acordo com a força aérea ucraniana.

Anteriormente, a força aérea da Ucrânia relatou que drones russos haviam entrado no espaço aéreo da Polônia, membro da OTAN, representando uma ameaça à cidade de Zamość, mas posteriormente removeu essa declaração do aplicativo de mensagens Telegram.

MÍSSIL UCRÂNIANO

A Polônia está em alerta máximo para objetos que entram em seu espaço aéreo desde que um míssil ucraniano perdido atingiu uma vila no sul da Polônia em 2022, matando duas pessoas, alguns meses após o início da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

A Polônia havia dito anteriormente que fecharia sua fronteira com a Bielorrússia, na quinta-feira à meia-noite, horário local, como resultado dos exercícios militares liderados pela Rússia que estão ocorrendo na Bielorrússia.

Os exercícios militares em larga escala da Rússia e da Bielorrússia, conhecidos como exercícios "Zapad", levantaram preocupações de segurança nos Estados vizinhos membros da OTAN, Polônia, Lituânia e Letônia.

TRATADO DA OTAN 4.º

A Lituânia disse que as defesas ao longo de sua fronteira com a Bielorrússia e a Rússia seriam reforçadas devido aos exercícios. A Polônia confirmou que solicitou a invocação do artigo 4.º do Tratado da Otan após dezenas de drones terem invadido o espaço aéreo do país.

Numa declaração ao parlamento polaco, Donald Tusk confirmou a decisão de acionar o artigo, tomada após conversações com o presidente do país, Karol Nawrocki, que já informou que planejava convocar o Conselho de Segurança Nacional do país dentro de 48 horas.

Nawrocki descreveu o incidente como um "ataque sem precedentes na história da Otan" e agradeceu aos pilotos e aliados pela sua ação eficaz.

"As consultas entre os aliados acabam de assumir a forma de um pedido formal de ativação do artigo 4.º do Tratado do Atlântico Norte. O artigo 4.º estabelece que as partes procederão a consultas conjuntas sempre que, na opinião de qualquer uma delas, a integridade territorial, a independência política ou a segurança de qualquer uma das partes estiver ameaçada", explicou o primeiro-ministro polaco durante a sua invertenção no parlamento.

A Polônia abateu os aparelhos que sobrevoaram o país em direção à Ucrânia. Para Donald Tusk é claro que o incidente representa uma escalada da ameaça russa para os polacos. "Não há dúvida de que esta provocação é incomparavelmente mais perigosa do ponto de vista da Polônia do que as anteriores", afirmou.

O artigo 4.º do Tratado do Atlântico Norte, também conhecido como Tratado de Washington, prevê a possibilidade de consultas conjuntas entre os Estados-membros da Otan quando qualquer um dos aliados considerar que as suas fronteiras, independência política ou segurança estão ameaçadas.

Esta disposição prevê um mecanismo de resposta diplomática a uma potencial ameaça antes de serem tomadas outras medidas de caráter militar.

"Ações dizem mais que palavras"

As forças militares polacas rapidamente abateram os aparelhos que sobrevoavam o espaço aéreo do país, com Donald Tusk a congratulando o comando operacional, "A DORSZ aumentou a prontidão das suas forças e meios tendo em conta as informações. Para além dos sistemas terrestres, foram ativados aviões de alerta precoce para operações aéreas. Tratou-se de uma ação da Otan. Dois F-35, dois F-16, helicópteros Mi-17, Mi-24 e um Black Hawk foram desviados para a zona de operação prevista", detalhou o primeiro-ministro no parlamento.

Tusk reforçou a gravidade do incidente, indicando que o incidente não se tratou de um erro ou "pequena provocação. Esta é a primeira vez que um número significativo de drones voou diretamente da Bielorrússia", explicou.

"Os procedimentos funcionaram, o processo de decisão foi perfeito, a ameaça foi eliminada graças à determinação dos comandantes, soldados, pilotos e também dos aliados. Estamos muito, provavelmente, a lidar com uma provocação em grande escala", reforçou.

Apesar da gravidade do incidente e das consultas com os aliados que, segundo Tusk, "estão a levar a situação muito a sério", o líder polaco indicou que não é tempo de alarmismo desmedido.

"Não há motivo para pânico, a vida vai continuar normalmente. Vamos informar os cidadãos sobre todos os acontecimentos para que haja clareza sobre o que está acontecendo no céu polaco, na fronteira polaca", afirmou.

"Situação sem precedentes" disse, o diretor do Gabinete de Segurança Nacional Sławomir Cenckiewicz, diretor do Gabinete de Segurança Nacional (BBN) sublinhou que se trata de uma "situação sem precedentes" e lembrou a importância da parceria com os aliados da Otan para o sucesso de operações como esta.

"A reação que ocorreu esta noite não teria sido possível se não fosse a cooperação dos aliados".

KACZYŃSKI

A gravidade da situação foi também reforçada pelo presidente do partido da oposição PIS - Direito e Justiça, Jarosław Kaczyński. "Estamos lidando hoje com um ataque à Polônia. Já não se trata de um acidente e de algo que possamos atribuir a ações imprevistas. Trata-se simplesmente de um ataque. É muito simbólico que, neste dia em que a unidade é necessária, aqueles que se manifestam sempre contra nós, contra a Polônia, sejam ainda mais descarados do que o habitual", afirmou.

UNIÃO EUROPEIA

Von der Leyen: Europa está solidária com a Polônia

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mencionou o assunto no seu discurso anual perante o Parlamento Europeu, reafirmando a total solidariedade da Europa com a Polônia. "Testemunhamos a violação gratuita e sem precedentes do espaço aéreo polaco e europeu por mais de 10 drones russos Shahed. A Europa está totalmente solidária com a Polônia".

Fontes: PAP Agência Estatal de Notícias Polônia, Euronews e Reuters
Tradução Ulisses Iarochinski