sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Emprestar a Voz ao Poeta

O encontro humano que a poesia possibilita.
O poeta-ator que fala poemas dos outros.

Aos 17 anos, falando o "Poema do Dia das Mães".
de Giuzeppe Ghiaronni, no Teatro da Escola Técnica, em Curitiba.

Existe uma diferença entre ler um poema, recitar um poema, declamar um poema e falar um poema. Durante muito tempo, quando se falava em poesia dita em voz alta, imaginava-se a figura do declamador. Aquele que colocava a voz acima do texto, que valorizava a cadência, a rima, o ritmo, a musicalidade dos versos. Era uma tradição muito presente nas escolas, nos salões, nos concursos.

Eu respeito essa tradição.
Ela tem seu valor histórico.

Mas nunca foi exatamente o caminho que escolhi.
Eu não declamo poemas.
Eu não recito poemas.
Eu falo poemas.

E essa diferença, que parece pequena, para mim muda tudo. Porque, quando um poeta escreve um poema, ele não começa pela métrica, pela rima ou pela forma. Ele começa por uma emoção. Alguma coisa aconteceu dentro dele.

Uma lembrança.
Uma dor.
Uma alegria.
Uma indignação.
Uma descoberta.
Uma pergunta sem resposta.
A emoção vem primeiro.
Depois vem o trabalho.

E esse trabalho é muitas vezes doloroso. O poeta procura a palavra exata. Troca um verbo por outro. Experimenta um sinônimo. Conta as sílabas. Procura a sonoridade. Descobre que uma palavra maravilhosa não cabe naquele verso. Percebe que uma palavra simples carrega uma força maior. 

O poema nasce da emoção, mas chega ao leitor depois de atravessar o rigor da construção. O grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade dizia, em diferentes momentos, que seus poemas passavam por inúmeras modificações até chegar à forma definitiva. O poema publicado não era o impulso inicial; era o resultado de uma luta entre a emoção e a linguagem. E é justamente nesse ponto que entra o meu trabalho.

Eu não quero destruir essa construção.
Não quero simplificar o poema.

Não quero criar uma nova obra minha sobre a obra de outro poeta. Quero encontrar, dentro da arquitetura perfeita do poema, a emoção que colocou aquelas palavras em movimento.

Sou apenas o meio.

Talvez por isso eu tenha tanta dificuldade com certas adaptações e traduções que acabam se afastando demais do autor. Eu vivi uma experiência que me marcou profundamente como ator. Interpretei no teatro um personagem criado pelo poeta polaco Julian Tuwim:

Zosia Samosia.

Para poder compreender a personagem e levá-la ao palco brasileiro, eu precisei traduzi-la. Não bastava traduzir palavras. Era preciso traduzir uma personalidade. Em polaco, "Samosia" não é simplesmente um nome. É uma criação linguística que revela uma característica da criança: aquela que diz "eu faço sozinha", que acredita saber tudo, que quer resolver tudo sem ajuda.

Eu cheguei a uma solução: Sofiazinha Sabichona.

Porque eu precisava que a criança brasileira que estivesse assistindo entendesse imediatamente quem era aquela menina que entrava em cena. Não era uma questão de substituir o poeta. Era uma questão de permitir que o poeta chegasse ao público.

Depois li uma outra tradução: Neuzinha Euzinha.

Reconheço que havia ali uma tentativa de criar um jogo sonoro. Mas, para mim, alguma coisa essencial havia se perdido. Porque a tradução não é apenas trocar palavras de um idioma por palavras de outro idioma. A tradução é preservar a alma da criação.

O mesmo acontece quando alguém interpreta um poema. Se o intérprete começa a colocar a sua própria personalidade acima do poeta, ele deixa de ser uma ponte e passa a ser um obstáculo.

Eu não quero criar uma "Neuzinha minha".

Não quero que o público saia dizendo: "Como o Ulisses fala bem!" Quero que saia dizendo: "Como este poema me tocou."

Essa diferença é fundamental.

Durante muitos anos, como jornalista, tive a oportunidade de entrevistar muitos artistas plásticos antes de suas vernissagens. E havia uma coisa que sempre me incomodava. Muitas matérias falavam sobre os quadros. Falavam dos pigmentos. Falavam das escolas artísticas. Falavam das influências. Falavam dos valores das obras.

