segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Capa da revista Przekrój de 1948


Ilustração de Zbigniew Lengren "Plaża" na capa da revista da revista cultura de maior circulação da Polônia,"Przekrój", edição de 11 julho de 1948. A revista sócio-cultural da esquerda-liberal é publicada desde 1945.
Até 2002 foi editada em Cracóvia. Mas entre 2002 a 2009, passou a ser publicada em Varsóvia. Voltou em 2009 para Cracóvia onde continuou a ser publicada.
O magnata Grzegorz Hajdarowicz foi o responsável pela volta da revista a Cracóvia, quando a comprou e a instalou em Zabłoce, cidade próxima a Cracóvia.
Em outubro de 2013, o Cônsul honorário do Brasil, em Cracóvia, Hajdarowicz vendeu a revista para o fotógrafo Thomas Neviadomski.
A última edição de Przejkrój editada por Hajdarowicz ocorreu em 30 de setembro de 2013.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Polônia escolheu seu candidato ao Oscar 2015


A Polônia já escolheu seu representante para a disputa do Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira de 2015.
Trata-se de “Ida”, do diretor Paweł Pawlikowski (“Estranha Obsessão”), um drama de época feito em preto e branco, sobre uma noviça que descobre um sombrio segredo familiar.
A informação é do Site The Hollywood Reporter. O filme vem acumulando prêmios e críticas positivas, além de conseguir se destacar no circuito dos cinemas arte, tendo arrecadado US$ 3,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e US$ 9 milhões na Europa.
Isto faz dele um dos filmes polacos mais bem-sucedidos de todos os tempos no mercado internacional. Entre as muitas honrarias conquistadas, “Ida” venceu o prêmio de Melhor Filme nos festivais de Londres, Gijón e Varsóvia, o Prêmio da Crítica no Festival de Toronto e foi o grande vencedor na premiação Eagle Awards da Polônia, um dos prêmios mais importantes de cinema do país, faturando os troféus de Melhor Filme, Diretor e Atriz (para Agata Kulesza).
Ambientado na década de 1960 na Polônia, a trama gira em torno de Anna (Kulesza), uma jovem noviça, que está prestes a fazer seus votos religiosos, quando descobre um terrível segredo de família, da época da ocupação nazista no país. “Não temos dúvidas de que de “Ida” de Pawlikowski é o filme polaco que tem a maior chance nesta categoria muito competitiva”, disse Agnieszka Odorowicz, diretor-geral do Instituto de Cinema Polaco.
“Ele não serve apenas como um exemplo fantástico do trabalho de seu cineasta, mas do cinema polaco como um todo.” A Polônia é um dos primeiros países a apresentar o seu candidato ao Oscar 2015. Até então, apenas a Hungria, com o filme “White God”, de Kornel Mundruczó (“Delta”), e a Turquia, com o drama “Winter Sleep”, do diretor Nuri Bilge Ceylan (“Era uma Vez na Anatolia”), tinha divulgados seus representantes ao próximo Oscar. Ida ainda não tem data para estrear no Brasil.

domingo, 17 de agosto de 2014

Gombrowicz, ainda pouco conhecido no Brasil


Em entrevista ao sobreCultura, Marcelo Paiva de Souza questiona o estranho silêncio no Brasil em torno de Witold Gombrowicz, escritor polaco que viveu por duas décadas exilado na Argentina e deixou uma obra vigorosa e inovadora. Circunstâncias fortuitas levaram ao exílio na Argentina o escritor polaco Witold Gombrowicz, nascido em Małoszyce, em 1904.
Gombrowicz deixou seu país com destino à América do Sul e, após o desembarque em Buenos Aires, foi surpreendido com a notícia da eclosão da Segunda Guerra. Apesar das dificuldades que se descortinavam em seu horizonte, decidiu ficar.
Escritor já com boa reputação na Polônia, teve que buscar meios de renascer das cinzas em um mundo estranho e hostil no qual viveu por mais de duas décadas.
Os 50 anos de seu retorno à Europa, em 1963 – já com prestígio consolidado e obras traduzidas para várias línguas –, têm sido lembrados por admiradores e estudiosos de sua obra, como Marcelo Paiva de Souza, doutor em ciência da literatura pela Universidade Jagielloński, em Cracóvia, Polônia, e professor de literatura polaca da Universidade Federal do Paraná.
Nesta entrevista ao sobreCultura, Marcelo descreve a trajetória vitoriosa de um escritor que soube dar a volta por cima, fala da importância de sua obra no panorama da literatura mundial e tenta encontrar razões que expliquem o relativo silêncio em torno do nome de Witold Gombrowicz no Brasil.

sobreCultura: Como apresentaria Gombrowicz ao leitor brasileiro?

