segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Quando a Ucrânia era uma colônia polaca

Foto de Juliusz Dutkiewicz - colonos rutenos de Kolomyja - Polônia
A revista Newsweek Polska Historia publicou em sua última edição entrevista de Maciej Nowicki com o historiador francês Daniel Beauvois sobre controvérsias históricas envolvendo rutenos (atualmente chamados de ucranianos) e polacos no século 19.
Estudioso da história da Polônia e da Rutênia, Beauvois nasceu em 9 de maio de 1938 em Annezin, na França. Autor de livros, artigos e traduções. Ele se formou em estudos rutenos (ucranianos) e língua polaca.
Ele é membro da Academia de Ciências Polaca, da Academia do Conhecimento Polaca e da Academia de Ciências da Ucrânia.
Recebeu títulos de doutor honoris causa das universidades de Wrocław, Varsóvia e da Universidade Jagiellonian de Cracóvia.
Foi condecorado com a Cruz de Oficial da Ordem do Mérito da Polônia.
Nos anos 1969-1972 atuou como Diretor do Centro Cultural Francês da Universidade de Varsóvia.
De 1973 a 1977, foi pesquisador do CNRS, em Paris. Quando então, tornou-se diretor do curso de língua polaca em Lille até 1992, e do Centro da História dos Eslavos na Sorbonne, em 1993-1998.
Como historiador, centra-se no tema ucraniano.





Quando a Ucrânia era uma colônia polaca ... 

Camponeses ucranianos, segundo Beauvois teriam sido tratados como escravos, no século XIX, em terras da Polônia ocupadas pelo Reino da Rússia.


Alguns proprietários estavam convencidos de que o homem não tinha alma.

Newsweek História: Como avalias a atitude dos políticos polacos em Maidan?
Daniel Beauvois: Entusiasmado. Admiro o apoio para os patriotas ucranianos. Se estivesse vivo, Jerzy Giedroyc ficaria imensamente alegre. Também me permite pensar que eu contribuí um pouco para esta diametralmente oposta nova atitude. Graças a Deus, a Polônia está renunciando ao antigo complexo de superioridade sobre os ucranianos. Percebendo os horrores dos velhos tempos, ela ainda pode desempenhar um papel completamente novo nesta relação.

Newsweek História: Em seu livro "Triângulo Ucraniano" há uma carta assustadora que se estende por duas páginas: O senhor feudal havia torturado o camponês até à morte, o que era conhecido então como sendo "para cumprir a vontade de Deus"; o mordomo por espancar uma mulher grávida ficou duas semanas detido. Tudo isso acontecia não no século XV, mas na década de 30 do século XIX. E apesar de escrito, o senhor exagera nos acontecimentos, dizendo que há demônios em todos os lugares.

Daniel Beauvois: Mas estes são os fatos descritos em tribunais polacos, e que em seguida foram transferidos para os arquivos russos! O Estatuto da Lituânia, que foi instituído no século XVI, ainda estava em vigor. Ele era extremamente cruel, deixava os camponeses serem tratados como escravos, como gado. Alguns proprietários estavam bastante convencidos de que o homem não tinha alma. Quem será que eram todos aqueles proprietários de terras? É claro,  que estes senhores frequentemente ajudavam seus camponeses durante as inundações, fome ou a seca. No entanto, como regra, o povo com tal referência, era citado bem baixinho e com grande desdém. Naquelas terras, onde hoje é Ucrânia foi ainda maior, o desprezo. Porque o ruteno era considerado um ortodoxo da cisma religiosa, ou seja,  o pior tipo do campesinato.

Daniel Beauvois
Newsweek História: O Padre Walerian Meysztowicz alegou que a margem direita da atual Ucrânia - regiões de Kiev, Podólia e Volínia - era como a Sicília. Ambas as terras eram as regiões mais atrasadas de seus países. A desproporção material ali foi de natureza inimaginável. Em meados do século XIX, 7000 representantes da nobreza polaca estavam na posse de três milhões de "almas".
Daniel Beauvois: Tal comparação é a mais adequada. Aquilo era um mundo, no qual, os polacos de Varsóvia eram simplesmente desprezados. Talvez nenhum lugar foi tão ruim quanto ali. Até a véspera da Revolução Bolchevique, a relação entre os aldeões e os senhores palacianos não era regulamentada e não havia normalidade entre as partes ... No final do século XIX, a terra começou a trazer mais lucros, por isso cada centímetro era contado. Quem era expulso, arrendava as terras para colonos - alemães, tchecos - que pagavam mais. Além da ganância da nobreza polaca, que foi muito grande, ela agia dessa forma contra o campesinato. Tinha o mesmo comportamento em relação à parte da nobreza que foram rebaixados de classe.