Mas poucas perguntavam ao artista uma coisa simples:
Por que você pintou este quadro?
O que aconteceu dentro de você para que esta imagem precisasse existir? Como você sentiu antes de transformar sentimento em cor?

Era isso que eu queria descobrir.

Porque uma obra de arte não nasce apenas da técnica. A técnica é o caminho. Mas, antes dela, existe uma necessidade interior.

Lembro de uma frase atribuída a Marcel Duchamp:
"A mim interessa a arte, não os artistas."

É uma posição compreensível. A obra realmente precisa sobreviver ao seu criador. Mas minha trajetória seguiu por outro caminho. Eu sempre procurei descobrir o ser humano que estava por trás da criação. Não para explicar a obra. Mas para compreender de onde ela veio. Eu não queria dizer ao leitor apenas que aquele pintor pertencia a determinada escola, usava determinada técnica ou seguia determinado movimento. Eu queria aproximar o leitor do momento em que a arte nasceu. Porque acredito que existe uma distância entre a emoção vivida pelo artista e a obra pronta. E o meu trabalho sempre foi tentar diminuir essa distância.

Talvez seja por isso que, quando leio um poema, eu não começo perguntando:

"Qual é a métrica?"
"Qual é o esquema de rimas?"
"Qual é a escola literária?"

Essas perguntas são importantes.
Muito importantes.
Mas elas vêm depois.

Antes delas existe uma pergunta maior:
O que levou este ser humano a escrever estas palavras?

Foi por isso que encontrei uma identificação tão grande com Adam Asnyk. Um poeta polaco extraordinário, mas ainda praticamente desconhecido no Brasil. Quando leio Asnyk, não vejo apenas um homem que dominava a métrica, a rima e a construção do verso. Vejo um ser humano que viveu uma época de profundas dores coletivas, de perdas, de esperanças interrompidas e de busca por um futuro possível.

No poema "Miejmy Nadzieję" — "Tenhamos Esperança", ele não escreve uma frase bonita sobre esperança. Ele luta com a ideia de esperança. Ele rejeita uma esperança frágil, aquela que apenas enfeita uma realidade apodrecida. Ele procura uma esperança que tenha raiz. Uma esperança que aguente o peso da história.

Quando o poeta escreve: "Tenhamos esperança!" Não é uma frase de efeito. É uma necessidade. É quase uma sobrevivência espiritual.

E, quando eu falo esse poema, não quero que o público apenas admire a construção dos versos. Quero que perceba o homem que precisou escrever aquelas palavras.

Essa é a diferença entre mostrar o poema e revelar o poema.

Há pouco tempo gravei três poemas de Paulo Leminski para o Instagram de uma doutora em música. Depois de ouvir, ela me escreveu algo que me marcou: "Você interpreta e isso faz toda a diferença. Acho que nem Leminski falaria tão bem os versos dele próprio. É como interpretar uma obra musical. Cada musicista tem sua interpretação pessoal. Chopin é sempre Chopin, a pauta está ali diante, mas como tocar é pessoal." 

Essa comparação com a música é perfeita. Quando um pianista toca Chopin, ninguém espera que ele seja Chopin. A partitura está pronta. As notas estão ali. Mas, entre a partitura e o ouvido, existe um ser humano.

Existe respiração.
Existe sensibilidade.
Existe escolha.

Dois grandes pianistas podem tocar a mesma obra e revelar emoções diferentes. Nenhum deles modifica Chopin. Cada um revela uma possibilidade de Chopin.

Com a poesia acontece algo semelhante. O poema está escrito. As palavras estão diante de nós. Mas a maneira como essas palavras chegam ao ouvido humano depende daquele que empresta sua voz.

Mas existe um perigo.

O intérprete pode apaixonar-se tanto pela própria voz que esquece o autor. Pode transformar o poema em palco para si mesmo. Pode fazer o público admirar o declamador e esquecer o poeta.

Esse é o limite que procuro não ultrapassar. A minha voz não deve ser maior que o poema. Minha presença não deve ocupar o lugar do autor. Eu não sou o dono da obra. Sou o seu transmissor. Sou aquele que abre uma porta. Depois, quem entra é o poeta.

Por isso, quando as pessoas que acompanham meus vídeos-poemas comentam: "Que bela voz você tem." Eu agradeço. A voz é realmente o instrumento do ator. Quando dizem: "Você interpreta diferente." Eu entendo. Porque toda leitura é uma escolha. Quando dizem: "Você me emocionou." Esse é o maior elogio.

