domingo, 12 de julho de 2026

Um coração atravessando um século

O poema de Adam Asnyk
que virou a voz de Czesław Niemen

Em 1869, Adam Asnyk escreveu “Jednego serca”, um poema sobre a busca por compreensão. Cem anos depois, Czesław Niemen transformou esses versos em uma das canções mais marcantes da cultura polaca. 


Um poema que atravessou um século

Algumas obras de arte parecem esperar pelo momento adequado para encontrar sua verdadeira dimensão. São criadas em uma época específica, marcadas pelas dores e esperanças de uma geração, mas permanecem adormecidas até que outro tempo consiga revelar novos significados.

Foi exatamente isso que aconteceu com Jednego serca (“Um Coração”), um dos mais belos poemas de Adam Asnyk. Escrito em 1869, quando a Polônia ainda não existia como Estado independente e seu território permanecia dividido entre Rússia, Prússia e Áustria, o poema nasceu de uma profunda necessidade humana: encontrar alguém capaz de compreender a solidão, compartilhar a dor e reconhecer aquilo que muitas vezes permanece escondido dentro de cada pessoa.

Cem anos depois, em 1969, o cantor e compositor polaco Czesław Niemen transformou aqueles versos em música. Mas não fez apenas uma adaptação. Criou uma obra nova. Uma ponte entre dois séculos. Entre a poesia romântica do século XIX e o rock progressivo do final dos anos 1960.

Entre uma Polônia sem Estado e outra submetida à realidade política da Cortina de Ferro. Entre a memória e o presente. A canção foi lançada em 1970 no histórico álbum Enigmatic e rapidamente tornou-se uma das composições mais importantes da música polaca do século XX.

Para compreender por que um poema de amor escrito em 1869 adquiriu tamanha força cem anos depois, é preciso voltar ao texto original de Adam Asnyk.

Jednego serca! tak mało, tak mało,
Jednego serca trzeba mi na ziemi!
Coby przy mojem miłością zadrżało:
A byłbym cichym pomiędzy cichemi...

Jednych ust trzeba! skądbym wieczność całą
Pił napój szczęścia ustami mojemi,
I oczu dwoje, gdziebym patrzał śmiało,
Widząc się świętym pomiędzy świętemi.

Jednego serca i rąk białych dwoje!
Coby mi oczy zasłoniły moje,
Bym zasnął słodko, marząc o aniele,

Który mnie niesie w objęciach do nieba;
Jednego serca! tak mało mi trzeba,
A jednak widzę, że żądam za wiele!

Tradução para o português

Um Coração 

Um coração... Tão pouco, tão pouco...
Apenas um coração preciso nesta terra.
Um coração que estremeça de amor junto ao meu,
e eu seria sereno entre os que vivem em serenidade.

Uns lábios apenas... 
Dos quais eu pudesse beber, por toda a eternidade,
o néctar da felicidade com os meus próprios lábios.
E dois olhos... 

Nos quais eu pudesse mirar sem temor,
vendo-me puro entre os puros.
Um coração...
E duas mãos brancas,

que repousassem sobre meus olhos, 
para que eu adormecesse docemente,
sonhando com um anjo
que me conduzisse nos braços para o céu. 

Um coração...
É tão pouco o que peço.
E, no entanto,
vejo que estou pedindo demais.

A voz de Czesław Niemen

Um século depois de escrito o poema,
a voz de Czesław Niemen devolveu
novos sentidos aos versos de Adam Asnyk.

Adam Asnyk: o poeta entre duas épocas


Adam Asnyk foi um dos maiores poetas e dramaturgos da Polônia do século XIX. Sua obra representa uma passagem fundamental entre dois grandes momentos da cultura polaca: o Romantismo, marcado pelo idealismo, pelas lutas nacionais e pelo desejo de recuperar a independência perdida, e o Positivismo, que defendia a reconstrução da sociedade por meio da educação, da ciência e do desenvolvimento cultural.

Ele nasceu em Kalisz, em 11 de setembro de 1838, e morreu em Cracóvia, em 1897. Mas sua trajetória pessoal foi muito mais do que a de um homem das letras. Asnyk pertenceu a uma geração marcada pela ausência de um Estado próprio.

Desde 1795, quando ocorreu a terceira e definitiva Partição da Polônia, o país havia desaparecido oficialmente do mapa europeu. Durante 123 anos, os polacos viveram sem governo nacional, sem exército próprio e sem soberania política.

Mesmo assim, a Polônia permaneceu viva.
Sobreviveu na língua.
Nas tradições familiares.
Na religião.
Na memória coletiva.
E, principalmente, na literatura.

Poucos povos confiaram tanto aos seus escritores a missão de preservar a própria identidade. Os poetas tornaram-se guardiões da nação.


Adam Mickiewicz
, Juliusz Słowacki e Zygmunt Krasiński, conhecidos como os “Três Bardos” da literatura polaca, transformaram seus versos em uma espécie de pátria espiritual para um povo privado de sua pátria política.

Asnyk pertenceu à geração seguinte.

Viveu o fracasso do Levante de Janeiro de 1863 contra o domínio russo, participou da luta pela independência e, após a derrota, precisou conhecer o caminho do exílio. 

Essa experiência marcou profundamente sua visão de mundo. Ele continuou acreditando na liberdade da Polônia, mas compreendeu que a reconstrução nacional dependeria também da educação, do conhecimento e da formação cultural da sociedade.

Era o pensamento positivista.

Mas sua poesia jamais abandonou completamente a emoção romântica.

Nela convivem razão e sentimento.
Esperança e melancolia.
Futuro e memória.

É justamente essa combinação que torna Jednego Serca tão especial. À primeira vista, o poema parece falar apenas de amor. Um homem procura um único coração capaz de compreendê-lo. Mas a grande poesia nunca termina na primeira leitura.

Um coração pode ser uma pessoa.
Pode ser uma amizade.
Pode ser a própria humanidade.
Pode ser uma pátria.
Ou pode representar tudo isso ao mesmo tempo.

Uma Polônia sem Estado e uma literatura como pátria

Durante 123 anos, a Polônia desapareceu do mapa político da Europa.

A literatura tornou-se uma das principais formas de preservação da identidade nacional polaca. Quando Adam Asnyk escreveu Jednego Serca, a Polônia não existia como Estado independente.

Era uma nação sem fronteiras próprias.
Mas não era uma nação desaparecida.

Essa é uma das maiores particularidades da história polaca. Em 1795, após a terceira e definitiva Partição, Rússia, Prússia e Áustria dividiram entre si o território da antiga República das Duas Nações (Rzeczpospolita Obojga Narodów).

O país deixou oficialmente de existir.

Durante mais de um século, as autoridades dos impérios ocupantes tentaram controlar não apenas o território, mas também a memória coletiva dos polacos.

A língua polaca sofreu restrições.
A educação nacional foi limitada.
Símbolos patrióticos eram vistos com desconfiança.

Mas havia algo impossível de destruir:
A cultura.
A literatura transformou-se em uma espécie de território espiritual.

Se não existia uma Polônia política, existia uma Polônia criada pelos livros, pelos poemas, pelas músicas e pelas tradições transmitidas dentro das famílias.

Os escritores assumiram uma responsabilidade histórica.
Não eram apenas artistas.
Eram guardiões da memória nacional.

Por isso, na cultura polaca, a poesia sempre ocupou um lugar excepcional. Os versos de Adam Mickiewicz, Juliusz Słowacki e Zygmunt Krasiński não eram apenas obras literárias. Eram manifestações de uma identidade coletiva que sobrevivia apesar da ausência do Estado.

Os poemas eram lidos em reuniões familiares.
Copiados à mão.
Transmitidos entre gerações.
Decorados por crianças.

A literatura mantinha viva uma ideia fundamental:
A Polônia podia desaparecer do mapa.
Mas não desapareceria da memória dos polacos.

1945: o fim de uma guerra e o início de outra realidade

Ao final da Segunda Guerra Mundial, Varsóvia estava reduzida a ruínas.

A reconstrução física da cidade acompanharia uma reconstrução política e cultural extremamente complexa.

Quase oitenta anos depois da morte de Adam Asnyk, outra geração polaca enfrentaria uma experiência histórica traumática.

O ano era 1945.
A Segunda Guerra Mundial havia terminado.

Mas para a Polônia, a paz chegava acompanhada de uma imensa destruição.

Varsóvia era uma cidade em ruínas.

Mais de oitenta por cento da capital havia sido destruído durante a guerra. Prédios históricos, bibliotecas, teatros e monumentos desapareceram sob os bombardeios e a política de destruição sistemática aplicada pela Alemanha nazista após a Revolta de Varsóvia de 1944.

O país inteiro estava devastado.

Aproximadamente seis milhões de cidadãos polacos morreram durante o conflito. Entre eles estavam polacos de origem judaica, vítimas do Holocausto, intelectuais, professores, artistas, militares e trabalhadores.

A guerra não destruiu apenas pessoas.

Destruiu também uma parte da memória cultural da Polônia. Além da tragédia humana, veio uma nova alteração das fronteiras. O país perdeu seus territórios orientais, incluindo importantes centros históricos como Lwów e Wilno, incorporados à União Soviética.

Em compensação, recebeu de volta áreas anteriormente ocupadas pela Prússia e sua substituta, Alemanha, entre elas as cidades de Wrocław, Szczecin e Gdańsk. 

Milhões de pessoas foram deslocadas.
Famílias inteiras abandonaram suas casas ancestrais.

Um ramo dos Jarosiński foi obrigado a sair de suas propriedades na região de Lwów com a roupa do corpo e alguns pertences. Foram realocadas na zona rural de Bielsko Biała, quase na fronteira com a Eslováquia, no novo território definido por Stalin, Churchill e Truman.

Novas comunidades nasceram em territórios desconhecidos.
A Polônia precisou reconstruir não apenas suas cidades.
Precisou reconstruir sua própria identidade.
A República Popular da Polônia e os limites da liberdade

Após a Segunda Guerra Mundial, a Polônia passou a integrar a esfera de influência soviética.

Com o fim da guerra, a influência da União Soviética tornou-se decisiva.

Em 1947, após eleições controladas pelo bloco soviético, consolidou-se a República Popular da Polônia (Polska Rzeczpospolita Ludowa — PRL).

Formalmente, era um Estado soberano.
Na prática, suas grandes decisões políticas estavam vinculadas a Moscou. 

