quinta-feira, 26 de março de 2026

Coração que bate pelas origens e pela justiça

Ao encerrarmos esta noite, após percorrermos a memória física da Capela de Czermna, onde o tempo se torna osso, e a arte dos nossos mestres do pôster, onde a alma polaca se torna cor e forma — percebo que meu trabalho não é apenas documentar o que está longe. É documentar o que, apesar de tudo, insiste em pulsar aqui dentro.

Iarochinski exibindo um de seus livros


Hoje, 24 de março, a Polônia celebra o Dia Nacional da Memória dos Polacos que Salvaram Judeus. É uma data que nos lembra que, nos tempos mais sombrios do fascismo nazista e da opressão soviética, a identidade do Polaco não se definiu pela submissão, mas pela coragem ética de proteger a vida.

Como bem lembrou hoje o Consulado Geral da Polônia em Curitiba, nas redes sociais, recordamos a missão do Grupo Ładoś, em Berna, Suíça. Entre 1941 e 1943, diplomatas polacos e líderes judeus, como Abraham Silberschein e Chaim Eiss, uniram forças em uma operação de coragem silenciosa. Eles emitiram passaportes latino- americanos para oferecer reconhecimento jurídico a milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Para esses diplomatas — Aleksander Ładoś, Konstanty Rokicki, Stefan Ryniewicz e Juliusz Kühl — cada documento preenchido manualmente não era apenas burocracia; era uma tentativa concreta de proteger vidas. Em um contexto onde uma decisão administrativa assumia um significado humanitário profundo, eles provaram que a cooperação e a escolha humana podem ampliar as possibilidades de sobrevivência, mesmo sob as limitações mais severas.

E essa coragem também teve rosto brasileiro e, orgulhosamente, rosto paranaense. Não podemos esquecer de Aracy de Carvalho, nossa conterrânea, que em Hamburgo arriscou tudo para emitir vistos a refugiados. Nem do embaixador Luiz Martins de Souza Dantas e sua esposa Elisa, que em Paris transformaram o consulado brasileiro em um porto seguro. Eles entenderam que a humanidade está acima de qualquer ideologia de extrema-direita ou ditadura.

Muitos de nossos antepassados foram o resultado de uma história escrita torto nos cartórios, onde o Polaco foi 'traduzido' e silenciado. O meu avô Bolesław virou Boleslau e não Bolek, mas Bóles; o Kazimierz do meu pai virou um estranho Cassemiro, e o que era para ser um diminutivo carinhoso Karzyk virou Cajo.

Essa descaracterização é tão profunda que, ainda hoje, ao apresentar meus passaportes brasileiro e/ou polaco, na Polônia, vejo a originalidade do meu sobrenome Jarosiński, com J no início e S no meio, ser perdida na leitura oficial. Quando o funcionário polaco do aeroporto, da universidade ou da prefeitura lê o meu nome desfigurado pela grafia brasileira, sou obrigado a responder, quase jocosamente: 'Nie, nie jestem Chiński' (Não, não sou chinês). Isto devido ao abrasileiramento de silabas originais polacas de siński para chinski. Trocou a sonoridade do S polaco pelo CH português. Em alguns cartórios para outros sobrenomes com a mesmas duas sílabas para xinski.

Nesse momento, percebo que meus passaportes, em vez de atestar minhas origens, muitas vezes as esconde. Por isso, estar aqui hoje, compartilhando estas imagens, estes banners da minha produção cultural e lembrando desses heróis, é um ato de retomada. Estamos devolvendo a esses nomes a dignidade que lês foi subtraída.

Estamos recuperando o som original e a consciência de que nossa identidade é uma resistência viva. Não importa o que foi escrito no papel ou lido na fronteira; o que importa é a linhagem de coragem moral que carregamos das nossas origens, sejam elas de Helenów-Wojcieszków, Stare Poręby-Dobre, São Sebastião da Bela Vista, Botelhos, Castro e Harmonia-Monte Alegre. Encerro com a certeza de que, apesar de todas as tentativas de apagamento, nossa essência permanece intacta.

"Moje serce bije po polsku." Meu coração bate em polaco.

Pronunciamento feito após a exibição dos meus filmes documentários "Capela das Caveiras" e "Cartazes da Imaginação", na Casa da Cultura Polônia Brasil, Sociedade Polono Brasileira Tadeusz Kościuszko.

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