quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Um grande colecionador em Araucária

Foto: Arquivo Mário J. Gondek

O leitor Mário José Gondek envia artigo publicado pela jornalista polaca Dominika Mierzwa, na revista "Wiedza i Zycie" de Varsóvia.

Milhões de pares de olhos, asas e barbatanas. Libélulas, besouros e borboletas, tamanduás, capivaras, cangurus. Trazidos para a Polônia durante 190 anos, vindos de todo o mundo. É uma das maiores coleções zoológicas da Europa. Atualmente aos cuidados do Museu e Instituto de Zoologia da Academia Polaca de Ciências em Varsóvia. Devemos uma parte considerável desta coleção a Józef Czaki.
É 11 de maio de 1934. Chega ao porto de Gdańsk o navio Dar Pomorza. Entre os passageiros estão os membros da expedição polaca naturalista, Wencesław Roszkowski – diretor do Museu Zoológico Nacional em Varsóvia e Janus Nasta – funcionário do museu. O meio científico aguarda com ansiedade a chegada do navio. As coleções naturalistas polacas serão enriquecidas com a chegada de exemplares únicos de plantas e animais da América do Sul, entre os quais milhares de insetos, répteis, pássaros e mamíferos acondicionados, fruto de 10 anos de trabalho de Józef Czaki, médico polaco residente no Brasil.
A sua generosidade com o meio naturalista polaco já era conhecida a tempo. Em janeiro de 1922, durante a expedição científica de Tadeusz Chrostowski ao Brasil, o doutor Czaki apresentou em torno de 20 mil amostras zoológicas – além das exposições da América do Norte, espécimes da Europa a muito tempo guardadas e conservadas. As coleções trazidas a Gdańsk no navio Lwów em março de 1924, levaram um ano para chegar a Varsóvia. A coleção do doutor Czaki era composta por aproximadamente 22 mil insetos, entre os quais 10 mil borboletas, 300 crustáceos, miriápodes, aracnídeos, 100 equinodermos, 200 moluscos marítimos, 100 peles de pássaros e outros vertebrados. Além disso, coleções botânicas, minerais, etnográficas e arqueológicas. O seu valor na época foi avaliado em 300 mil dólares.