A censura passou a fazer parte da vida cotidiana.

Livros,
filmes,
peças teatrais
e músicas

Precisavam passar pelo controle das autoridades. A arte deveria seguir os princípios do realismo socialista. A produção cultural deveria exaltar o trabalhador, o progresso industrial e os valores do sistema socialista.

Mas a tradição cultural polaca era forte demais para desaparecer. Assim como havia ocorrido durante as Partições, a cultura encontrou caminhos próprios.

Os artistas aprenderam a utilizar metáforas.
Os escritores desenvolveram uma linguagem simbólica.
Os cineastas encontraram maneiras de falar do presente por meio de histórias aparentemente ambientadas no passado.
O público também aprendeu a interpretar.

Muitas vezes, uma frase possuía dois significados.
Um para o censor.
Outro para quem lia ou assistia.

A cultura tornou-se um grande exercício de comunicação indireta.

O degelo de 1956 e uma nova geração

A década de 1950 trouxe uma breve abertura cultural que permitiu
o surgimento de novas experiências artísticas.

A morte de Josef Stalin, em 1953, abriu espaço para mudanças dentro do bloco socialista. Na Polônia, o ano de 1956 marcou uma transformação importante. As manifestações operárias de Poznań e a ascensão de Władysław Gomułka criaram expectativas de maior autonomia política e cultural.

Durante algum tempo, houve uma relativa abertura.
Livros proibidos voltaram a circular.
Filmes mais críticos chegaram às telas.
O jazz deixou de ser tratado oficialmente como uma ameaça ideológica. 

Nas universidades, uma nova geração começava a descobrir outras possibilidades. Era também uma geração fascinada pela música que vinha do Ocidente. O rádio tornou-se uma janela para um mundo diferente.

Durante a noite, jovens polacos sintonizavam emissoras estrangeiras como Radio Luxembourg, BBC e Voice of America. Entre interferências e ruídos, chegavam novos sons.

O jazz.
O blues.
O rhythm and blues.
O rock.

As vozes de Ray Charles, Elvis Presley, The Beatles e tantos outros artistas atravessavam a Cortina de Ferro. Os discos circulavam de maneira quase clandestina.

Vinis enviados por parentes emigrados.
Gravações copiadas em fitas magnéticas.
Músicas trazidas por marinheiros que retornavam de portos estrangeiros.

A juventude queria conhecer aquele mundo sonoro.
E os músicos polacos encontraram uma maneira própria de responder. Como a palavra "rock" carregava forte associação com a cultura ocidental, adotou-se oficialmente uma expressão mais aceitável para as autoridades: bigbit.

Era rock.
Mas com outro nome.
Uma pequena brecha.
E pelas brechas também entra a liberdade.

Foi nesse ambiente que Czesław Niemen começou a construir sua carreira. Mas antes de chegar à sua grande transformação artística, a Polônia ainda viveria um dos momentos mais tensos de sua história recente.
Niemen e seu violão fizeram história


O ano de 1968.
E seria novamente a literatura que abriria o caminho.

Março de 1968: quando a literatura voltou às ruas

Em 1968, os versos de Adam Mickiewicz, escritos no século XIX
contra a opressão russa, voltaram a adquirir um significado político
diante da censura do regime comunista.

A Polônia da década de 1960 parecia viver uma contradição permanente. Por um lado, era um país reconstruído após a maior tragédia de sua história.

Novas cidades surgiam.
As universidades funcionavam.

Uma nova geração, nascida depois da guerra, crescia sem ter vivido diretamente os horrores da ocupação nazista. Por outro lado, essa mesma juventude percebia que a liberdade prometida pela abertura de 1956 tinha limites cada vez mais evidentes.

A censura permanecia.
O debate intelectual era controlado.
As decisões políticas continuavam subordinadas aos interesses soviéticos. A frustração aumentava.

E o conflito começou justamente onde a tradição polaca sempre encontrou sua maior força.

Na cultura.

"Dziady": uma peça do século XIX que incomodou o século XX 

Adam Mickiewicz transformou sua obra em um dos maiores símbolos da identidade cultural polaca.

Em novembro de 1967, o Teatro Nacional de Varsóvia apresentou uma nova montagem de "Dziady" (Os Ancestrais), de Adam Mickiewicz.

Não era uma peça comum.
Na cultura polaca, "Dziady" ocupa um lugar quase sagrado.

Escrita durante o exílio de Mickiewicz, depois da derrota da Revolta de Novembro contra o Império Russo, a obra mistura elementos religiosos, folclóricos e históricos para refletir sobre o sofrimento de um povo privado de sua liberdade.

A terceira parte da peça, escrita em Dresden em 1832, apresenta a repressão exercida pelas autoridades russas contra jovens patriotas polacos.

Para o público de 1967, a mensagem era impossível de ignorar.
A história parecia falar do passado.
Mas também falava do presente.

Quando os atores pronunciavam versos sobre censura e perseguição, a plateia interrompia a apresentação com longos aplausos. Não eram apenas aplausos ao teatro. Eram manifestações de solidariedade. Cada interrupção transformava-se em uma mensagem silenciosa contra o governo.

As autoridades compreenderam rapidamente o significado daqueles aplausos. O passado estava sendo utilizado para questionar o presente.

A censura decidiu agir.

Após algumas apresentações, a montagem foi proibida. A justificativa oficial afirmava que a peça continha elementos antissoviéticos e prejudicava as relações de amizade entre os povos socialistas.

Na prática, era uma tentativa de impedir que a literatura se transformasse novamente em instrumento de reflexão nacional. Mas a história polaca demonstrava que proibir poemas raramente elimina seus significados.

Às vezes, faz exatamente o contrário.

A Universidade de Varsóvia e a revolta dos estudantes

A repressão aos estudantes em março de 1968
marcou profundamente uma geração de intelectuais polacos.

A última apresentação de "Dziady" ocorreu em 30 de janeiro de 1968. Após o espetáculo, estudantes organizaram uma manifestação espontânea. Reuniram-se diante do monumento a Adam Mickiewicz.

Levaram flores.
Cantaram o hino nacional.
Protestaram contra a censura.
Era uma manifestação pacífica.

Mas o governo interpretou aquilo como uma ameaça. Poucos dias depois, dois estudantes da Universidade de Varsóvia — Adam Michnik e Henryk Szlajfer — foram expulsos da instituição por informarem jornalistas estrangeiros sobre a repressão.

A resposta dos estudantes veio em março.

No dia 8 daquele mês, milhares de jovens reuniram-se dentro da Universidade de Varsóvia para exigir a readmissão dos colegas e defender a liberdade acadêmica. O governo decidiu responder pela força. Milícias operárias ligadas ao regime e forças policiais invadiram o campus armadas com cassetetes.

A violência foi brutal.
Estudantes foram espancados.
Professores foram humilhados.
Manifestantes foram presos.

As imagens da repressão espalharam-se rapidamente. Universidades de Cracóvia, Poznań, Wrocław, Łódź e Gdańsk também organizaram protestos. Pela primeira vez desde 1956, uma grande mobilização nacional questionava publicamente o regime. A resposta das autoridades seria ainda mais dura.

A campanha antissemita de 1968

A campanha oficialmente chamada de "antissionista"
resultou na saída forçada de milhares de cidadãos polacos de origem judaica.

A repressão física não era suficiente.
O governo precisava desacreditar o movimento.

A solução encontrada foi transformar uma crise política em uma campanha nacionalista e antissemita. O contexto internacional ofereceu o pretexto.

Após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, a União Soviética rompeu relações diplomáticas com Israel e pressionou seus aliados a fazerem o mesmo. Na Polônia, setores ligados ao ministro do Interior Mieczysław Moczar iniciaram uma campanha apresentada oficialmente como "antissionista". 

Mas, na prática, atingia cidadãos polacos de origem judaica.

A propaganda acusava intelectuais, professores, artistas e estudantes judeus de conspirarem contra o Estado socialista.

O resultado foi devastador.
Entre treze e quinze mil pessoas deixaram o país.
Muitos eram professores universitários.
Cientistas.
Médicos.
Artistas.
Militares.
Sobreviventes do Holocausto.

Pessoas que haviam reconstruído suas vidas na Polônia depois da guerra foram novamente obrigadas a partir. Foi uma das páginas mais dolorosas da história contemporânea polaca.

A derrota de uma manifestação e o nascimento de uma consciência

Até o final de março, o movimento estudantil havia sido controlado. O governo parecia ter vencido. Mas a história demonstraria o contrário. Muitos daqueles jovens perseguidos em 1968 se tornariam, décadas depois, figuras fundamentais da oposição democrática polaca.

Adam Michnik seria um dos principais intelectuais do movimento democrático e, posteriormente, fundador do jornal "Gazeta Wyborcza". 

Outros participantes daquele período integrariam o movimento Solidariedade (Solidarność) nos anos 1980, responsável por enfraquecer definitivamente o regime socialista soviético.

Março de 1968 deixou uma marca profunda. Também deixou uma lição. Quando a palavra direta é proibida, a cultura encontra outras formas de falar.

Os artistas compreenderam que era necessário criar uma nova linguagem. 

As letras das músicas eram examinadas.
Peças teatrais sofriam cortes.
Livros eram censurados.
Mas havia um caminho.
Voltar aos grandes autores nacionais.

A poesia do século XIX oferecia aquilo que o presente não podia dizer.

Mickiewicz.
Norwid.
Słowacki.
Asnyk.

Os versos antigos tornavam-se mensagens contemporâneas. E entre os músicos que perceberam essa possibilidade estava um cantor que já não queria apenas fazer sucesso.

Queria construir uma obra.
Seu nome era Czesław Niemen.

E sua resposta aos acontecimentos de 1968 seria criada um ano depois. 

Não seria um discurso.
Não seria um manifesto.
Seria um álbum.
"Enigmatic".

Czesław Niemen: a voz de uma geração entre duas fronteiras

Czesław Niemen nasceu em uma região que deixou de pertencer à Polônia depois da Segunda Guerra Mundial. Sua própria história era marcada pelas grandes transformações do século XX

Antes de ser uma voz.
Antes de ser um símbolo.

Antes de se tornar um dos maiores nomes da música polaca do século XX. Czesław Niemen foi uma criança marcada pelas mudanças da História.

Nasceu como Czesław Juliusz Wydrzycki, em 16 de fevereiro de 1939, na pequena localidade de Stare Wasiliszki, na região histórica de Nowogródek. 