Marcelo Paiva de Souza: Seria interessante dar a palavra ao próprio escritor, cuja verve é pródiga em autocomentários, para se ter uma amostra de seu trabalho de linguagem. Outro modo de apresentá-lo seria remontar ao início de sua carreira. Ele estreou na literatura nos anos 1930; seu primeiro livro, a coletânea de contos "Memórias da época do amadurecimento", é de 1933. A obra despertou nos críticos uma reação ambígua: reconheceram o talento do jovem escritor, mas não fisgaram o alcance de seu projeto criativo.
Na mesma década surgiram a peça "Ivone, princesa da Borgonha" [1935; primeira edição, 1938] e o romance "Ferdydurke" [1937]. Esses textos revelam a versatilidade do autor e um universo literário inovador e inconfundível. Ferdydurke, sobretudo, é corrosivo, insolente, afronta a cultura letrada da época, mostrando, com humor, como forças exteriores formam/conformam/deformam o indivíduo.
Em suma, Gombrowicz faz considerável barulho na literatura polaca da década de 1930. Não se filia a ‘panelas’ literárias mais prestigiadas nem a grupos de vanguarda; mantém-se fora, deseja estar fora. Cabe sublinhar isso, pois de algum modo a experiência do exílio que se abateria sobre ele potencia uma situação que, intrinsecamente, já experimentava em seu país.

- Quando ele deixa a Polônia?
Em 1939, por circunstâncias fortuitas, tomou um navio que o levou a Buenos Aires. Após o desembarque, veio a notícia da eclosão da Segunda Guerra e da invasão da Polônia pela Alemanha. Gombrowicz decidiu ficar em Buenos Aires, mesmo sem conhecer ninguém ali, sem falar espanhol e com apenas 200 dólares no bolso. Tem início então o longo período, de mais de 20 anos, em que viverá na Argentina.
Oriundo de uma família de média nobreza, acostumado a uma vida confortável e já dono de considerável reputação literária na Polônia, na Argentina ele não era ninguém. Até conseguir emprego em um banco, em fins dos anos 40, viveu em hospedarias precárias e enfrentou muitos outros obstáculos. Mais tarde irá expor em seu "Diário" o outro lado da moeda. Apesar das dificuldades, aquele período teve para ele qualquer coisa de libertação. Nesse sentido, o desenraizamento e a pobreza são para Gombrowicz um rejuvenescer, um lançar-se ao voo.


- Como era a relação de Gombrowicz com o mundo letrado em Buenos Aires?
Difícil, para dizer o mínimo. O escritor falará disso em seu "Diário" e no volume "Testamento", que surgiu de suas conversas com o crítico e romancista francês Dominique de Roux. Nessas obras, Gombrowicz reflete sobre seus malogrados contatos com os notáveis do mundo literário portenho. Simplificando a questão, o desentendimento nasceu de sua recusa a fazer o papel tradicional do escritor exilado que busca convívio com o establishment cultural da localidade em que foi dar. Com calculado esnobismo, declara-se conde, desdenha da forçosa peregrinação ao salão da escritora Victoria Ocampo, olha atravessado para o escritor Jorge Luis Borges e seus acólitos...
Se, por um lado, houve desencontro, não faltou, por outro, o contrapeso das afinidades eletivas, das simpatias e amizades, especialmente entre figuras mais jovens do universo intelectual de então em Buenos Aires, como Virgilio Piñera, Alejandro Russovich e outros, que se deixam fascinar por ele. Graças a esses contatos, a literatura gombrowicziana enfim passa a existir no exílio do escritor. Primeiro, com a tradução de Ferdydurke para o espanhol, levada a cabo pelo autor, com a ajuda de ‘assessores’ locais, e publicada em 1947. O espanhol em que Ferdydurke se materializa soa anômalo, estrangeiro. O escritor Ricardo Piglia verá nessa tradução uma obra-prima, por conta das possibilidades que ela abre em termos de exploração do idioma. A essa altura, Gombrowicz conclui sua segunda peça, "O casamento", traduzida para o espanhol também com a ajuda de parceiros. O texto foi publicado primeiro na Argentina, em 1948; só em 1953 sai em polaco.


- Quando Gombrowicz alcança reconhecimento na França?
De certo modo, as traduções de suas obras para o espanhol vão auxiliar nisso. O crítico e ensaísta polaco Konstanty Jeleński, colaborador do Instituto Literacki, sediado em Paris, faz com que essas versões cheguem a seu amigo François Bondy, que publica um artigo sobre Ferdydurke na influente revista Preuves. Foi assim que Maurice Nadeau conheceu a obra de Gombrowicz, tomou-se de admiração por ela e decidiu publicá-la em tradução para o francês sob o prestigioso selo Les Lettres Nouvelles, série que dirigia na editora René Julliard.
O Instituto Literacki e sua revista Kultura eram iniciativas de intelectuais e escritores polacos dissidentes que haviam optado pelo exílio com a stalinização do país, após a Segunda Guerra. Publicavam basicamente obras de polacos dissidentes, em polaco, para que circulassem livres da censura comunista.
Gombrowicz encontra nesse grupo interlocutores fundamentais. Graças a esse apoio, vai pouco a pouco se infiltrando no universo letrado francês e, por extensão, no europeu. Em 1958, sai a tradução francesa de Ferdydurke, um momento capital na carreira do autor. Nesse meio tempo ele vinha publicando na revista Kultura, em fragmentos, textos que mais tarde comporiam os três volumes de seu "Diário". Pode-se a partir daí falar da recepção de Gombrowicz em escala mundial. Ele continuou vivendo em Buenos Aires, mas se mantinha ativamente ligado ao Instituto.

