terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Às amizades de sempre

Foto: Ulisses Iarochinski

Tenho notado um aumento considerável no número de pessoas, que inadvertidamente se deixam levar pela ânsia de violência. Pessoas que partilhavam as mesmas idéias, hoje estão distantes, já não pensam como antes.
Não, que evoluíram em seus conceitos rumo a fraternidade. Não!
Na verdade, estão voltando atrás. Mas não para aqueles tempos do comungar das idéias para um mundo melhor, longe das atrocidades e mentiras. Estão voltando para os tempos da bárbarie, dos tempos em que matar era um ato covarde de supremacia militar. Muitos parecem se esquecer, ou talvez nunca souberam realmente o que estava se passando, mas não há como negar a história, quando ela de fato aconteceu.
Assim, dialogar, tem se tornado um ato muito difícil de executar. Não se consegue dialogar com o amigo de ontem, quanto mais com o de hoje. O que não será com o de amanhã?
Acompanho diariamente o que jornalistas escrevem pelo mundo. Não só os jornalistas brasileiros, mas principalmente os polacos, os espanhois, os portugueses, os italianos, os franceses, os ingleses e aqueles tantos outros de diferentes línguas que são traduzidos para alguma destes idiomas citados.
A manipulação da informação, muitas vezes ditadas pela ignorância histórica, pela falta de compreensão da conjuntura e simplesmente porque não se concorda com o fato que se está relatando tem transformado as relações em completos abismos.
A crença de muitos de que a grande imprensa manipula a informação por interesses econômicos, políticos, geoestratégicos não impende que aceitem mentiras como verdades, que duvidem da sinceridade das amizades que apontam outros caminhos, amizades que relembram fatos, que traduzem bloqueios, censuras e preconceitos.
Se num mundo onde ainda os morteiros dos países vizinhos não se voltaram contra nós, as amizades estão se deteriorando por falta de diálogo, parceria e comunhão de idéias, imagine-se o que não pode estar acontecendo nas fronteiras de Gaza, Paquistão, Afeganistão, Sudão, Indonésia?
E quando já não restar mais sentimento será impossível resgatar a amizade. Pois nunca é possível reconstruir, seja o que for, a partir só do que ouve num determinado instante. Temos sempre de lembrar o contexto, e contexto distorcido, a ponto de se tornar irreconhecível é o que está acontecendo, por exemplo em Israel. É fácil dizer que Hamas, Talibãs, ETA, Chechenos, georgianos são terroristas, mas é extremamente díficil aceitar que constituições e exércitos de Espanha, Rússia, Israel, Grã-Bretanha, Estados Unidos são máquinas de matar das mais implacáveis que já existiram na história da humanidade. Estes países, principalmente, cometem terrorismo há décadas, mas nem por isto se ouve aqui e ali que são assassinos. Por que?
Espero poder estar contribuindo para a permanência do diálogo e que se divergir é necessário, também o é o entender.
O dramaturgo, músico e poeta alemão Bertold Brecht em sua luta contra a ascensão de Hitler escreveu um poema, que junto com amigos atores, sob a direção do ator José Maria Santos, encenamos nos palcos do Paraná. Os poemas "Aos que vão nascer" e "O hoje e o jamais" estão nesta sequência do espetáculo "Na Boca dos Poetas" . Os nomes dos "falantes" são aqueles atores da amizade perene:

(BLACK-OUT. MÚSICA: NA BOCA DA NOITE, TOQUINHO. UM ATOR SENTADO NO PROSCÊNIO, ENFORCADO. LUZ VOLTA EM RESISTÊNCIA)

ULISSES:      Apesar de todas as angústias e sofrimentos desta vida. Tudo vale a pena, como dizia Fernando Pessoa, poeta português, quando a alma não é pequena. E apesar da injustiça passear pelas ruas com os passos seguros, como dizia Bertold Brecht, poeta e dramaturgo alemão, nós preferimos a poesia.

(RETIRA A CORDA DO PESCOÇO)

Aos que vão nascer – Bertold Brecht

TODOS:  REALMENTE EU VIVO NUM TEMPO SOMBRIO!

ULISSES:      A inocente palavra é um despropósito! Uma fronte sem rugas demonstra                                           insensibilidade.

TÂNIA:          Quem está rindo, é porque não recebeu ainda a notícia terrível.

CLEY:            Que tempo é este, em que uma conversa sobre árvores chega a ser uma falta, pois implica em silenciar sobre tantos crimes?

MARISE:      Esse que vai cruzando a rua calmamente, então já não está ao alcance dos amigos necessitados?

