sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Emprestar a Voz ao Poeta

O encontro humano que a poesia possibilita.
O poeta-ator que fala poemas dos outros.

Aos 17 anos, falando o "Poema do Dia das Mães".
de Giuzeppe Ghiaronni, no Teatro da Escola Técnica, em Curitiba.

Existe uma diferença entre ler um poema, recitar um poema, declamar um poema e falar um poema. Durante muito tempo, quando se falava em poesia dita em voz alta, imaginava-se a figura do declamador. Aquele que colocava a voz acima do texto, que valorizava a cadência, a rima, o ritmo, a musicalidade dos versos. Era uma tradição muito presente nas escolas, nos salões, nos concursos.

Eu respeito essa tradição.
Ela tem seu valor histórico.

Mas nunca foi exatamente o caminho que escolhi.
Eu não declamo poemas.
Eu não recito poemas.
Eu falo poemas.

E essa diferença, que parece pequena, para mim muda tudo. Porque, quando um poeta escreve um poema, ele não começa pela métrica, pela rima ou pela forma. Ele começa por uma emoção. Alguma coisa aconteceu dentro dele.

Uma lembrança.
Uma dor.
Uma alegria.
Uma indignação.
Uma descoberta.
Uma pergunta sem resposta.
A emoção vem primeiro.
Depois vem o trabalho.

E esse trabalho é muitas vezes doloroso. O poeta procura a palavra exata. Troca um verbo por outro. Experimenta um sinônimo. Conta as sílabas. Procura a sonoridade. Descobre que uma palavra maravilhosa não cabe naquele verso. Percebe que uma palavra simples carrega uma força maior. 

O poema nasce da emoção, mas chega ao leitor depois de atravessar o rigor da construção. O grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade dizia, em diferentes momentos, que seus poemas passavam por inúmeras modificações até chegar à forma definitiva. O poema publicado não era o impulso inicial; era o resultado de uma luta entre a emoção e a linguagem. E é justamente nesse ponto que entra o meu trabalho.

Eu não quero destruir essa construção.
Não quero simplificar o poema.

Não quero criar uma nova obra minha sobre a obra de outro poeta. Quero encontrar, dentro da arquitetura perfeita do poema, a emoção que colocou aquelas palavras em movimento.

Sou apenas o meio.

Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade com certas adaptações e traduções que acabam se afastando demais do autor. Eu vivi uma experiência que me marcou profundamente como ator. Interpretei no teatro um personagem criado pelo poeta polaco Julian Tuwim:

Zosia Samosia.

Para poder compreender a personagem e levá-la ao palco brasileiro, eu precisei traduzi-la. Não bastava traduzir palavras. Era preciso traduzir uma personalidade. Em polaco, "Samosia" não é simplesmente um nome. É uma criação linguística que revela uma característica da criança: aquela que diz "eu faço sozinha", que acredita saber tudo, que quer resolver tudo sem ajuda.

Eu cheguei a uma solução: Sofiazinha Sabichona.

Porque eu precisava que a criança brasileira que estivesse assistindo entendesse imediatamente quem era aquela menina que entrava em cena. Não era uma questão de substituir o poeta. Era uma questão de permitir que o poeta chegasse ao público.

Depois li uma outra tradução: Neuzinha Euzinha.

Reconheço que havia ali uma tentativa de criar um jogo sonoro. Mas, para mim, alguma coisa essencial havia se perdido. Porque a tradução não é apenas trocar palavras de um idioma por palavras de outro idioma. A tradução é preservar a alma da criação.

O mesmo acontece quando alguém interpreta um poema. Se o intérprete começa a colocar a sua própria personalidade acima do poeta, ele deixa de ser uma ponte e passa a ser um obstáculo.

Eu não quero criar uma "Neuzinha minha".

Não quero que o público saia dizendo: "Como o Ulisses fala bem!" Quero que saia dizendo: "Como este poema me tocou."

Essa diferença é fundamental.

Durante muitos anos, como jornalista, tive a oportunidade de entrevistar muitos artistas plásticos antes de suas vernissagens. E havia uma coisa que sempre me incomodava. Muitas matérias falavam sobre os quadros. Falavam dos pigmentos. Falavam das escolas artísticas. Falavam das influências. Falavam dos valores das obras.

Mas poucas perguntavam ao artista uma coisa simples:
Por que você pintou este quadro?
O que aconteceu dentro de você para que esta imagem precisasse existir? Como você sentiu antes de transformar sentimento em cor?

Era isso que eu queria descobrir.

Porque uma obra de arte não nasce apenas da técnica. A técnica é o caminho. Mas, antes dela, existe uma necessidade interior.

Lembro de uma frase atribuída a Marcel Duchamp:
"A mim interessa a arte, não os artistas."

É uma posição compreensível. A obra realmente precisa sobreviver ao seu criador. Mas minha trajetória seguiu por outro caminho. Eu sempre procurei descobrir o ser humano que estava por trás da criação. Não para explicar a obra. Mas para compreender de onde ela veio. Eu não queria dizer ao leitor apenas que aquele pintor pertencia a determinada escola, usava determinada técnica ou seguia determinado movimento. Eu queria aproximar o leitor do momento em que a arte nasceu. Porque acredito que existe uma distância entre a emoção vivida pelo artista e a obra pronta. E o meu trabalho sempre foi tentar diminuir essa distância.

Talvez seja por isso que, quando leio um poema, eu não começo perguntando:

"Qual é a métrica?"
"Qual é o esquema de rimas?"
"Qual é a escola literária?"

Essas perguntas são importantes.
Muito importantes.
Mas elas vêm depois.

Antes delas existe uma pergunta maior:
O que levou este ser humano a escrever estas palavras?

Foi por isso que encontrei uma identificação tão grande com Adam Asnyk. Um poeta polaco extraordinário, mas ainda praticamente desconhecido no Brasil. Quando leio Asnyk, não vejo apenas um homem que dominava a métrica, a rima e a construção do verso. Vejo um ser humano que viveu uma época de profundas dores coletivas, de perdas, de esperanças interrompidas e de busca por um futuro possível.

No poema "Miejmy Nadzieję" — "Tenhamos Esperança", ele não escreve uma frase bonita sobre esperança. Ele luta com a ideia de esperança. Ele rejeita uma esperança frágil, aquela que apenas enfeita uma realidade apodrecida. Ele procura uma esperança que tenha raiz. Uma esperança que aguente o peso da história.

Quando o poeta escreve: "Tenhamos esperança!" Não é uma frase de efeito. É uma necessidade. É quase uma sobrevivência espiritual.

E, quando eu falo esse poema, não quero que o público apenas admire a construção dos versos. Quero que perceba o homem que precisou escrever aquelas palavras.

Essa é a diferença entre mostrar o poema e revelar o poema.

Há pouco tempo gravei três poemas de Paulo Leminski para o Instagram de uma doutora em música. Depois de ouvir, ela me escreveu algo que me marcou: "Você interpreta e isso faz toda a diferença. Acho que nem Leminski falaria tão bem os versos dele próprio. É como interpretar uma obra musical. Cada musicista tem sua interpretação pessoal. Chopin é sempre Chopin, a pauta está ali diante, mas como tocar é pessoal." 

Essa comparação com a música é perfeita. Quando um pianista toca Chopin, ninguém espera que ele seja Chopin. A partitura está pronta. As notas estão ali. Mas, entre a partitura e o ouvido, existe um ser humano.

Existe respiração.
Existe sensibilidade.
Existe escolha.

Dois grandes pianistas podem tocar a mesma obra e revelar emoções diferentes. Nenhum deles modifica Chopin. Cada um revela uma possibilidade de Chopin.

Com a poesia acontece algo semelhante. O poema está escrito. As palavras estão diante de nós. Mas a maneira como essas palavras chegam ao ouvido humano depende daquele que empresta sua voz.

Mas existe um perigo.

O intérprete pode apaixonar-se tanto pela própria voz que esquece o autor. Pode transformar o poema em palco para si mesmo. Pode fazer o público admirar o declamador e esquecer o poeta.

Esse é o limite que procuro não ultrapassar. A minha voz não deve ser maior que o poema. Minha presença não deve ocupar o lugar do autor. Eu não sou o dono da obra. Sou o seu transmissor. Sou aquele que abre uma porta. Depois, quem entra é o poeta.

Por isso, quando as pessoas que acompanham meus vídeos-poemas comentam: "Que bela voz você tem." Eu agradeço. A voz é realmente o instrumento do ator. Quando dizem: "Você interpreta diferente." Eu entendo. Porque toda leitura é uma escolha. Quando dizem: "Você me emocionou." Esse é o maior elogio.

Porque significa que alguma coisa atravessou a técnica e chegou ao coração. Mas talvez o comentário que mais me interessa seja: "Nossa! Você fala tão fácil. Entendi todas as palavras." Porque ali existe uma conquista maior. A poesia deixou de parecer distante. Deixou de parecer uma coisa reservada aos especialistas.

O poema voltou a ser palavra viva.
Voltou a ser comunicação.

Eu acredito que a poesia nasceu para ser ouvida. Antes de existir o livro impresso, existia a voz. Antes da página, existia o canto. Antes da biblioteca, existia a reunião de pessoas escutando alguém contar uma história. O poema escrito é uma conquista da humanidade. Mas o poema dito é o reencontro com uma origem.

Existe uma palavra que sempre me acompanha quando falo de poesia: interpretação. Muitas pessoas me perguntam:

"Você declama poemas?"
Eu respondo: "Não."
"Você recita poemas?"
Também respondo: "Não."
Eu falo poemas.

