quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Ser polaco está na moda


Texto de: Paweł Różyński 

Quando pensam na Polônia, grande parte das pessoas pensam quase sempre num país de emigrantes. É só perguntar aos britânicos, aos irlandeses e aos alemães. No entanto, são cada vez mais os estrangeiros a requerer o status de cidadãos polacos. O diário de Varsóvia “Rzeczpospolita” explica porquê. 
..................

Quando quis comprar a maior companhia aérea portuguesa, TAP, o milionário sul-americano e proprietário da companhia Avianca, German Efromowicz, deparou com um obstáculo aparentemente insuperável: a legislação da UE não permite que um investidor não europeu compre mais de 49% das ações de uma companhia aérea europeia. 
Um obstáculo que o empresário transpôs rapidamente, anunciando aos atônitos jornalistas presentes numa coletiva de imprensa, em Lisboa: "Requeri a nacionalidade polaca, a que tenho direito porque os meus pais eram ambos polacos." 
De fato, Efromowicz recebeu o passaporte polaco pouco tempo depois, em 5 de dezembro de 2012. O empresário, natural da Bolívia, afirma ter orgulho nas suas origens polacas. Nasceu em La Paz, numa família de polacos-judeus que fugiram da Polônia ocupada logo em seguida ao fim da Segunda Guerra Mundial.
Até agora, a nacionalidade polaca não lhe serviu de muito, uma vez que o governo português cancelou a venda da TAP, afirmando que Efromowicz não apresentara garantias financeiras suficientes. 
O que não altera o fato de os polacos terem mais um compatriota, que já provocou mexidas na lista dos polacos mais ricos, na qual, com os seus 3, 5 mil milhões de złotych (perto de €900 milhões de euros), ocupa agora o quinto lugar. Com a águia ao peito o jogador de voleibol Yuri Gladir, que há quatro anos faz parte da Zaksy, a equipa de Kędzierzyn-Koźle, pode não ser tão rico como Efromowicz mas é sem dúvida mais forte que ele em matéria de desporto. Originário da região da Poltava, atualmente território da Ucrânia, Gladir vive na Polônia com a mulher, Marina, e a filha, Daria, nascida na Polônia. Só agora recebeu o passaporte polaco. 
O seu sonho é jogar na seleção nacional. "Jogar com a águia branca sobre o peito é o sonho de qualquer jogador de voleibol, porque a equipe polaca é uma das melhores classificadas do mundo", explica. 
 Mas é no futebol que os polacos por opção têm conquistado maior publicidade. Alguns nomes bem conhecidos abrilhantam os clubes do campeonato e salvam a equipa nacional. "Adoro a Polônia e os polacos. Gostei de me tornar cidadão deste país, onde vivi tantos belos momentos", declarou o jogador brasileiro do Legia Warszawa (clube da capital), Roger Guerreiro. O seu pedido de nacionalidade foi acelerado pelo fato da seleção ter precisar urgentemente de um jogador para o ataque. 
Desde o ano passado, a nacionalidade polaca pode ser obtida mais rápida e facilmente junto das representações regionais do governo daquele país. Também pode ser concedida por decisão discricionária do Presidente da República. Ano passado, o presidente Bronisław Komorowski concedeu a cidadania a 2500 estrangeiros.
Contudo, a maior parte dos pedidos continua a ser apresentada às administrações regionais. Nos anos anteriores a concessão da cidadania a estrangeiros descendentes ou não de polacos foi crescendo ano a ano. A voivodia da Mazóvia, responsável por analisar a maioria dos pedidos que vem do exterior, por exemplo, recebeu cerca de 500 pedidos em 2009, em comparação com apenas 107, em 2008. Antes da adesão da Polônia à UE, em 2004, tais pedidos eram raros. 
O consulado de Curitiba, no Brasil, por exemplo, viu o número de pedidos de informação e de solicitação de cidadania explodirem. A tal ponto que foram contratados novos funcionários apenas para atender essa demanda. O Consulado da Polônia em Curitiba é responsável pelos três estados do Sul do Brasil, onde se concentra a segunda maior concentração da etnia fora da Polônia. Calcula-se que a etnia esteja representada no Brasil, atualmente, por mais de 3 milhões e meio de Brasileiros, já que os cálculos de 1,5 milhão dos governos brasileiro e polaco estão defasados no tempo e na estatística.
Entretanto, o número de solicitações atendidas só não é maior, porque uma nova interpretação das 3 leis que regem a concessão da cidadania polaca, entende que todos os descendentes de imigrantes polacos que deixaram a Polônia, antes de 1918, não eram de fato cidadãos polacos, mas sim russos, austríacos, alemães (Estados ocupantes da nação polaca de 1793 a 1918).
Em maio de 2012, houve um movimento no Congresso Nacional da Polônia, para que essa interpretação que não é lei, fosse derrubada e todos os descendentes de imigrantes polacos ao redor do mundo possam finalmente serem reconhecidos como cidadãos do Estado polaco também... e não só os jogadores de futebol, de volei, maridos e esposas de polacos, sem nenhum vínculo de origem ou sangue polaco. 
O número ainda não é expressivo, mas a quantidade de brasileiros ilegais na Grã-Bretanha, que buscam uma polaca ou polaco para se casarem tem aumentado fortemente. Até aqui, o governo polaco, ainda não abriu as portas totalmente para estes cônjuges de ocasião, pois a cidadania não é dada automaticamente, inicialmente recebe-se um visto de residência válido por um ano. No caso do casamento continuar e os cônjuges comprovarem que residem oficialmente no território da Polônia, o visto de residência é renovado, por mais dois anos. Findo três anos, e comprovada a residência no país, o cônjuge estrangeiro recebe o visto permanente de residência e trabalho... Os filhos, entretanto, são automaticamente legitimados como cidadãos polacos. 

