Algumas obras de arte parecem esperar pelo momento certo para revelar sua verdadeira força. Foi exatamente o que aconteceu com Jednego Serca, "Um Coração", poema de Adam Asnyk escrito em 1869.
Quando Asnyk escreveu esses versos, a Polônia não existia. Desde a terceira partição, em 1795, seu território havia sido dividido entre Rússia, Prússia e Áustria. Não havia Estado, não havia fronteiras, não havia exército. Mas havia algo que nenhum império conseguiu apagar.
A cultura.
A literatura tornou-se o território espiritual da nação. Os poetas deixaram de ser apenas artistas para se tornarem guardiões da memória. Os poemas de Mickiewicz, Slowacki e Krasinski eram copiados à mão, decorados por crianças e lidos em voz baixa nas casas.
Eles diziam: "a Polônia pode desaparecer do mapa, mas não desaparecerá da memória dos polacos".
É nesse contexto que nasce Jednego Serca.
Minha própria família, os Jarosiński de Lwów, teve que sair com a roupa do corpo para recomeçar na região de Bielsko Biała. Depois veio a República Popular da Polônia. Formalmente soberana, na prática vigiada por Moscou.
A censura controlava livros, filmes, peças e músicas.
A arte deveria seguir o realismo socialista.
Como no tempo das partições, a cultura encontrou brechas. Os artistas aprenderam a falar por metáforas. Uma frase tinha um sentido para o censor e outro para o público. E a juventude, nas madrugadas, sintonizava a Rádio Luxemburgo, a BBC e a Voz da América entre chiados para ouvir jazz, blues e rock. Como a palavra rock era mal vista, chamaram oficialmente de bigbit.
Era rock com outro nome. Pelas brechas também entra a liberdade.
É exatamente um ano depois dos protestos dos estudantes em todo mundo, inclusive na Polônia, que Niemen pega o poema de 1869 e faz dele uma canção.
Não foi apenas uma adaptação.
Ele criou uma obra nova em seu álbum Enigmatic, de 1970. Levou a poesia romântica do século XIX para o rock progressivo, para o órgão de igreja e para a voz de protesto. Deu ao velho poema um novo corpo.
Por isso este livro se chama Um Coração.
Este não é o coração romântico que sofre por uma mulher. É o coração que continua a bater quando tudo em volta foi destruído. É o coração que luta pela independência da Pátria, que atravessa um século para nos dizer que ainda estamos aqui.
Este livro com este ensaio, que nasceu aqui neste blog, é minha tentativa de seguir o fio que une Asnyk a Niemen e que nos une a todos nós, descendentes de polacos no Brasil, que ainda carregamos esse mesmo coração.
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