- As décadas de 1950-1960 parecem ter sido um período fértil na carreira do autor, não?
Nesse período aparecem várias de suas obras mais importantes: os romances "Transatlântico", "Pornografia" e "Cosmos". É uma verdadeira explosão criativa. Parece que as energias represadas no período inicial de exílio se desencadeiam em sucessivas obras, todas geniais. São de um vigor ímpar, em diferentes âmbitos, pois, além dos romances, publicou a peça "Opereta" e a prosa fascinante do "Diário", em que há, além de diário no sentido estrito do termo, passagens memorialísticas, efusões líricas, crítica literária e debate de ideias, além de pura e simples ficção. É uma obra em que expande com ímpeto máximo, de modo abrangente e prismático, o aspecto intelectual de seu projeto literário. Mais que mero relato autobiográfico, é um mosaico de experimentação de escrita e de pensamento, um tour de force inventivo, crítico e polêmico.

- Qual a situação do autor na Argentina após a ‘conquista’ da França?
A conquista da França e da Europa vai gradativamente alterar o modo como era visto pela intelectualidade argentina, que o ignorava. A essa altura, porém, surge a oportunidade de regresso ao Velho Mundo, e em 1963 ele segue para Paris. Passa um período em Berlim e, com a saúde debilitada, fixa residência no sul da França, em Vence, onde morre em 1969, com prestígio consolidado e obras traduzidas para várias línguas. No contexto polaco, já é tido nesse momento como um dos maiores autores do país no século 20. A partir de sua morte, até hoje, a escalada é permanente. Multiplicam-se as traduções, e a recepção de sua obra é impulsionada sem cessar pela pesquisa especializada desenvolvida na Polônia e no mundo.

- Como a obra de Gombrowicz foi recebida aqui?
"Bakakai" é seu primeiro livro publicado aqui, em 1968, com tradução de Álvaro Cabral a partir da versão francesa da obra. O volume, que saiu originalmente em 1957, reúne os contos do livro de estreia, "Memórias da época do amadurecimento", dois fragmentos de "Ferdydurke" e três contos esparsos do autor. Infelizmente, não houve o cuidado de se fazer uma introdução, apresentando Gombrowicz e sua obra ao leitor brasileiro.
Em parte talvez isso explique o pequeno impacto da obra entre nós; sem o amparo de alguma informação e esclarecimento crítico, talvez tenha ficado indefesa demais. Ainda na primeira onda de assimilação de Gombrowicz no país, temos a publicação, em 1970 – pela mesma editora que publicou "Bakakai", Expressão e Cultura –, de "A pornografia", vertido do francês por Flávio Moreira da Costa. Reproduziu-se no livro o prefácio escrito por Gombrowicz para a tradução francesa do romance.

- O que teria motivado editores brasileiros a traduzir Gombrowicz?
Seu nome já era mundialmente reconhecido quando começa a ser editado no Brasil. Ao longo dos anos 1960, a reputação de Gombrowicz no universo do teatro torna-se fenomenal. Em 1963-1964, o diretor argentino Jorge Lavelli encenou "O casamento", em Paris, e a montagem teve enorme repercussão. Em seguida, o autor foi encenado por grandes nomes do teatro europeu. Para continuar com "O casamento", sucedem-se montagens em Estocolmo e Milão. Na então Berlim Ocidental, Ernst Schröder dirige a peça com cenografia do tcheco Josef Svoboda, um dos maiores cenógrafos do século 20. Em 1972, Lavelli encena "Ivone, princesa da Borgonha", em Buenos Aires, com grande sucesso. A carreira de Gombrowicz nos palcos alcança tal dimensão que deve ser vista como uma das molas propulsoras da divulgação de sua obra literária propriamente dita.

- Quais as outras ‘ondas’ de assimilação de Gombrowicz no Brasil?
Em 1986, a editora Nova Fronteira publicou nova tradução de "A pornografia", novamente a partir do francês. Mas essa versão, de Tati de Morais, foi revista com base no original polaco pelo dramaturgo e crítico teatral Yan Michalski. O lançamento teve certa ressonância, mas, de novo, a recepção crítica ficou muito aquém da força do romance.
Nos anos 2000, pela primeira vez, temos Gombrowicz traduzido no Brasil diretamente do polaco. A Companhia das Letras publicou três romances, todos traduzidos por Tomasz Barciński: "Ferdydurke" [2006], "Cosmos" [2007, vertido em parceria com Carlos Alexandre Sá] e, de novo, "Pornografia" [2009]. Traduzi a peça "Ivone, princesa da Borgonha" – montada no Rio de Janeiro em 2001 pela companhia L’Acte, com direção de Thierry Trémouroux [o texto não foi publicado] – e o conhecido ensaio ‘Contra os poetas’, publicado na revista Poesia Sempre – Polônia, da Biblioteca Nacional, em 2008. Além disso, saiu recentemente o livreto "Curso de filosofia em seis horas e quinze minutos", traduzido do francês por Teresa Fonseca e publicado em 2011 pela José Olympio.