 Simpática e atrativa 
 Por que motivo há cada vez mais estrangeiros interessados em obter a nacionalidade polaca? Segundo, Henry Mmereole, natural da Nigéria e que gerência três farmácias em Varsóvia, os estrangeiros instalam-se na Polônia porque o país se encontra em franco desenvolvimento e as pessoas com talento e dinâmicas podem subir depressa na escala social. 
É possível ir mais longe ali do que nos países onde a hierarquia social se encontra estabelecida há muito tempo. O recente passado comunista como que igualou as difenrentes classes sociais encontradas nos países ocidentais. O clima continua a ser a principal desvantagem, mas as pessoas habituam-se, diz otimisticamente Mmereole. 
Com cada vez maior frequência, às razões econômicas ou familiares vem juntar-se um novo elemento: a Polônia é um país simpático, onde é agradável viver. 
"O ambiente é bom e as pessoas são amigáveis. Há pouco tempo, o meu tio e a minha tia, que vieram da Grécia, foram passear pela Traktat Krolewski (via real) de Varsóvia e ficaram maravilhados com o local. A Polônia devia promover mais a sua cultura. A produção teatral e o desporto são excepcionais. É sobretudo através destas áreas que os países se tornam conhecidos", explica o músico Milo Kurtis, cofundador do grupo musical Maanam, atualmente membro do Drum Freaks, que recentemente requereu a nacionalidade polaca. 
Nascido em 1951, em Zgorzeleć, na fronteira da Polônia com a Alemanha, filho de refugiados gregos (cerca de 15 mil fixaram-se na Polônia por volta de 1949), Kurtis decidiu que, já que pensava como polaco e tencionava passar o resto da sua vida na Polônia, mais valia requerer a nacionalidade polaca. Seria mais honesto e mais cômodo. 
De certo modo, Kurtis já é polaco e ama o país, mas, diz, continuará a ser sempre grego, porque os gregos são "como os judeus: é o sangue que decide e não o local de nascimento". Conta que, nos anos de 1980, lhe ofereceram a nacionalidade alemã, mas que recusou, depois de o sogro lhe ter dito: "Tu é que decides, mas fica sabendo que não queremos um alemão na família." 

O Vietnam da Europa 
Entretanto, sem o mínimo de propaganda, tem entrado na Polônia um número elevado de estrangeiros, em busca de uma boa formação ou de uma vida melhor. Mas só uma pequena porcentagem deseja pedir o passaporte polaco. Alguns milhares de pedidos por ano não é muito, tendo em conta o número de imigrantes – legais ou não – que vivem no país, e que foi estimado em entre 500 mil a um milhão. 
Mas a verdade é que o fluxo de entradas está só começando. Muitos vietnamitas escolheram a Polônia como destino. "Os pais de muitos de nós estudaram aqui nos anos de 1960 e 1970, falam polaco e transmitem uma imagem da Polônia de certo modo idealizada como a terra do leite e do mel", diz Karol Hoang, presidente de uma agencia imobiliária e proprietário de uma agência de modelos de Varsóvia. O seu avô foi diplomata na capital polaca. Os imigrantes vietnamitas na Polônia são muitos – entre os 40 e os 50 mil – mas não são eles e sim os ucranianos que constituem o maior grupo. Trabalham na agricultura e na horticultura, mas também se especializaram na construção e cuidados a crianças e idosos. Alguns trabalham em supermercados.
"Os ucranianos trabalham durante algum tempo, ganham dinheiro e voltam para o seu país. Os chineses, quando os negócios não correm bem ou quando há uma crise, fazem as malas e vão para outro lado. Mas os vietnamitas vieram para ficar. Estamos a criar raízes aqui, pensamos no que vamos fazer daqui a dez ou vinte anos, pensamos no futuro dos nossos filhos, se eles irão ter uma boa educação e arranjar um bom emprego num banco ou numa empresa", explica Hoang, cuja mulher é polaca e que se sente meio polaco. A sua relação de vinte anos com a Polônia acaba de ser selada com a nacionalidade polaca, recentemente adquirida. 
Os jovens vietnamitas integram-se rapidamente e, em muitos casos, veem-se como polacos. Na verdade, a primeira geração de imigrantes queixa-se de que o processo é demasiado rápido, de que os jovens descartam bastante rápido a relação com o país de origem. No entanto, o problema da identidade é mais profundo que isso. Os asiáticos não têm olhos azuis e cabelo loiro; gostariam de ser polacos mas nem sempre são aceites como tal.

O primeiro deputado polaco negro
Ainda assim, a Polônia percorreu um longo caminho desde finais dos anos de 1990, quando, nos jogos de futebol, os hooligans atiravam bananas no jogador Emmanuel Olisadebe, natural da Nigéria. 
Em 2010, John Abraham Godson, também nascido na Nigéria, tornou-se o primeiro deputado polaco negro. Para ele, tudo começou quando um missionário romeno lhe falou daquele país longínquo. Hoje, Godson diz ser de Łódź (pronuncia-se uúdji) - a terceira cidade polaca - situada na zona central do país e que é ali que quer viver e ser enterrado. 
Em que momento começa um imigrante a desenvolver uma identidade preponderantemente polaca? Não forçosamente quando recebe o passaporte polaco. Okil Khamidov, realizador da popular série televisiva Świat według Kiepskich (o mundo segundo a família dos ninguém), tajique de nascimento, comenta, com ironia, que no seu caso esse momento ocorreu quando começou a queixar-se sem razão de maneira muito contínua: "Ah, sou polaco", pensou.
Postar um comentário