Naquele momento, o território tinha voltado a fazer parte da Segunda República da Polônia, em 1918.

Poucos meses após seu nascimento, a Europa mergulharia na Segunda Guerra Mundial. Sua infância seria atravessada pela ocupação, pela violência e pela redefinição das fronteiras europeias.

Após a guerra, a região onde nascera passou a integrar a República Socialista Soviética da Bielorrússia.

Como milhares de outras famílias polacas dos antigos territórios orientais (Kresy), os Wydrzycki precisaram abandonar sua terra natal e transferir-se para o novo território imposto à Polônia pelos acordos de Yalta e Potsdam.

A fronteira mudou.
A memória permaneceu.
Essa experiência acompanharia Niemen durante toda a vida.

O nome de um rio transformado em identidade

O nome artístico Czesław Niemen foi uma homenagem
ao rio que marcou a paisagem de sua infância.

Quando decidiu construir uma carreira artística, Czesław escolheu um nome que carregava sua própria história.

Niemen.

O nome de um dos grandes rios da Europa Oriental. Um rio que atravessava justamente a paisagem de sua infância. Não era apenas uma escolha artística. Era uma declaração de pertencimento.

Em um século marcado por deslocamentos forçados, fronteiras alteradas e identidades fragmentadas, o nome Niemen representava uma ligação permanente com o lugar de origem.

Mesmo longe da terra natal, o menino de Stare Wasiliszki continuava carregando aquele território dentro de si.

A música que atravessava a Cortina de Ferro

O rádio Stolica fabricado pela Zakłady Radiowe im. Marcina Kasprzaka - ZRK
foi uma das principais janelas para a música ocidental durante a Guerra Fria.

A juventude polaca dos anos 1950 e 1960 cresceu em um ambiente de contradições. Politicamente, vivia dentro do bloco socialista. Culturalmente, desejava conhecer tudo aquilo que vinha de fora.

A música tornou-se uma das principais formas de contato com o Ocidente.
Durante a noite, milhares de jovens ligavam seus rádios e procuravam frequências estrangeiras.

Entre ruídos e interferências,
Surgiam novas vozes.
Novos ritmos.
Novas formas de expressão.
Chegava o jazz norte-americano.
O blues.
O rhythm and blues.
O rock.

Artistas como Ray Charles, Elvis Presley, The Beatles, The Rolling Stones e Bob Dylan tornavam-se conhecidos mesmo em um país onde o acesso aos discos estrangeiros era limitado.

A música atravessava fronteiras que os governos tentavam manter fechadas. Havia também outras formas de circulação.

Marinheiros traziam discos de portos estrangeiros.
Famílias recebiam LPs enviados por parentes emigrados.
Gravações eram copiadas em fitas magnéticas.
Um disco podia passar pelas mãos de dezenas de pessoas.
A juventude queria ouvir.
E encontrava maneiras de fazê-lo.

O nascimento do "bigbit"

O governo polaco sabia que não poderia impedir completamente essa influência cultural. Era necessário encontrar uma forma de controlar sem proibir totalmente. Assim surgiu uma expressão curiosa: "bigbit". 

Oficialmente, não se tratava de "rock".
Era uma música moderna para a juventude socialista.
Na prática, todos sabiam o significado.
Eram guitarras elétricas.
Baterias marcadas.
Influências britânicas e norte-americanas.
Era o rock adaptado à realidade polaca.

Essa pequena mudança de nome abriu espaço para uma geração inteira de músicos. E entre eles estava Czesław Niemen.

Da juventude ao fenômeno nacional

Antes de criar Enigmatic, Niemen tornou-se uma das grandes vozes do chamado bigbit polaco.

A voz de Niemen chamou atenção rapidamente. Possuía uma extensão vocal impressionante. Era capaz de cantar com suavidade e, no momento seguinte, alcançar uma intensidade quase dramática.

Em 1963, ganhou reconhecimento ao participar do Festival de Jovens Talentos de Szczecin. Depois passou a integrar o grupo Niebiesko-Czarni, uma das bandas mais importantes da música jovem polaca.

A popularidade cresceu.
Mas Niemen nunca se satisfez apenas com o sucesso.
Ele queria experimentar.
Queria ampliar os limites da música popular.
Sua referência não era apenas o entretenimento.
Era a arte.

“Dziwny jest ten świat”: o primeiro grande grito

Lançada em 1967, a canção tornou-se um marco na música polaca
e revelou a dimensão artística de Niemen.

Em 1967, Niemen lançou aquela que seria uma de suas músicas mais emblemáticas: "Dziwny jest ten świat" — “Estranho é este mundo”.

A canção impressionou imediatamente.
Não era apenas uma bela melodia.

Era uma reflexão sobre a violência, a falta de humanidade e a dificuldade de manter a esperança em um mundo marcado por conflitos. Muitos a consideram a primeira grande canção de protesto da música popular polaca.

Mas Niemen nunca foi apenas um cantor de protesto.
Sua preocupação era mais ampla.
Ele queria compreender o ser humano.

Queria encontrar uma linguagem artística capaz de unir emoção, reflexão e experimentação musical.

O encontro com a grande poesia polaca

No final dos anos 1960, enquanto o rock internacional avançava para novas experiências sonoras, Niemen também buscava novos caminhos.

Bandas como The Beatles, Procol Harum e outros grupos aproximavam a música popular da literatura, da música erudita e da experimentação.

Os álbuns começavam a ser pensados como obras completas.
Não apenas coleções de sucessos.

Niemen acompanhava essas transformações.
Mas sabia que a Polônia possuía uma tradição própria.
Não precisava simplesmente copiar o Ocidente.
Precisava dialogar com ele.

Foi então que voltou seu olhar para os grandes poetas nacionais.

Cyprian Kamil Norwid.
Adam Asnyk.

Autores que haviam escrito em outros momentos históricos, mas cujos versos continuavam carregados de significado.

A escolha era artística.

Mas também era uma resposta inteligente à censura. Um poema do século XIX podia dizer aquilo que uma letra contemporânea dificilmente conseguiria dizer. A tradição transformava-se em linguagem do presente.

E foi nesse momento que Niemen encontrou "Jednego Serca".

Um poema escrito exatamente cem anos antes. Um poema sobre a procura de um coração capaz de compreender. Parecia que Asnyk havia deixado aqueles versos esperando por aquela voz.

Enigmatic: quando um poema de 1869 encontrou a música de 1969

Enigmatic transformou Czesław Niemen em um dos maiores inovadores da música polaca.

O álbum uniu poesia, rock, soul e tradição cultural nacional.

Em 1969, exatamente cem anos depois de Adam Asnyk escrever Jednego Serca, Czesław Niemen entrou em estúdio para transformar aquele poema em uma das canções mais marcantes da história da música polaca.

A coincidência temporal parece quase simbólica.
Um século separava os dois artistas.

Mas as inquietações eram surpreendentemente próximas.
Asnyk escrevia em uma Polônia dividida entre impérios estrangeiros. Niemen cantava em uma Polônia existente como Estado, mas limitada por um sistema político que controlava a liberdade de expressão.

Os dois viveram momentos em que a identidade nacional precisava encontrar outros caminhos para se manifestar.

No século XIX, a literatura preservava a existência espiritual da Polônia. No século XX, a música retomava essa missão.

Um álbum pensado como obra

O álbum Enigmatic trouxe o órgão Hammond para rompeu com o formato tradicional da música popular polaca e aproximou o rock da grande tradição literária nacional.

O resultado desse processo foi o álbum Enigmatic, lançado em 1970.
Mais do que uma coleção de canções, o disco era concebido como uma obra artística completa. Niemen abandonava definitivamente a fórmula do sucesso fácil.

Não queria apenas agradar ao público.
Queria provocar.
Fazer pensar.
Criar uma experiência emocional.

A música popular polaca até então era dominada por canções curtas, voltadas principalmente para o rádio e os festivais.

Niemen propôs algo diferente.
Composições longas.
Atmosferas complexas.
Influências do rock progressivo.
Elementos do blues.
Referências à música espiritual e ao jazz.
Era uma nova maneira de pensar a canção.

A abertura do álbum já demonstrava essa ambição. Bema pamięci żałobny rapsod — “Réquiem em memória de Bem” — era uma adaptação do poema de Cyprian Kamil Norwid, outro grande nome da literatura polaca.

A composição ultrapassava os limites de uma simples canção.
Era uma verdadeira suíte.
Uma narrativa musical.

Uma homenagem ao general Józef Bem, herói polaco das lutas pela liberdade no século XIX. Com essa escolha, Niemen deixava claro seu caminho artístico. Ele não buscava inspiração apenas na música contemporânea. Buscava na própria memória cultural polaca.

A inteligência de utilizar a poesia

Em um ambiente de censura, a escolha dos textos não era um detalhe. Era uma estratégia. As autoridades examinavam cuidadosamente letras escritas pelos músicos contemporâneos. Uma crítica direta ao sistema poderia ser proibida.

Mas como censurar um poema de Norwid?
Como proibir Adam Asnyk?
Como acusar de subversão os grandes nomes da literatura nacional?
A poesia clássica oferecia uma proteção simbólica.
Mas havia algo mais profundo.

Niemen não utilizava esses autores apenas como escudo.
Ele realmente acreditava que seus versos continuavam vivos.
Para ele, a tradição não era uma peça de museu.

Era uma fonte de criação.
O passado conversava com o presente.

Jednego serca: um coração em busca de compreensão

Os versos de Adam Asnyk encontraram uma nova existência através da voz de Czesław Niemen.

Quando Niemen escolheu Jednego serca, encontrou um poema aparentemente simples.

Um homem pede apenas uma coisa:
Um coração.
Não muitos.
Não uma multidão.
Apenas um.
Um coração capaz de compreender.

Um coração capaz de compartilhar a dor. Um coração diante do qual pudesse existir sem máscaras. Mas, nas mãos de Niemen, esses versos ganharam uma dimensão coletiva.

A solidão individual transformou-se em sentimento de uma geração. O pedido por compreensão tornou-se o desejo por solidariedade. A procura por um coração tornou-se a procura por uma sociedade mais humana.

O verso: “Um coração! Tão pouco preciso... e no entanto, vejo que peço demais” ultrapassava a esfera amorosa.