- Acha que o autor finalmente alcançou no Brasil o lugar que merece?
Creio que ainda há flagrante distância entre Gombrowicz e o leitor brasileiro. Penso no leitor de forma ampla, mas levo em consideração nesse juízo também o leitor especializado, o pesquisador de literatura. Gombrowicz me parece ser um nome relativamente conhecido no país hoje, mas sua obra não ‘funciona’ no sentido rigoroso do termo. Não é algo que se estude, que se discuta, sobre o qual se escreva e se publique, algo que esteja de fato presente na rotina dos eventos acadêmicos na área de letras ou no âmbito da vida literária em geral. Resta não pouco a fazer em termos de tradução – e de crítica das traduções existentes. Antes de tudo, porém, o que falta mesmo é que se leia Gombrowicz! Espero ter ficado claro até aqui, porque estou convicto de que vale muito a pena.


Texto originalmente publicado no sobreCultura 16 (julho de 2014)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A poesia "Óculos" de Julian Tuwin


Biega, krzyczy pan Hilary:
 « Gdzie są moje okulary? »
Szuka w spodniach i w surducie,
W prawym bucie, w lewym bucie.
Wszystko w szafach poprzewracał,
Maca szlafrok, palto maca.
« Skandal! – krzyczy – nie do wiary!
Ktoś mi ukradł okulary! »
Pod kanapą, na kanapie,
Wszędzie szuka, parska, sapie!
Szuka w piecu i w kominie,
W mysiej dziurze i w pianinie.
Już podłogę chce odrywać,
Już policję zaczął wzywać.
Nagle zerknął do lusterka…
Nie chce wierzyć… Znowu zerka.
Znalazł! Są! Okazało się,
Że je ma na własnym nosie.


Em português:

ÓCULOS,
Julian Tuwin

Corre, grita o Sr. Hilary:
"Onde estão meus óculos?"
Procura nas calças e casaco,
No sapato direito, no sapato esquerdo.
Tudo derruba nos armários,
apalpa seu roupão, apalpa seu casaco.
"Escândalo! - grita - não acredito nisso!
Alguém roubou meus óculos!"
Sob a cama, no sofá,
Procura em todos os lugares, rosna, sibila!
Olha no forno e na chaminé,
No buraco do rato e num piano.
Já no chão quer se rasgar,
Já começa a chamar a polícia.
De repente, olha-se no espelho ...
Não quer acreditar ... novamente olha.
Encontrou! Ali eles estão! Encontra-o
Sobre seu próprio nariz.

Tradução livre
de Ulisses Iarochinski

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Polônia alerta sobre invasão russa na Ucrânia



À medida que as forças leais ao Governo da Ucrânia apertam o cerco aos combatentes separatistas nas cidades de Donetsk e Lugansk, no Leste do país, o Exército russo vai-se estendendo ao longo da sua fronteira, a meia centena de quilômetros, em movimentações que a Polônia e a OTAN interpretam como os primeiros passos de uma invasão.
Os números da Aliança Atlântica são revistos e aumentados praticamente todos os dias – na semana passada, falava-se em 15.000 soldados russos ao longo da fronteira, mas agora serão já 20.000, de acordo com o secretário-geral adjunto da organização, o norte-americano Alexander Vershbow.
Apesar das acusações, a disposição das tropas russas não viola os acordos internacionais – oficialmente são exercícios militares, e não há grupos com mais de 9.000 soldados fora das suas bases, em cumprimento do Documento de Viena de 2011.
Como tem sido hábito desde o início do conflito na Ucrânia, quase todas as acusações, declarações e alegadas provas da culpabilidade de um e de outro lado jogam-se nas redes sociais, e não foi de se estranhar que uma das mais sérias acusações da OTAN tenha chegado através do Twitter. "A Rússia violou a lei internacional sem qualquer justificação, invadiu a Ucrânia, apoia os separatistas, e tem agora cerca de 20.000 soldados na fronteira com o Leste da Ucrânia", escreveu Alexander Vershbow.
É uma guerra com várias tentativas de cerco – no terreno, as forças ucranianas tentam derrotar os separatistas; a liderança da OTAN tenta convencer os seus membros de que é urgente apressar os preparativos para uma guerra; e a Rússia tenta avisar a Ucrânia que uma vitória militar no Leste do país pode sair-lhe cara.
Nesta quarta-feira, o Presidente russo, Vladimir Putin, respondeu às duras sanções aprovadas na semana passada com a limitação ou proibição da importação de alimentos dos EUA e da União Europeia (UE). "Determinados tipos de produtos agrícolas, matérias-primas e alimentos com origem em Estados que decidiram impor sanções econômicas a entidades legais e/ou indivíduos russos, ou que se tenham associado a essa decisão, estão banidos ou limitados", lê-se no comunicado do Kremlin.