Newsweek História: Tenho colegas que pertencem a essa pequena nobreza, originária dessas regiões. Eles dizem algo bastante diferente: a de que havia respeito mútuo lá e que seus ancestrais não eram aceitos de bom grado nos órgãos jurisdicionais ortodoxos e judeus, e que em cada feriado deviam apresentar cumprimentos efusivos. Como existir assimetria nesta relação?
Daniel Beauvois: Em primeiro lugar, memória não é história. A maioria era de serviçais da nobreza. Em segundo lugar, os proprietários de terras, como bons católicos queriam se convencer de que nutriam sentimento por aquelas pessoas. Um sentimento de apreço e reconhecimento humano. Mas quando vemos como, realmente, foram tratados aqueles camponeses, fica um pouco difícil de acreditar. Eu li um monte de memórias de latifundiários. E lá todo mundo estava convencido de sua nobreza - não havia nenhum sentimento de culpa ou dúvida. Todo mundo acreditava firmemente que eram os guardiões da cultura polaca no Oriente, que estavam construindo a grandeza da nação. Isso conta, sobretudo, nos grandes palácios - e não havia tal esplendor na Ucrânia - e nas belas igrejas. E o fato de que as pessoas viviam em condições desumanas é mencionado apenas suavemente. Confraternizar-se com os povos, na maioria das vezes, resumia-se a uma coisa: que o senhor havia caído de amores pelo povo - como era então conhecido - ou de "ajustes" do campesinato. Para os senhores feudais, aquilo era absolutamente normal. O Conde Mieczysław Potocki tinha em seu palácio, em Tulczyń, um harém composto por formosas camponesas ucranianas. Em suma - não faz sentido procurar a verdade nas memórias dos latifundiários. O ódio do povo, que se manifestou ao longo dos séculos, não veio do nada.

Newsweek História: Naquelas terras, continuamente, eclodiram conflitos cujas vítimas foram os polacos: aconteceu na rebelião de Chmielnicki e foi perpetrado pelos muçulmanos; nos sangrentos acontecimentos de 1917 e após, no massacre na Volínia. Os próprios polacos selaram esse destino?
Daniel Beauvois: Em grande parte sim, infelizmente. A opção do escravo, eventualmente, era voltar-se contra ele. Para sair do mundo selvagem de submissão, não havia outro caminho para os rutenos, senão lutar e matar cruelmente. É claro que do lado polaco, as pessoas estavam gritando que não podiam mais, que era hora de acabar com a exploração. Na virada dos séculos XVI e XVII, Szymon Szymonowic pediu um tratamento humano para os camponeses, citando todos esses horrores. No século XVIII, Adam Kisiel defendeu o princípio de que as pessoas podiam ser ortodoxos e polacos ao mesmo tempo. No século XIX, existiu uma associação de camponeses com o mesmo nome, embora implicasse que outros proprietários de terras fossem taxados de loucos. Houve também um famoso "comunard" de nome Jarosław Dąbrowski, que defendia a liberdade de escolha da nacionalidade. Mas, em geral, o ódio entre o campesinato e a aristrocracia só crescia até 1917. Os motins em 1905-1906, durante a primeira revolução, foram um ensaio geral da catástrofe final.

Newsweek História: Os governos polacos na Rutênia foram colonialistas?
Daniel Beauvois: Talvez isso não seja bem a palavra correta, porque tudo começou alguns séculos antes, com essa redação, mas não usei. Talvez fosse mais apropriado dizer: "Era uma forma de expansão feudal". Mas os resultados foram mais ou menos os mesmos que nos casos de colonização. A ideia era assumir uma determinada área, no Oriente, em detrimento da população local. Alguns elementos dessa população concordaram em se polonizarem. Mas a maioria, não muito! Por isso, foi necessário impor-lhes tudo, ou seja, a cultura polaca e o catolicismo apostólico romano. Isto era política, que era naquele momento, equivalente ao que franceses e e ingleses faziam em suas colônias ultramarinas.