Porque significa que alguma coisa atravessou a técnica e chegou ao coração. Mas talvez o comentário que mais me interessa seja: "Nossa! Você fala tão fácil. Entendi todas as palavras." Porque ali existe uma conquista maior. A poesia deixou de parecer distante. Deixou de parecer uma coisa reservada aos especialistas.

O poema voltou a ser palavra viva.
Voltou a ser comunicação.

Eu acredito que a poesia nasceu para ser ouvida. Antes de existir o livro impresso, existia a voz. Antes da página, existia o canto. Antes da biblioteca, existia a reunião de pessoas escutando alguém contar uma história. O poema escrito é uma conquista da humanidade. Mas o poema dito é o reencontro com uma origem.

Existe uma palavra que sempre me acompanha quando falo de poesia: interpretação. Muitas pessoas me perguntam:

"Você declama poemas?"
Eu respondo: "Não."
"Você recita poemas?"
Também respondo: "Não."
Eu falo poemas.

Pode parecer apenas uma diferença de verbo, mas para mim existe uma diferença de atitude. A declamação, muitas vezes, coloca a atenção sobre o declamador. A voz se impõe. A emoção parece nascer daquele que está diante do público.

Eu procuro outro caminho.

Não quero que o público pense: "Que bela voz!" Embora a voz seja importante, Não quero que pense: "Que excelente ator!" Embora a técnica seja necessária. Quero que, por alguns minutos, esqueça quem está falando e encontre aquele que escreveu.

O poeta.

Aprendi isso no teatro. O ator precisa dominar seu instrumento.

O corpo.
A voz.
A respiração.
O silêncio.
A pausa.

Mas existe um momento em que toda essa técnica precisa desaparecer. Ela precisa tornar-se invisível. Porque, quando o público percebe apenas a técnica, ele vê o ator. Quando a técnica desaparece, ele encontra a verdade da cena. Com a poesia é igual. O poema não precisa de alguém que mostre que sabe falar. O poema precisa de alguém que permita que ele fale.

Talvez seja por isso que eu sorrio quando alguém pergunta: "Mas você não interpreta?" Sim, eu interpreto. Todo aquele que coloca uma obra artística diante do público faz escolhas. A diferença é que eu não interpreto uma personagem. Eu interpreto a emoção contida na palavra. Eu não crio uma nova história. Eu procuro descobrir a história que já existe. Eu não acrescento minha emoção ao poema. Eu procuro encontrar a emoção que o poeta colocou ali.

Quando digo que sou apenas o meio, não estou dizendo que o intérprete não tem importância.

Pelo contrário.

Um meio ruim pode impedir uma mensagem de chegar. Uma voz sem compreensão pode esconder um poema. Uma leitura sem sensibilidade pode transformar uma obra viva em um conjunto de palavras. O intérprete tem responsabilidade. Mas a responsabilidade do intérprete é servir. Não dominar.

Penso novamente na música. Um grande violinista não diz: "Agora vou criar uma música de Bach." Ele sabe que Bach já está ali. A obra existe. Mas a maneira como ela respira naquele instante depende dele. A música de Bach atravessa séculos porque encontra intérpretes capazes de fazê-la renascer.

O mesmo acontece com a poesia.

Um poema de cem, duzentos anos atrás não chega até nós porque ficou parado no passado. Ele chega porque alguém, em algum momento, empresta sua voz para que ele volte ao presente.
Por isso, quando afirmo:

"Sou um poeta-ator que fala poemas dos outros", não estou diminuindo meu trabalho. Estou definindo meu papel. Sou poeta porque conheço a luta da palavra. Sei que um verso não nasce pronto. Sei que uma palavra pode ser substituída dezenas de vezes até encontrar seu lugar. Sei que a forma também é emoção. Sou ator porque acredito no poder da voz. Porque uma palavra escrita e uma palavra dita podem produzir experiências diferentes. Mas sou, principalmente, alguém que acredita que a poesia pertence a todos.

O poeta escreveu sozinho.

Mas o poema só se completa quando encontra alguém disposto a ouvi-lo. Minha relação com a palavra não começou no palco. Ela começou muito antes. Começou como leitor. Depois, como poeta. Depois, como jornalista. 