OTAN exige mais poder
Nas últimas horas, a OTAN não tem parado de lançar avisos. A porta-voz da organização, a romena Oana Lungescu, disse que "o mais recente reforço militar russo agrava a situação e compromete os esforços com vista a uma situação diplomática para a crise". Mas o mais sério aviso veio do próprio secretário-geral da Aliança Atlântica, o dinamarquês Anders Fogh Rasmussen.
Num artigo assinado no Financial Times, intitulado "Todos os aliados da OTAN devem pressionar a Rússia", Rasmussen apresenta uma série de argumentos a favor do reforço da capacidade da aliança, contra aquilo a que chama "o maior desafio desde o fim da Guerra Fria".
Pondo toda a responsabilidade nas costas da Rússia, por ter "rasgado os compromissos" com a OTAN – que "se esforçou para melhorar as relações com Moscou após o colapso do comunismo" –, Rasmussen voltou a apelar ao reforço dos gastos com equipamento militar por parte dos 28 membros da organização.
A próxima reunião de cúpula da OTAN, que vai decorrer no País de Gales a 4 e 5 de Setembro (a última de Rasmussen como secretário-geral, posição que vai ceder ao norueguês Jens Stoltenberg a partir de Outubro), terá de servir para "aumentar a força de resposta multinacional", porque "as ações da Rússia não podem ser ignoradas".
"A ordem mundial pós-Guerra Fria está em jogo. Por isso, a OTAN é necessária mais do que nunca. Estamos decididos a mostrar que a OTAN está a falar muito a sério", escreveu Rasmussen. A ideia de uma invasão do Leste da Ucrânia pela Rússia não é nova – desde a anexação da península da Crimeia, em Março, que o Governo de Kiev, os Estados Unidos e vários países da União Europeia têm trabalhado com esse cenário em cima da mesa.
Nesta quarta-feira, o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, disse ter "razões para suspeitar" que a Rússia vai entrar diretamente no conflito na Ucrânia. "Temos recebido informações nas últimas horas de que o risco de uma intervenção direta é sem dúvida mais elevado do que era há vários dias", disse o chefe do Governo polaco em conferência de imprensa.
E, à semelhança do secretário-geral da OTAN, pressionou os seus aliados a prepararem-se o mais depressa possível para esse cenário: "Se se concretizar uma intervenção direta das forças russas na Ucrânia, isso seria obviamente uma situação nova e, na minha opinião, ninguém tem uma resposta boa e inequívoca sobre de que forma o Ocidente deve reagir a isso."

Fonte: jornal "Público", de Lisboa

terça-feira, 29 de julho de 2014

Inglaterra envia 1350 soldados para a Polônia

Os ministros da Defesa e das Relações Exteriores dos dois países se reuniram em VarsóviaADAM STEPIEN/REUTERS
O novo ministro da Defesa da Grã-Bretanha, Michael Fallon, foi a Polônia anunciar que o seu país vai participar num exercício da OTAN, às portas da Rússia, com uma força composta por 1350 soldados e 350 veículos militares — a maior que Londres envia para aquela região nos últimos seis anos.
Num sinal claro do maior protagonismo que o Grã-Bretanha vem assumindo em relação à anexação da península da Crimeia pela Rússia e ao conflito no Leste da Ucrânia, o ministro britânico visitou Varsóvia, acompanhado pelo seu colega das Relações Exteriores, Philip Hammond, e revelou a dimensão do contingente militar do país no exercício Black Eagle, que vai decorrer no Outono na Polônia. "Os membros e parceiros da OTAN devem demonstrar o nosso compromisso com a segurança coletiva dos nossos aliados na Europa de Leste", declarou Michael Fallon, em resposta às preocupações de países como a Polônia sobre supostas ameaças da Rússia ao seu território — Varsóvia tem manifestado receios de que o Presidente Vladimir Putin queira prosseguir uma estratégia expansionista na sequência do conflito na Ucrânia, mas Moscou sempre disse que não tem qualquer intenção de o fazer, acusando a OTAN de querer desestabilizar a região com manifestações de poderio militar. "Em particular" — sublinhou o ministro da Defesa britânico —, "a participação de um grupo de combate no exercício Black Eagle mostra o nosso apoio sustentado e substancial à fronteira Leste da OTAN".
O Reino Unido enviou quatro caças Typhoon para a missão da OTAN no Báltico, com base na Lituânia, depois da anexação da Crimeia. Depois do início dos combates no Leste da Ucrânia entre as tropas fiéis a Kiev e os separatistas pró-russos, essa missão passou a incluir quatro F-16 da Dinamarca e quatro MiG-29 da Polônia.
Varsóvia tem insistido para que a OTAN coloque no seu país uma força permanente, mas os membros da aliança têm resistido à ideia, com receio de hostilizar a Rússia. Apesar disso, este é um dos assuntos que deverá ser discutido na próxima reunião de Cúpula, que vai acontecer no País de Gales em Setembro.
Ouvido pela BBC, Michael Clark, diretor-geral do Instituto Royal United Services, considera que os exercícios da OTAN "estão a tornar-se bastante sérios. Não estamos enviando apenas uns quantos homens, estamos deslocando um grupo de combate completo — a unidade básica de combate", alertou o analista.
"O que estamos dizendo é que vocês [os russos] não se comportaram de acordo com as nossas relações da década de 1990. O que queriam que fizéssemos? Os nossos novos aliados da OTAN [da Europa de Leste] esperam que os descansemos; é isso que estamos fazendo", disse o director-geral do instituto Royal United Services.
O novo ministro da Defesa do Reino Unido, que entrou para o Governo na profunda remodelação operada pelo primeiro-ministro, David Cameron, em meados de Julho, tem sido uma das vozes mais duras contra o papel da Rússia no conflito na Ucrânia.
Pouco depois do desastre do voo MH17 da Malaysia Airlines, que ao que tudo indica foi abatido por um míssil numa região controlada pelos combatentes separatistas, Michael Fallon exigiu que a Rússia "saia do Leste da Ucrânia e deixe a Ucrânia para os ucranianos".
Descrevendo o provável derrubada do avião (também provavelmente por erro) como um ato de "terrorismo patrocinado", o ministro britânico deixou uma ameaça a Moscou: "Se a Rússia é a principal culpada, podemos tomar mais medidas contra eles e deixar bem claro que este tipo de guerra patrocinada é completamente inaceitável."