Pode parecer apenas uma diferença de verbo, mas para mim existe uma diferença de atitude. A declamação, muitas vezes, coloca a atenção sobre o declamador. A voz se impõe. A emoção parece nascer daquele que está diante do público.

Eu procuro outro caminho.

Não quero que o público pense: "Que bela voz!" Embora a voz seja importante, Não quero que pense: "Que excelente ator!" Embora a técnica seja necessária. Quero que, por alguns minutos, esqueça quem está falando e encontre aquele que escreveu.

O poeta.

Aprendi isso no teatro. O ator precisa dominar seu instrumento.

O corpo.
A voz.
A respiração.
O silêncio.
A pausa.

Mas existe um momento em que toda essa técnica precisa desaparecer. Ela precisa tornar-se invisível. Porque, quando o público percebe apenas a técnica, ele vê o ator. Quando a técnica desaparece, ele encontra a verdade da cena. Com a poesia é igual. O poema não precisa de alguém que mostre que sabe falar. O poema precisa de alguém que permita que ele fale.

Talvez seja por isso que eu sorrio quando alguém pergunta: "Mas você não interpreta?" Sim, eu interpreto. Todo aquele que coloca uma obra artística diante do público faz escolhas. A diferença é que eu não interpreto uma personagem. Eu interpreto a emoção contida na palavra. Eu não crio uma nova história. Eu procuro descobrir a história que já existe. Eu não acrescento minha emoção ao poema. Eu procuro encontrar a emoção que o poeta colocou ali.

Quando digo que sou apenas o meio, não estou dizendo que o intérprete não tem importância.

Pelo contrário.

Um meio ruim pode impedir uma mensagem de chegar. Uma voz sem compreensão pode esconder um poema. Uma leitura sem sensibilidade pode transformar uma obra viva em um conjunto de palavras. O intérprete tem responsabilidade. Mas a responsabilidade do intérprete é servir. Não dominar.

Penso novamente na música. Um grande violinista não diz: "Agora vou criar uma música de Bach." Ele sabe que Bach já está ali. A obra existe. Mas a maneira como ela respira naquele instante depende dele. A música de Bach atravessa séculos porque encontra intérpretes capazes de fazê-la renascer.

O mesmo acontece com a poesia.

Um poema de cem, duzentos anos atrás não chega até nós porque ficou parado no passado. Ele chega porque alguém, em algum momento, empresta sua voz para que ele volte ao presente.
Por isso, quando afirmo:

"Sou um poeta-ator que fala poemas dos outros", não estou diminuindo meu trabalho. Estou definindo meu papel. Sou poeta porque conheço a luta da palavra. Sei que um verso não nasce pronto. Sei que uma palavra pode ser substituída dezenas de vezes até encontrar seu lugar. Sei que a forma também é emoção. Sou ator porque acredito no poder da voz. Porque uma palavra escrita e uma palavra dita podem produzir experiências diferentes. Mas sou, principalmente, alguém que acredita que a poesia pertence a todos.

O poeta escreveu sozinho.

Mas o poema só se completa quando encontra alguém disposto a ouvi-lo. Minha relação com a palavra não começou no palco. Ela começou muito antes. Começou como leitor. Depois, como poeta. Depois, como jornalista. 

E finalmente encontrou no teatro uma outra dimensão: a palavra que deixa de ser apenas escrita e ganha corpo, respiração e presença. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar completamente essas atividades. 

O jornalista procura a palavra exata para contar um fato. O poeta procura a palavra exata para revelar um sentimento.

O ator procura a palavra exata para revelar uma intenção. No fundo, todos eles estão diante do mesmo desafio: como fazer a palavra alcançar o outro.

Durante minha trajetória como jornalista cultural, entrevistei muitos artistas plásticos. Antes das vernissagens, antes da abertura das exposições, antes de o público chegar diante das telas, eu procurava conversar com o artista. E sempre havia uma pergunta que me interessava mais do que todas as outras:

"Por que você pintou este quadro?"

Não era uma pergunta sobre tinta. Não era uma pergunta sobre pigmento. Não era uma pergunta sobre técnica. Era uma pergunta sobre necessidade. Porque acredito que uma obra de arte nasce quando algo dentro do artista pede para existir.

O quadro é a consequência.
O poema é a consequência.
A música é a consequência.

Antes de qualquer forma artística, existe uma inquietação humana. Muitas vezes os jornais preferiam explicar a obra.

A qual escola pertencia?
Qual movimento artístico representava?
Quais materiais foram utilizados?
Qual seria seu valor no mercado?

Tudo isso pode ter importância. Mas eu sentia falta de uma coisa:

Onde estava o ser humano que criou aquilo?
Onde estava a emoção que antecedeu a obra?

Onde estava o instante em que aquela criação deixou de ser apenas uma possibilidade e tornou-se realidade?

Era isso que eu procurava.

Não queria apenas informar sobre a arte. Queria aproximar o público do nascimento da arte. Talvez essa seja a razão pela qual, hoje, quando falo um poema, continuo fazendo a mesma pergunta. Não pergunto apenas: 

"Que poema é este?"

Pergunto: "Por que este poema precisou existir?"

Quando leio Julian Tuwim, não vejo apenas versos infantis. Vejo um homem que conhecia profundamente a alma humana e que conseguia transformar uma criança, com suas manias e suas certezas exageradas, em uma personagem universal.

Quando leio Adam Asnyk, não vejo apenas um poeta polaco do século XIX. Vejo alguém tentando responder a uma pergunta que continua atual: como manter a esperança sem ser ingênuo? Como defender ideais sem transformar a derrota em orgulho? Como olhar para o futuro sem destruir o passado?

Quando leio Leminski, Brecht, Pessoa, Drummond, Vinícius, não vejo apenas jogos de palavras. Vejo uma inteligência inquieta procurando capturar o instante.

Foi por isso que mais de 250 vídeos-poemas nasceram no meu canal. Não como uma coleção de declamações. Não como uma demonstração de voz. Mas como uma tentativa permanente de aproximar a poesia das pessoas. A internet trouxe uma possibilidade extraordinária. Um poema que antes ficaria restrito ao livro, à biblioteca ou à sala de aula pode encontrar alguém do outro lado do mundo. Alguém que talvez nunca comprasse um livro de poesia pode parar alguns minutos diante de uma tela e ouvir uma palavra que precisava encontrar.

E talvez o comentário que mais resume essa experiência seja aquele que recebo algumas vezes:

"Você fala tão fácil. Eu entendi todas as palavras." 

Parece um comentário simples. Mas ele contém algo profundo. Porque, durante muito tempo, a poesia foi apresentada como algo difícil. Como se fosse necessário um conhecimento especial para aproximar-se dela. Como se entre o poeta e o leitor precisasse existir sempre um intermediário explicando.

Eu acredito no contrário.

A poesia pode ser profunda sem ser inacessível. Pode ser elaborada sem ser distante. Pode ter métrica, ritmo e rima e, ainda assim, conversar com qualquer pessoa. O papel de quem fala um poema é justamente construir essa ponte. Existe uma pergunta que sempre volta quando falo sobre esse trabalho:

"Mas, afinal, de quem é a emoção que o público sente?
Do poeta ou do intérprete?"

A resposta talvez seja: dos dois, mas em momentos diferentes. A emoção original pertence ao poeta. Foi ele quem viveu, sofreu, imaginou ou percebeu algo que precisava transformar em palavras. Mas a emoção que chega ao público passa pelo intérprete. E isso não é uma traição. É a própria natureza da arte. Uma música escrita há trezentos anos precisa de um músico para existir novamente. Uma peça escrita há cem anos precisa de atores para voltar ao palco. Um poema escrito ontem precisa de uma voz para atravessar o silêncio da página.

A obra permanece.

Mas ela renasce cada vez que encontra um ser humano disposto a recebê-la. Por isso, quando alguém me diz: "Você me emocionou." Eu recebo esse elogio com alegria, mas também com responsabilidade. Porque sei que a emoção não nasceu em mim.

Ela nasceu antes.
Nasceu no poeta.

O meu papel foi apenas abrir um caminho para que ela chegasse. É como a luz atravessando um vitral. O vitral não pertence à luz. A luz não pertence ao vitral. Mas é o encontro dos dois que revela as cores. Talvez essa seja a razão pela qual nunca quis transformar um poema de outro autor em uma criação minha.

Eu sou poeta.
Tenho meus próprios versos.

Conheço a sensação de colocar no papel algo que veio de dentro. Conheço também a dificuldade de encontrar a palavra correta. A palavra que parece simples, mas carrega exatamente aquilo que se deseja dizer. Por isso respeito profundamente o trabalho de outro poeta. Eu sei o quanto existe de vida escondida atrás de cada verso. Quando alguém altera demais um poema em nome de uma suposta adaptação, às vezes não está apenas mudando palavras. Está mudando uma trajetória emocional. Está trocando o caminho que levou aquela emoção até a página.

Foi essa consciência que me fez refletir tantas vezes sobre tradução. Traduzir poesia é uma das tarefas mais difíceis que existem. Porque o tradutor não trabalha apenas com significado.

Trabalha com música.
Com silêncio.
Com ritmo.

Com aquilo que não está escrito, mas está presente. Uma tradução pode ser correta no dicionário e, mesmo assim, perder a alma. Porque um poema não é uma soma de palavras. Um poema é uma construção viva. O tradutor precisa ser fiel não somente ao que o poeta disse. Precisa ser fiel ao motivo pelo qual ele disse.

