O Grito Silencioso da Arquitetura Esquecida do Leste Polaco no Paraná.
Nascido entre as paredes de tábuas das vilas operárias da Klabin e criado sob o teto de cinco casas de madeira, decidi confrontar o mito curitibano e diplomático que reduziu nossa herança polaca a troncos empilhados; do Rio Ribeira à fronteira com o Uruguai, o que construiu o Sul não foi apenas o zrąb silesiano, mas também o szalowanie pionowe, a técnica das casas de esqueleto de madeira revestidas verticalmente por tábuas e sarrafos, trazida pelas correntes migratórias do Leste da Polônia, particularmente da Podláquia, de Lublin e da Mazóvia.
É uma arquitetura que está diante dos nossos olhos.
E quase ninguém a enxerga.
Como cronista da minha própria história e guardião das memórias que universidades, instituições culturais e consulados muitas vezes acabam fossilizando, preciso falar sobre aquilo que vi — e vivi — entre tábuas, sarrafos, caibros e lambrequins.
Minha história familiar ajuda a explicar por quê.
Meu bisavô Piotr, vindo de Wojcieszków, região então submetida à ocupação russa, esteve entre aqueles polacos que chegaram e se estabeleceram em Castro. Depois da passagem pela Colônia Santa Leopoldina, a família seguiu sua trajetória na cidade. Em 1922, Piotr e seus quatro filhos — entre eles Bolesław, meu avô — passaram a morar nesta casa da Vila Rio Branco.
A casa foi construída em 1922.
E continua de pé.
104 anos depois.
Esta fotografia não é apenas a fotografia de uma velha casa de madeira em Castro.
É um documento.
É a casa onde viveram meus antepassados.
E é, ao mesmo tempo, uma pequena amostra de uma arquitetura que se espalhou pelo Paraná em uma escala que a memória oficial ainda não conseguiu — ou não quis — dimensionar.
Mas a história não terminou em Castro.
Anos depois, Piotr e Bolesław seguiram para Monte Alegre.
Foram trabalhar na Klabin.
E não foram apenas para morar nas vilas operárias.
Foram também para construir aquelas casas.
Piotr, meu bisavô, e Bolesław, meu avô, participaram da construção e da vida cotidiana das centenas de casas que a Klabin ergueu para seus trabalhadores nas várias localidades de Monte Alegre — Caiubi, Operária, Bondinho, Harmonia e outros núcleos que formavam aquela verdadeira cidade operária espalhada pela Fazenda Monte Alegre.
E há uma coincidência que, para mim, deixou de ser coincidência há muito tempo.
Eles estavam construindo no Paraná as mesmas casas que seus antepassados conheceram em Wojcieszków e nas regiões do Leste polaco.
Tábuas verticais.
Sarrafos cobrindo as juntas.
Estrutura de madeira.
Telhados.
Lambrequins.
Uma técnica atravessando o oceano e reaparecendo, décadas depois, no interior do Paraná.
A madeira mudou.
A floresta mudou.
O país mudou.
A casa, não.
Foi assim que a arquitetura entrou na minha família duas vezes: primeiro como herança, depois como trabalho.
E, finalmente, como memória.
Porque, se existe uma paisagem paranaense e, por extensão, uma paisagem do Sul brasileiro que possa ser associada à presença dos imigrantes polacos do século XX, ela contém milhares de casas de tábuas e sarrafos como esta.
Milhares.
Muito mais numerosas do que as casas de origem silesiana preservadas e reunidas no Bosque do Papa, em Curitiba.
Não estou dizendo que as casas do Bosque não sejam polacas.
São.
Não estou dizendo que não devam ser preservadas.
Devem.
Estou dizendo outra coisa.
Elas não representam sozinhas a arquitetura polaca do Paraná.
E muito menos representam a minha.
[...]
Quando a casa virou indústria.
A partir da década de 1930, as Indústrias Klabin passaram a utilizar esse sistema em escala industrial nas vilas operárias da Fazenda Monte Alegre.
Caiubi.
Operária.
Bondinho.
Harmonia.
Ali, meu bisavô Piotr e meu avô Bolesław não eram apenas moradores de uma paisagem que lhes era familiar.
Eram parte daqueles que a construíam.
A experiência de ambos é, para mim, uma das provas mais bonitas de como a imigração não transportou apenas pessoas de um continente para outro.
Transportou conhecimentos.
Transportou técnicas.
Transportou maneiras de cortar a madeira, montar uma parede, fazer um telhado, proteger uma janela da chuva e, principalmente, construir uma casa.
Eles haviam saído de uma região onde aquele tipo de arquitetura fazia parte da paisagem.
No Paraná, encontraram a araucária.
E construíram novamente.
Desta vez, para a Klabin.
Desta vez, para os operários.
Desta vez, para uma nova geração de polacos e brasileiros.
E entre essas casas eu nasci.