Falava de todos aqueles que viviam em uma realidade onde a confiança havia sido destruída pelo medo e pela vigilância. A construção sonora de uma obra-prima musicalmente, Jednego Serca estava muito distante das canções tradicionais de amor.

Niemen construiu uma atmosfera dramática.
O órgão Hammond ocupa um lugar central.
Sua sonoridade profunda cria uma sensação quase religiosa.
As guitarras acrescentam tensão.
A bateria conduz a música com intensidade crescente.
O coro feminino Alibabki amplia o caráter emocional da composição.
Há elementos do soul norte-americano.
Há influência do blues.

Mas há também ecos do rock progressivo que naquele momento começava a transformar a música internacional. Mas tudo isso é filtrado por uma sensibilidade profundamente polaca. A música moderna encontra a poesia romântica.

O Ocidente encontra a tradição nacional.
A guitarra elétrica encontra o verso do século XIX.
E dessa combinação nasce algo único.
A voz que dizia o que não podia ser dito. 

A grande força de Niemen estava justamente nessa capacidade de comunicar sem transformar a arte em um discurso político direto.

Ele não precisava cantar slogans.

Não precisava escrever palavras de ordem.
Sua mensagem estava na escolha dos poemas.
Na emoção da interpretação.
Na atmosfera criada pela música.

Em uma sociedade onde muitas palavras eram proibidas, os sentimentos encontravam outros caminhos.

Uma melodia podia dizer.
Uma metáfora podia dizer.
Um poema antigo podia dizer.
A arte encontrava brechas.
E pelas brechas passava a liberdade.

O sucesso de Enigmatic

O impacto do álbum foi imediato.

Enigmatic tornou-se um marco da música polaca. A crítica reconheceu a inovação. O público identificou algo novo.

Niemen deixou de ser apenas um cantor popular. Transformou-se em um artista de referência. Sua obra passou a dialogar com diferentes gerações. Os jovens encontravam nele a modernidade do rock. Os mais velhos reconheciam a força da tradição literária.

Ele conseguira unir dois mundos que muitos imaginavam separados. A cultura popular e a alta cultura. A música estrangeira e a identidade polaca. O passado e o futuro.

Quando Adam Asnyk escreveu Jednego Serca em 1869, talvez imaginasse que seus versos seriam lidos por seus contemporâneos.

Ele jamais poderia imaginar que, cem anos depois, seriam transformados em uma canção moderna por uma das maiores vozes da Polônia.

Quando Niemen gravou a música em 1969, talvez não soubesse que aquela interpretação continuaria emocionando ouvintes décadas depois. Mas essa é uma das características das grandes obras.

Elas não terminam quando são criadas.
Elas continuam encontrando novos públicos.
Novos tempos.
Novos corações.

Um coração que continua batendo

Separados por um século, Adam Asnyk e Czesław Niemen
continuam dialogando por meio da poesia e da música
em antigas colônias como a do Guajuvira - Araucária, no Paraná, onde a polonidade vive.

Quando Jednego Serca foi apresentada ao público dentro do álbum Enigmatic, ninguém poderia imaginar a longa viagem que aquela obra ainda faria.

Czesław Niemen não havia simplesmente transformado um poema em canção.

Havia criado uma ponte entre tempos diferentes.
Entre o século XIX e o século XX.

Entre uma Polônia sem Estado e uma Polônia limitada pela realidade política da Guerra Fria.

Entre a solidão individual e a experiência coletiva de uma geração. Essa é talvez a maior força das grandes obras culturais. Elas nascem dentro de uma circunstância histórica.

Mas conseguem ultrapassá-la.

Adam Asnyk morreu em 1897, em Cracóvia.



Foi sepultado na Cripta dos Merecedores da Igreja de Skałka, um dos lugares mais simbólicos da memória cultural polaca. Ali repousam escritores, artistas, cientistas e personalidades que ajudaram a construir a identidade espiritual da Polônia.

Sua vida pertenceu a uma época em que o país não existia politicamente. Mas sua poesia ajudou a manter viva a ideia de uma nação.

Czesław Niemen morreu em 17 de janeiro de 2004, em Varsóvia.


Foi sepultado no histórico Cemitério Powązki, onde descansam inúmeras figuras fundamentais da história polaca.

Entre os dois existe uma distância de mais de cem anos.
Mas existe também uma ligação profunda.
Um poema.
Uma melodia.
Uma mesma pergunta humana.
Como encontrar alguém capaz de compreender?

A cultura como herança e continuidade

A cultura polaca atravessou oceanos e continua sendo preservada por seus descendentes no Brasil
banco musical Chopin no Bosque do Papa em Curitiba
Foto: Lana Seganfredo

A trajetória de Jednego Serca revela algo essencial sobre a cultura polaca. Ela nunca dependeu apenas das fronteiras políticas. Durante as Partições, quando a Polônia desapareceu do mapa, a cultura manteve viva a identidade nacional.

Durante o socialismo soviético imposto, quando a liberdade de expressão era limitada, a literatura e a música encontraram caminhos alternativos.

E hoje, longe do território polaco, essa mesma cultura continua viajando através das gerações. Ela chegou ao Brasil na companhia dos imigrantes.

Veio nas malas.
Nas fotografias.
Nas histórias contadas pelos avós.
Nas canções cantadas em família.
Nas celebrações religiosas.
Nos livros preservados.

Nas palavras que sobreviveram dentro das comunidades.
A cultura não é uma peça parada no passado.
Ela é movimento.
É transmissão.
É encontro.

Um poema que encontrou novos leitores no Brasil

Foi justamente essa permanência que me levou a reencontrar Jednego Serca. Ao ouvir a interpretação de Czesław Niemen, surgiu a necessidade de compreender aqueles versos.

Primeiro veio a música.
Depois veio o poema.

E então apareceu a pergunta:
Como apresentar ao público brasileiro a profundidade de uma obra escrita há mais de um século?

A resposta veio pela tradução.

Traduzir um poema não é simplesmente trocar palavras de uma língua para outra.

É tentar preservar uma emoção.
É buscar o ritmo escondido nos versos.

É permitir que uma experiência cultural distante encontre uma nova sensibilidade.

Adam Asnyk escreveu para seus contemporâneos.
Czesław Niemen cantou para sua geração.

Mas a arte verdadeira continua conversando com quem chega depois.

Da música ao vídeo-poema.

 A interpretação de um poema também pode ser uma forma de preservar e compartilhar memória cultural.

Foto da gravação do vídeo-poema Jednego Serca com o autor deste artigo
ainda com fundo verde para o efeito chrome-key

O encontro com Jednego Serca também abriu outro caminho.
A palavra escrita encontrou a imagem.
O poema transformou-se em vídeo-poema.

A proposta é simples.
Não esconder a emoção.

Permitir que o rosto, a voz e a interpretação sejam também instrumentos de transmissão cultural.

Porque um poema não existe apenas no papel.
Ele existe quando alguém o lê.
Quando alguém o escuta.
Quando alguém se emociona.

A poesia continua viva justamente porque encontra novos intérpretes.

Do blog ao Festival da Palavra

Este ensaio nasceu de uma vontade pessoal de compreender uma canção. Mas acabou revelando algo muito maior.

Uma história sobre literatura.
Sobre música.
Sobre memória.
Sobre identidade cultural.

Por isso, esta reflexão também chega ao 4º Festival da Palavra de Curitiba, dentro da programação da Casa da Cultura Polônia Brasil, onde a poesia, a ilustração e a produção cultural de descendentes de polacos se encontram.

A mesa com poetas e ilustradoras representa justamente essa continuidade.

Os versos de Adam Asnyk atravessaram um século.
A música de Niemen atravessou fronteiras.
E agora chegam a uma nova geração de criadores.

A cultura permanece viva quando encontra novas vozes.

Um coração.
Apenas um.
Mas verdadeiro.

Talvez essa seja a razão pela qual Jednego Serca continua emocionando tantas pessoas. Porque, no fundo, o poema não fala apenas de amor. Fala de uma necessidade humana universal.

A procura por compreensão.
A procura por empatia.

A procura por alguém diante de quem possamos existir plenamente. Adam Asnyk escreveu esses versos em 1869.

Czesław Niemen devolveu-lhes uma nova vida em 1969.

E hoje eles continuam viajando.
De uma língua para outra.
De uma geração para outra.
De um país para outro.
Um poema atravessou um século.
Uma canção atravessou fronteiras.
E continua procurando novos corações.

Texto e pesquisa: Ulisses Iarochinski
Tradução do poema “Jednego serca”: Ulisses Iarochinski
Publicado originalmente no blog Jarosiński do Brasil.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Espada do ano 1000 encontrada na Polônia

Foto: Divulgação/Muzeum Ziemi Wronieckiej

 
Espada medieval associada à dinastia Piast, a primeira de reis da Polônia, foi encontrada por morador local e impressiona pelo estado de conservação.
 
Uma impressionante espada medieval foi recentemente encontrada no Oeste da Polônia. A descoberta do item, que data do século 11 e estaria associada à dinastia Piast, primeiros reis do país, foi feita pelo morador Mirosław Tucholski. Ele encontrou o artefato no rio Warta, perto de Wronki, e rapidamente comunicou o achado às autoridades.
 
Considerada pelos arqueólogos uma das descobertas medievais mais importantes dos últimos anos na região, a espada chamou atenção pelo excelente estado de conservação. Como destaca o portal Archaeology News, embora o artefato tenha permanecido submerso por séculos, ainda assim preservou características que podem revelar informações importantes sobre a fabricação de armas na época.
 
Ainda não se sabe como a espada foi parar no leito do rio, mas uma hipótese diz que ela pode ter sido perdida por um guerreiro durante uma viagem ou confronto. Outra possibilidade envolve práticas rituais conhecidas em diferentes partes da Europa, nas quais armas e outros objetos valiosos eram depositados em rios e lagos como oferendas.
 
Achados semelhantes 
 
A descoberta se soma a alguns achados semelhantes registrados recentemente no país. Em 2025, um pescador encontrou uma espada do século 13 em Varsóvia. No ano anterior, trabalhos de dragagem próximos à cidade de Włocławek revelaram outra arma, que alguns pesquisadores associam a um guerreiro viking (varengue, em português) do século 10.
 
Tais achados ajudam historiadores a reconstruir aspectos relacionados ao comércio, aos conflitos e às tradições culturais da região. Especialistas observam que a redução do nível das águas em rios e lagos polacos tem contribuído para o surgimento de mais artefatos arqueológicos.
 