E finalmente encontrou no teatro uma outra dimensão: a palavra que deixa de ser apenas escrita e ganha corpo, respiração e presença. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar completamente essas atividades. 

O jornalista procura a palavra exata para contar um fato. O poeta procura a palavra exata para revelar um sentimento.

O ator procura a palavra exata para revelar uma intenção. No fundo, todos eles estão diante do mesmo desafio: como fazer a palavra alcançar o outro.

Durante minha trajetória como jornalista cultural, entrevistei muitos artistas plásticos. Antes das vernissagens, antes da abertura das exposições, antes de o público chegar diante das telas, eu procurava conversar com o artista. E sempre havia uma pergunta que me interessava mais do que todas as outras:

"Por que você pintou este quadro?"

Não era uma pergunta sobre tinta. Não era uma pergunta sobre pigmento. Não era uma pergunta sobre técnica. Era uma pergunta sobre necessidade. Porque acredito que uma obra de arte nasce quando algo dentro do artista pede para existir.

O quadro é a consequência.
O poema é a consequência.
A música é a consequência.

Antes de qualquer forma artística, existe uma inquietação humana. Muitas vezes os jornais preferiam explicar a obra.

A qual escola pertencia?
Qual movimento artístico representava?
Quais materiais foram utilizados?
Qual seria seu valor no mercado?

Tudo isso pode ter importância. Mas eu sentia falta de uma coisa:

Onde estava o ser humano que criou aquilo?
Onde estava a emoção que antecedeu a obra?

Onde estava o instante em que aquela criação deixou de ser apenas uma possibilidade e tornou-se realidade?

Era isso que eu procurava.

Não queria apenas informar sobre a arte. Queria aproximar o público do nascimento da arte. Talvez essa seja a razão pela qual, hoje, quando falo um poema, continuo fazendo a mesma pergunta. Não pergunto apenas: 

"Que poema é este?"

Pergunto: "Por que este poema precisou existir?"

Quando leio Julian Tuwim, não vejo apenas versos infantis. Vejo um homem que conhecia profundamente a alma humana e que conseguia transformar uma criança, com suas manias e suas certezas exageradas, em uma personagem universal.

Quando leio Adam Asnyk, não vejo apenas um poeta polaco do século XIX. Vejo alguém tentando responder a uma pergunta que continua atual: como manter a esperança sem ser ingênuo? Como defender ideais sem transformar a derrota em orgulho? Como olhar para o futuro sem destruir o passado?

Quando leio Leminski, Brecht, Pessoa, Drummond, Vinícius, não vejo apenas jogos de palavras. Vejo uma inteligência inquieta procurando capturar o instante.

Foi por isso que mais de 250 vídeos-poemas nasceram no meu canal. Não como uma coleção de declamações. Não como uma demonstração de voz. Mas como uma tentativa permanente de aproximar a poesia das pessoas. A internet trouxe uma possibilidade extraordinária. Um poema que antes ficaria restrito ao livro, à biblioteca ou à sala de aula pode encontrar alguém do outro lado do mundo. Alguém que talvez nunca comprasse um livro de poesia pode parar alguns minutos diante de uma tela e ouvir uma palavra que precisava encontrar.

E talvez o comentário que mais resume essa experiência seja aquele que recebo algumas vezes:

"Você fala tão fácil. Eu entendi todas as palavras." 

Parece um comentário simples. Mas ele contém algo profundo. Porque, durante muito tempo, a poesia foi apresentada como algo difícil. Como se fosse necessário um conhecimento especial para aproximar-se dela. Como se entre o poeta e o leitor precisasse existir sempre um intermediário explicando.

Eu acredito no contrário.

A poesia pode ser profunda sem ser inacessível. Pode ser elaborada sem ser distante. Pode ter métrica, ritmo e rima e, ainda assim, conversar com qualquer pessoa. O papel de quem fala um poema é justamente construir essa ponte. Existe uma pergunta que sempre volta quando falo sobre esse trabalho:

"Mas, afinal, de quem é a emoção que o público sente?
Do poeta ou do intérprete?"

A resposta talvez seja: dos dois, mas em momentos diferentes. A emoção original pertence ao poeta. Foi ele quem viveu, sofreu, imaginou ou percebeu algo que precisava transformar em palavras. Mas a emoção que chega ao público passa pelo intérprete. E isso não é uma traição. É a própria natureza da arte. Uma música escrita há trezentos anos precisa de um músico para existir novamente. Uma peça escrita há cem anos precisa de atores para voltar ao palco. Um poema escrito ontem precisa de uma voz para atravessar o silêncio da página.