Fonte: Jornal Público, de Lisboa

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Um pouco de gramática polaca

Pequeníssimo dicionário de termos definidores na gramática polaca:

Acusativo = Biernik
Adjetivo = Przymiotnik
Advérbio = Przysłówek
Coloquial = Potocznie
Modo Condicional = Tryb Przypuszczający
Conjugação = Koniugacja
Dativo = Celownik
Feminino = Rodzaj Żeński
Genitivo = Dopełniacz
Instrumental = Narzędnik
Modo Imperativo = Tryb Rozkazujący
Verbo Imperfectivo = Czasownik Niedokonany
Modo Indicativo = Tryb Oznajmujący
Verbo Infinitivo = Czasownik Bezololicznik
Locativo = Miejscownik
Latim = po Łacinie
Masculino = Rodzaj Męski
Neutro = Rodzaj Nijaki
Nominativo = Mianownik
Verbo Perfectivo = Czasownik Dokonany
Pessoa = Osoba
Plural = Liczba Mnoga
Singular = Liczba Pojedyncza
Verbo = Czasownik
Vocativo = Wołacz

sábado, 19 de julho de 2014

Polônia derruba monumento soviético

Texto: Nacho Temiño

A demolição em uma cidade polaca de um monolito em honra ao Exército Vermelho provocou as críticas da Rússia, que qualificou a ação de "blasfemia", mas outras localidades da Polônia estudam retirar seus monumentos soviéticos e deixar assim para trás uma etapa que muitos cidadãos querem esquecer.
A cidade de Limanowa, no sul do país, se transformou em protagonista do último desencontro entre Varsóvia e Moscou por conta dos monumentos erguidos durante o período comunista. Esta cidade demoliu recentemente um obelisco levantado nos anos 60 em gratidão ao Exército Vermelho, alegando o mal estado da construção, que praticamente tinha perdido o baixo-relevo no qual se mostrava um soldado acompanhado de camponesas, um minerador e um montanhista.
Há mais de 20 anos várias associações locais tinham pedido para retirar o monumento, mas a tarefa não era fácil e a prefeitura precisou de mais de dois anos de negociações e múltiplas permissões para poder desfazer-se dele.
Após saber da notícia, o Ministério das Relações Exteriores russo qualificou a demolição de "ação blasfema" e lembrou que a decisão das autoridades municipais, sem consentimento de Moscou, viola o acordo assinado em 1994 entre ambos os países para proteger os monumentos e lugares históricos, incluindo cemitérios, vinculados à luta contra o nazismo.
As autoridades russas lembram que na Polônia existem cerca de 300 monumentos da era soviética e que em solo polaco descansam mais de 600 mil soldados russos mortos durante os combates contra o Exército nazista.
No entanto, outras localidades polacas copiaram o caso de Limanowa; a cidade de Nowy Sącz estuda retirar seu próprio monumento, embora neste caso será mais difícil porque exigirá transferir os restos mortais dos soldados soviéticos enterrados nas proximidades, já que em muitos casos os monumentos assinalam cemitérios soviéticos.


O desmantelamento da herança soviética pode não acabar em Limanowa ou em Nowy Sącz, já que as últimas tensões entre Moscou e Varsóvia por conta da Ucrânia provocaram que aflore o sentimento antirrusso na Polônia, onde se lembra que, após a teórica "libertação" e a saída dos nazistas, os soviéticos impuseram um regime comunista que durou mais de 40 anos.
Precedentes há, e na vizinha Estônia as autoridades retiraram em 2007 um monumento aos soldados soviéticos do centro de Tallinn, o que provocou uma grave crise diplomática, enquanto o governo da Polônia naquele ano, liderado pelo nacionalista-conservador Jarosław Kaczyński, anunciava a desmantelação ou realocação dos monumentos soviéticos.
Vladimir Putin criticou Kaczyński e este defendeu o apoio de Bruxelas, respondendo que a Polônia não toleraria "que nenhum outro país decidisse o que fazer com seu patrimônio histórico", por sua vez assegurando que ceder para Moscou abriria um perigoso precedente que poderia levar a que "um dia também queiram decidir o nome de nossas ruas".