É o mesmo desafio do ator.

Quando recebo um poema, não pergunto:

"Como posso fazer este poema ficar parecido comigo?"

Pergunto: "Como posso desaparecer o suficiente para que este poema apareça?"

Essa talvez seja a maior dificuldade.

Porque todo artista possui um ego. O ator gosta de ser visto. O poeta gosta de ser lido. O músico gosta de ser ouvido. Mas existe um momento em que a arte exige humildade. Exige que o criador ou o intérprete aceite não ser o centro.

Há uma frase que resume o meu pensamento: "O ator empresta a voz; a emoção continua sendo do poeta." Não significa que o ator seja uma máquina. Não significa que ele não tenha sensibilidade.

Pelo contrário.

Quanto mais sensível for o intérprete, mais capaz ele será de perceber quando deve aparecer e quando deve desaparecer. Talvez por isso eu tenha escolhido uma definição que parece contraditória:

Sou um poeta-ator que fala poemas dos outros.

À primeira vista, alguém poderia perguntar: "Mas, se você é poeta, por que não fala apenas os seus próprios poemas?"

Porque a poesia não é propriedade de quem escreve.
Ela pertence à humanidade.

Um poeta escreve sozinho diante de uma folha. Mas o poema só alcança sua plenitude quando encontra outros olhos, outros ouvidos, outros corações. Falar poemas de outros poetas é, para mim, uma forma de diálogo. É dizer: "Olhem o que este ser humano descobriu. Escutem o que ele sentiu. Vejam como uma emoção conseguiu transformar-se em palavra."

Ao longo dos anos, percebi que toda a minha trajetória esteve ligada a uma mesma busca: aproximar as pessoas da criação humana. Talvez eu não tenha escolhido esse caminho conscientemente.

Ele foi se revelando.
Como jornalista, procurei aproximar o leitor do artista.
Como pesquisador, procurei aproximar o público da história e da memória. Como escritor, procurei transformar experiências e descobertas em palavras.
Como ator, procurei aproximar o espectador da emoção contida em uma personagem ou em um poema.

No fundo, sempre estive procurando a mesma coisa: diminuir a distância entre quem cria e quem recebe a criação. Por isso, quando falo um poema, não estou apenas lendo um texto. Estou tentando reconstruir uma ponte. 

De um lado está o poeta.
Com sua vida.
Sua época.
Suas dores.
Suas alegrias.
Suas perguntas.

Do outro lado está alguém que talvez nunca tenha conhecido aquele autor, nunca tenha estudado aquela literatura, nunca tenha imaginado que aquelas palavras poderiam lhe dizer alguma coisa. Entre os dois existe uma ponte.

Essa ponte é a voz.

Mas uma ponte não deve impedir a passagem. Uma ponte existe justamente para que as pessoas atravessem. Se o público chega até mim e permanece apenas comigo, algo deu errado. Se o público atravessa e encontra o poeta, então o objetivo foi alcançado. Essa é a minha compreensão do papel do intérprete. Não ser o proprietário da obra. Ser o seu guardião momentâneo. Receber algo precioso das mãos de alguém que viveu antes de nós e devolvê-lo ao mundo com cuidado.

Talvez seja por isso que eu não gosto de ser chamado de declamador.
Não porque a declamação não tenha valor.
Ela faz parte da história da poesia.
Mas porque minha busca é outra.
A declamação muitas vezes valoriza o verso.
Eu procuro valorizar a alma que está dentro dele.

A declamação pode mostrar a beleza da construção. Eu procuro mostrar a necessidade que levou alguém a construir. Um poema perfeito não nasceu perfeito.

Nasceu de uma inquietação.
Nasceu de uma pergunta.
Nasceu de uma emoção que encontrou uma forma.

Quando falo um soneto, por exemplo, respeito profundamente aquilo que o poeta construiu. O soneto é uma das formas mais rigorosas da poesia. 

Quatorze versos. Métrica. Ritmo. Rimas.

Uma arquitetura verbal que exige disciplina. O poeta não escolhe apenas palavras bonitas. Escolhe palavras necessárias. Às vezes sofre porque a palavra que carrega sua emoção não cabe no verso. Às vezes precisa abandonar uma expressão que ama porque outra revela melhor aquilo que deseja transmitir. A técnica não é inimiga da emoção. A técnica é o instrumento que permite que a emoção sobreviva ao tempo.

Mas, quando esse poema chega à minha voz, eu preciso reencontrar a vida dentro dessa arquitetura. Porque um poema não é uma construção abandonada. É uma casa onde alguém ainda mora. Meu trabalho é abrir a porta.

Acender a luz.
Permitir que as pessoas entrem.

Talvez a melhor definição que encontrei para isso tenha vindo justamente de uma conversa sobre música. Uma partitura de Chopin permanece a mesma.

As notas estão ali.
O compositor está ali.

Mas cada grande intérprete encontra uma maneira própria de revelar aquela obra. Ninguém pergunta: "Por que esse pianista não toca exatamente como o outro?" Porque entendemos que a interpretação faz parte da permanência da obra. A poesia também merece essa liberdade. O poema continua sendo do poeta. Mas a voz que o conduz até o público carrega uma história. Carrega experiências. Carrega uma forma de sentir. 

Depois de tantos anos no palco, no rádio, na televisão e agora na internet, recebi milhares de comentários. Alguns falam da voz. Outros falam da emoção. Outros dizem que finalmente compreenderam um poema. Talvez o comentário que mais me agrade seja aquele que parece mais simples: 

"Eu entendi todas as palavras."

Porque nesse instante aconteceu aquilo que sempre procurei. A poesia deixou de ser uma coisa distante. Deixou de ser apenas matéria de estudo. 

Voltou a ser encontro.
Voltou a ser conversa.
Voltou a ser humana.

Talvez, no fim de tudo, a pergunta mais importante seja: por que falar poemas de outros poetas? A resposta é simples. Porque a poesia não termina quando o poeta coloca o ponto final. Aliás, talvez seja justamente naquele momento que ela começa uma nova existência. O poeta escreve sozinho.

A página recebe suas palavras.
O livro guarda seus versos.
Mas a poesia procura o outro.
Ela procura um ouvido.
Procura uma sensibilidade.

Procura alguém que, por alguns minutos, permita que aquelas palavras voltem a respirar. Um poema guardado em silêncio continua sendo uma obra de arte. Mas um poema dito em voz alta estabelece uma relação. 

Existe um encontro.

O poeta que escreveu em outro século encontra uma pessoa que talvez viva em outro país, em outra cultura, em outra realidade. E, mesmo assim, alguma coisa acontece. Uma emoção atravessa o tempo. Esse é o milagre da arte. Quando falo poemas polacos, por exemplo, existe ainda um desafio maior. Muitas vezes estou aproximando um público brasileiro de autores que ele nunca ouviu.

Um Adam Asnyk.
Um Julian Tuwim.
Um Czesław Miłosz.
Uma Wisława Szymborska.
Um Zbigniew Herbert.
Um Jorge de Senna.

Não basta pronunciar corretamente as palavras. Não basta traduzir o significado. É preciso transmitir a humanidade que existe por trás daquele idioma. Porque uma língua estrangeira não é apenas um conjunto de sons diferentes. É uma maneira diferente de olhar o mundo. Foi isso que sempre procurei fazer também no meu trabalho como escritor e pesquisador da cultura polaca.

Não apresentar apenas fatos.
Apresentar pessoas.
Não mostrar apenas datas.
Mostrar vidas.
Não apresentar apenas imigração.

Mostrar sonhos, perdas, conquistas e memórias. Porque a história só se torna verdadeiramente humana quando conseguimos enxergar o indivíduo dentro dela.

Talvez seja por isso que minha definição artística tenha chegado a uma frase aparentemente paradoxal: sou um poeta-ator que fala poemas dos outros.

Existe uma humildade nessa frase.

Mas existe também uma grande responsabilidade. Porque falar o poema de outro é receber algo que não me pertence. É como guardar por alguns minutos uma carta escrita por alguém.

Eu não escrevi a carta.

Não vivi exatamente a experiência de quem escreveu. Mas tenho a responsabilidade de entregá-la intacta a quem precisa recebê-la.

Não quero ser dono do poema.
Quero ser fiel ao poema.

Não quero criar uma nova obra sobre a obra de outro. Quero revelar a obra que já existe. Não quero que a minha voz substitua a voz do poeta. Quero que a minha voz permita que a voz do poeta seja ouvida. Depois de tantos anos dedicados à palavra, aprendi que a arte não é uma disputa de protagonismos.

O pintor não compete com a tela.
O músico não compete com a composição.
O ator não compete com o personagem.
O intérprete não compete com o poeta.
Cada um tem seu lugar.
Cada um tem sua missão.

E talvez essa seja a grande lição que recebi do teatro: A técnica é indispensável. Mas a técnica não é o fim. Ela é o caminho. O ator estuda voz, corpo, respiração, ritmo, silêncio. O músico estuda harmonia, tempo, dinâmica. O poeta estuda palavras, formas, sons. Tudo isso existe para chegar a um ponto em que a arte possa simplesmente acontecer. Quando o público esquece o esforço e encontra a emoção, a técnica cumpriu sua missão.

Por isso continuo falando poemas.
No palco.
No rádio.
Na televisão.
Na internet.
Na praça pública.