A obra permanece.

Mas ela renasce cada vez que encontra um ser humano disposto a recebê-la. Por isso, quando alguém me diz: "Você me emocionou." Eu recebo esse elogio com alegria, mas também com responsabilidade. Porque sei que a emoção não nasceu em mim.

Ela nasceu antes.
Nasceu no poeta.

O meu papel foi apenas abrir um caminho para que ela chegasse. É como a luz atravessando um vitral. O vitral não pertence à luz. A luz não pertence ao vitral. Mas é o encontro dos dois que revela as cores. Talvez essa seja a razão pela qual nunca quis transformar um poema de outro autor em uma criação minha.

Eu sou poeta.
Tenho meus próprios versos.

Conheço a sensação de colocar no papel algo que veio de dentro. Conheço também a dificuldade de encontrar a palavra correta. A palavra que parece simples, mas carrega exatamente aquilo que se deseja dizer. Por isso respeito profundamente o trabalho de outro poeta. Eu sei o quanto existe de vida escondida atrás de cada verso. Quando alguém altera demais um poema em nome de uma suposta adaptação, às vezes não está apenas mudando palavras. Está mudando uma trajetória emocional. Está trocando o caminho que levou aquela emoção até a página.

Foi essa consciência que me fez refletir tantas vezes sobre tradução. Traduzir poesia é uma das tarefas mais difíceis que existem. Porque o tradutor não trabalha apenas com significado.

Trabalha com música.
Com silêncio.
Com ritmo.

Com aquilo que não está escrito, mas está presente. Uma tradução pode ser correta no dicionário e, mesmo assim, perder a alma. Porque um poema não é uma soma de palavras. Um poema é uma construção viva. O tradutor precisa ser fiel não somente ao que o poeta disse. Precisa ser fiel ao motivo pelo qual ele disse.

É o mesmo desafio do ator.

Quando recebo um poema, não pergunto:

"Como posso fazer este poema ficar parecido comigo?"

Pergunto: "Como posso desaparecer o suficiente para que este poema apareça?"

Essa talvez seja a maior dificuldade.

Porque todo artista possui um ego. O ator gosta de ser visto. O poeta gosta de ser lido. O músico gosta de ser ouvido. Mas existe um momento em que a arte exige humildade. Exige que o criador ou o intérprete aceite não ser o centro.

Há uma frase que resume o meu pensamento: "O ator empresta a voz; a emoção continua sendo do poeta." Não significa que o ator seja uma máquina. Não significa que ele não tenha sensibilidade.

Pelo contrário.

Quanto mais sensível for o intérprete, mais capaz ele será de perceber quando deve aparecer e quando deve desaparecer. Talvez por isso eu tenha escolhido uma definição que parece contraditória:

Sou um poeta-ator que fala poemas dos outros.

À primeira vista, alguém poderia perguntar: "Mas, se você é poeta, por que não fala apenas os seus próprios poemas?"

Porque a poesia não é propriedade de quem escreve.
Ela pertence à humanidade.

Um poeta escreve sozinho diante de uma folha. Mas o poema só alcança sua plenitude quando encontra outros olhos, outros ouvidos, outros corações. Falar poemas de outros poetas é, para mim, uma forma de diálogo. É dizer: "Olhem o que este ser humano descobriu. Escutem o que ele sentiu. Vejam como uma emoção conseguiu transformar-se em palavra."

Ao longo dos anos, percebi que toda a minha trajetória esteve ligada a uma mesma busca: aproximar as pessoas da criação humana. Talvez eu não tenha escolhido esse caminho conscientemente.

Ele foi se revelando.
Como jornalista, procurei aproximar o leitor do artista.
Como pesquisador, procurei aproximar o público da história e da memória. Como escritor, procurei transformar experiências e descobertas em palavras.
Como ator, procurei aproximar o espectador da emoção contida em uma personagem ou em um poema.

No fundo, sempre estive procurando a mesma coisa: diminuir a distância entre quem cria e quem recebe a criação. Por isso, quando falo um poema, não estou apenas lendo um texto. Estou tentando reconstruir uma ponte. 

De um lado está o poeta.
Com sua vida.
Sua época.
Suas dores.
Suas alegrias.
Suas perguntas.