Embora esse plano não tenha acontecido de maneira sistemática, o certo é que a maioria destes monumentos ficaram à sua sorte, descuidados em muitos casos e submetidos ao vandalismo constante, algo que o Kremlin denunciou em várias ocasiões. "Os monumentos aos soldados soviéticos que libertaram a Polônia dos invasores nazistas durante a Segunda Guerra Mundial foram alvo de vandalismo com mais frequência, e ultimamente houve mais tentativas para situar estes monumentos sem permissão", disse recentemente em comunicado o ministério russo.
"Inclusive levando em conta o contexto negativo, a demolição do monumento que expressa gratidão ao Exército Vermelho na cidade polaca de Limanowa é um ato verdadeiramente degradante", acrescentou.
O ponto alto desta "luta" pelos monumentos soviéticos aconteceu há dois anos, quando o ministro das Relações Exteriores polaco, Radosław Sikorski, propôs a demolição do Palácio de Cultura, um edifício de proporções colossais que a extinta União Soviética presenteou à Varsóvia, para situar em seu lugar um grande parque que afaste definitivamente a lembrança do período comunista.
O palácio, que continua de pé, é imenso, com mais de 234 metros de altura e 44 andares entre os quais se dividem diferentes instalações, desde cinemas, piscinas, ginásios, salas de conferências, museus, teatros e livrarias até áreas de lazer.

Fonte: Agência EFE

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Filme lançado na Polônia causa polêmica

A Polônia na cabeça de Pawel Pawlikowski
LUÍS MIGUEL OLIVEIRA
18/07/2014
publicado no jornal PÚBLICO, de Lisboa

O catolicismo, o Holocausto, o comunismo: Ida, talvez o primeiro filme "polaco" do polaco Paweł Pawlikowski, abre as gavetas mais traumáticas de uma identidade nacional.

Grande parte da vida do polaco Paweł Pawlikowski foi feita no estrangeiro. Saiu da Polônia no fim da adolescência, nos anos 70, e acabou por se fixar na Grã-Bretanha, onde se formou e onde encetou uma carreira de realizador de cinema, entre o documentário, primeiro, e a ficção, depois. Até agora os seus filmes mais conhecidos – como My Summer of Love, de 2004, por aqui estreado comercialmente – eram objetos perfeitamente “ingleses”, que pouco ou nada convocavam a origem polaca de Pawlikowski. Mas quase 40 anos depois de ter saído da Polônia comunista, Pawlikowski, nascido em 1957, voltou ao seu país natal. Ida é o seu primeiro filme polaco, rodado e ambientado na Polônia.
Ambientado na Polônia, mas não a Polônia de agora, antes uma Polônia “de época”, o princípio da década de 60, os anos da sua infância. Conta uma história firmemente ancorada nalguns dos momentos determinantes do século XX polaco, entre a guerra e o Holocausto e os 40 anos de regime comunista – uma jovem freira num convento católico, Ida, fica a saber, durante uma estada com a sua tia (por sua vez comprometida com a época estalinista), que é na verdade judia, que os pais foram mortos durante a guerra, e que o apagamento da sua origem foi uma maneira de lhe salvar a pele. Questões de identidade, portanto, que dominam o filme e são de alguma maneira o seu tema central.

