quinta-feira, 25 de junho de 2009

Filhas de polacos invadem a cidade

Aproveitando as comemorações dos 140 anos da chegada do grupo de 32 famílias polacas em Brusque, Santa Catarina, em 1869 e que dois anos após foram transmigradas para o Pilarzinho, em Curitiba, reproduzo trecho de minha dissertação de mestrado, "Identidade cultural do brasileiro descendente de imigrantes da Polônia", na Universidade Iaguielônia de Cracóvia, onde apresento mais algumas considerações sobre o preconceito criado em Curitiba, e por extensão, no Sul do Brasil, contra a etnia polaca.


As polaquinhas brejeiras desfilavam por ruas como essas
atraindo olhares maliciosos da aristocracia falida de Curitiba.


Curitiba, sendo o maior centro da etnia polaca na América do Sul, concorreu em grande parte para a disseminação do preconceito contra estes imigrantes. E isto, num momento em que cidade era a capital do Paraná, um Estado que cobria o imenso território entre os Rios Paranapanema e Uruguai. Apenas em 1917, quando do fim da guerra do Contestado, o Estado vizinho de Santa Catarina incorporou as terras abaixo do rio Iguaçu, hoje conhecidas como Oeste catarinense. Natural, portanto, que a influência curitibana se estendesse até o Estado do Rio Grande do Sul, onde se concentra o segundo maior pólo da etnia polaca no Brasil.
Ao estudar a presença da mulher na sociedade paranaense do início do século XX, Etelvina Maria de Castro Trindade relata que na virada do século, era muito comum a cooperação feminina nos empreendimentos familiares dirigidos por imigrantes, como bares, lojas, mercearias, serviços e pequenas indústrias. A imigrante alemã, radicada no centro da cidade era figura habitual nesses ambientes.
Se a presença feminina nas atividades comerciais não era comum na sociedade imperial curitibana, já que os brasileiros mantinham a secular tradição portuguesa de que lugar de mulher é na cozinha, em relação às mulheres alemãs tal presença era consentida.
O mesmo não se dava, porém “com o setor doméstico, onde a discriminação é comum, e particularmente dirigida às –criadas- estrangeiras, sobretudo polacas, não raro retratadas sob o prisma da leviandade, da desonestidade e da permissividade sexual.” Castro Trindade, para sustentar sua tese, fez levantamento de informações publicadas na imprensa da época, onde é registrada essa discriminação contra as polacas:
"Maria ou melhor Mariazinha, como mais a conhecem, era um tipo perfeito de criada sapeca. Abotoando as suas 16 travessas primaveras deixou a casa de seus pais, dois robustos colonos moradores em Abranches, e veio se alugar aqui na cidade [...] Desse momento então é que começa a vida alegre e terrível da sapeca criadinha. De 15 em 15 dias, infalivelmente, mudava de aluguel. É assim de Herodes pra Pilatos correu quase todas as casas desta cidade. Também ninguém a aturava por mais de duas semanas: fazia sociedade no pó de arroz das patroas, nos perfumes e até nos vestuários. Quando à noite ela saía à rua para comprar biscoitos ou outra coisa qualquer o bando de coiós não a deixava. Mas tinha razão, porque a Mariazinha era uma tetéia: toda perfumada, empoada, de chinelinhas na ponta dos pés, muito corada e sadia, tentava mesmo!... Não houve baile durante muito tempo em que ela não estivesse e marca que o seu braço não fosse disputado pela matilha de seus adoradores, muitas vezes com prejuízo de algum nariz arrebentado."
O trabalho de Castro Trindade está mais focado na emancipação da mulher do que no preconceito cultivado contra as polacas, mas ainda assim, ela consegue resgatar notas importantes para o entendimento das origens do preconceito e do pejorativismo em relação ao termo polaco. Segundo ela, “as peculiaridades da mulher imigrante permeiam os textos da época, revelando a estranheza do brasileiro em face das diferenças culturais e mesmo físicas, do elemento colonial”. Os escritores da época sentem um verdadeiro fascínio pelos olhos azuis e cabelos loiros das alemãs e polacas. Expressões românticas em relação às alemãs como, “faces de papoulas amassadas”, “olhar de intenso azul” , contrapõem-se a cobiça reveladas em frase como “polaquinhas travessas e tentadoras” .
Um destes escritores revela, num jornal da época, que visitou uma da comunidade polaca e depois escreveu que, “Nota-se que os representantes do infeliz povo, esmagado pela ambição de governos tirânicos vive feliz nesta terra”. A frase era de certa forma lisonjeira, queria assim justificar sua presença e de outros que lá compareceram: “Foi por isso, sem dúvida, que confundidos com os polacos e polono-brasileiros, vi muitos brasileiros que acorreram a prestigiar com a sua presença o apelo das senhoras polacas” .
Castro Trindade vislumbra nestes textos um traço de preconceito e que justamente contribui para que a discriminação contra a etnia polaca só aumentasse. No que ela concorda com Perrot. Este senhor, ao falar dos excluídos, contempla também as carroceiras polacas de Curitiba. O desejo transforma as jovens trabalhadoras em objeto, os homens da sociedade local, obrigados a fazer a corte em saraus e encontros sociais, tem agora a sua disposição a própria rua para satisfazer suas ansiedades.