Do outro lado está alguém que talvez nunca tenha conhecido aquele autor, nunca tenha estudado aquela literatura, nunca tenha imaginado que aquelas palavras poderiam lhe dizer alguma coisa. Entre os dois existe uma ponte.

Essa ponte é a voz.

Mas uma ponte não deve impedir a passagem. Uma ponte existe justamente para que as pessoas atravessem. Se o público chega até mim e permanece apenas comigo, algo deu errado. Se o público atravessa e encontra o poeta, então o objetivo foi alcançado. Essa é a minha compreensão do papel do intérprete. Não ser o proprietário da obra. Ser o seu guardião momentâneo. Receber algo precioso das mãos de alguém que viveu antes de nós e devolvê-lo ao mundo com cuidado.

Talvez seja por isso que eu não gosto de ser chamado de declamador.
Não porque a declamação não tenha valor.
Ela faz parte da história da poesia.
Mas porque minha busca é outra.
A declamação muitas vezes valoriza o verso.
Eu procuro valorizar a alma que está dentro dele.

A declamação pode mostrar a beleza da construção. Eu procuro mostrar a necessidade que levou alguém a construir. Um poema perfeito não nasceu perfeito.

Nasceu de uma inquietação.
Nasceu de uma pergunta.
Nasceu de uma emoção que encontrou uma forma.

Quando falo um soneto, por exemplo, respeito profundamente aquilo que o poeta construiu. O soneto é uma das formas mais rigorosas da poesia. 

Quatorze versos. Métrica. Ritmo. Rimas.

Uma arquitetura verbal que exige disciplina. O poeta não escolhe apenas palavras bonitas. Escolhe palavras necessárias. Às vezes sofre porque a palavra que carrega sua emoção não cabe no verso. Às vezes precisa abandonar uma expressão que ama porque outra revela melhor aquilo que deseja transmitir. A técnica não é inimiga da emoção. A técnica é o instrumento que permite que a emoção sobreviva ao tempo.

Mas, quando esse poema chega à minha voz, eu preciso reencontrar a vida dentro dessa arquitetura. Porque um poema não é uma construção abandonada. É uma casa onde alguém ainda mora. Meu trabalho é abrir a porta.

Acender a luz.
Permitir que as pessoas entrem.

Talvez a melhor definição que encontrei para isso tenha vindo justamente de uma conversa sobre música. Uma partitura de Chopin permanece a mesma.

As notas estão ali.
O compositor está ali.

Mas cada grande intérprete encontra uma maneira própria de revelar aquela obra. Ninguém pergunta: "Por que esse pianista não toca exatamente como o outro?" Porque entendemos que a interpretação faz parte da permanência da obra. A poesia também merece essa liberdade. O poema continua sendo do poeta. Mas a voz que o conduz até o público carrega uma história. Carrega experiências. Carrega uma forma de sentir. 

Depois de tantos anos no palco, no rádio, na televisão e agora na internet, recebi milhares de comentários. Alguns falam da voz. Outros falam da emoção. Outros dizem que finalmente compreenderam um poema. Talvez o comentário que mais me agrade seja aquele que parece mais simples: 

"Eu entendi todas as palavras."

Porque nesse instante aconteceu aquilo que sempre procurei. A poesia deixou de ser uma coisa distante. Deixou de ser apenas matéria de estudo. 

Voltou a ser encontro.
Voltou a ser conversa.
Voltou a ser humana.

Talvez, no fim de tudo, a pergunta mais importante seja: por que falar poemas de outros poetas? A resposta é simples. Porque a poesia não termina quando o poeta coloca o ponto final. Aliás, talvez seja justamente naquele momento que ela começa uma nova existência. O poeta escreve sozinho.

A página recebe suas palavras.
O livro guarda seus versos.
Mas a poesia procura o outro.
Ela procura um ouvido.
Procura uma sensibilidade.

Procura alguém que, por alguns minutos, permita que aquelas palavras voltem a respirar. Um poema guardado em silêncio continua sendo uma obra de arte. Mas um poema dito em voz alta estabelece uma relação. 

Existe um encontro.

O poeta que escreveu em outro século encontra uma pessoa que talvez viva em outro país, em outra cultura, em outra realidade. E, mesmo assim, alguma coisa acontece. Uma emoção atravessa o tempo. Esse é o milagre da arte. Quando falo poemas polacos, por exemplo, existe ainda um desafio maior. Muitas vezes estou aproximando um público brasileiro de autores que ele nunca ouviu.

