sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Morre o polaco Samuel das Casas Bahia


Texto original de Ralphe Manzoni Jr.
Revista IstoÉ Dinheiro

O empresário Samuel Klein, fundador das Casa Bahia, faleceu na madrugada desta quinta-feira, 20, em São Paulo, devido a insuficiência respiratória. Klein estava com 91 anos de idade. Ele deixa três filhos, oito netos e cinco bisnetos. O velório ocorre no cemitério israelita do Butantã, em cerimônia reservada para família e amigos.
A Via Varejo, controladora da Casas Bahia, divulgou nota na qual expressou seus sentimentos de pesar e agradeceu o empresário por sua contribuição ao País. "A melhor forma de honrarmos seu legado empreendedor é continuarmos crescendo e realizando os sonhos de nossos clientes e colaboradores".


Perfil

Polaco naturalizado brasileiro, Samuel Klein nasceu em Zaklików e cresceu em Lipa, cidades próximas a capital da região lubelska, Lublin, na Polônia, como o terceiro de nove irmãos, filho de um carpinteiro de família de origem judaica.

Aspecto atual da praça central (Rynek) de Zaklików, onde nasceu Samuel Klein, na Polônia

Começou a trabalhar com o tio como marceneiro até a invasão dos nazistas, quando foi levado para Maidanek com o pai. Maidanek, em Lublin, era o terceiro maior campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma pousada em Lipa, pequena cidade onde Samuel Klein passou sua infância
Klein foi com o pai para Maidanek, enquanto a mãe e os irmãos foram para Treblinka. Foi levado junto com outros prisioneiros para Auschwitz em 1944, após a libertação da Polônia. Caminharam 50 quilômetros a pé até o rio Vístula (maior rio da Polônia).

Aspecto atual do cemitério judaico de Zaklików
Fugiu dos soldados numa tentativa ousada no dia 22 de Julho. Suas palavras: "Fui me escondendo e entrando no trigal cada vez mais. Não sei para onde estava indo, mas tinha a certeza de me afastar do grupo." Passou a noite na plantação. Ao acordar, encontrou-se com polacos cristãos também fugidos, que o acolheram e ajudaram a fugir.

Restos de sapatos e roupas dos prisioneiros do campo de concentração nazista de Majdanek, em Lublin
Samuel chegou a voltar para sua antiga casa, que estava totalmente arrasada. Trabalhou numa pequena fazenda nas proximidades em troca de comida.
Com o fim da guerra, encontrou-se com a irmã Sezia e o irmão Salomon. Depois da guerra, os irmãos Klein foram para a Alemanha administrada pelos norte-americanos. Conseguiram reencontrar vivo o pai. Viveram em Munique de 1946 até 1951.
Nesta grande cidade alemã, Samuel conheceu Hanna, com quem se casou. Sentiram que era hora de deixar a Europa e reconstruir a vida em outro lugar. O pai foi para Israel, junto com a outra irmã Esther. Samuel queria emigrar para os Estados Unidos, mas não conseguiu. A cota de emigração estava cheia. Decidiu ir para a América do Sul, onde tinha alguns amigos.
Conseguiu visto para a desconhecida Bolívia e lá chegou com a esposa e o filho. Em 1952, a Bolívia vivia uma situação social muito complicada, com disputas políticas violentas e uma revolução em curso. Klein recordou-se de uma tia que vivia no Rio de Janeiro.
Com a mulher e o filho embarcou no primeiro avião de La Paz para a então capital brasileira. Em menos de dois meses conseguiu autorização para viver no Brasil.
Estabeleceu-se em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo com a família. Foi quando começou a trabalhar como comerciante. Tornou-se mascate, vendendo roupas de cama, mesa e banho de porta em porta, com uma charrete.

Primeira loja da futura rede Casas Bahia, em São Caetano do Sul - Sp
Em cinco anos de dedicado trabalho, conseguiu capital para comprar uma loja chamada Casa Bahia, em 1957. Era a sua homenagem a seus fregueses, na maioria retirantes baianos vindo tentar a sorte na região. Em 1964, a loja começa a vender eletrodomésticos.
Seis anos depois, o Bahianinho, o mascote que até hoje é o símbolo da Casas Bahia, foi criado. Junto com ele surgiu o slogan “Dedicação total a você”.