TODOS:        É VERDADE AINDA GANHO O MEU SUSTENTO!

RENE:          Porém, acreditai-me: é mero acaso. Nada do que faço me dá direito a isso, de comer e fartar-me. Por acaso me poupam. Se minha sorte acaba, estou perdido.

CLEY:           Dizem-me: vai comendo e bebendo! Alegra-te pelo que tens!

MARCOS:    Mas como hei de comer e beber, se o que eu como é tirado a quem tem fome e o meu copo d’água falta a quem tem sede?

TODOS:       NO ENTANTO EU COMO E BEBO!

ULISSES:     Eu gostaria bem de ser um sábio. Nos velhos livros está o que é a sabedoria:    Manter-se longe das lidas do mundo e o tempo breve deixar correr sem medo.

CLEY:          Também saber passar sem violência, pagar o mal com o bem, os próprios desejos não realizar e sim esquecer, conta-se como sabedoria.

TODOS:      NÃO POSSO NADA DISSE: REALMENTE, EU VIVO NUM TEMPO SOMBRIO!

SOLANGE:    Às cidades cheguei em tempo de tumulto, com a fome imperando. Junto aos homens cheguei em tempo de desordem e me rebelei com ele.

 TODOS:       ASSIM, PASSOU-SE O TEMPO QUE SOBRE A TERRA ME FOI CONCEDIDO.

 TÂNIA:       Minha comida mastiguei entre as refregas. Para dormir, deitei-me entre assassinos. O amor eu exercia sem cuidado. E olhava sem paciência a natureza,

 TODOS:      ASSIM, PASSOU-SE O TEMPO QUE SOBRE A TERRA ME FOI CONCEDIDO.

 MARCOS:   As ruas do meu tempo iam dar no atoleiro. A fala, denunciava-me ao carrasco. Bem pouco podia eu. Mas os mandões sem mim se achavam mais seguros. Eu esperava.

 TODOS:      ASSIM, PASSOU-SE O TEMPO QUE SOBRE A TERRA ME FOI CONCEDIDO.

 SOLANGE:  Vós, que vireis na crista da maré em que nos afogamos, pensai quando falardes em nossas fraquezas, também no tempo sombrio a que escapastes.

FERNANDO:  Vínhamos nós mudando mais de país do que de sapatos. Em meio às lutas de classes, desesperados, enquanto apenas injustiça havia e revolta, nenhuma.

MARISE:        E entretanto sabíamos: também o ódio a baixeza endurece as feições, também a raiva contra a injustiça, torna mais rouca a voz. Ah!... e nós que pretendíamos preparar o terreno para a amizade, nem bons amigos, nós mesmos pudemos ser.

ULISSES:      Mas vós, quando chegar a ocasião de ser o homem, um parceiro para o homem,

TODOS:         PENSAI EM NÓS COM SIMPATIA!

                       O hoje e o jamais – Bertold Brecht

FERNANDO: A injustiça passeia pelas ruas com passos seguros.

MARISE:        Os dominadores se estabelecem por dez mil anos. Só a força os garante. Tudo ficará como está.

MARCOS:       Nenhuma voz se levanta além da voz dos dominadores.

SOLANGE:     Nos mercados da exploração se diz em voz alta: Agora acaba de começar!  E entre os oprimidos, muitos dizem: Não se realizará jamais o que queremos!

ULISSES:      O que ainda vive, não diga: jamais!

CLEY:            O seguro não é seguro. Como está não ficará. Quando os dominadores falarem. Falarão também os dominados.

ULISSES:       Quem se atreve a dizer: jamais? De quem depende a continuação desse domínio?

TODOS:         DE NÓS!

ULISSES:      De quem depende a sua destruição?

TODOS:        IGUALMENTE DE NÓS!

RENE:          Os caídos que se levantem! Os que estão perdidos que lutem! Quem reconhece a situação como pode se calar? Os vencidos de agora serão os vencedores de amanhã.

TODOS:        E O HOJE NASCERÁ DO JAMAIS!

MARCOS:     Bertold Brecht nasceu em Ausburgo, na Alemanha em 10 de fevereiro de 1898 e faleceu em Berlim em 14 de agosto de 1956. É o mais influente dramaturgo universal do século vinte. A violência em sua poesia é uma constante. Injustiça social, crimes, alcoolismo, nada foi esquecido por ele. Num de seus poemas ele diz: “Eu, Bertold Brecht, sou das negras florestas. Para a cidade minha mãe me trouxe no ventre ainda e o frio das florestas em mim se há de encontrar até eu morrer.” Hoje, podemos dizer que este frio transcendeu a sua morte.

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