ENTREVISTA
Paweł Pawlikowski mergulhou na Polônia dos anos 60. Foto: OSCAR GONZALEZ/NURPHOTO
Em conversa telefônica com Pawlikowski perguntamos-lhe se Ida é, depois de tanto tempo a ver o país natal de longe, o seu retrato da Polônia, a sua “visão” da Polônia. Começa por ser evasivo, diz que pensou sobretudo na narrativa, nas personagens e na relação entre elas, e que foi isso que sobretudo lhe interessou. Mas insistimos, notando que o filme convoca não poucos elementos determinantes, e alguns bastante traumáticos, da identidade polaca das últimas décadas: o catolicismo, o Holocausto, o comunismo.
Ninguém abre estas gavetas de maneira casual. Pawlikowski anui: “É o retrato da Polônia que existe na minha cabeça." Reclama uma dimensão pessoal, evacuando toda a pretensão sociológica: recusa-se a considerar Ida como um filme de tese, ou como um filme que contenha “um discurso sobre a Polônia”. “A retórica”, diz, “é uma das grandes pechas do cinema polaco contemporâneo”, a par de uma tendência “para lidar com temas”. E ele diz que não quis “abordar temas”, e que certos temas “é melhor deixar aos historiadores, aos jornalistas ou aos investigadores”.
As respostas cautelosas de Pawlikowski talvez tenham a ver com o “bruá” suscitado pela reação ao filme na Polônia. “De repente parecia que o filme era uma batata quente, foi muito mais debatido do que eu queria e esperava." Houve discussões públicas, Ida entrou na agenda “mediática” e Pawlikowski teve de ouvir um pouco de tudo, incluindo que o seu filme “era anti-patriótico” ou até “anti-semita”. Embora seja um assunto que o exaspera, Pawlikowski conta isto a rir-se.
Por acaso – ou nada por acaso –, o princípio dos anos 60 foi também a época do “ressurgimento” do cinema polaco depois da guerra, os anos em que os jovens Polanski ou Skolimowski se lançaram no trilho aberto, na década anterior, pelos mais velhos Andrzej Wajda ou Andrzej Munk. O preto e branco de Ida, de uma aspereza rica em texturas e contrastes, parece uma maneira evidente (mas não a única) de evocar esses filmes e esse período do cinema polaco, como se a matéria da evocação fosse, mais do que só na época, também o cinema da época.
É esta, afinal, a Polônia “que existe na cabeça” de Pawlikowski? “Havia evidentemente um sentido de tragédia, um sufoco, mas acho que a Polônia dos anos 60, para além disto, era um local muito porreiro, muito cool, onde se conseguia encontrar uma medida de liberdade e até uma joie de vivre”.
Ida mostra isto muito bem, nas várias cenas que reconstituem a cena boêmia da época, os bares e os clubes de jazz, que o regime tolerava (mal, mas tolerava) e os jovens cultivavam exatamente pela mesma razão (era música americana), e onde se deram alguns encontros decisivos para o cinema polaco (A Faca na Água, de Polanski, começou a nascer da cumplicidade criada entre o realizador e Skolimowski, habitués do mesmo clube de jazz). “A Polônia nos anos 60 era um sítio perfeitamente hipster”, diz Pawlikowski outra vez a rir-se, “e foi uma época culturalmente muito rica a vários níveis e disciplinas, no cinema, na literatura, no teatro, ou na música contemporânea, com Gorecki, por exemplo."
Mas no mesmo passo distancia-se de uma filiação direta nos jovens cineastas polacos de 60. “Curiosamente senti-me sempre mais próximo da ‘nova vaga checa’, Forman, Chytylova ou Jan Nemec, do que da polaca." E para este filme, “sinceramente mais interessado no retrato de duas mulheres do que em qualquer outra coisa”, diz que foram muito mais importantes outras referências alheias à Europa de Leste: Bresson “o Bresson dos Anjos do Pecado ou do Pickpocket” – ou Bergman – o de Luz de Inverno, cita especificamente.


Ida
Realização:Pawel Pawlikowski
Elenco:Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Dawid Ogrodnik



Cerco e Liberdade
Se o retrato das duas mulheres é em grande medida contrapolar, todo o filme parece, do mesmo modo, jogar permanentemente com sinais contrários. Há tragédia mas também há ironia, o tom oscila entre um dramatismo severo e o seu curto-circuito, sente-se a atmosfera de cerco mas também se sente, dentro dela, aquela liberdade mais ou menos arejada.
A música é um elemento central no tratamento de todas estas ambivalências, das pop songs italianas (Celentano, por exemplo) ao uso notável, em certa e determinada cena, de uma sinfonia (a Júpiter) de Mozart. Quase sempre, se não mesmo sempre, é música “diegética”, vem de dentro dos planos, nasce de rádios, toca-discos ou atuações ao vivo.
Pawlikowski diz que a seleção musical teve muito a ver também com as letras das canções, que ele “queria que abrissem para fora daquele universo”, que sugerissem, portanto, outro mundo no mesmo em que, como um coro, comentam este. A sinfonia de Mozart é um caso diferente: “estava obcecado por ela há anos”, mas nunca tinha encontrado a maneira ideal de a fazer entrar num filme.
O seu emprego, na cena mais memorável de Ida – um suicídio, longamente preparado, com a música, percebe-se depois, a fazer parte essencial do ritual de preparação –, deixa uma impressão indelével, é como se Ida se apropriasse delas e fosse, doravante, impossível ao espectador do filme dissociá-las.
Indissociáveis de Ida – tanto quanto se dissociam elas próprias uma da outra – são as duas protagonistas do filme, Agata Trzebuchowska (a jovem Ida) e Agata Kulesza (a sua tia Wanda, mais velha, mais desencantada, mais sofrida). Nenhuma delas é muito conhecida no resto do mundo, ao que Pawlikowski acrescenta que nenhuma delas “era sequer muito conhecida na Polônia”. Agata Kulesza é uma atriz veterana, mas vem sobretudo do teatro, com pouco trabalho em cinema. Agata Trzebuchowska foi escolhida como Bresson escolhia os seus “modelos”: “No café por baixo da minha casa." Era uma estudante de filosofia, “que nunca fora atriz e não quer voltar a ser atriz."
Exatamente aquilo que Pawlikowski pretendia – em mais uma associação contrapolar, a de uma atriz profissional a uma não-atriz; “não queria técnica, não queria histrionismo, não queria à vontade com a câmara: queria alguém que fosse boa a ouvir, e boa a olhar”.
Também aí, sucesso indesmentível.