É por isso que minha pesquisa não nasceu apenas dos livros.
Nasceu da memória.
Depois vieram os documentos.
Depois vieram as comparações.
E, finalmente, veio a confirmação mais desconcertante de todas: quando retornei às regiões de origem dos meus antepassados, encontrei paisagens que me pareciam familiares.
A Polônia estava na minha memória antes de eu reconhecer que aquela memória era polaca.
Porque, se existe uma paisagem paranaense e, por extensão, uma paisagem do Sul brasileiro que possa ser associada à presença dos imigrantes polacos do século XX, ela contém milhares de casas de tábuas e sarrafos como esta.
A casa que ficou de fora da história
Quando se fala em arquitetura polaca no Paraná, a imagem consagrada é quase sempre a mesma: toras grossas de madeira sobrepostas horizontalmente, encaixadas umas nas outras nas esquinas, formando as paredes da konstrukcja zrębowa, o sistema construtivo tradicional associado às antigas correntes migratórias da Silésia e da Galícia.
É uma arquitetura verdadeira.
É histórica.
É importante.
Mas não é toda a história.
A questão não está no Bosque do Papa.
Está naquilo que o Bosque passou a representar.
As casas ali preservadas transformaram-se, ao longo do tempo, em uma espécie de síntese visual da “polonidade” arquitetônica do Paraná.
Para quem chega a Curitiba e quer conhecer a arquitetura dos imigrantes polacos, são elas que aparecem.
E, ao aparecerem sempre elas, as outras desaparecem.
É assim que a memória funciona.
Uma imagem se repete tantas vezes que acaba ocupando o lugar da história inteira.
E se faltasse uma casa?
Há uma solução simples para esse desequilíbrio.
Não é retirar nenhuma das casas do Bosque do Papa.
É acrescentar uma.
Uma casa de tábuas verticais.
Uma casa de sarrafos.
Uma casa da Podláquia.
Uma casa que permita ao visitante compreender que a imigração polaca que construiu o Paraná não veio apenas daquelas regiões representadas pelas casas de toras encaixadas.
Poderia ser, por exemplo, um exemplar como aquele preservado em São Mateus do Sul.
Não seria uma concessão.
Seria uma correção histórica.
Mesmo porque as casas do Leste da Polônia estão cobrindo as terras de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, também!
O Bosque poderia continuar contando a história que já conta e, ao lado dela, começar a contar aquela que ficou de fora. Porque uma casa não precisa destruir outra para ampliar uma memória.
Basta abrir espaço.
A minha questão é que eu conheço as duas
Talvez eu seja particularmente insistente nesse assunto porque tive a oportunidade de conhecer as duas arquiteturas.
Conheço a casa que virou patrimônio.
E conheço a casa que virou moradia.
Conheço a casa fotografada.
E conheço a casa vivida.
Nasci entre casas de madeira das vilas operárias da Klabin, em Harmonia, e fui criado sob o teto de cinco casas construídas ao longo da vida, como aquela transportada da vila Operária em Harmonia para o bairro da Macopa na outra margem do rio Tibagi, na antiga Cidade Nova que cedeu lugar para Telêmaco Borba com esse sistema de tábuas e sarrafos.
Por isso, quando vejo uma parede vertical de madeira, não enxergo apenas uma técnica construtiva.
Reconheço uma paisagem.
Reconheço uma memória.
Reconheço uma origem.
E reconheço uma ausência.
E é numa casa de madeira que vivo.
![]() |
| Minha casa na Antiga Colônia Santo Inácio, em Curitiba. |
Porque foi somente muito mais tarde, ao estudar a história da imigração polaca e ao retornar fisicamente às regiões de Lublin, Podláquia e Mazóvia, que percebi que aquelas casas da minha infância não eram uma invenção paranaense.
Elas tinham ancestrais.
Tinham parentes.
Tinham uma história do outro lado do Atlântico.
E essa história havia atravessado o oceano junto com os imigrantes.
Sim, eu também fui às montanhas Beskidy em Bielsko-Biała, Cieszyn e Wisła na Silésia.
E também andei por Lubartów, Świdnik e Biała Podlaska nas regiões da Podláquia e Lublínia.
Não era pobreza. Era tecnologia.
O sistema szalowanie pionowe pode parecer, à primeira vista, uma solução simples.
Tábuas verticais.
Sarrafos cobrindo as juntas.
Estrutura de madeira.
Telhado.
Pronto.
Mas é justamente aí que mora o erro de olhar para essa arquitetura apenas como uma manifestação de pobreza ou improvisação.
As tábuas verticais favoreciam o escoamento da água da chuva, enquanto os sarrafos de recobrimento protegiam as juntas. A estrutura de pilares e vigas permitia flexibilidade, reparos e, em determinadas circunstâncias, até a desmontagem e remontagem da construção.