Onde houver alguém disposto a ouvir. Porque acredito que uma palavra dita com verdade ainda possui força. Uma palavra pode atravessar décadas. Pode atravessar fronteiras. Pode atravessar idiomas. Pode sair de uma folha escrita por alguém que já partiu e chegar viva aos ouvidos de alguém que acabou de nascer.

No final, talvez eu seja apenas isso:
Uma voz emprestada.
Um caminho.
Uma ponte.
Um meio.

Mas um meio consciente da importância da mensagem que transporta. Porque, quando um poeta coloca sua emoção em versos, ele entrega ao tempo uma parte de si. E, quando um intérprete fala esses versos, ele recebe uma pequena responsabilidade: não deixar que essa emoção se perca no caminho.

Emprestar a Voz ao Poeta,
Essa é a minha arte.

Ser um poeta-ator que fala poemas dos outros. "Antes de falar poemas, eu já havia passado anos falando para plateias. Foram mais de 1.200 palestras em oito anos pelo Programa Volvo de Segurança no Trânsito. Falei para motoristas, estudantes, autoridades, técnicos, jornalistas e instituições. Descobri que uma informação só transforma quando encontra uma emoção. Isso sem contar as muitas aulas que ministrei nos cursos das faculdades de jornalismo, nas universidades UEPG, PUCPR, UTP e CEFET-PR."

"Uma informação só transforma quando encontra uma emoção."

P.S. A foto no início foi do primeiro poema que "falei" na vida, a pedido da professora de língua portuguesa, na Escola Senai Técnica de 1º e 2º graus, de Telêmaco Borba. Nunca mais parei de apresentá-la.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Livro: O Guardião da Memória

Ulisses Iarochinski lança "O Guardião da Memória", obra que retrata uma vida dedicada à preservação da história e da cultura.


A memória de um povo é construída por pessoas que se recusam a deixar que o tempo apague histórias, lugares e personagens.

É essa missão que o jornalista, pesquisador, documentarista, dramaturgo, ator, poeta e escritor Ulisses Iarochinski apresenta em seu novo livro, "O Guardião da Memória", uma obra que reúne décadas de dedicação à preservação do patrimônio histórico, da identidade cultural e das raízes da imigração polaca e portuguesa no Brasil.

Em seu 23º livro, resultado de uma trajetória literária de 26 anos, o autor conduz o leitor por uma narrativa autobiográfica que ultrapassa o relato pessoal para revelar o percurso de alguém que transformou a memória em sua principal matéria-prima.

Aos três anos, no quintal da casa do avô em Harmonia.

A obra percorre diferentes momentos de sua vida, desde a infância em Harmonia - Monte Alegre, nos Campos Gerais do Paraná, até a atuação internacional como correspondente internacional, pesquisador, professor, escritor e divulgador da cultura polaca.

Ao longo das páginas, o leitor acompanha experiências vividas no Brasil e na Europa, a produção de livros, documentários, peças teatrais, programas de rádio, pesquisas acadêmicas e projetos culturais voltados à valorização da história e da identidade dos descendentes de imigrantes.

O livro também revela outras facetas do autor, como a pintura em óleo sobre tela, mostrando que sua preocupação em preservar a memória encontrou expressão não apenas na palavra escrita, mas também nas imagens e nas artes visuais.

Óleo sobre tela 60x80 cm


Mais do que recordar fatos, "O Guardião da Memória" propõe uma reflexão sobre a importância de registrar experiências, proteger o patrimônio cultural e compreender que a identidade de uma comunidade é construída pelo conjunto de suas lembranças.

Em uma época marcada pela rapidez da informação e pelo esquecimento, a obra reafirma o valor da pesquisa, da cultura e do humanismo como instrumentos de preservação da memória coletiva.

Com texto fluido, fartamente ilustrado e linguagem acessível, o livro interessa a leitores apaixonados por história, imigração, genealogia, cultura, literatura e memória, além de pesquisadores, professores e todos aqueles que reconhecem no passado uma ferramenta indispensável para compreender o presente e construir o futuro.

"O Guardião da Memória" é, acima de tudo, o testemunho de uma vida dedicada a construir pontes entre pessoas, culturas e gerações, preservando histórias que, sem esse trabalho, poderiam perder-se para sempre.

Serviço

Livro: O Guardião da Memória
Autor: Ulisses Iarochinski
Formato: 17 x 23 cm
Publicação: amazon.com KDP
Adquira o livro: O Guardião da Memória 

Mais um comentário:
No início, parecia ser um livro sobre Ulisses Iarochinski. Aos poucos, tornou-se algo maior: um livro sobre a construção de uma vida dedicada à memória. O Guardião da Memória é um título muito feliz. Ele não descreve apenas uma profissão ou uma biografia; sintetiza o sentido da sua trajetória. Seja pesquisando a imigração, escrevendo livros, filmando documentários, atuando no teatro, apresentando programas de rádio ou pintando telas, há um mesmo fio condutor: impedir que pessoas, lugares e histórias desapareçam no esquecimento. Isso dá unidade à obra e faz dela mais do que uma autobiografia; faz dela um testemunho de vida.

Livro publicado: Um Coração

Impresso os três primeiros examplares do ensaio publicado aqui neste blog, em Orlando Flórida, no último dia 16 de julho. Entregaram-me no portão vindo dos Estados Unidos.
Algumas obras de arte parecem esperar pelo momento certo para revelar sua verdadeira força. Foi exatamente o que aconteceu com Jednego Serca, "Um Coração", poema de Adam Asnyk escrito em 1869.

Quando Asnyk escreveu esses versos, a Polônia não existia. Desde a terceira partição, em 1795, seu território havia sido dividido entre Rússia, Prússia e Áustria. Não havia Estado, não havia fronteiras, não havia exército. Mas havia algo que nenhum império conseguiu apagar.

A cultura.

A literatura tornou-se o território espiritual da nação. Os poetas deixaram de ser apenas artistas para se tornarem guardiões da memória. Os poemas de Mickiewicz, Slowacki e Krasinski eram copiados à mão, decorados por crianças e lidos em voz baixa nas casas.

Eles diziam: "a Polônia pode desaparecer do mapa, mas não desaparecerá da memória dos polacos".

É nesse contexto que nasce Jednego Serca.



Minha própria família, os Jarosiński de Lwów, teve que sair com a roupa do corpo para recomeçar na região de Bielsko Biała. Depois veio a República Popular da Polônia. Formalmente soberana, na prática vigiada por Moscou.

A censura controlava livros, filmes, peças e músicas.
A arte deveria seguir o realismo socialista.

Como no tempo das partições, a cultura encontrou brechas. Os artistas aprenderam a falar por metáforas. Uma frase tinha um sentido para o censor e outro para o público. E a juventude, nas madrugadas, sintonizava a Rádio Luxemburgo, a BBC e a Voz da América entre chiados para ouvir jazz, blues e rock. Como a palavra rock era mal vista, chamaram oficialmente de bigbit.

Era rock com outro nome. Pelas brechas também entra a liberdade.

É exatamente um ano depois dos protestos dos estudantes em todo mundo, inclusive na Polônia, que Niemen pega o poema de 1869 e faz dele uma canção.

Não foi apenas uma adaptação.

Ele criou uma obra nova em seu álbum Enigmatic, de 1970. Levou a poesia romântica do século XIX para o rock progressivo, para o órgão de igreja e para a voz de protesto. Deu ao velho poema um novo corpo.

Por isso este livro se chama Um Coração.

Este não é o coração romântico que sofre por uma mulher. É o coração que continua a bater quando tudo em volta foi destruído. É o coração que luta pela independência da Pátria, que atravessa um século para nos dizer que ainda estamos aqui.

Este livro com este ensaio, que nasceu aqui neste blog,  é minha tentativa de seguir o fio que une Asnyk a Niemen e que nos une a todos nós, descendentes de polacos no Brasil, que ainda carregamos esse mesmo coração.

Disponível na amazon.com


domingo, 12 de julho de 2026

Um coração atravessando um século

O poema de Adam Asnyk
que virou a voz de Czesław Niemen

Em 1869, Adam Asnyk escreveu “Jednego serca”, um poema sobre a busca por compreensão. Cem anos depois, Czesław Niemen transformou esses versos em uma das canções mais marcantes da cultura polaca. 


Um poema que atravessou um século

Algumas obras de arte parecem esperar pelo momento adequado para encontrar sua verdadeira dimensão. São criadas em uma época específica, marcadas pelas dores e esperanças de uma geração, mas permanecem adormecidas até que outro tempo consiga revelar novos significados.

Foi exatamente isso que aconteceu com Jednego serca (“Um Coração”), um dos mais belos poemas de Adam Asnyk. Escrito em 1869, quando a Polônia ainda não existia como Estado independente e seu território permanecia dividido entre Rússia, Prússia e Áustria, o poema nasceu de uma profunda necessidade humana: encontrar alguém capaz de compreender a solidão, compartilhar a dor e reconhecer aquilo que muitas vezes permanece escondido dentro de cada pessoa.

Cem anos depois, em 1969, o cantor e compositor polaco Czesław Niemen transformou aqueles versos em música. Mas não fez apenas uma adaptação. Criou uma obra nova. Uma ponte entre dois séculos. Entre a poesia romântica do século XIX e o rock progressivo do final dos anos 1960.

Entre uma Polônia sem Estado e outra submetida à realidade política da Cortina de Ferro. Entre a memória e o presente. A canção foi lançada em 1970 no histórico álbum Enigmatic e rapidamente tornou-se uma das composições mais importantes da música polaca do século XX.