Samuel Klein é considerado por muitos o rei do varejo. Ele também foi o primeiro a vislumbrar o poder de compra dos mais pobres, fornecendo crédito aos que não conseguiam comprovar renda. “Compro por 100 e vendo por 200, tudo parcelado”, costumava dizer ele, o segredo de seu sucesso como empresário.
A Casas Bahia, com o tempo, foi ganhando musculatura. Em 1989, já contava com 100 lojas. Nos anos 2000, tornou-se a maior rede de varejo do Brasil, sobrevivendo ao furacão que varreu do mapa os principais varejistas do Brasil.
Por esse motivo, a Casas Bahia transformou-se no símbolo de resistência de um setor que viu antigos ícones como Mappin, Mesbla, G. Aronson e Casa Centro desmoronarem da noite para o dia. Mas foi também no fim da primeira década dos anos 2000 que marca uma virada na estratégia da companhia.
Em 2009, o controle da Casas Bahia é vendido para o grupo Pão de Açúcar, naquela época controlado com mão de ferro pelo empresário Abilio Diniz. Ela iria se unir ao Ponto Frio, seu arquirrival, comprado seis meses antes pelo Pão de Açúcar, dando origem ao maior grupo de varejo do Brasil.
O casamento, no entanto, foi tumultuado desde o início, com ameaças de rompimento de ambas as partes, logo depois do contrato assinado. Mas depois de acertarem suas divergências, surge a Via Varejo, que combina as operações de Casas Bahia e Ponto Frio.
Raphael Klein, neto de Samuel, foi seu primeiro presidente. A família Klein, atualmente, é minoritária na Via Varejo. Em uma operação de venda de ações, eles ficaram com apenas 27,3% das ações. Michael, filho de Samuel, que comandava o conselho de administração da Via Varejo deixou o posto e mantém duas cadeiras no colegiado.

Cotidiano

De hábitos simples, Samuel Klein mantinha quarto na sede da Casas Bahia Mesmo fora do dia a dia dos negócios, empresário ia até sede da empresa e tinha um espaço decorado para dormir e descansar Fora do dia a dia dos negócios há mais de uma década, o empresário Samuel Klein, fundador da rede varejista Casas Bahia, não deixava de frequentar a sede da companhia, em São Caetano do Sul, na região do grande ABC.
O edifício abriga atualmente, nos quinto e sexto andares, a sede da CB Capital Brasileiro, empresa que toca os negócios de Michael Klein, o primogênito de seu Samuel.
A Via Varejo, holding de eletroeletrônicos que administra a Casas Bahia e o Ponto Frio, fica nos andares abaixo.

Michael Klein

Em fevereiro deste ano, encontrei-me com Michael, seu filho, para uma entrevista que foi a reportagem de capa da revista DINHEIRO.
Era um dia histórico, pois ele acabava de deixar a presidência de conselho de administração da Via Varejo.
De forma simbólica, aquele gesto marcava o fim do comando de um Klein sobre o império de eletroeletrônicos que começou com uma pequena loja, em 1957, ali mesmo em São Caetano do Sul, pelas mãos de seu Samuel.
A conversa girava em torno dos novos negócios de Michael, principalmente na área imobiliária. Quis saber o que significa, do ponto de vista emocional, deixar o comando da empresa que foi fundada por seu pai. “A melhor maneira de sair é quanto você está em alta”, respondeu ele. “Pelé parou e ainda é o rei do futebol. Assim como ninguém vai tirar o mérito de meu pai de ser o rei do varejo. Podem aparecer novos reis do varejo. Mas quem apostou no varejo brasileiro lá atrás e deu crediário para os pobres? Foi ele.”
Nesse momento, ele me disse que seu pai, já com 90 anos, ainda gostava de ir até a sede da empresa, em São Caetano do Sul, embora cada vez mais com menos frequência. “Ele quer ver se as coisas dele estão no mesmo lugar”, brincou. E, para minha surpresa, me convidou para conhecer o quarto em que o seu Samuel, como ele é conhecido, mantinha no quinto andar do edifício em São Caetano do Sul.

“Um quarto?”, questionei.
“Isso mesmo”, respondeu Michael.

Fomos até a sala ao lado, onde Michael trabalha quando está por lá. Ela é decorada com fotos familiares e jatos executivos e helicópteros, paixão do filho de seu Samuel. Antes, era ocupada pelo patriarca da família. Atrás da cadeira, há uma porta que leva para o quarto de seu Samuel. “Muitas vezes ele dormia aqui”, conta Michael.
Na verdade, o espaço é muito mais do que um quarto. É um apartamento enorme, com sala, cozinha, o quarto propriamente dito e um banheiro adaptado para pessoas idosas.
Há fogão, geladeira, televisão e amplos sofás. O local é todo decorado com fotos familiares. Até os armários estavam lotados com as indefectíveis camisas listradas de seu Samuel, o seu traje favorito.