Embora a seca facilite a localização desses objetos, ela também pode acelerar sua deterioração ao expô-los a condições ambientais mais agressivas. As autoridades notificaram o Conservador de Monumentos da Voivodia da Grande Polônia (Wielkopolska) e iniciaram os procedimentos de conservação.
 
O prefeito de Wronki, Rafał Zimny, destinou recursos para a restauração e para a realização de estudos científicos sobre a peça. A espada será submetida a trabalhos de conservação e análises especializadas na Uniwersytet Mikołaj Kopernik, em Toruń.
 
Fonte:Aventuras da História
Texto: Giovanna Gomes

quinta-feira, 11 de junho de 2026

FIFA exige que Haiti tire "bandeira da Polônia" da camisa.

 
A bandeira da Polônia hasteada aparece na parte inferior das camisas

 
Integrante do Grupo C da Copa do Mundo, junto com o Brasil, o Haiti foi proibido pela FIFA de estampar um símbolo nacional na camisa oficial que usará durante o Mundial. A seleção havia divulgado o uniforme, que tinha uma ilustração representando a batalha de Vertières que culminou na independência do Haiti, em 1803.
 
De acordo com a empresa de material esportivo, a FIFA entendeu que havia no uniforme uma mensagem política, fato que é proibido pelo regulamento da entidade. O traje gerou confusão entre torcedores nas redes sociais pela presença da bandeira, que é muito parecida com a da Polônia.
 
Embora, o país europeu tenha ajudado no processo de independência dos caribenhos, a homenagem não se refere a parceria entre os países, segundo a empresa.
 
Entenda a relação entre Haiti e Polônia
 
A história se iniciou em 1802, quando os haitianos, até então colonizados pela França, começaram a se organizar e aumentar seus movimentos pela luta pela independência do país. Buscando inibir o aumento da revolta no Haiti, Napoleão Bonaparte - Imperador da França - enviou tropas para o Caribe e, entre eles, haviam os soldados das chamadas "Legiões Polacas", que integravam o Exército Francês.
 
A mudança na "Batalha de Vertières" ocorreu quando os soldados polacos se simpatizaram com a luta haitiana e decidiram mudar de lado, se juntando aos manifestantes pela luta contra os franceses. A ajuda dos polacos foi crucial para que, no fim do conflito, o povo haitiano conseguisse assegurar a independência do país. Os legionários polacos nunca mais voltaram para a Europa.
 
Por isso muitos negros haitianos hoje assinam sobrenomes autenticamente polacos. As Legiões Polacas foram recrutadas por Napoleão sob a promessa que daria a independência da Polônia invadira e ocupadas pelos Reino da Rússia, Império da Áustria e Reino da Prússia. Uma das consequências da parceria foi a criação do Reino do Congresso da Polônia, mas que não teve vida longa com a morte de Napoleão e aquela região polaca voltou ao domínio russo até 1918.
 
Como reconhecimento, Jean-Jacques Dessalines, primeiro governante do país caribenho, deu a cidadania haitiana aos polacos como forma de agradecimento. Mais de dois séculos depois, essa amizade ganhou mais um capítulo com a homenagem nas três camisas da seleção haitiana preparadas para o Mundial.
 
Nas três versões do uniforme do Haiti, há a ilustração do processo de independência do país caribenho, com a bandeira polaca em destaque no canto inferior direito.
 
As Legiões Polacas estavam entre o exército francês que invadiu a a Espanha e Portugal. Tanto que a família real portuguesa de Dom João IV transferiu o reino em 1808 para o Rio de Janeiro.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Os Colégios Polacos do Paraná - uma resposta histórica aos preconceitos

Casa principal do Colégio Mikołaj Koperniko de Mallet - PR

 
Durante décadas, os descendentes de imigrantes polacos no Brasil foram alvo de estereótipos depreciativos, expressos em expressões como “polaco burro”, “polaco sem bandeira”, “polaco preto do avesso” ou “polaco da nhanha”. Tais rótulos, repetidos sem conhecimento histórico, contrastam profundamente com a realidade educacional construída pelas comunidades polacas, especialmente no Paraná.
 
Entre os exemplos mais notáveis destacam-se o Colégio Nicolau Copérnico, de Mallet, e o Colégio Henryk Sienkiewicz, de Curitiba, instituições que figuraram entre as experiências educacionais mais avançadas do Brasil nas primeiras décadas do século XX.
 
O Colégio Nicolau Copérnico, fundado em 1911, possuía uma estrutura pedagógica que ultrapassava em muito o ensino elementar oferecido pela maioria das escolas rurais brasileiras da época. Seu currículo abrangia não apenas alfabetização e matemática, mas também línguas, ciências naturais, geografia, história, artes, higiene, trabalhos manuais e formação profissional. O objetivo era formar cidadãos preparados para a agricultura, o comércio, a indústria, o funcionalismo público e as profissões liberais.
 
A formação linguística merecia destaque especial. Os alunos estudavam simultaneamente língua polaca e portuguesa, e em determinados períodos também latim, alemão e francês. O ensino das línguas não se limitava à gramática: incluía literatura, redação, declamação, interpretação de textos, correspondência comercial e exercícios de expressão oral. No curso secundário, o francês era ensinado com rigor suficiente para permitir leitura, escrita e conversação, utilizando jornais, revistas, livros e cartões postais como material didático.
 
O programa de História e Geografia era igualmente abrangente. Os estudantes aprendiam História do Brasil, História Universal, História da Polônia, Geografia Física, Cosmografia e Corografia do Brasil. Estudavam continentes, oceanos, sistemas políticos, relações econômicas internacionais, além da formação histórica brasileira e europeia. Também eram incentivados a compreender a realidade local, os municípios, os Estados e as características geográficas do Paraná e do Brasil.
 
Nas ciências, o currículo impressiona ainda mais. Os alunos frequentavam disciplinas como Zoologia, Botânica, Somatologia (estudo do corpo humano), Mineralogia, Higiene, Ciências Naturais e Ciências Físicas. Aprendiam anatomia dos vertebrados, morfologia das plantas, composição dos solos, fertilizantes, minerais, geologia, saúde pública e prevenção de doenças. Havia conteúdos relacionados à vacinação contra varíola e febre tifoide, primeiros socorros, transmissão de enfermidades por insetos, saneamento e cuidados com a alimentação.
 
A preocupação com a higiene e a saúde era tão intensa que o tema aparecia constantemente em reuniões pedagógicas e palestras para professores e colonos. Considerava-se que a escola deveria formar hábitos de limpeza, organização e prevenção de doenças, valores ainda pouco difundidos em muitas regiões do Brasil daquela época.
 
Também chamam atenção os conteúdos ligados à formação cívica e moral. Os estudantes aprendiam direitos e deveres dos cidadãos, organização administrativa do país, funcionamento das eleições, respeito às leis, convivência social, solidariedade, comportamento público e responsabilidade individual. O ensino procurava formar cidadãos conscientes e participativos.
 
Outro aspecto notável era o ensino artístico. As aulas de desenho evoluíam desde representações simples até paisagens, mapas, sólidos geométricos, animais, plantas e exercícios de imaginação. Os alunos praticavam modelagem em barro, ornamentação, estudos de cor, aquarela e composição artística. Muitos trabalhos preservados demonstram domínio de geometria, observação da natureza e criatividade.
 
A educação física, os jogos ginásticos, a música, o canto coral, o teatro e os trabalhos manuais complementavam a formação. Os registros mostram ainda ensaios teatrais, atividades musicais e excursões pedagógicas a outras cidades e regiões, recursos extremamente modernos para a época.
 
A organização escolar também impressionava. As aulas ocorriam em regime praticamente integral, geralmente das 8h às 15h, seis dias por semana. Os alunos permaneciam grande parte do dia envolvidos em atividades acadêmicas e culturais, numa época em que boa parte da população rural brasileira tinha acesso apenas a alguns anos de instrução elementar.
 
A preocupação com a formação profissional era explícita. Jovens interessados na agricultura estudavam solo, plantas, fertilizantes e produção agrícola. Aqueles inclinados ao comércio e à indústria recebiam preparação em matemática, contabilidade, idiomas e correspondência comercial. A escola buscava responder às necessidades econômicas concretas das comunidades de imigrantes.
 
Os resultados apareceram rapidamente. O Colégio Nicolau Copérnico formou comerciantes, industriais, funcionários públicos, militares, professores, engenheiros e profissionais de diversas áreas. Sua reputação tornou-se tão sólida que atraía estudantes de outras regiões do Paraná e até de outros Estados brasileiros. Muitos destes estudantes de outras cidades e Estados moravam no internato do próprio colégio.
 
O mesmo espírito orientava o Colégio Henryk Sienkiewicz, em Curitiba, que juntamente com o Copérnico representou o ápice da educação comunitária polaca no Brasil. Essas instituições não eram escolas isoladas, mas parte de um amplo sistema educacional mantido pelas associações de imigrantes, que compreendia dezenas de estabelecimentos espalhados pelo Paraná. Em 1937 existiam 167 escolas polacas no Estado, a maioria oferecendo ensino bilíngue e currículo estruturado.
 
Essa experiência educacional foi interrompida pela política de nacionalização do Estado Novo. Em 1938, as novas normas determinaram o uso exclusivo da língua portuguesa no ensino e inviabilizaram a continuidade das escolas étnicas, levando ao desaparecimento gradual de instituições como o Nicolau Copérnico e o Henryk Sienkiewicz em sua forma original.
 
A análise de seus currículos permite uma conclusão inequívoca: os colégios polacos do Paraná estavam muito à frente do seu tempo. Enquanto preconceitos simplificavam e ridicularizavam uma comunidade inteira, suas escolas ofereciam ensino multilíngue, formação científica, educação artística, preparação profissional e sólida formação cívica.
 
Longe da caricatura construída pelos estereótipos, a realidade demonstra que os imigrantes polacos ergueram algumas das instituições educacionais mais completas e modernas do Brasil das primeiras décadas do século XX. A melhor resposta aos velhos preconceitos está justamente nos documentos escolares que sobreviveram: eles revelam uma comunidade que apostou na educação como principal instrumento de ascensão social, preservação cultural e integração ao Brasil.
 