Para compreender por que um poema de amor escrito em 1869 adquiriu tamanha força cem anos depois, é preciso voltar ao texto original de Adam Asnyk.

Jednego serca! tak mało, tak mało,
Jednego serca trzeba mi na ziemi!
Coby przy mojem miłością zadrżało:
A byłbym cichym pomiędzy cichemi...

Jednych ust trzeba! skądbym wieczność całą
Pił napój szczęścia ustami mojemi,
I oczu dwoje, gdziebym patrzał śmiało,
Widząc się świętym pomiędzy świętemi.

Jednego serca i rąk białych dwoje!
Coby mi oczy zasłoniły moje,
Bym zasnął słodko, marząc o aniele,

Który mnie niesie w objęciach do nieba;
Jednego serca! tak mało mi trzeba,
A jednak widzę, że żądam za wiele!

Tradução para o português

Um Coração 

Um coração... Tão pouco, tão pouco...
Apenas um coração preciso nesta terra.
Um coração que estremeça de amor junto ao meu,
e eu seria sereno entre os que vivem em serenidade.

Uns lábios apenas... 
Dos quais eu pudesse beber, por toda a eternidade,
o néctar da felicidade com os meus próprios lábios.
E dois olhos... 

Nos quais eu pudesse mirar sem temor,
vendo-me puro entre os puros.
Um coração...
E duas mãos brancas,

que repousassem sobre meus olhos, 
para que eu adormecesse docemente,
sonhando com um anjo
que me conduzisse nos braços para o céu. 

Um coração...
É tão pouco o que peço.
E, no entanto,
vejo que estou pedindo demais.

A voz de Czesław Niemen

Um século depois de escrito o poema,
a voz de Czesław Niemen devolveu
novos sentidos aos versos de Adam Asnyk.

Adam Asnyk: o poeta entre duas épocas


Adam Asnyk foi um dos maiores poetas e dramaturgos da Polônia do século XIX. Sua obra representa uma passagem fundamental entre dois grandes momentos da cultura polaca: o Romantismo, marcado pelo idealismo, pelas lutas nacionais e pelo desejo de recuperar a independência perdida, e o Positivismo, que defendia a reconstrução da sociedade por meio da educação, da ciência e do desenvolvimento cultural.

Ele nasceu em Kalisz, em 11 de setembro de 1838, e morreu em Cracóvia, em 1897. Mas sua trajetória pessoal foi muito mais do que a de um homem das letras. Asnyk pertenceu a uma geração marcada pela ausência de um Estado próprio.

Desde 1795, quando ocorreu a terceira e definitiva Partição da Polônia, o país havia desaparecido oficialmente do mapa europeu. Durante 123 anos, os polacos viveram sem governo nacional, sem exército próprio e sem soberania política.

Mesmo assim, a Polônia permaneceu viva.
Sobreviveu na língua.
Nas tradições familiares.
Na religião.
Na memória coletiva.
E, principalmente, na literatura.

Poucos povos confiaram tanto aos seus escritores a missão de preservar a própria identidade. Os poetas tornaram-se guardiões da nação.


Adam Mickiewicz
, Juliusz Słowacki e Zygmunt Krasiński, conhecidos como os “Três Bardos” da literatura polaca, transformaram seus versos em uma espécie de pátria espiritual para um povo privado de sua pátria política.

Asnyk pertenceu à geração seguinte.

Viveu o fracasso do Levante de Janeiro de 1863 contra o domínio russo, participou da luta pela independência e, após a derrota, precisou conhecer o caminho do exílio. 

Essa experiência marcou profundamente sua visão de mundo. Ele continuou acreditando na liberdade da Polônia, mas compreendeu que a reconstrução nacional dependeria também da educação, do conhecimento e da formação cultural da sociedade.

Era o pensamento positivista.

Mas sua poesia jamais abandonou completamente a emoção romântica.

Nela convivem razão e sentimento.
Esperança e melancolia.
Futuro e memória.

É justamente essa combinação que torna Jednego Serca tão especial. À primeira vista, o poema parece falar apenas de amor. Um homem procura um único coração capaz de compreendê-lo. Mas a grande poesia nunca termina na primeira leitura.

Um coração pode ser uma pessoa.
Pode ser uma amizade.
Pode ser a própria humanidade.
Pode ser uma pátria.
Ou pode representar tudo isso ao mesmo tempo.

Uma Polônia sem Estado e uma literatura como pátria

Durante 123 anos, a Polônia desapareceu do mapa político da Europa.

A literatura tornou-se uma das principais formas de preservação da identidade nacional polaca. Quando Adam Asnyk escreveu Jednego Serca, a Polônia não existia como Estado independente.

Era uma nação sem fronteiras próprias.
Mas não era uma nação desaparecida.

Essa é uma das maiores particularidades da história polaca. Em 1795, após a terceira e definitiva Partição, Rússia, Prússia e Áustria dividiram entre si o território da antiga República das Duas Nações (Rzeczpospolita Obojga Narodów).

O país deixou oficialmente de existir.

Durante mais de um século, as autoridades dos impérios ocupantes tentaram controlar não apenas o território, mas também a memória coletiva dos polacos.

A língua polaca sofreu restrições.
A educação nacional foi limitada.
Símbolos patrióticos eram vistos com desconfiança.

Mas havia algo impossível de destruir:
A cultura.
A literatura transformou-se em uma espécie de território espiritual.

Se não existia uma Polônia política, existia uma Polônia criada pelos livros, pelos poemas, pelas músicas e pelas tradições transmitidas dentro das famílias.

Os escritores assumiram uma responsabilidade histórica.
Não eram apenas artistas.
Eram guardiões da memória nacional.

Por isso, na cultura polaca, a poesia sempre ocupou um lugar excepcional. Os versos de Adam Mickiewicz, Juliusz Słowacki e Zygmunt Krasiński não eram apenas obras literárias. Eram manifestações de uma identidade coletiva que sobrevivia apesar da ausência do Estado.

Os poemas eram lidos em reuniões familiares.
Copiados à mão.
Transmitidos entre gerações.
Decorados por crianças.

A literatura mantinha viva uma ideia fundamental:
A Polônia podia desaparecer do mapa.
Mas não desapareceria da memória dos polacos.

1945: o fim de uma guerra e o início de outra realidade

Ao final da Segunda Guerra Mundial, Varsóvia estava reduzida a ruínas.

A reconstrução física da cidade acompanharia uma reconstrução política e cultural extremamente complexa.

Quase oitenta anos depois da morte de Adam Asnyk, outra geração polaca enfrentaria uma experiência histórica traumática.

O ano era 1945.
A Segunda Guerra Mundial havia terminado.

Mas para a Polônia, a paz chegava acompanhada de uma imensa destruição.

Varsóvia era uma cidade em ruínas.

Mais de oitenta por cento da capital havia sido destruído durante a guerra. Prédios históricos, bibliotecas, teatros e monumentos desapareceram sob os bombardeios e a política de destruição sistemática aplicada pela Alemanha nazista após a Revolta de Varsóvia de 1944.

O país inteiro estava devastado.

Aproximadamente seis milhões de cidadãos polacos morreram durante o conflito. Entre eles estavam polacos de origem judaica, vítimas do Holocausto, intelectuais, professores, artistas, militares e trabalhadores.

A guerra não destruiu apenas pessoas.

Destruiu também uma parte da memória cultural da Polônia. Além da tragédia humana, veio uma nova alteração das fronteiras. O país perdeu seus territórios orientais, incluindo importantes centros históricos como Lwów e Wilno, incorporados à União Soviética.

Em compensação, recebeu de volta áreas anteriormente ocupadas pela Prússia e sua substituta, Alemanha, entre elas as cidades de Wrocław, Szczecin e Gdańsk

Milhões de pessoas foram deslocadas.
Famílias inteiras abandonaram suas casas ancestrais.

Um ramo dos Jarosiński foi obrigado a sair de suas propriedades na região de Lwów com a roupa do corpo e alguns pertences. Foram realocadas na zona rural de Bielsko Biała, quase na fronteira com a Eslováquia, no novo território definido por Stalin, Churchill e Truman.

Novas comunidades nasceram em territórios desconhecidos.
A Polônia precisou reconstruir não apenas suas cidades.
Precisou reconstruir sua própria identidade.
A República Popular da Polônia e os limites da liberdade

Após a Segunda Guerra Mundial, a Polônia passou a integrar a esfera de influência soviética.

Com o fim da guerra, a influência da União Soviética tornou-se decisiva.

Em 1947, após eleições controladas pelo bloco soviético, consolidou-se a República Popular da Polônia (Polska Rzeczpospolita Ludowa — PRL).

Formalmente, era um Estado soberano.
Na prática, suas grandes decisões políticas estavam vinculadas a Moscou. 

A censura passou a fazer parte da vida cotidiana.

Livros,
filmes,
peças teatrais
e músicas

Precisavam passar pelo controle das autoridades. A arte deveria seguir os princípios do realismo socialista. A produção cultural deveria exaltar o trabalhador, o progresso industrial e os valores do sistema socialista.

Mas a tradição cultural polaca era forte demais para desaparecer. Assim como havia ocorrido durante as Partições, a cultura encontrou caminhos próprios.

Os artistas aprenderam a utilizar metáforas.
Os escritores desenvolveram uma linguagem simbólica.
Os cineastas encontraram maneiras de falar do presente por meio de histórias aparentemente ambientadas no passado.
O público também aprendeu a interpretar.

Muitas vezes, uma frase possuía dois significados.
Um para o censor.
Outro para quem lia ou assistia.