As lições de varejo de Samuel Klein em 13 frases:

1 - “Crise é coisa de rico”
2 - “Eu sei fazer conta. Compro por 100 e vendo por 200, sempre parcelado”
3 - “De um bom namoro sai um bom casamento. Da boa conversa, sai um bom negócio”
4 - “O segredo é comprar bem comprado e vender bem vendido”
5 - “Eles não perdem dinheiro. O desconto que os fornecedores dão para a gente, eles cobram dos meus concorrentes.”
6 - “Damos com uma mão, tiramos com outra”
7 - “Em nossa vida profissional, não podemos falhar. São justamente nossos erros que estragam nossos acertos”
8 - “Um mais um é igual a dois. Mas a soma de uma ideia mais uma ideia não são duas ideias, e sim milhares de ideias”
9 - “Cresci junto com o Brasil, não fiquei parado vendo o país crescer”
10 - “Bobagem. A riqueza do pobre é o nome”
11 - “Quem tem sócio tem patrão”
12 - “Eu vivo e deixo os outros viverem”
13 - “Que país abençoado esse Brasil. O povo também é pacato e acolhedor. O Brasil é um país que dá oportunidades para quem quer trabalhar e crescer na vida”

Herdeiros de Samuel Klein

O filho Michael é um dos maiores investidores imobiliários do Brasil e os netos Rafael e Natalie apostam na mídia digital e no varejo de luxo, respectivamente A família Klein terá seu nome marcado na área de varejo.
Rafael Klein

Afinal, o patriarca Samuel, que morreu nesta quinta-feira 20, ostenta há décadas o título de rei do varejo brasileiro.
A homenagem é mais do que justa, pois foi ele quem descobriu, meio século antes que o tema virasse moda, o potencial da baixa renda.
Pioneiro, Samuel trouxe a periferia para o mercado de consumo, oferecendo crediário para os consumidores de menor poder aquisitivo, que hoje constituem a chamada classe média emergente, em lojas despojadas de luxo e de produtos sofisticados.
Tanto que o celular só foi parar nas gôndolas da Casas Bahia em 1999, quando passaram a ser acessíveis ao bolso do povão.
O DNA do varejo está presente nos herdeiros de Samuel, mas eles estão se enveredando por outros caminhos. A família, que vendeu a Casas Bahia ao Pão de Açúcar, hoje detém 27,3% da Via Varejo, holding criada para administrar os negócios de eletroeletrônicos do grupo atualmente controlado pelo francês Casino.
Michael, o primogênito de Samuel, deixou a presidência do conselho de administração da Via Varejo, embora mantenha dois assentos no colegiado. Hoje, ele dedica a maior parte de seu tempo a administrar os seus negócios imobiliários. Se Samuel é chamado de o rei do varejo, Michael, no entanto, tem grandes chances de ser conhecido como o imperador dos imóveis.“Gosto de brincar de banco imobiliário na vida real”, disse Klein, em entrevista à DINHEIRO, em fevereiro deste ano.

“Em vez da cartolina, prefiro receber a escritura da propriedade.” Não se trata apenas de uma tirada espirituosa ou jogo de cena de Klein. Ele é atualmente um dos maiores investidores imobiliários do País, dono de um patrimônio estimado em R$ 4,6 bilhões e mais de 400 imóveis. Esse patrimônio, no ano passado, gerou uma receita anual de aproximadamente R$ 250 milhões. Quase três quartos desses ativos estão alugados para a Via Varejo, em um contrato que vai até 2030. Os outros inquilinos são grandes empresas, como os bancos Bradesco e Santander e as varejistas Marisa e O Boticário.
A siderúrgica Gerdau, por exemplo, aluga dois galpões industriais. A Petrobras ocupa um prédio de 13 andares em Salvador. Todo o dinheiro ganho com esses aluguéis é reinvestido em novos prédios, escritórios e lojas.
Natalie Klein
Outro interesse de Michael é a aviação. Ele tenta desde o começo do ano autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para colocar no ar sua companhia de táxi aéreo a CB Air. A empresa já conta dois hangares, um no Campo de Marte, em São Paulo, e outro em Sorocaba, no interior de São Paulo, além de helicópteros e jatos executivos.
Só não iniciou sua operação por conta dos trâmites oficiais. Os filhos de Michael também resolveram seguir caminho solo. Raphael, que foi o primeiro presidente da Via Varejo, a holding que reúne Casas Bahia e Ponto Frio, aposta na mídia digital.
Ele fundou a ROIx, uma agência online, depois que deixou o comando da operação de eletroeletrônicos.
Natalie, a outra filha de Michael, é dona da butique de luxo NK Store, uma das mais conceituadas do Brasil.



P.S. fiz algumas correções históricas, acrescentando informações e fotos. Em 2003, tive a oportunidade de trabalhar na produção do especial para a TV Bandeirantes com Roberto Cabrini, o cinegafista Paraíba, o editor Clóvis Rebello,e o também intérprete e produtor Mauro Longaretti Kraenski. Com duração de 60 minutos, o programa foi ao ar, quando o polaco Samuel completava 80 anos de idade.
Além das pequenas cidades e os campos de concentração onde Samuel viveu, também foram feitas gravações em Cracóvia com alguns entrevistados.
Ulisses Iarochinski, Roberto Cabrini e o cinegrafista/iluminador Paraíba, em Cracóvia nas gravações do especial "Samuel Klein - 80 Anos", pela TV Bandeirantes

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