Quem foi o doador?
Józef Czaki nasceu a 21 de dezembro do ano de 1857 em Sanniki. Os seus pais Jan e Joanna (da família Noskowski), obrigados a abandonar o país na época do levante do ano de 1863, entregaram o sexto filho aos cuidados da família mais próxima. Foi criado na aldeia “Rokitnica pod Brodnica”, na casa dos seus tios Niemojewski, juntamente com o filho Andrzej.
Aproximadamente pelo ano de 1877 viajou para Varsóvia para estudar medicina.
Nos anos de 1884 a 1886 praticou medicina nos hospitais de Varsóvia, e nos 10 anos seguintes trabalhou como médico em Sokołowka, Wapniarka e Balt na Podólia. Já naquela época organizava exposições naturalistas. A coleção entomológica desta época bem como as seguintes de vertebrados marítimos do Mar Negro e do Extremo Oriente ofereceu ao Museu da Indústria e Agricultura de Varsóvia.
Em 1895, Czaki assumiu o cargo de médico na Frota Comercial Russa. Trabalhou em Odessa, em Vladivostok bem como em Harbin. Em seguida foi designado para Manchúria, trabalhando como médico na construção da estrada de ferro transiberiana. O levante chinês dos boxers (1899-1901) encontrou Czaki em Djungari, onde foi testemunha contra a dinastia dominante Qing.
A situação piorou ainda mais com o estouro da epidemia da peste bubônica, a qual ceifou a vida de milhares de moradores da Manchúria e da China. Os restos mortais das pessoas eram enterrados ou queimados juntamente com os animais. Poucos médicos, entre os quais Czaki, examinavam os doentes e os mortos com a intenção de descobrir as causas da epidemia. Depois de alguns meses, quando a peste foi controlada, tinham morrido aproximadamente mil trabalhadores da estrada de ferro transiberiana.
Em 1906, Czaki foi preso por ter participado no levante revolucionário da Manchúria. Neste mesmo ano – depois de alguns meses de prisão – fugiu para o Japão, e dois anos mais tarde para os Estados Unidos. Relatou estes acontecimentos no livro “Lembranças da Manchúria”, cujo manuscrito enviado para o redator polaco, extraviou-se no ano de 1939.
A partir do ano de 1908, Czaki morou em Chicago, onde exerceu atividades médicas e educacionais entre a imigração polaca. Neste mesmo ano reconheceu o seu diploma de médico. Foi colaborador do “Diário do Povo”, membro da Comissão de Defesa Nacional e também co-fundador da Universidade Popular Polaca, em Chicago, onde lecionou durante seis anos. Ofereceu as numerosas coleções naturais recolhidas durante a estadia nos EUA, ao museu polaco em Chicago.
No ano de 1914, mudou-se para o Brasil. Morou consecutivamente em Curitiba, Ivaí, Cândido de Abreu, Ponta Grossa, Marechal Mallet. Finalmente fixou moradia em Araucária, onde além do trabalho médico, exercia atividades educacionais e culturais naquela comunidade polaca. Os resultados de seus trabalhos eram apresentados na imprensa polaca local e em periódicos educacionais.
Conduziu também pesquisas intensas em herpetologia. Mantinha contatos com cientistas brasileiros do Rio de Janeiro e de São Paulo, especialmente com o doutor Vital Brasil (fundador do Instituto Butantã em São Paulo), o qual fazia pesquisas com o soro contra picadas de cobras venenosas. Vital Brasil introduziu, entre outros, o emprego do soro do tipo antibotrópica contra picadas p.ex. de jararacas e surucucus e do soro anticrotálica (usado nos casos de picadas de cascavéis). Czaki, além de obter espécimes de cobras venenosas, ocupava-se igualmente com a atividade educacional – publicou nos anos de 1920-1929 o “Tratado popular sobre as serpentes e animais causadores de algumas doenças”, “Como lidar em situações desastrosas e como proceder, a fim de evitar as doenças” e “O que deveríamos saber sobre as serpentes da América do Sul”.
Enviou numerosos espécimes de répteis para o Museu Zoológico Nacional em Varsóvia. Em maio de 1928 recebeu o título honorário de correspondente deste museu. Durante a sua estadia no Brasil, Czaki conquistou um grande reconhecimento pela ajuda médica durante a epidemia de cólera em Uniao da Vitória, reconhecimento pela criação da escola da Casa do Povo (Dom Ludowy) e da Sociedade Atirador (Stowarzyszenie Strzelec) em Araucária. Foi agraciado pela Cruz dos Cavaleiros da Ordem do Renascimento da Polônia, pelas suas atividades sociais entre a imigração.
No final da vida, escreveu ainda alguns trabalhos educacionais, entre os quais, “O que diz a biologia sobre a vida e a morte?”, “A higiene nos países tropicais” bem como “O que pode influenciar no desenvolvimento sexual dos recém-nascidos?”. Trabalhos que deveriam ser publicados em revistas educacionais polacas, não chegaram até o leitor. A segunda guerra mundial rompeu toda a atividade educacional na Polônia, bem como os contatos de Czaki com a pátria natal. Já no final da vida escreveu ainda dois trabalhos: “Por que morremos?” bem como “Aspiração a uma vida longa”, no entanto não foram igualmente publicados e os manuscritos se perderam.
No ano de 1947, chegou até a residência de Czaki, a informação procedente do funcionário do Museu de Zoologia Stanisław Feliksiak sobre o incêndio, o qual estourou no edifício do Museu de Zoologia no ano de 1944. Perdeu-se uma grande parte das coleções, tanto da biblioteca quanto do museu, e o que parece a maior parte das coleções de Czaki. O que há de verdade nisto, não podemos saber ao certo. Se os espécimes foram realmente destruídos pelo incêndio, ou talvez roubados? É intrigante, por exemplo, que os besouros foram preservados, e não as atraentes borboletas, ou então que não resistiram ao incêndio os espécimes minerais resistentes ao fogo. E por que a carta chegou ao Brasil somente três anos após o incêndio? Em todo caso, Józef Czaki não ficou sabendo sobre a perca do patrimônio de toda uma vida. Faleceu no dia 23 de maio do ano de 1946 em Araucária.

DOMINIKA MIERZWA, Museu e Instituto de Zoologia, Academia Polaca de Ciências.
MÁRIO JOSÉ GONDEK, Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Araucária.
ANDRZEJ SZYMKOWIAK, Instituto Nacional de Geologia.
Os autores agradecem pela colaboração do Cônsul Geral da República da Polônia no Brasil, Jacek Perlin e a Rizio Wachowicz, presidente da organização polônica BRASPOL.
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