A cultura tornou-se um grande exercício de comunicação indireta.

O degelo de 1956 e uma nova geração

A década de 1950 trouxe uma breve abertura cultural que permitiu
o surgimento de novas experiências artísticas.

A morte de Josef Stalin, em 1953, abriu espaço para mudanças dentro do bloco socialista. Na Polônia, o ano de 1956 marcou uma transformação importante. As manifestações operárias de Poznań e a ascensão de Władysław Gomułka criaram expectativas de maior autonomia política e cultural.

Durante algum tempo, houve uma relativa abertura.
Livros proibidos voltaram a circular.
Filmes mais críticos chegaram às telas.
O jazz deixou de ser tratado oficialmente como uma ameaça ideológica. 

Nas universidades, uma nova geração começava a descobrir outras possibilidades. Era também uma geração fascinada pela música que vinha do Ocidente. O rádio tornou-se uma janela para um mundo diferente.

Durante a noite, jovens polacos sintonizavam emissoras estrangeiras como Radio Luxembourg, BBC e Voice of America. Entre interferências e ruídos, chegavam novos sons.

O jazz.
O blues.
O rhythm and blues.
O rock.

As vozes de Ray Charles, Elvis Presley, The Beatles e tantos outros artistas atravessavam a Cortina de Ferro. Os discos circulavam de maneira quase clandestina.

Vinis enviados por parentes emigrados.
Gravações copiadas em fitas magnéticas.
Músicas trazidas por marinheiros que retornavam de portos estrangeiros.

A juventude queria conhecer aquele mundo sonoro.
E os músicos polacos encontraram uma maneira própria de responder. Como a palavra "rock" carregava forte associação com a cultura ocidental, adotou-se oficialmente uma expressão mais aceitável para as autoridades: bigbit.

Era rock.
Mas com outro nome.
Uma pequena brecha.
E pelas brechas também entra a liberdade.

Foi nesse ambiente que Czesław Niemen começou a construir sua carreira. Mas antes de chegar à sua grande transformação artística, a Polônia ainda viveria um dos momentos mais tensos de sua história recente.
Niemen e seu violão fizeram história


O ano de 1968.
E seria novamente a literatura que abriria o caminho.

Março de 1968: quando a literatura voltou às ruas

Em 1968, os versos de Adam Mickiewicz, escritos no século XIX
contra a opressão russa, voltaram a adquirir um significado político
diante da censura do regime comunista.

A Polônia da década de 1960 parecia viver uma contradição permanente. Por um lado, era um país reconstruído após a maior tragédia de sua história.

Novas cidades surgiam.
As universidades funcionavam.

Uma nova geração, nascida depois da guerra, crescia sem ter vivido diretamente os horrores da ocupação nazista. Por outro lado, essa mesma juventude percebia que a liberdade prometida pela abertura de 1956 tinha limites cada vez mais evidentes.

A censura permanecia.
O debate intelectual era controlado.
As decisões políticas continuavam subordinadas aos interesses soviéticos. A frustração aumentava.

E o conflito começou justamente onde a tradição polaca sempre encontrou sua maior força.

Na cultura.

"Dziady": uma peça do século XIX que incomodou o século XX 

Adam Mickiewicz transformou sua obra em um dos maiores símbolos da identidade cultural polaca.

Em novembro de 1967, o Teatro Nacional de Varsóvia apresentou uma nova montagem de "Dziady" (Os Ancestrais), de Adam Mickiewicz.

Não era uma peça comum.
Na cultura polaca, "Dziady" ocupa um lugar quase sagrado.

Escrita durante o exílio de Mickiewicz, depois da derrota da Revolta de Novembro contra o Império Russo, a obra mistura elementos religiosos, folclóricos e históricos para refletir sobre o sofrimento de um povo privado de sua liberdade.

A terceira parte da peça, escrita em Dresden em 1832, apresenta a repressão exercida pelas autoridades russas contra jovens patriotas polacos.

Para o público de 1967, a mensagem era impossível de ignorar.
A história parecia falar do passado.
Mas também falava do presente.

Quando os atores pronunciavam versos sobre censura e perseguição, a plateia interrompia a apresentação com longos aplausos. Não eram apenas aplausos ao teatro. Eram manifestações de solidariedade. Cada interrupção transformava-se em uma mensagem silenciosa contra o governo.

As autoridades compreenderam rapidamente o significado daqueles aplausos. O passado estava sendo utilizado para questionar o presente.

A censura decidiu agir.

Após algumas apresentações, a montagem foi proibida. A justificativa oficial afirmava que a peça continha elementos antissoviéticos e prejudicava as relações de amizade entre os povos socialistas.

Na prática, era uma tentativa de impedir que a literatura se transformasse novamente em instrumento de reflexão nacional. Mas a história polaca demonstrava que proibir poemas raramente elimina seus significados.

Às vezes, faz exatamente o contrário.

A Universidade de Varsóvia e a revolta dos estudantes

A repressão aos estudantes em março de 1968
marcou profundamente uma geração de intelectuais polacos.

A última apresentação de "Dziady" ocorreu em 30 de janeiro de 1968. Após o espetáculo, estudantes organizaram uma manifestação espontânea. Reuniram-se diante do monumento a Adam Mickiewicz.

Levaram flores.
Cantaram o hino nacional.
Protestaram contra a censura.
Era uma manifestação pacífica.

Mas o governo interpretou aquilo como uma ameaça. Poucos dias depois, dois estudantes da Universidade de VarsóviaAdam Michnik e Henryk Szlajfer — foram expulsos da instituição por informarem jornalistas estrangeiros sobre a repressão.

A resposta dos estudantes veio em março.

No dia 8 daquele mês, milhares de jovens reuniram-se dentro da Universidade de Varsóvia para exigir a readmissão dos colegas e defender a liberdade acadêmica. O governo decidiu responder pela força. Milícias operárias ligadas ao regime e forças policiais invadiram o campus armadas com cassetetes.

A violência foi brutal.
Estudantes foram espancados.
Professores foram humilhados.
Manifestantes foram presos.

As imagens da repressão espalharam-se rapidamente. Universidades de Cracóvia, Poznań, Wrocław, Łódź e Gdańsk também organizaram protestos. Pela primeira vez desde 1956, uma grande mobilização nacional questionava publicamente o regime. A resposta das autoridades seria ainda mais dura.

A campanha antissemita de 1968

A campanha oficialmente chamada de "antissionista"
resultou na saída forçada de milhares de cidadãos polacos de origem judaica.

A repressão física não era suficiente.
O governo precisava desacreditar o movimento.

A solução encontrada foi transformar uma crise política em uma campanha nacionalista e antissemita. O contexto internacional ofereceu o pretexto.

Após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, a União Soviética rompeu relações diplomáticas com Israel e pressionou seus aliados a fazerem o mesmo. Na Polônia, setores ligados ao ministro do Interior Mieczysław Moczar iniciaram uma campanha apresentada oficialmente como "antissionista"

Mas, na prática, atingia cidadãos polacos de origem judaica.

A propaganda acusava intelectuais, professores, artistas e estudantes judeus de conspirarem contra o Estado socialista.

O resultado foi devastador.
Entre treze e quinze mil pessoas deixaram o país.
Muitos eram professores universitários.
Cientistas.
Médicos.
Artistas.
Militares.
Sobreviventes do Holocausto.

Pessoas que haviam reconstruído suas vidas na Polônia depois da guerra foram novamente obrigadas a partir. Foi uma das páginas mais dolorosas da história contemporânea polaca.

A derrota de uma manifestação e o nascimento de uma consciência

Até o final de março, o movimento estudantil havia sido controlado. O governo parecia ter vencido. Mas a história demonstraria o contrário. Muitos daqueles jovens perseguidos em 1968 se tornariam, décadas depois, figuras fundamentais da oposição democrática polaca.

Adam Michnik seria um dos principais intelectuais do movimento democrático e, posteriormente, fundador do jornal "Gazeta Wyborcza". 

Outros participantes daquele período integrariam o movimento Solidariedade (Solidarność) nos anos 1980, responsável por enfraquecer definitivamente o regime socialista soviético.

Março de 1968 deixou uma marca profunda. Também deixou uma lição. Quando a palavra direta é proibida, a cultura encontra outras formas de falar.

Os artistas compreenderam que era necessário criar uma nova linguagem. 

As letras das músicas eram examinadas.
Peças teatrais sofriam cortes.
Livros eram censurados.
Mas havia um caminho.
Voltar aos grandes autores nacionais.

A poesia do século XIX oferecia aquilo que o presente não podia dizer.

Mickiewicz.
Norwid.
Słowacki.
Asnyk.

Os versos antigos tornavam-se mensagens contemporâneas. E entre os músicos que perceberam essa possibilidade estava um cantor que já não queria apenas fazer sucesso.

Queria construir uma obra.
Seu nome era Czesław Niemen.

E sua resposta aos acontecimentos de 1968 seria criada um ano depois. 

Não seria um discurso.
Não seria um manifesto.
Seria um álbum.
"Enigmatic".

Czesław Niemen: a voz de uma geração entre duas fronteiras

Czesław Niemen nasceu em uma região que deixou de pertencer à Polônia depois da Segunda Guerra Mundial. Sua própria história era marcada pelas grandes transformações do século XX

Antes de ser uma voz.
Antes de ser um símbolo.

Antes de se tornar um dos maiores nomes da música polaca do século XX. Czesław Niemen foi uma criança marcada pelas mudanças da História.