Newsweek História: "Vossa Majestade não deve se lamentar demais pela perda do bem público, porque és capaz de salvar o bem do indivíduo" - escreveu logo após a terceira partição, Jan Potocki para o rei Stanisław August. Esta discussão é percebida através de seu livro: as elites polacas usavam o poder tzarista russo para manter sua propriedade.
Daniel Beauvois: Esta é uma das coisas que não foram ditas antes da minha pesquisa. Os arquivos mostram que os proprietários de terras cooperaram com o tzar russo em escala maciça. Sem a ajuda da polícia, no tempo do exército russo, às vezes, os senhores polacos não podiam reprimir rebeliões ou manter a ordem em suas propriedades. Acho que isso pode ser visto claramente durante a revolução de 1905. Os proprietários de terras enviaram para Kiev vários apelos e telegramas para as autoridades, para que a polícia ali alocada, ou que centenas de cossacos viessem ajudá-los. Porque eles estavam cercados por seus camponeses. Eles próprios diziam: "As nossas residências são ilhas de civilização em um mar de barbárie". Eles próprios percebiam-se como pessoas ainda em risco.

Newsweek História: Isto foi colaboração?
Daniel Beauvois: Parece-me que a aristocracia, simplesmente, não tinha uma escolha. Desde o início das partições, ela foi ameaçada de confisco de bens e a partir de São Petersburgo continuavam a vir tais ameaças. Como resultado, a maioria dos aristocratas foram pressionados a estarem presentes na coroação de Paulo I, Alexandre I, Nicolau I, e assim por diante. A reunião da nobreza - os parlamentos distritais ou provinciais - enviavam regularmente garantias de lealdade ao tzar russo. Tinham de mostrar que eram fiéis. Era uma condição de sobrevivência. Além disso, os proprietários tinham uma espécie de álibi patriótico: patrimônio era uma pátria substituta. Terra de defesa. Ter propriedade era um dever patriótico. Mas este álibi foi muito abusado. Muitas vezes, alterado nos princípios: bene ubi, patria ibi - minha casa é o lugar de minha pátria ... Lembremo-nos de nossa origem. A Lituânia tomou parte ativa nos levantes de novembro e janeiro. A participação da Rutênia na Revolta de Novembro foi medíocre e na de janeiro inexistiu. Estes são fatos históricos, infelizmente...

Newsweek História: O senhor mencionou anteriormente sobre a nobreza "rebaixada de classe". Eram centenas de milhares de pessoas. A maior parte da nobreza polaca estava na margem direita da Ucrânia. Após a perda da posição nobiliarca, ela viveu em situação de uma pobreza terrível, muito pior do que a do camponês judeu. Sua história teve uma horrível continuação e está descrita em "Terras Sangrentas" de Timothy Snyder. Para Stalin, esse povo passou a ser objeto para uma gigantesca limpeza étnica, com fuzilamentos e deportações...
Daniel Beauvois: Iss começou ainda no tzarismo. Mas também, os compatriotas polacos não eram muito solidários. Inicialmente, tudo aconteceu com a participação nas Dietas regionais, mas no final eram baseadas apenas nos títulos nobiliarcos. No início do século XIX, o príncipe Czartoryski pensou em conceder aos pobres, pedaços de terra. Infelizmente, ele abandonou a ideia. No início da segunda metade do século, o tzarismo teve uma ideia semelhante, mas um grupo de proprietários de terras expressamente se opôs a isto. Eles diziam algo como: "A terra é nossa. Não, não daremos nada". Estes nobres sempre viveram na órbita dos poderosos: cultivar um pedaço de terra para eles, pagando aluguel, muitas vezes era simbólico. Quando, após a abolição da servidão houve explosão demográfica se podia obter terra para alugar muito mais fácil do que antes, e então começaram a expulsá-los. Eles foram subtraídos de todos seus pertences e escoltados para fora - para dentro da floresta, de carroças - para não voltarem mais. Mas eles voltaram. Novamente, eles foram expulsos, muitas vezes, com a ajuda do exército. Os proprietários de terras nos anos 80 do século XIX, tiveram suas vilas demolidas - bem como seus arredores. Sim - os polacos nas terras da atual Ucrânia não podiam ser equiparados aos exploradores. Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, os ricos proprietários de terras eram 3.500 e os pertencentes à nobreza rebaixada, cem vezes mais. E sim - eles eram em sua maioria, pessoas mais pobres do que os camponeses rutenos (ucranianos).