Era uma solução perfeitamente adaptável à madeira disponível no Paraná e ao processo de industrialização das serrarias.
Não era pobreza.
Era tecnologia.
E, em Monte Alegre, essa tecnologia encontrou uma oportunidade gigantesca.
Quando a casa virou indústria
A partir da década de 1930, as Indústrias Klabin passaram a utilizar esse sistema em escala industrial nas vilas operárias da Fazenda Monte Alegre.
Caiubi.
Operária.
Bondinho.
Lagoa.
Mina de Carvão.
Miranda.
Mirandinha.
Mauá.
Antas.
Bacia.
Harmonia.
Centenas de trabalhadores precisavam de moradia.
Havia madeira.
Havia serrarias.
Havia carpinteiros.
Havia imigrantes polacos da Podlaquia e Lublínia.
E havia uma técnica que podia ser repetida.
A casa de tábuas deixou de ser apenas a casa do colono.
Passou a ser também a casa do operário.
E eu nasci dentro dessa transformação.
É por isso que minha pesquisa não nasceu apenas dos livros.
Nasceu da memória.
Depois vieram os documentos.
Depois vieram as viagens a Polônia.
Depois vieram as comparações.
E, finalmente, veio a confirmação mais desconcertante de todas: quando retornei às regiões de origem dos meus antepassados, encontrei paisagens que me pareciam familiares.
A Polônia estava na minha memória antes de eu reconhecer que aquela memória era polaca.
A paisagem que ninguém contou
É preciso imaginar o Paraná de outra maneira.
Não apenas com as igrejas, os cemitérios, as festas, os sobrenomes, os santos, os trajes e as casas de toras preservadas.
É preciso imaginar as cidades e colônias cheias de casas de tábuas.
Casas de uma família.
Casas de duas famílias.
Casas de trabalhadores.
Casas de agricultores.
Casas de comerciantes.
Casas que ficavam ao lado da serraria.
Casas que acompanhavam as estradas.
Casas que desapareceram quando a alvenaria chegou.
Casas que foram desmontadas e remontadas.
Casas que continuam habitadas.
Casas como esta de Castro.
Milhares delas.
Essa é a paisagem que precisa entrar na história.
Não para substituir a outra.
Para completar a outra.
A casa de 1922
Volto, então, àquela fotografia.
A casa da Vila Rio Branco.
Construída em 1922.
Nela moraram meu bisavô e seus quatro filhos, entre eles meu avô.
E hoje moram meus primos.
Quando olho para a fotografia hoje, vejo duas coisas ao mesmo tempo.
Vejo minha família.
E vejo uma arquitetura.
É isso que transforma uma lembrança familiar em documento histórico.
A casa sobreviveu.
Minha família passou.
A madeira ficou.
E agora ela me permite fazer uma pergunta que talvez nunca tenha sido feita com a devida insistência:
quantas casas como esta existiram — e ainda existem — no Paraná?
E por que elas não ocupam, na memória pública da imigração polaca, o mesmo espaço que as casas de toras encaixadas?
Essa pergunta está na origem deste texto.
O Bosque do Papa não me representa
Agora o título pode ser entendido.
Quando digo que o Bosque do Papa não me representa, não estou negando sua importância.
Estou recusando a ideia de que ele possa representar sozinho aquilo que foi a arquitetura polaca no Paraná.
As casas do Bosque pertencem a uma determinada corrente histórica.
A minha família pertence a outra.
Meus antepassados vieram de Wojcieszków.
Passaram por Santa Leopoldina.
Viveram em Castro.
Meu avô cresceu em uma casa de tábuas.
Eu nasci em uma vila operária da Klabin.
Passei minha vida entre casas de madeira.
E quando finalmente fui procurar as raízes dessa arquitetura, encontrei-as no Leste da Polônia.
Por isso, quando vejo uma casa de toras encaixadas no Bosque do Papa, reconheço uma parte da história.
Mas não a minha história inteira.
Falta uma casa.
Talvez duas.
Talvez muitas.
E eu gostaria que, um dia, o visitante pudesse entrar no Bosque do Papa e encontrar, ao lado daquela arquitetura silesiana, uma casa da Podláquia.
Uma casa como tantas que o Paraná conheceu.
Uma casa como aquela de São Mateus do Sul.
Uma casa como a de Castro.
Várias casas no bairro da Santa Cândida, São Braz, Orleans, Portão
Uma casa como a de Harmonia, onde nasci.
Uma casa como aquela onde viveram meus antepassados.
Porque o patrimônio não deve apenas conservar aquilo que escolhemos lembrar.
Deve também nos ajudar a descobrir aquilo que esquecemos.
E talvez seja essa a verdadeira função de uma casa antiga.
Não apenas permanecer de pé.
Mas continuar gritando.
Texto: Ulisses Iarochinski




Nenhum comentário:
Postar um comentário