Nasceu como Czesław Juliusz Wydrzycki, em 16 de fevereiro de 1939, na pequena localidade de Stare Wasiliszki, na região histórica de Nowogródek

Naquele momento, o território tinha voltado a fazer parte da Segunda República da Polônia, em 1918.

Poucos meses após seu nascimento, a Europa mergulharia na Segunda Guerra Mundial. Sua infância seria atravessada pela ocupação, pela violência e pela redefinição das fronteiras europeias.

Após a guerra, a região onde nascera passou a integrar a República Socialista Soviética da Bielorrússia.

Como milhares de outras famílias polacas dos antigos territórios orientais (Kresy), os Wydrzycki precisaram abandonar sua terra natal e transferir-se para o novo território imposto à Polônia pelos acordos de Yalta e Potsdam.

A fronteira mudou.
A memória permaneceu.
Essa experiência acompanharia Niemen durante toda a vida.

O nome de um rio transformado em identidade

O nome artístico Czesław Niemen foi uma homenagem
ao rio que marcou a paisagem de sua infância.

Quando decidiu construir uma carreira artística, Czesław escolheu um nome que carregava sua própria história.

Niemen.

O nome de um dos grandes rios da Europa Oriental. Um rio que atravessava justamente a paisagem de sua infância. Não era apenas uma escolha artística. Era uma declaração de pertencimento.

Em um século marcado por deslocamentos forçados, fronteiras alteradas e identidades fragmentadas, o nome Niemen representava uma ligação permanente com o lugar de origem.

Mesmo longe da terra natal, o menino de Stare Wasiliszki continuava carregando aquele território dentro de si.

A música que atravessava a Cortina de Ferro

O rádio Stolica fabricado pela Zakłady Radiowe im. Marcina Kasprzaka - ZRK
foi uma das principais janelas para a música ocidental durante a Guerra Fria.

A juventude polaca dos anos 1950 e 1960 cresceu em um ambiente de contradições. Politicamente, vivia dentro do bloco socialista. Culturalmente, desejava conhecer tudo aquilo que vinha de fora.

A música tornou-se uma das principais formas de contato com o Ocidente.
Durante a noite, milhares de jovens ligavam seus rádios e procuravam frequências estrangeiras.

Entre ruídos e interferências,
Surgiam novas vozes.
Novos ritmos.
Novas formas de expressão.
Chegava o jazz norte-americano.
O blues.
O rhythm and blues.
O rock.

Artistas como Ray Charles, Elvis Presley, The Beatles, The Rolling Stones e Bob Dylan tornavam-se conhecidos mesmo em um país onde o acesso aos discos estrangeiros era limitado.

A música atravessava fronteiras que os governos tentavam manter fechadas. Havia também outras formas de circulação.

Marinheiros traziam discos de portos estrangeiros.
Famílias recebiam LPs enviados por parentes emigrados.
Gravações eram copiadas em fitas magnéticas.
Um disco podia passar pelas mãos de dezenas de pessoas.
A juventude queria ouvir.
E encontrava maneiras de fazê-lo.

O nascimento do "bigbit"

O governo polaco sabia que não poderia impedir completamente essa influência cultural. Era necessário encontrar uma forma de controlar sem proibir totalmente. Assim surgiu uma expressão curiosa: "bigbit". 

Oficialmente, não se tratava de "rock".
Era uma música moderna para a juventude socialista.
Na prática, todos sabiam o significado.
Eram guitarras elétricas.
Baterias marcadas.
Influências britânicas e norte-americanas.
Era o rock adaptado à realidade polaca.

Essa pequena mudança de nome abriu espaço para uma geração inteira de músicos. E entre eles estava Czesław Niemen.

Da juventude ao fenômeno nacional

Antes de criar Enigmatic, Niemen tornou-se uma das grandes vozes do chamado bigbit polaco.

A voz de Niemen chamou atenção rapidamente. Possuía uma extensão vocal impressionante. Era capaz de cantar com suavidade e, no momento seguinte, alcançar uma intensidade quase dramática.

Em 1963, ganhou reconhecimento ao participar do Festival de Jovens Talentos de Szczecin. Depois passou a integrar o grupo Niebiesko-Czarni, uma das bandas mais importantes da música jovem polaca.

A popularidade cresceu.
Mas Niemen nunca se satisfez apenas com o sucesso.
Ele queria experimentar.
Queria ampliar os limites da música popular.
Sua referência não era apenas o entretenimento.
Era a arte.

“Dziwny jest ten świat”: o primeiro grande grito

Lançada em 1967, a canção tornou-se um marco na música polaca
e revelou a dimensão artística de Niemen.

Em 1967, Niemen lançou aquela que seria uma de suas músicas mais emblemáticas: "Dziwny jest ten świat" — “Estranho é este mundo”.

A canção impressionou imediatamente.
Não era apenas uma bela melodia.

Era uma reflexão sobre a violência, a falta de humanidade e a dificuldade de manter a esperança em um mundo marcado por conflitos. Muitos a consideram a primeira grande canção de protesto da música popular polaca.

Mas Niemen nunca foi apenas um cantor de protesto.
Sua preocupação era mais ampla.
Ele queria compreender o ser humano.

Queria encontrar uma linguagem artística capaz de unir emoção, reflexão e experimentação musical.

O encontro com a grande poesia polaca

No final dos anos 1960, enquanto o rock internacional avançava para novas experiências sonoras, Niemen também buscava novos caminhos.

Bandas como The Beatles, Procol Harum e outros grupos aproximavam a música popular da literatura, da música erudita e da experimentação.

Os álbuns começavam a ser pensados como obras completas.
Não apenas coleções de sucessos.

Niemen acompanhava essas transformações.
Mas sabia que a Polônia possuía uma tradição própria.
Não precisava simplesmente copiar o Ocidente.
Precisava dialogar com ele.

Foi então que voltou seu olhar para os grandes poetas nacionais.

Cyprian Kamil Norwid.
Adam Asnyk.

Autores que haviam escrito em outros momentos históricos, mas cujos versos continuavam carregados de significado.

A escolha era artística.

Mas também era uma resposta inteligente à censura. Um poema do século XIX podia dizer aquilo que uma letra contemporânea dificilmente conseguiria dizer. A tradição transformava-se em linguagem do presente.

E foi nesse momento que Niemen encontrou "Jednego Serca".

Um poema escrito exatamente cem anos antes. Um poema sobre a procura de um coração capaz de compreender. Parecia que Asnyk havia deixado aqueles versos esperando por aquela voz.

Enigmatic: quando um poema de 1869 encontrou a música de 1969

Enigmatic transformou Czesław Niemen em um dos maiores inovadores da música polaca.

O álbum uniu poesia, rock, soul e tradição cultural nacional.

Em 1969, exatamente cem anos depois de Adam Asnyk escrever Jednego Serca, Czesław Niemen entrou em estúdio para transformar aquele poema em uma das canções mais marcantes da história da música polaca.

A coincidência temporal parece quase simbólica.
Um século separava os dois artistas.

Mas as inquietações eram surpreendentemente próximas.
Asnyk escrevia em uma Polônia dividida entre impérios estrangeiros. Niemen cantava em uma Polônia existente como Estado, mas limitada por um sistema político que controlava a liberdade de expressão.

Os dois viveram momentos em que a identidade nacional precisava encontrar outros caminhos para se manifestar.

No século XIX, a literatura preservava a existência espiritual da Polônia. No século XX, a música retomava essa missão.

Um álbum pensado como obra

O álbum Enigmatic trouxe o órgão Hammond para rompeu com o formato tradicional da música popular polaca e aproximou o rock da grande tradição literária nacional.

O resultado desse processo foi o álbum Enigmatic, lançado em 1970.
Mais do que uma coleção de canções, o disco era concebido como uma obra artística completa. Niemen abandonava definitivamente a fórmula do sucesso fácil.

Não queria apenas agradar ao público.
Queria provocar.
Fazer pensar.
Criar uma experiência emocional.

A música popular polaca até então era dominada por canções curtas, voltadas principalmente para o rádio e os festivais.

Niemen propôs algo diferente.
Composições longas.
Atmosferas complexas.
Influências do rock progressivo.
Elementos do blues.
Referências à música espiritual e ao jazz.
Era uma nova maneira de pensar a canção.

A abertura do álbum já demonstrava essa ambição. Bema pamięci żałobny rapsod — “Réquiem em memória de Bem” — era uma adaptação do poema de Cyprian Kamil Norwid, outro grande nome da literatura polaca.

A composição ultrapassava os limites de uma simples canção.
Era uma verdadeira suíte.
Uma narrativa musical.

Uma homenagem ao general Józef Bem, herói polaco das lutas pela liberdade no século XIX. Com essa escolha, Niemen deixava claro seu caminho artístico. Ele não buscava inspiração apenas na música contemporânea. Buscava na própria memória cultural polaca.

A inteligência de utilizar a poesia

Em um ambiente de censura, a escolha dos textos não era um detalhe. Era uma estratégia. As autoridades examinavam cuidadosamente letras escritas pelos músicos contemporâneos. Uma crítica direta ao sistema poderia ser proibida.

Mas como censurar um poema de Norwid?
Como proibir Adam Asnyk?
Como acusar de subversão os grandes nomes da literatura nacional?
A poesia clássica oferecia uma proteção simbólica.
Mas havia algo mais profundo.

Niemen não utilizava esses autores apenas como escudo.
Ele realmente acreditava que seus versos continuavam vivos.
Para ele, a tradição não era uma peça de museu.

Era uma fonte de criação.
O passado conversava com o presente.