Newsweek História: Em que medida os ucranianos podem ser culpados pelo fato da Ucrânia ter se tornado uma nação tão tarde? Quando, no século XVII, o marechal Filip Orlik, sucessor de Mazepa, apela para o renascimento do Principado da Rutênia, ninguém o escuta ...

Brasão Czartoryski
Daniel Beauvois: A construção do Estado ucraniano era realmente árduo e difícil. A tragédia desta nação era que eles não tinham nenhuma elite. Os magnatas rutenos ficaram fascinados com a cultura polaca - queriam a polonização e converteram-se ao catolicismo romano. E depois de algum tempo, essa gente não diferia dos polacos étnicos como Czartoryski ou Sapieha, mesmo quando se tratava do campesinato. A nova elite ucraniana originada no campo começou a surgir no final do século XIX. Ao longo dos últimos dois séculos - desde Orlik - não havia ninguém para lembrar da Rutenilidade. Mas, graças a Deus,  para os ucranianos - é claro - também existiu a Galícia. Os Habsburgos, em certa medida, foram apoiados pelo povo ruteno quando os russos eram apenas uma máfia obscura. Tudo o que é cultura ucraniana apareceu no século XIX em Lwów, na Galícia. Isto pode ser comparado com o papel desempenhado pelo Piemonte na unificação da Itália. Os historiadores ucranianos justamente colocam Lwów como o berço de sua nação.

Newsweek História: Para os russos, o polacos era seu inimigo número um. Isto ajudou um pouco os ucranianos, porque com isso, a repressão era dirigida em uma direção diferente.
Daniel Beauvois: A presença polaca naquelas terras era significativamente maior do que a russa e isso durou cinco séculos. Não surpreendentemente, os russos viam os polacos como os principais concorrentes. Especialmente porque, apesar das partições, os russos não conseguiram mudar efetivamente a situação a seu favor quando se tratava de propriedade estatal. Antes da revolta de janeiro quase toda a terra estava nas mãos da pequena nobreza polaca e até mesmo um pouco antes da Revolução Bolchevique - o que significava, a metade da terra. Isso também explica por que o principal objeto de ódio dos rutenos era apenas dirigido contra os polacos. Basta ler "Taras Bulba" de Gogol - o maior valentão é sempre um cavalheiro polaco.

Newsweek História: Mas os polacos que estenderam a mão para os rutenos foram tratados muito pior do que senhores feudais cruéis.
Daniel Beauvois: É verdade. Estudantes idealistas da Universidade de Kiev, que prometeram aos rutenos a liberdade ao se juntarem ao Levante de Janeiro foram entregues às autoridades tzaristas e a maioria deles foi morta. Eles não entendiam os pobres e que as proposições - contidas na chamada Associação Hramot de Ouro - eram muito atrasadas. Dois anos após, veio a abolição da servidão pelo tzar. Também porque os camponeses chegaram à conclusão de que era apenas uma outra lacuna polaca.

Newsweek História: Os polacos estão constantemente falando sobre a democracia nobiliarca - onde 10 por cento dos polacos tinham um direito real de decidirem de forma cooperada. O senhor rejeita esta visão argumentando que a direção do Estado polaco era decidida apenas por alguns poucos abastados, e que a máxima, "Um nobre estava ao nível da exploração do voivoda", não tinha nada a ver com a realidade, que isto era uma invenção dos Sarmatas para enganar a nobreza de classe mais baixa. No mundo esclerosado, os rutenos eram uma espécie de caricatura de uma relação pré-existente... 
Daniel Beauvois: A pequena nobreza não teve influência sobre o que aconteceu na Polônia - quer antes da anexação, ou depois dela. Eu sei que na Polônia há um grande movimento de valorização da democracia dos magnatas - e de ser um modelo para toda a Europa. Alguns chegam a afirmar que os polacos inventaram a democracia representativa, mas eu, examinando a história da Polônia, não vi nada parecido. Nunca nos sejmiks (câmaras regionais) apareciam mais de 200 pessoas. Os pobres não exerciam os seus direitos. As decisões eram empreendidas pelos mais ricos e influentes. Uma faixa pequena de uma aristocracia rica - um total de talvez 5 por cento dos nobres da nação. Era apenas um pequeno grupo.