Pois em Curitiba, não há carroças, nem carroceiros, nem burros de carroça. Há “charretes” simples e toscas, puxadas a cavalos e conduzidas por moçoilas, lindas, colonas de faces rosadas que são elas e, não marmanjos, que distribuem o pão, o leite, as frutas, as verduras, carne, peixe etc. [...] A cidade em que a gente amanhece sorrindo, recebendo, com o pão e os legumes, os “bons dias” de carinhas brejeiras e ..."
Para o historiador de origem polaca, Ruy Christovão Wachowicz, as razões identificadas entre os próprios representantes da etnia para a negativa da ascendência “Polaca”, por essa época e também nos dias atuais, estava relacionada com a própria vocação agrícola dos primeiros imigrantes. “Polaco” passou a ser um termo que se identificava de imediato, na sociedade local, com a agricultura. Ser de origem “polaca” era admitir “ips facto“ que se pertencia a uma camada mais baixa da sociedade. Isto fez com que o “Polaco” com baixo nível de instrução, muitas vezes sentisse vergonha de sua própria origem e acabasse por rejeitar sua origem étnica. Apresentava-se na sociedade como alemão, austríaco ou russo, de acordo com as regiões de ocupação onde viviam seus ancestrais. E isto era terrível, pois se "bandeava" para o lado dos invasores e assassinos de seu próprio povo. Quando inquiridos sobre suas origens, respondiam: - “Não sei! Pelo menos era o que constava no passaporte do meu avô!”. Como se sabe a maioria dos passaportes dos imigrantes polacos eram expedidos sob a nacionalidade da potência de ocupação.
"Era sobremaneira doloroso o tratamento dispensado aos nossos colonos. Chamavam-nos de – polaco burro -. As causas desse trato pejorativo residiam em várias razões. Os primeiros imigrantes compunham-se de elementos paupérrimos oriundo de aldeias; muitos viveram sob regime senhorial. Embarcaram para o Brasil, pois a viagem não lhes custava nada [...] Os plantadores de café viam no polonês (palavra empregada pelo tradutor) recém-liberto da – escravidão senhorial -, na região ocupada pela Rússia, um excelente trabalhador. [...] os abandonado que não tinham nenhuma condição vieram ao nosso país. Não é de estranhar que aqui eles foram explorados e tratados como escravos. Os consulados fizeram ouvidos moucos aos reclames do imigrante, uma vez que isto pouco importava aos países dominantes. Esses, entre outros, são os fatos responsáveis pela difusão da expressão: -polaco burro".
Os estereótipos levaram alguns descendentes de polacos a adquirirem complexo de inferioridade em relação à sua origem étnica. A constatação disto ocorria, sobretudo, em camadas sociais intermediárias, localizadas entre o camponês e o indivíduo urbanizado. O camponês mesmo, não o possuía, porque os descendentes continuavam na própria classe de origem de seus antepassados.
Segundo Andrade Kersten, o camponês polaco difere dos demais pares brasileiros justamente pelo contexto histórico e social da região de Curitiba, “que faz com que o colono polaco seja visto na prática ideologicamente distinto, como categoria diferenciada do brasileiro e dos demais imigrantes”.
Os antagonismos existentes entre o brasileiro e o colono-polaco não se esgotam em sua condição étnica, apesar de que é por essas características que se reconhece e distingue o “polaco” dos demais. O “polaco” é o colono, o trabalhador, o proprietário, o professor, o “batateiro”. São figuras distintas que tem em comum sua origem étnica e também sua condição de colono, de imigrante, que confunde-se na conjuntura do processo imigratório em que assentam-se os núcleos coloniais no Brasil. A variável étnica é importante, mas ela só esclarece a situação do polonês transformado em “polaco”.
Aqui, Kersten inverte os termos e diz que foi o polonês que se transformou no Polaco, quando tudo afirma o contrário. Também a alcunha de “batateiro” se liga imediatamente ao polaco de Contenda, Araucária, Muricy, Guajuvira. Não para exaltá-lo como um fecundo produtor agrícola, mas para mais uma vez discriminá-lo. Kersten recolhe citação nos “Anais da comunidade Brasileiro-Polonesa”, para afirmar que a luta dos colonos polacos no Paraná é antiga: “vós, estúpidos poloneses, deveis cultivar a terra que recebestes; a nós cabe ditar-vos as leis”. Os organizadores dos Anais por sua vez recolheram a citação do jornal “Gazeta Polska” , não sem antes alterar o termo polacos para poloneses.

De acordo com Kersten este indivíduo, parte de um grupo de pioneiros muito pobres eram originários da agricultura e expulsos de aldeias que haviam sido regidas pelo sistema feudalista da idade média. Nesta condição ele embarcava para o Brasil. Aqui o indivíduo analisado por Kersten, “capta a realidade vivenciada, cria representações próprias das coisas e elabora todo um sistema correlativo de noções que capta e fixa o aspecto fenomênico da realidade”. Mais adiante ela afirma que é justamente desta “situação enfrentada que emerge o –polaco-, enquanto uma categoria estereotipada, através de avaliações negativas, tais como: alcoólatras, analfabetos, excessivo zelo religioso

Sessão Solene alusiva às comemorações dos 140 Anos da Imigração Polaca de Brusque acontece amanhã, 26 de junho, sexta-feira, às 20h00, na Câmara Municipal de Curitiba, R. Barão do Rio Branco, 720. A sessão é uma proposição do vereador Tito Zeglin, descendente de polacos.

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