Texto: Ulisses Iarochinski 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

POLAQUICE: IDENTIDADE, LINGUAGEM E RESISTÊNCIA

Na minha infância, vivida entre migrantes de Minas Gerais e uma comunidade rodeada por imigrantes e descendentes vindos da Polônia — sem que se constituísse, de fato, uma colônia formal de polacos, já que Monte Alegre nunca o foi, pois a maioria ali chegara das várias colônias formadas no Paraná desde 1863 —, eu era chamado de polaco, polaquinho. Eram expressões de carinho. Talvez isso se explicasse pelos cabelos aloirados, ainda infantis, e pelo sobrenome difícil de pronunciar. Eu me sentia um polaqueiro — metade polaco, metade mineiro —, dadas as origens dos meus pais. Sou filho de polaco. E de uma mineira do Sul de Minas Gerais.

Não havia discriminação no tratamento. Muito pelo contrário. Era melhor ser chamado de polaco do que de Lício, Aronxinqui ou por algum apelido depreciativo, desses que grudam e ferem, desses que reduzem.

Monte Alegre, Harmonia, Cidade Nova, além de outros agrupamentos habitacionais como Lagoa, Fazenda Velha, Mina de Carvão, Imbaúzinho, Salto Aparado, Ilha do Bom Retiro, Antas, Km 28, Mauá, Miranda, Mirandinha, Bacia, Mandaçaia e Triângulo, eram povoados, em sua grande maioria, por operários, técnicos e engenheiros da etnia polaca. Tratava-se de um empreendimento expressivo dos irmãos Laffer, Elkanah e Kadyszewicz, vindos da antiga República das Duas Nações, Polônia-Lituânia, tornaram-se Klabin para se esconder do Tzar Russo ocupante. O cemitério de Harmonia confirma: a maioria dos sepultados é de origem polaca.

Esse agrupamento humano não se sentia discriminado por ser chamado de polaco. Talvez porque, nas colônias de onde vieram, o termo galicista — criado em Curitiba, em 1927 — não tenha chegado. Talvez também porque eles próprios, ou seus pais e avós, ao desembarcarem no Porto do Rio de Janeiro, recebiam documentos nos quais se podia ser: polaco austríaco, polaco russo ou polaco alemão. Até os rutenos, vindos da província austríaca chamada Galícia, recebiam a mesma designação de polacos.

Muitos de nossos antepassados foram resultado de uma história escrita de forma torta nos cartórios, onde o “polaco” foi traduzido — e, no processo, silenciado. O meu avô Bolesław virou Boleslau; não Bolek, mas Bóles. O Kazimierz do meu pai transformou-se em um estranho Cassemiro. E o que deveria ser um diminutivo carinhoso, Karzyk, tornou-se Cajo.

Essa descaracterização é profunda. Ainda hoje, ao apresentar meus passaportes brasileiro e/ou polaco na Polônia, vejo a originalidade do meu sobrenome — Jarosiński, com J no início e S no meio — perder-se na leitura oficial. Quando o funcionário do aeroporto, da universidade ou da prefeitura lê o meu nome desfigurado pela grafia brasileira, sou obrigado a responder, quase com humor: “Nie, nie jestem Chiński”. Não, não sou chinês. Chiński é chinês no idioma dos meus avôs.

Nesses momentos, percebo que meus passaportes, em vez de atestarem minhas origens, muitas vezes as ocultam. Por isso, a minha produção cultural, ao trazer à tona a memória desses imigrantes, é um gesto de retomada. Tento devolver aos nomes a dignidade que lhes foi retirada. Recuperar o som. Reafirmar a consciência. A identidade polaca, para mim, é uma forma de resistência viva. Não importa o que foi escrito no papel ou lido na fronteira; importa a linhagem de coragem moral que carrego das minhas origens, sejam elas de Wojcieszków, Łuków, Lublin, Stare Poręby-Dobre, Lubelska, Podlaska, Mazowszka, São Sebastião da Bela Vista, Botelhos, Castro ou Harmonia-Monte Alegre. Apesar de todas as tentativas de apagamento, essa essência permanece.

Mas essa percepção, construída na infância, iria mudar.

Ao chegar a Curitiba para os estudos secundários e universitários — e também para o teatro e o cinema — já não era mais simples falar, nem se apresentar como polaco. Na cidade que consagrou o termo “polonês”, o antigo gentílico passou a soar como ofensa. Algo depreciativo. “Pejorativo”, como diziam os curitibanos mais conservadores.

Com o tempo, e já trabalhando em um dos jornais da cidade, passei a escrever obrigado aquele termo estranho aos meus ouvidos: polonês. Quase todas `as vezes por correção dos revisores. Soava artificial, mas era o que se esperava numa sociedade que havia inventando um outro gentílico. Publiquei séries de artigos no caderno cultural em que empregava os dois termos como sinônimos, numa tentativa de conciliação — ou de adaptação. A primeira grande série, com nove edições, chamou-se “Polonês – um povo sofrido”. Vieram outras. Entre elas, “Lech Wałęsa – o sindicalista que mudou o mundo” e “A Curitiba que eu Sou”. Em todas, a revisão insistia com o galicismo.

Certa vez, já repórter de televisão, fui interrompido durante uma entrevista. O entrevistado, presidente de uma associação folclórica, reagiu ao ouvir a minha palavra preferida: polaco. Disse que não admitia aquela expressão, por considerá-la pejorativa. Perguntei o que havia de pejorativo nela. Não soube responder. Virou as costas. E encerrou a entrevista. A indignação ficou — não apenas pelo gesto, mas pelo vazio da justificativa.

Os anos passaram. Outros caminhos profissionais se impuseram. Outros temas. Até que surgiu a Internet, abrindo um campo novo de possibilidades. Resolvi aprender HTML por conta própria — comprando livros, testando, errando — e criei um portal no ciberespaço. Dei-lhe o nome de Saga dos Poloneses e passei a reunir ali informações sobre a história da Polônia e de seus emigrantes no Brasil.

Era outro tempo. Poucos acessos. Quase ninguém tinha computador. Menos ainda sabia o que era um e-mail. Ainda assim, procurei anunciantes, patrocinadores, alguma forma de sustentar a iniciativa. Afinal, Curitiba concentra uma das maiores comunidades de descendentes de polacos do mundo. Mas não houve retorno. A Internet ainda não era vista como mídia. Não havia mercado. Não havia monetização. Era cedo demais.

Foi então que um cônsul da Polônia — que anos antes já me havia fornecido material para reportagens — sugeriu transformar o site em livro. A ideia fazia sentido. Naquele momento, as pessoas ainda liam. E liam em papel.

Lancei-me, então, à escrita de um livro sobre a história da Polônia e a saga daqueles emigrantes, marcados por uma condição que beirava a servidão em terras dominadas por monarquias absolutistas que não toleravam a existência de uma Polônia republicana.

Veio, então, o dilema.
Dos poloneses?
Ou dos polacos?

A palavra saga já estava definida. Carrega a ideia de travessia, de percurso, de feitos acumulados no tempo. Remete à Odisseia, à longa viagem de Odisseu, rei de Ítaca — meu nome em latim, aquele mesmo do livro de Joyce.

Restava o gentílico. “Poloneses” pesava. Excesso de letras. Excesso de forma. Decidi, enfim:

Saga dos Polacos.

Planejei lançar o livro em cidades do Sul do Brasil que, em muitos casos, sequer conheciam um lançamento literário. Cidades de forte presença da etnia polaca. Era ali que fazia sentido começar.

Foram 27 cidades. Da capital São Paulo à pequena Itaporanga, no interior paulista.

E lá fui eu.

Em Erechim, no Rio Grande do Sul, após a apresentação, sentei-me para os autógrafos. Havia fila. Atrás de mim, um imenso banner com a capa do livro. Um homem saiu da fila. Aproximou-se. Apontou para o banner.

— Você é burro! Aqui não tem polacos. Só poloneses.

E me atingiu com dois murros no ombro.
Procurei ajuda com os olhos. Não veio. Levantei-me. Recolhi o material. Saí. Não seria agredido. Nem reagiria.

Mas esta não foi a única vez.

Em São Paulo, um casal de idosos repetiu a mesma frase. E virou a mesa com todos os exemplares sobre mim.

Em Curitiba, durante outra noite de autógrafos, o presidente da entidade interrompeu o evento, chamou o evento de “palhaçada” e lançou meus livros pela janela. E ninguém reagiu. Saí dali como entrei.

Mas não do mesmo modo. Não fiquei frustrado.
Pelo contrário: saí decidido.

Certo de que minha missão seria a de defender um termo que atravessou séculos, que existe em pelo menos outras três línguas, o lusitano, o castelhano e o italiano, palavra que carrega som, história e identidade. No Brasil, mais especificamente em Curitiba, no entanto, uma elite conservadora conseguiu apagá-lo. E o mais grave: o patrulhamento ideológico, que antes vinha de fora, passou a vir de dentro. Da própria comunidade. Que não admite — ainda hoje — ser chamada de polaca.

Mas aquele primeiro livro rendeu frutos. Passou a ser reconhecido em dissertações e teses mundo afora, seja em citações, seja em referências bibliográficas. E em diversos idiomas.

Impressionou-me a repercussão do meu trabalho que, a princípio, era solitário e eivado de críticas. Era como ver aquele esforço atravessar fronteiras tão distintas. Ver obras minhas — para citar apenas três, entre as 21 já publicadas, como Saga dos Polacos, Polaco e Polacos do Brasil — sendo citadas em universidades da Finlândia a Polônia colocava uma quase epopeia paranaense em um patamar global de estudos sobre migrações e identidade.

Sentia que meu trabalho passava a exigir uma envergadura compatível com veículos que tratam a informação com a seriedade de um jornal de registro. Assim, quando o jornal Gazeta do Povo, em 2010, dedicou oito colunas ao meu segundo livro, Polaco – identidade cultural do brasileiro descendente de imigrantes da Polônia, este cumpriu, de certa forma, o papel de ponte entre a academia internacional e o cidadão curitibano.

Ao se tornar referência em países como Angola e Vietnã, minha pesquisa demonstra que a questão do “ser polaco” em Curitiba serve de espelho para compreender como povos deslocados por invasões mantêm sua essência em qualquer parte do mundo. Trata-se de um conteúdo que exige esforço, permanência e resiliência — e não apenas o imediatismo de um portal digital, como o que substituiu o antigo site dos anos 1990, Saga dos Poloneses, e que veio a se consolidar no blogspot, já com duas décadas, Jarosiński do Brasil.