História Newsweek: A Polônia era capaz de manter um Estado multi-étnico? O senhor, muitas vezes, afirmou que os polacos mentem sobre tendências revisionistas, que desejam retornar às fronteiras. Prefiro pensar que os polacos estão felizes de viverem em um país etnicamente homogêneo, sem minoria ...
Daniel Beauvois: Em primeiro lugar, as atuais fronteiras da Polônia não são "mérito" polaco, mas sim de Stalin, que as prescreveu. Hoje, nesses limites, ninguém quer e não pode tocar. Em segundo lugar, sob a forma de uma Polônia multinacional ou anterior às partições, ou da Polônia entre guerras, não haveria nenhuma chance de sobrevivência. Aquela foi uma vida junto a si mesma com a  passagens de diferentes civilizações. Sim - há algumas influências lituanas ou rutenas na cultura romântica. Mas nunca ocorreu um verdadeiro acordo sobre o solo - vamos chamá-lo - universal. Os polacos desperdiçaram várias vezes a chance de se reconciliar com o povo do "local", mesmo durante a rebelião Chmielnicki. Embora esta reivindicação fosse razoável, apenas os cossacos queriam se alinhar com a nobreza. Na mesma linha se recusou - na época da União de Brest - assento aos bispos no Senado Unificado, em nome do desprezo pelos ortodoxos. Espero que, na Polônia, hoje, ninguém pense assim, mas em dezembro, quando começou os conflitos em Maidan (Kiev), vi numa pesquisa do jornal "Rzeczpospolita", que apenas um quarto dos polacos têm uma imagem positiva dos ucranianos. Isso, no entanto, é tão pouco!

Newsweek história: "Triângulo ucraniano" mostra uma versão completamente diferente de um dos capítulos mais importantes da história da Polônia. Mas nessa desmistificação não há nenhuma armadilha? No final do século XIX, na onda do despertar da identidade nacional, a história foi escrita de forma a mostrar o tamanho da nação. Hoje, ela é, por vezes, escrita a fim de mostrar "que tipo fatal eramos."
Daniel Beauvois: Eu sei que os polacos preferem Norman Davies e que o que eu escrevo faz com que os inimigos se voltem contra mim... Meus textos foram  muitas vezes rejeitados - mesmo recentemente pelo Museu da História da Polônia, porque não aceitaram minha abordagem. É terrível que, muitas vezes, em vez de tentar conhecer sua própria história, os institutos da verdade histórica se escondem da realidade. Mas isso está acontecendo não só na Polônia. Escrevi um prefácio para um cântico de Prosper Mérimée dedicado a Bohdan Chmielnicki mostrando que o cântico é um plágio do historiador ucraniano Mikołaj Kostomarov. Meu editor francês não pode esconder o horror. Ele  também me censurou ...



Maciej Nowicki
Jornalista seção "O Mundo"
Revista Newsweek Polska Historia

Nota do autor: * Daniel Beauvois é um historiador francês de estudos eslavos. Na Polônia, seu mais famoso livro é o "Triângulo ucraniano - Aristocracia, tzarismo e o povo da Volínia, Podólia e região de Kiev de 1793-1914". Nele, entre outras coisas, diz que a relação entre polacoss e rutenos (atuais ucranianos) "assemelhava-se principalmente à relação existente entre senhor e escravo. (...) Eles eram cruéis a tal ponto, como nas plantações de algodão entre os norte-americanos, franceses na Martinica francês ou em outro algum lugar na África.


Antiga sinagoga em Kołomyja

P.S. Na região da Galícia, onde segundo alguns historiadores, teria nascido a atual Ucrânia, na cidade, da foto de Juliusz Dutkiewicz (no alto desta páginas), estão colonos rutenos de Kolomyja que viviam em 1913, véspera da Primeira Guerra Mundial em número de 45.000 habitantes. Com 15.000 Polacos, 20.000 polacos de origem judaica, 9.000 Rutenos (atuais ucranianos), 1.000 alemães e outros. Kolomyja era uma cidade polaca sob ocupação do Império Austríaco. Kołomyja ganhou o status de cidade durante o reinado do rei da Polônia, Casimiro o Grande, no século 12. Atualmente, a cidade Kołomyja pertence a região de Iwano-Frankiwsk, no Sudoeste da Ucrânia. No censo de 2001 contava com 65 mil habitantes, em sua grande maioria ucranianos e nenhum polaco, judeu, ou alemão.

Tradução do polaco para o português: Ulisses Iarochinski
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