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| Capa da edição de hoje nas bancas, o primeiro-ministro Donald Tusk e o presidente da República Karol Nawrocki |
Quatro dias depois da publicação do meu artigo "A farsa do 'rei eleito' e a batalha pela segunda emancipação da Polônia", fui buscar o que dizem os colunistas da Gazeta Wyborcza sobre a crise no Tribunal Constitucional da Polônia.
E o debate ganhou proporções ainda maiores.
A disputa deixou de ser apenas uma queda de braço entre governo e oposição. Transformou-se numa questão que envolve a própria segurança nacional.
O primeiro-ministro Donald Tusk foi direto ao apontar que a turbulência institucional provocada pelo PiS (Direito e Justiça), de Jarosław Kaczyński, com o apoio do presidente da república Karol Nawrocki, acaba servindo aos interesses do Kremlin.
Num momento em que a Europa Oriental vive sob permanente tensão geopolítica, enfraquecer as instituições do Estado polaco significa, também, abrir espaço para a estratégia de Vladimir Putin.
Na avaliação dos analistas da Wyborcza, a recuperação da legitimidade do Tribunal Constitucional passa pelo cumprimento das decisões judiciais e pelo reconhecimento dos novos juízes nomeados legalmente pelo Sejm (Parlamento).
Não se trata, portanto, de uma disputa por poder, mas da tentativa de retirar uma instituição fundamental do controle político herdado do governo anterior.
Enquanto isso, Nawrocki e o PiS apostam no discurso da instabilidade permanente, procurando mobilizar seus apoiadores por meio de alertas e acusações que, segundo a análise do jornal, ainda não conseguiram produzir uma adesão expressiva nas ruas.
Há uma questão que não pode ser ignorada: a Polônia precisa de instituições legítimas, independentes e respeitadas. Não apenas para preservar sua democracia, mas para não se tornar vulnerável justamente quando a segurança europeia exige unidade e responsabilidade.
É isso que está em jogo.
Muito mais do que uma disputa entre políticos.
P.S. Para quem acompanha a política brasileira, talvez seja importante explicar o peso histórico da Gazeta Wyborcza na Polônia. Fundado em 8 de maio de 1989, às vésperas das primeiras eleições parcialmente livres do país, o jornal nasceu como voz da oposição democrática ligada ao movimento Solidarność, liderado por Lech Wałęsa.
Seu primeiro editor-chefe foi Adam Michnik, historiador, intelectual e militante que, em março de 1968, participou das manifestações estudantis que sacudiram a Polônia e outros países, sendo expulso da universidade e condenado à prisão pelo regime comunista.
Desde então, a Gazeta Wyborcza tornou-se uma das principais referências do jornalismo e do debate público polaco, acompanhando as transformações que levaram o país do comunismo à democracia e, posteriormente, à integração europeia. Não é apenas um jornal. É também parte da própria história contemporânea da Polônia.