Mas antes é preciso destacar: foi justamente Saga dos Polacos que abriu portas. A partir dele, recebi bolsa de estudos do Ministério da Educação da Polônia para cursos de idioma e cultura polaca, seguidos de mestrado em estudos de cultura internacional e doutorado em história na mais antiga universidade da Polônia, a Universidade Iaguelônica, em Cracóvia.

E foi lá, caminhando pelo bosque Planty que circunda a cidade medieval de Kopernik e subindo a colina do Przegorzały, que me deparei com um termo que soou, para mim, como uma forma sutil de discriminação ao sangue que corre nas minhas veias. Sabe-se lá quando surgiu — talvez no século XIX, talvez no início do XX, ainda sob a Polônia ocupada pelas monarquias vizinhas — aquele termo discriminatório: polonijne.

Para mim, ele é a representação da tentativa de dividir os de mesma origem em categorias distintas: os que nascem na Polônia seriam “poloneses”; os que nascem fora, “polonijne” ou “polônicos”. Este último mais usado no Brasil, já que nos demais países lusófonos se preservaram o termo polaco em convivência mais natural sem o adjetivo funesto.

Não me restou dúvida alguma. Aquela palavra divisionista é a típica barreira da burocracia acadêmica e diplomática ignorando a realidade da identidade.

Ao empregar termos distintos para designar os da terra e os da diáspora, essas instituições acabam por criar uma hierarquia artificial. O sangue e a cultura não se alteram conforme a fronteira. Por isso mesmo, não se justificam. O termo polaco, ao contrário, unifica essa identidade sem as divisões impostas pelo protocolo.

Essa insistência em “polônico” soa quase clínica, distante, enquanto “polaco” permanece orgânico, histórico, enraizado. Nos demais países lusófonos, essa naturalidade foi preservada. No Brasil, porém, criou-se um nó linguístico — e, com ele, uma tensão que ultrapassa a linguagem e alcança a própria percepção de identidade.

Depois de 40 anos de produção, com meus livros circulando pelo mundo, meu blog sendo acessado em todas as línguas, meu canal de YouTube sendo estudado, percebo que há ainda pouco movimento entre jovens pesquisadores, professores, doutores, mestres e cientistas no Brasil no sentido de adotar essa luta pela preservação da terminologia original. Persistem, em grande medida, os termos que considero inadequados — polonês, polônico e, mais grave, polonijne.

São poucos os trabalhos que tomaram consciência da necessidade de restaurar a dignidade do termo polaco. Existem, é verdade, ao menos três dissertações recentes em universidades que passaram a utilizá-lo abertamente. E isso sem teimosia perante a censura. Mas há também outras que me criticam por empregar um termo que consideram obsoleto e pejorativo. Em algumas, sou classificado como “cabeça dura”.

Prefiro outro conceito.

Assumo, sem constrangimento, o rótulo de “Polaco do Kontra”, como chegou a destacar o jornal Gazeta do Povo. Ser chamado assim acaba sendo, para mim, um elogio. É a prova de que minha obra não é passiva. Ela provoca. E, sobretudo, exige posicionamento.

O fato de existirem dissertações dedicadas a criticar o uso do termo original — preferindo a terminologia consolidada pela elite polaca curitibana a partir de 1927 — sim, foi neste ano e nesta cidade que o galicismo foi implantado como mãos de ferro — demonstra que há, de fato, um desconforto instalado. De certo modo, indica que o consenso acadêmico, e talvez também o diplomático, vem sendo tensionado.

Na ciência, quando alguém é chamado de “cabeça dura” por sustentar uma terminologia, muitas vezes isso revela menos um erro individual e mais a resistência de estruturas que evitam rever seus próprios fundamentos. A realidade vivida — nas ruas, nas famílias, na memória — nem sempre coincide com a linguagem normatizada.

Ao assumir o “contra” — ou przekora, ou kontra — inscrevo-me, conscientemente, em uma tradição de pensamento que não se submete a modismos linguísticos nem a consensos frágeis. A etnia polaca carrega este traço de sobrevivência ou de orgulho, ou seja a recusa em se curvar ao que é imposto de fora. O próprio hino traz o verso Jeszcze Polska nie zginęła (A Polônia ainda não pereceu).

As dissertações que já adotam o termo polaco indicam que esse movimento começa a produzir efeitos. Ainda que pontuais, revelam a formação de uma continuidade. De outro lado, as críticas mantêm o debate vivo e evidenciam algo essencial: enquanto “polonês” e “polônico” dependem de validação constante, “polaco” se sustenta pela própria história, pela oralidade, pela memória coletiva.

E é aí que reside o ponto central. Não se trata de uma disputa semântica. Trata-se de uma disputa por legitimidade histórica.

De quem nomeia.
De quem define.
E de quem resiste.
Porque, ao fim de tudo, as palavras que sobrevivem não são as impostas — são as vividas.

E “polaco” foi a primeira palavra com que me reconheceram.

Veio antes da dúvida. Antes da correção. Antes do constrangimento. Antes da tentativa de ajuste, da imposição, do patrulhamento ideológico.

Ficou no âmago. Ficou.

E “polaco”, mais do que um termo, é isso: uma permanência. Uma imanência. Aquilo que não se separa daquilo que se é.

Texto: Ulisses Iarochinski

segunda-feira, 30 de março de 2026

3000

Há números que são apenas números.
E há números que carregam vida.

Este não.

Este é tempo.

Tempo medido não em dias, nem em anos, mas em insistência. Em permanência. Em fidelidade a uma ideia que nasceu lá atrás, naquele verão polaco de 2005, quando um estudante brasileiro, sozinho numa casa universitária em Przegorzały, decidiu que não deixaria morrer aquilo que já havia começado com o portal “Saga dos Polacos”.

Assim nasceu o JAROSIŃSKI DO BRASIL.

O primeiro texto — “Porque Polaco!” — não foi apenas um artigo.

Foi uma tomada de posição.
Um gesto.
Uma escolha.

E talvez tudo o que veio depois já estivesse contido ali.

Não havia projeto de longevidade.
Não havia cálculo de alcance.
Não havia sequer a certeza de continuidade.

Havia apenas uma inquietação.

E uma recusa.

Recusa em aceitar que a história dos polacos fosse diluída, simplificada ou traduzida por conveniência. Recusa em aceitar que a língua portuguesa — que por séculos disse polaco sem constrangimento — passasse a pedir desculpas por si mesma.

Porque antes de 1927, ninguém hesitava.

Nem o povo.
Nem a imprensa.
Nem os grandes nomes.

Castro Alves escreveu.
Rui Barbosa disse.
E tantos outros repetiram — sem medo, sem cálculo, sem filtro:

POLACO.

Direto do POLAK. Sem intermediários. Sem vergonha.

A palavra não nasceu como ofensa.

Foi transformada.

E quando foi transformada, não foi pelo povo.

Foi por uma elite.

Curitiba, em 1927.

Um gesto aparentemente pequeno. Uma escolha “elegante”. Um afastamento calculado daquele polaco que incomodava — o polaco da enxada, o polaco da colônia, o polaco ridicularizado, o polaco da Nhanhã, o polaco sem bandeira, o polaco chamado de burro, o polaco “preto do avesso”.

E então veio a tentativa de correção.

Mas não foi correção.

Foi ruptura.

Dividiu.
Classificou.
Hierarquizou.

E este blog nasceu contra essa ruptura.

Nasceu para dizer não.

Não à vergonha disfarçada de sofisticação.
Não à substituição disfarçada de evolução.
Não à ideia de que mudar o nome mudaria a história.

Porque não muda.

O nome pode ser trocado.
Mas a origem não.
O sangue não.
A memória não.

E há algo ainda mais silencioso — e talvez mais profundo — do que a troca de uma palavra.

A deformação dos nomes.

Porque não foi apenas o polaco que se tentou corrigir.

Foram também os próprios polacos.

Seus nomes foram traduzidos, adaptados, domesticados, até perderem a forma original — e, com ela, o reconhecimento.

BOLESŁAW tornou-se Boleslau.
KAZIMIERZ virou Cassemiro.
JAROSIŃSKI foi transformado em iarochinski.

E o que parece pequeno — um acento perdido, uma letra trocada, um som simplificado — torna-se, com o tempo, um corte.

Porque quando esses descendentes retornam à Polônia, muitas vezes já não são reconhecidos nem pelo próprio nome.

É como se a história tivesse sido reescrita na grafia.

Como se a identidade tivesse sido suavizada até desaparecer.

E, ainda assim, permanece.

Porque o que corre — aqui, lá, em qualquer lugar — é o mesmo:

POLKA KREW.

Hoje, este blog chega à postagem de número 3000.

Não como quem alcança uma meta.

Mas como quem comprova uma travessia.

Foram mais de 1 milhão e 350 mil acessos, quase dois mil comentários, leitores espalhados por dezenas de países — do Brasil à Polônia, dos Estados Unidos ao Uzbequistão, de Bangladesh à Irlanda — e uma constatação silenciosa:

A Polônia, escrita em português do Brasil, encontrou seu espaço.

Mas não qualquer espaço.

Um espaço com posição.

Aqui, nunca se escreveu por conveniência.
Nunca se escreveu para agradar.
Nunca se escreveu para caber.

Escreveu-se para afirmar.

E afirmar, muitas vezes, é desagradar.

É contrariar convenções.
É ferir expectativas.
É dizer o que não se quer ouvir.

Mesmo quando isso custa.

Porque este blog sustenta, desde o início, uma convicção que não é apenas linguística.

É histórica.
É cultural.
É identitária.

Aqui, existem apenas duas palavras possíveis:

POLACO E POLACA.

E isso não é teimosia.

É memória.

Ao longo dessas três mil postagens, este espaço fez mais do que informar.

Registrou.
Documentou.
Conectou.

Trouxe ao português do Brasil uma Polônia que antes estava dispersa, distante ou inacessível — sua arte, sua cultura, sua política, sua história profunda, suas contradições, sua religiosidade, sua culinária, seu idioma, suas guerras, suas reconstruções.

E, sobretudo, seus emigrantes.

Os polacos espalhados pelo mundo.

Os que ficaram.
Os que partiram.
Os que chegaram.
Os que nasceram aqui — e nunca deixaram de pertencer àquela Polônia lá.

Porque ser polaco não é geografia.