Um Adam Asnyk.
Um Julian Tuwim.
Um Czesław Miłosz.
Uma Wisława Szymborska.
Um Zbigniew Herbert.
Um Jorge de Senna.

Não basta pronunciar corretamente as palavras. Não basta traduzir o significado. É preciso transmitir a humanidade que existe por trás daquele idioma. Porque uma língua estrangeira não é apenas um conjunto de sons diferentes. É uma maneira diferente de olhar o mundo. Foi isso que sempre procurei fazer também no meu trabalho como escritor e pesquisador da cultura polaca.

Não apresentar apenas fatos.
Apresentar pessoas.
Não mostrar apenas datas.
Mostrar vidas.
Não apresentar apenas imigração.

Mostrar sonhos, perdas, conquistas e memórias. Porque a história só se torna verdadeiramente humana quando conseguimos enxergar o indivíduo dentro dela.

Talvez seja por isso que minha definição artística tenha chegado a uma frase aparentemente paradoxal: sou um poeta-ator que fala poemas dos outros.

Existe uma humildade nessa frase.

Mas existe também uma grande responsabilidade. Porque falar o poema de outro é receber algo que não me pertence. É como guardar por alguns minutos uma carta escrita por alguém.

Eu não escrevi a carta.

Não vivi exatamente a experiência de quem escreveu. Mas tenho a responsabilidade de entregá-la intacta a quem precisa recebê-la.

Não quero ser dono do poema.
Quero ser fiel ao poema.

Não quero criar uma nova obra sobre a obra de outro. Quero revelar a obra que já existe. Não quero que a minha voz substitua a voz do poeta. Quero que a minha voz permita que a voz do poeta seja ouvida. Depois de tantos anos dedicados à palavra, aprendi que a arte não é uma disputa de protagonismos.

O pintor não compete com a tela.
O músico não compete com a composição.
O ator não compete com o personagem.
O intérprete não compete com o poeta.
Cada um tem seu lugar.
Cada um tem sua missão.

E talvez essa seja a grande lição que recebi do teatro: A técnica é indispensável. Mas a técnica não é o fim. Ela é o caminho. O ator estuda voz, corpo, respiração, ritmo, silêncio. O músico estuda harmonia, tempo, dinâmica. O poeta estuda palavras, formas, sons. Tudo isso existe para chegar a um ponto em que a arte possa simplesmente acontecer. Quando o público esquece o esforço e encontra a emoção, a técnica cumpriu sua missão.

Por isso continuo falando poemas.
No palco.
No rádio.
Na televisão.
Na internet.
Na praça pública.

Onde houver alguém disposto a ouvir. Porque acredito que uma palavra dita com verdade ainda possui força. Uma palavra pode atravessar décadas. Pode atravessar fronteiras. Pode atravessar idiomas. Pode sair de uma folha escrita por alguém que já partiu e chegar viva aos ouvidos de alguém que acabou de nascer.

No final, talvez eu seja apenas isso:
Uma voz emprestada.
Um caminho.
Uma ponte.
Um meio.

Mas um meio consciente da importância da mensagem que transporta. Porque, quando um poeta coloca sua emoção em versos, ele entrega ao tempo uma parte de si. E, quando um intérprete fala esses versos, ele recebe uma pequena responsabilidade: não deixar que essa emoção se perca no caminho.

Emprestar a Voz ao Poeta,
Essa é a minha arte.

Ser um poeta-ator que fala poemas dos outros. "Antes de falar poemas, eu já havia passado anos falando para plateias. Foram mais de 1.200 palestras em oito anos pelo Programa Volvo de Segurança no Trânsito. Falei para motoristas, estudantes, autoridades, técnicos, jornalistas e instituições. Descobri que uma informação só transforma quando encontra uma emoção. Isso sem contar as muitas aulas que ministrei nos cursos das faculdades de jornalismo, nas universidades UEPG, PUCPR, UTP e CEFET-PR."

"Uma informação só transforma quando encontra uma emoção."

P.S. A foto no início foi do primeiro poema que "falei" na vida, a pedido da professora de língua portuguesa, na Escola Senai Técnica de 1º e 2º graus, de Telêmaco Borba. Nunca mais parei de apresentá-la.

Nenhum comentário: