segunda-feira, 27 de maio de 2013

A tribo polaca perdida no Haiti

Legião Polaca sob as ordens de Napoleão combatem no Haiti

Texto: Raf Uzar

Talvez o grupo mais intrigante de pessoas, entre a enorme diáspora da Polônia sejam os "polacos” do Haiti. Ouvi sobre este pequeno enclave perdido de “Polonidade” no rádio e comecei a seguir “Theseus-like” os fios de histórias que poderiam me levar a algum tipo de conclusão na minha busca pela verdade nos labirintos da informação que é a Internet.
Para minha surpresa, fui capaz de reunir estas vertentes e obter algum tipo de imagem de como a Polônia conseguiu tocar a cultura do Haiti. Em 1804, o Haiti declarou sua independência da França napoleônica.
Napoleão Bonaparte rapidamente enviou uma força de mais de 5.200 legionários polacos para carimbar sua autoridade sobre os nativos e seu desejo de independência.
A metade da Terceira Brigada das legiões polacas não ficaram satisfeitas com estas ordens, pois as legiões deveriam, principalmente, estar focadas no combate pela liberdade Polaca na Europa.
A ideia de lutar contra a liberdade de um povo há mais de oito mil quilômetros de distância de sua terra natal, do outro lado do mundo, parecia tão ridícula quanto irritante para os soldados.
Mas eles eram, naquele momento, soldados de Napoleão e eles assim tiveram que seguir as ordens. As legiões polacas se envolveram na Revolução Haitiana e a maioria dos soldados morreu, embora não fosse no calor da luta, mas foram mortos pela febre amarela.
Desacostumados ao clima e aos perigos do Caribe, 4000 soldados polacos foram vitimados pela doença tropical. Os que sobreviveram tornaram-se lenda, uma lenda do Haiti.
Desgostosos de estarem lutando contra a liberdade do povo daquela ilha, os soldados polacos remanescentes decidiram se libertar do jugo francês e se juntaram a Jean-Jacques Dessalines, na luta pela independência haitiana.
Os povos indígenas ficaram tão apaixonados pelo seus irmãos de armas polacos que eles foram incluídos na Constituição haitiana de 1805. Nos artigos 12 e 13 que nenhum homem branco pode ser proprietário de terra no Haiti, com exceção dos alemães (que tinham uma pequena comunidade na ilha) e dos Polanders (polacos).
Estes polacos naturalizados haitianos tiveram um grande impacto sobre o Império nascente do Haiti, e depois, na República do Haiti.
Os haitianos ficaram impressionados com o grande amor que aqueles antigos soldados polacos devotavam a Matką Boską Częstochowską (Nossa Senhora de Częstochowa). 
Eles perceberam o quanto os legionários veneravam aquele quadro ícone. Através de um processo de assimilação e de transformação, a polaca católica Matką Boską Częstochowską se tornou o Vodu haitiano Erzulie Dantor, um espírito guerreiro, o protetor das mulheres e das crianças, associado também a proteção de lésbicas, homossexuais e mulheres abusadas.

A vudu haitiano Erzulie Dantor
Curiosamente, como Matką Boską Częstochowską, Erzulie Dantor também tem cicatrizes no lado direito do rosto, resultado de uma briga que ela teve com sua irmã, quando roubou o marido dela. A personalidade bastante diferente da Matką Boską Częstochowską.
Os laços entre as duas nações não param por aí.
Em Cazale, 70 quilômetros ao norte de Port-au-Prince vive uma comunidade muitas vezes referida como blanc e Polone.
Eles são, para todos os efeitos e propósitos, haitianos, mas devido ao fato de que a maior parte dos legionários polacos se estabeleceram justamente ali, a comunidade tem sido sempre referida como "polaca". Se você é de Cazale, você é polaco, é tão simples como isso.

O haitiano polaco Swiatoslaw Wojtkowiak
É interessante notar que existe uma elevada percentagem de olhos azuis haitianos ali. Outra ligação é o teatrólogo polaco Jerzy Grotowski, que veio ao Haiti em busca de inspiração na década de 1970. É justo dizer que o teatro experimental deve muito à espiritualidade do Vodu haitiano.
É maravilhoso como duas culturas aparentemente díspares e distantes têm linhas muito comuns entre si.
Por um lado, temos Napoleão, a batalha pela liberdade do Haiti, os legionários polacos que se juntaram aos haitianos em sua Revolução e todas as ramificações da sua presença na ilha. Isso inclui um forte marcador genético em Cazale e área circundante e o espírito guerreiro de Erzulie Dantor.
Por outro lado, temos Grotowski e seu profundo amor pelo Haiti e sua espiritualidade.
Polônia e Haiti - quem teria pensado ...?

Clique para assistir Documentário da Telewizja Polska TVP 1, produzido em 2006, sobre os descendentes dos legionários polacos de Napoleão no Caribe.

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