terça-feira, 5 de novembro de 2013

Polônia e Portugal: fronteiras da Europa

João Carlos Espada
Cartas de Varsóvia

Na próxima segunda-feira, dia 11, terá início em Lisboa uma conferência sobre Polónia e Portugal: fronteiras da Europa.
Trata-se de uma iniciativa conjunta do embaixador da Polónia, Bronisław Miształ, e da Universidade Católica Portuguesa. Oradores da Academia das Ciências polaca e da Universidade de Varsóvia virão a Lisboa reflectir sobre o tema com académicos portugueses, entre os quais Manuel Braga da Cruz, antigo reitor da Católica, e Isabel Gil, actual vice-reitora.
Muitos elementos inesperados, para além da óbvia tradição católica, aproximam a Polónia e Portugal. Um deles, tantas vezes esquecido, reside no papel central que as duas nações, geograficamente periféricas, desempenharam na eclosão e no alargamento da chamada “Terceira Vaga” da democratização mundial.
Portugal iniciou a terceira vaga, em Abril de 1974. Seguiram-se a Grécia, a Espanha e, em efeito de “bola de neve”, inúmeros países da América Latina e do Sueste Asiático.
Samuel Huntington consagrou este honroso papel de Portugal no relançamento da ideia democrática nos países que se situavam no bloco não comunista durante a Guerra Fria — mas nos quais até então se pensava, por uma razão ou por outra, que a democracia não era viável.
Menos conhecido é talvez o facto de Huntington ter considerado que a queda do Muro de Berlim, em 1989, constituiu uma “segunda fase” da terceira vaga de democratização lançada por Portugal em 1974. E esta segunda fase terá sido aberta pela Polónia.
Na década de 1980, a partir de Gdansk, um poderoso movimento operário deu origem ao sindicato Solidarność, chefiado por Lech Wałęsa, que iria abalar os alicerces do comunismo na Polónia.
Em Junho de 1989 ocorrem as primeiras eleições parcialmente livres na Polónia, depois da II Guerra. Em Agosto, Tadeusz Mazowiecki, falecido no passado dia 28 de Outubro, toma posse como primeiro chefe de um governo não comunista. Em Novembro, o Muro de Berlim caía, abrindo caminho à transição democrática nos outros países europeus da cortina de ferro.
Se a tese de Huntington for pertinente, a Polónia e Portugal, dois países periféricos, terão desempenhado um papel central na história política europeia do segundo quartel do século XX. A Polónia, por seu turno, desempenhou um papel central na união das democracias contra o pacto germanosoviético, em 1939, e, depois de 1945, na eclosão da Guerra Fria das democracias ocidentais contra o expansionismo soviético.
Isso mesmo foi recordado por Winston Churchill, num telegrama enviado a Staline a 29 de Abril de 1945: “Foi por causa da Polónia que os britânicos entraram em guerra contra a Alemanha em 1939. Nós vimos no tratamento da Polónia pelos nazis um símbolo da vil e pérfida fome de Hitler por conquista e subjugação, e a sua invasão da Polónia foi a faísca que incendiou o fogo. (...) Este fogo britânico ainda arde em todas as classes e partidos destas ilhas, bem como nos Domínios autogovernados. Nós nunca poderemos sentir que esta guerra terminou de forma justa sem que a Polónia obtenha um resultado leal, no pleno sentido de soberania, independência e liberdade. Foi sobre isto que eu pensava que nós tínhamos acordado em Yalta.”
Estas palavras podem ser lidas no volume VI das imponentes memórias de Churchill sobre a II Guerra Mundial. Em rigor, o tema da Polónia ocupa bem a segunda metade desse volume e constitui a principal razão do seu título, Triunfo e Tragédia.
Churchill intuiu que a ocupação soviética da Polónia, no final da II Guerra, prenunciava a “Cortina de Ferro” que ia cair sobre a Europa central e de Leste. Este foi aliás o tema do seu célebre discurso em Fulton, no Missouri, em 1946 (quando já tinha ganho a guerra e perdido as eleições em Inglaterra, em 1945): “Desde Stettin, no Báltico, até Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro tem estado a descer através da Europa. Por detrás dessa linha jazem todas as capitais dos antigos Estados da Europa central e oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia, todas estas famosas cidades e as populações em redor delas jazem no que devo designar por esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não apenas à influência soviética mas a um muito elevado e, nalguns casos, crescente controlo de Moscovo.”
Estes e seguramente muitos outros aspectos da centralidade polaca na história europeia serão seguramente recordados na conferência da próxima segunda-feira. Eles ilustram o paradoxo de periferias da Europa que desempenham papéis centrais na história europeia e global. Esse paradoxo certamente ocorreu no passado. Não está excluído que possa voltar a acontecer no futuro. Em qualquer caso, esse paradoxo certamente aproxima Portugal e Polónia. Merece seguramente que lhe prestemos atenção. Se a tese de Huntington for pertinente, a Polónia e Portugal terão desempenhado um papel central na história política europeia do segundo quartel do século XX.

Publicado originalmente em Cision.
João Carlos Espada é professor universitário, 
IEP-UCP e Colégio da Europa, Varsóvia. 

P.S. O professor João Carlos claramente não aderiu a unificação da língua europeia decretada em todos os 8 países lusófonos e continua a escrever no "idioma" de Portugal. Com seus Moscovo (Moscou), Stettin (Szczecin) Polónia e Académico com acento agudos e reflectir e actual (com C mudo).
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