Jednego serca: um coração em busca de compreensão

Os versos de Adam Asnyk encontraram uma nova existência através da voz de Czesław Niemen.

Quando Niemen escolheu Jednego serca, encontrou um poema aparentemente simples.

Um homem pede apenas uma coisa:
Um coração.
Não muitos.
Não uma multidão.
Apenas um.
Um coração capaz de compreender.

Um coração capaz de compartilhar a dor. Um coração diante do qual pudesse existir sem máscaras. Mas, nas mãos de Niemen, esses versos ganharam uma dimensão coletiva.

A solidão individual transformou-se em sentimento de uma geração. O pedido por compreensão tornou-se o desejo por solidariedade. A procura por um coração tornou-se a procura por uma sociedade mais humana.

O verso: “Um coração! Tão pouco preciso... e no entanto, vejo que peço demais” ultrapassava a esfera amorosa.

Falava de todos aqueles que viviam em uma realidade onde a confiança havia sido destruída pelo medo e pela vigilância. A construção sonora de uma obra-prima musicalmente, Jednego Serca estava muito distante das canções tradicionais de amor.

Niemen construiu uma atmosfera dramática.
O órgão Hammond ocupa um lugar central.
Sua sonoridade profunda cria uma sensação quase religiosa.
As guitarras acrescentam tensão.
A bateria conduz a música com intensidade crescente.
O coro feminino Alibabki amplia o caráter emocional da composição.
Há elementos do soul norte-americano.
Há influência do blues.

Mas há também ecos do rock progressivo que naquele momento começava a transformar a música internacional. Mas tudo isso é filtrado por uma sensibilidade profundamente polaca. A música moderna encontra a poesia romântica.

O Ocidente encontra a tradição nacional.
A guitarra elétrica encontra o verso do século XIX.
E dessa combinação nasce algo único.
A voz que dizia o que não podia ser dito. 

A grande força de Niemen estava justamente nessa capacidade de comunicar sem transformar a arte em um discurso político direto.

Ele não precisava cantar slogans.

Não precisava escrever palavras de ordem.
Sua mensagem estava na escolha dos poemas.
Na emoção da interpretação.
Na atmosfera criada pela música.

Em uma sociedade onde muitas palavras eram proibidas, os sentimentos encontravam outros caminhos.

Uma melodia podia dizer.
Uma metáfora podia dizer.
Um poema antigo podia dizer.
A arte encontrava brechas.
E pelas brechas passava a liberdade.

O sucesso de Enigmatic

O impacto do álbum foi imediato.

Enigmatic tornou-se um marco da música polaca. A crítica reconheceu a inovação. O público identificou algo novo.

Niemen deixou de ser apenas um cantor popular. Transformou-se em um artista de referência. Sua obra passou a dialogar com diferentes gerações. Os jovens encontravam nele a modernidade do rock. Os mais velhos reconheciam a força da tradição literária.

Ele conseguira unir dois mundos que muitos imaginavam separados. A cultura popular e a alta cultura. A música estrangeira e a identidade polaca. O passado e o futuro.

Quando Adam Asnyk escreveu Jednego Serca em 1869, talvez imaginasse que seus versos seriam lidos por seus contemporâneos.

Ele jamais poderia imaginar que, cem anos depois, seriam transformados em uma canção moderna por uma das maiores vozes da Polônia.

Quando Niemen gravou a música em 1969, talvez não soubesse que aquela interpretação continuaria emocionando ouvintes décadas depois. Mas essa é uma das características das grandes obras.

Elas não terminam quando são criadas.
Elas continuam encontrando novos públicos.
Novos tempos.
Novos corações.

Um coração que continua batendo

Separados por um século, Adam Asnyk e Czesław Niemen
continuam dialogando por meio da poesia e da música
em antigas colônias como a do Guajuvira - Araucária, no Paraná, onde a polonidade vive.

Quando Jednego Serca foi apresentada ao público dentro do álbum Enigmatic, ninguém poderia imaginar a longa viagem que aquela obra ainda faria.

Czesław Niemen não havia simplesmente transformado um poema em canção.

Havia criado uma ponte entre tempos diferentes.
Entre o século XIX e o século XX.

Entre uma Polônia sem Estado e uma Polônia limitada pela realidade política da Guerra Fria.

Entre a solidão individual e a experiência coletiva de uma geração. Essa é talvez a maior força das grandes obras culturais. Elas nascem dentro de uma circunstância histórica.

Mas conseguem ultrapassá-la.

Adam Asnyk morreu em 1897, em Cracóvia.



Foi sepultado na Cripta dos Merecedores da Igreja de Skałka, um dos lugares mais simbólicos da memória cultural polaca. Ali repousam escritores, artistas, cientistas e personalidades que ajudaram a construir a identidade espiritual da Polônia.

Sua vida pertenceu a uma época em que o país não existia politicamente. Mas sua poesia ajudou a manter viva a ideia de uma nação.

Czesław Niemen morreu em 17 de janeiro de 2004, em Varsóvia.


Foi sepultado no histórico Cemitério Powązki, onde descansam inúmeras figuras fundamentais da história polaca.

Entre os dois existe uma distância de mais de cem anos.
Mas existe também uma ligação profunda.
Um poema.
Uma melodia.
Uma mesma pergunta humana.
Como encontrar alguém capaz de compreender?

A cultura como herança e continuidade

A cultura polaca atravessou oceanos e continua sendo preservada por seus descendentes no Brasil
banco musical Chopin no Bosque do Papa em Curitiba
Foto: Lana Seganfredo

A trajetória de Jednego Serca revela algo essencial sobre a cultura polaca. Ela nunca dependeu apenas das fronteiras políticas. Durante as Partições, quando a Polônia desapareceu do mapa, a cultura manteve viva a identidade nacional.

Durante o socialismo soviético imposto, quando a liberdade de expressão era limitada, a literatura e a música encontraram caminhos alternativos.

E hoje, longe do território polaco, essa mesma cultura continua viajando através das gerações. Ela chegou ao Brasil na companhia dos imigrantes.

Veio nas malas.
Nas fotografias.
Nas histórias contadas pelos avós.
Nas canções cantadas em família.
Nas celebrações religiosas.
Nos livros preservados.

Nas palavras que sobreviveram dentro das comunidades.
A cultura não é uma peça parada no passado.
Ela é movimento.
É transmissão.
É encontro.

Um poema que encontrou novos leitores no Brasil

Foi justamente essa permanência que me levou a reencontrar Jednego Serca. Ao ouvir a interpretação de Czesław Niemen, surgiu a necessidade de compreender aqueles versos.

Primeiro veio a música.
Depois veio o poema.

E então apareceu a pergunta:
Como apresentar ao público brasileiro a profundidade de uma obra escrita há mais de um século?

A resposta veio pela tradução.

Traduzir um poema não é simplesmente trocar palavras de uma língua para outra.

É tentar preservar uma emoção.
É buscar o ritmo escondido nos versos.

É permitir que uma experiência cultural distante encontre uma nova sensibilidade.

Adam Asnyk escreveu para seus contemporâneos.
Czesław Niemen cantou para sua geração.

Mas a arte verdadeira continua conversando com quem chega depois.

Da música ao vídeo-poema.

 A interpretação de um poema também pode ser uma forma de preservar e compartilhar memória cultural.

Foto da gravação do vídeo-poema Jednego Serca com o autor deste artigo
ainda com fundo verde para o efeito chrome-key

O encontro com Jednego Serca também abriu outro caminho.
A palavra escrita encontrou a imagem.
O poema transformou-se em vídeo-poema.

A proposta é simples.
Não esconder a emoção.

Permitir que o rosto, a voz e a interpretação sejam também instrumentos de transmissão cultural.

Porque um poema não existe apenas no papel.
Ele existe quando alguém o lê.
Quando alguém o escuta.
Quando alguém se emociona.

A poesia continua viva justamente porque encontra novos intérpretes.

Do blog ao Festival da Palavra

Este ensaio nasceu de uma vontade pessoal de compreender uma canção. Mas acabou revelando algo muito maior.

Uma história sobre literatura.
Sobre música.
Sobre memória.
Sobre identidade cultural.

Por isso, esta reflexão também chega ao 4º Festival da Palavra de Curitiba, dentro da programação da Casa da Cultura Polônia Brasil, onde a poesia, a ilustração e a produção cultural de descendentes de polacos se encontram.

A mesa com poetas e ilustradoras representa justamente essa continuidade.

Os versos de Adam Asnyk atravessaram um século.
A música de Niemen atravessou fronteiras.
E agora chegam a uma nova geração de criadores.

A cultura permanece viva quando encontra novas vozes.

Um coração.
Apenas um.
Mas verdadeiro.

Talvez essa seja a razão pela qual Jednego Serca continua emocionando tantas pessoas. Porque, no fundo, o poema não fala apenas de amor. Fala de uma necessidade humana universal.

A procura por compreensão.
A procura por empatia.

A procura por alguém diante de quem possamos existir plenamente. Adam Asnyk escreveu esses versos em 1869.

Czesław Niemen devolveu-lhes uma nova vida em 1969.

E hoje eles continuam viajando.
De uma língua para outra.
De uma geração para outra.
De um país para outro.
Um poema atravessou um século.
Uma canção atravessou fronteiras.
E continua procurando novos corações.

Texto e pesquisa: Ulisses Iarochinski
Tradução do poema “Jednego serca”: Ulisses Iarochinski
Publicado originalmente no blog Jarosiński do Brasil.