É permanência.

Se este blog tem algum mérito, não está nos números.

Está na continuidade.

Porque é fácil começar.

Difícil é não parar.

Difícil é escrever no inverno e no verão, na pressa e no cansaço, na abundância e na falta de tempo, na certeza e na dúvida — e ainda assim manter uma linha, uma voz, uma coerência.

Três mil textos não se escrevem apenas.

Três mil textos se suportam apenas.

Talvez...
Há cansaço aqui.
Há insistência.
Há teimosia.

E há também, sim, alguma delicadeza.

Mas ela não vem antes.

Ela vem depois.

Como resto.
Como sobrevivência.

Este blog não buscou unanimidade.

E nunca terá.

Porque não foi feito para agradar.

Foi feito para afirmar.

E, paradoxalmente, isso também é um gesto de cuidado.

Porque só se defende aquilo que se ama.

E há amor aqui.

Um amor duro.
Sem ornamento.
Que não se ajoelha.

Mas amor.

Amor pela Polônia — não a dos cartões-postais, mas a real, contraditória, ferida e reconstruída.

Amor pelos polacos — os que foram chamados de tudo, menos pelo que eram.

Se há algo que três mil textos podem afirmar, é isto:

A identidade não se negocia.

Não se adapta.
Não se corrige para caber melhor.

Ela se sustenta.

Mesmo quando incomoda.
Mesmo quando cansa.
Mesmo quando parece inútil.

Porque, no fim, não é sobre palavras.

É sobre pertencimento.

Este blog nunca quis ser neutro.

E nunca será.

Porque neutralidade, aqui, seria esquecimento.

E esquecer — isso sim — seria o verdadeiro erro.

Se no texto número 1 havia uma afirmação,
no texto número 3000 há uma confirmação.

Se antes havia inquietação,
agora há consciência.

Se antes havia impulso,
agora há raiz.

E raízes não pedem permissão.

Elas rompem.

Texto número 3000.

Não como ponto final.
Não como celebração.

Mas como prova.

De que permaneceu.

E de que continua.

E depois vem aquele e diz:

Isto tudo é de um ser polêmico.

Talvez.

Mas se dizer o que está documentado,
o que está escrito,
o que sempre foi dito — é ser polêmico...

Então já não sei mais o que é.

Prefiro ficar com a verdade.

Mesmo quando incomoda.


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Texto: Ulisses iarochinski

quinta-feira, 26 de março de 2026

Coração que bate pelas origens e pela justiça

Ao encerrarmos esta noite, após percorrermos a memória física da Capela de Czermna, onde o tempo se torna osso, e a arte dos nossos mestres do pôster, onde a alma polaca se torna cor e forma — percebo que meu trabalho não é apenas documentar o que está longe. É documentar o que, apesar de tudo, insiste em pulsar aqui dentro.

Iarochinski exibindo um de seus livros


Hoje, 24 de março, a Polônia celebra o Dia Nacional da Memória dos Polacos que Salvaram Judeus. É uma data que nos lembra que, nos tempos mais sombrios do fascismo nazista e da opressão soviética, a identidade do Polaco não se definiu pela submissão, mas pela coragem ética de proteger a vida.

Como bem lembrou hoje o Consulado Geral da Polônia em Curitiba, nas redes sociais, recordamos a missão do Grupo Ładoś, em Berna, Suíça. Entre 1941 e 1943, diplomatas polacos e líderes judeus, como Abraham Silberschein e Chaim Eiss, uniram forças em uma operação de coragem silenciosa. Eles emitiram passaportes latino- americanos para oferecer reconhecimento jurídico a milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Para esses diplomatas — Aleksander Ładoś, Konstanty Rokicki, Stefan Ryniewicz e Juliusz Kühl — cada documento preenchido manualmente não era apenas burocracia; era uma tentativa concreta de proteger vidas. Em um contexto onde uma decisão administrativa assumia um significado humanitário profundo, eles provaram que a cooperação e a escolha humana podem ampliar as possibilidades de sobrevivência, mesmo sob as limitações mais severas.

E essa coragem também teve rosto brasileiro e, orgulhosamente, rosto paranaense. Não podemos esquecer de Aracy de Carvalho, nossa conterrânea, que em Hamburgo arriscou tudo para emitir vistos a refugiados. Nem do embaixador Luiz Martins de Souza Dantas e sua esposa Elisa, que em Paris transformaram o consulado brasileiro em um porto seguro. Eles entenderam que a humanidade está acima de qualquer ideologia de extrema-direita ou ditadura.

Muitos de nossos antepassados foram o resultado de uma história escrita torto nos cartórios, onde o Polaco foi 'traduzido' e silenciado. O meu avô Bolesław virou Boleslau e não Bolek, mas Bóles; o Kazimierz do meu pai virou um estranho Cassemiro, e o que era para ser um diminutivo carinhoso Karzyk virou Cajo.

Essa descaracterização é tão profunda que, ainda hoje, ao apresentar meus passaportes brasileiro e/ou polaco, na Polônia, vejo a originalidade do meu sobrenome Jarosiński, com J no início e S no meio, ser perdida na leitura oficial. Quando o funcionário polaco do aeroporto, da universidade ou da prefeitura lê o meu nome desfigurado pela grafia brasileira, sou obrigado a responder, quase jocosamente: 'Nie, nie jestem Chiński' (Não, não sou chinês). Isto devido ao abrasileiramento de silabas originais polacas de siński para chinski. Trocou a sonoridade do S polaco pelo CH português. Em alguns cartórios para outros sobrenomes com a mesmas duas sílabas para xinski.

Nesse momento, percebo que meus passaportes, em vez de atestar minhas origens, muitas vezes as esconde. Por isso, estar aqui hoje, compartilhando estas imagens, estes banners da minha produção cultural e lembrando desses heróis, é um ato de retomada. Estamos devolvendo a esses nomes a dignidade que lês foi subtraída.

Estamos recuperando o som original e a consciência de que nossa identidade é uma resistência viva. Não importa o que foi escrito no papel ou lido na fronteira; o que importa é a linhagem de coragem moral que carregamos das nossas origens, sejam elas de Helenów-Wojcieszków, Stare Poręby-Dobre, São Sebastião da Bela Vista, Botelhos, Castro e Harmonia-Monte Alegre. Encerro com a certeza de que, apesar de todas as tentativas de apagamento, nossa essência permanece intacta.

"Moje serce bije po polsku." Meu coração bate em polaco.

Pronunciamento feito após a exibição dos meus filmes documentários "Capela das Caveiras" e "Cartazes da Imaginação", na Casa da Cultura Polônia Brasil, Sociedade Polono Brasileira Tadeusz Kościuszko.

quarta-feira, 18 de março de 2026

Editorial do Blog II

Este blog não nasceu com a pretensão de ser um jornal — e tampouco se propõe a assumir, em qualquer momento, a forma ou o compromisso daquilo que convencionalmente se entende por imprensa.

Ele se constitui, antes, como um espaço de registro, reflexão e interpretação, onde a informação não se apresenta dissociada da experiência de quem a observa, e onde a escrita, longe de buscar abrigo na neutralidade aparente, assume o risco — e a responsabilidade — de se posicionar.

Escrever, neste caso, é também reconhecer o lugar de onde se escreve. E esse lugar não é abstrato. Ele se constrói na condição de brasileiro, descendente de polacos, atento à trajetória histórica da Polônia, marcada não apenas por episódios de afirmação, mas sobretudo por rupturas, invasões e tentativas reiteradas de apagamento, que deixaram marcas profundas não só no território, mas na memória de seu povo.

Não se trata, portanto, de uma escolha arbitrária de enfoque, mas de uma perspectiva que se impõe pela própria natureza dos fatos. É nesse ponto que, por vezes, surgem os desencontros. Algumas manifestações de leitores revelaram desconforto diante de determinadas posições aqui expressas — o que, em si, não constitui qualquer anomalia, mas antes sinaliza que o texto cumpriu uma de suas funções mais elementares: provocar reação.

O problema, no entanto, não reside na discordância, que é legítima e até desejável, mas na forma como ela se apresenta quando substitui o argumento pela rotulação apressada, quando termos como “preconceito”, “ufanismo” ou “fascismo” passam a operar não como categorias de análise, mas como expedientes de encerramento do debate.

A história, nesse contexto, não pode ser tratada como um ornamento retórico, acionado apenas quando conveniente. Episódios como as invasões, ocupações e Partições da Polônia, entre tantos outros momentos decisivos, não pertencem a um passado inerte. Eles atravessam o tempo, informam sensibilidades e ajudam a compreender por que determinados acontecimentos contemporâneos são percebidos — e sentidos — de maneira distinta. Ignorar esse percurso não produz equilíbrio; produz apenas simplificação.

Isso não significa, por outro lado, que se deva recorrer a generalizações ou à fixação de identidades coletivas como categorias imutáveis. A complexidade histórica exige discernimento — e é precisamente nesse espaço de tensão entre memória e interpretação que este blog se insere. Se há, por vezes, indignação no tom, ela não decorre de um impulso gratuito, mas de uma reação a leituras que desconsideram contextos, relativizam fatos ou, não raro, os distorcem.

Ao longo de seu percurso de mais de 20 anos, este blog manteve-se fiel àquilo que o definiu desde o início: um espaço livre, independente, alheio a compromissos comerciais ou editoriais externos, onde escrever é também assumir uma posição diante do mundo. Isso implica, inevitavelmente, a possibilidade de discordância — e até de desconforto.

Mas implica, sobretudo, a recusa em reduzir a complexidade da história e do presente a fórmulas simples ou a julgamentos apressados. Aos que aqui chegam com disposição para compreender, ainda que discordem, permanece aberto o diálogo. Aos que preferem a segurança dos rótulos, talvez reste a ilusão de ter respondido — quando, na verdade, apenas se evitou a pergunta.

Assinado: Ulisses Iarochinski

Casa da Cultura exibe dois filmes de Iarochinski

Exibição de documentários sobre arte e cultura polaca em Curitiba.

Na terça-feira, 24 de março, às 20 horas, a Casa da Cultura Polônia Brasil, na sede da Sociedade Polono-Brasileira Tadeusz Kościuszko promove uma sessão especial de cinema documental, exibindo dois filmes produzidos e dirigidos pelo jornalista e cineasta Ulisses Iarochinski.



Os documentários Capela das Caveiras e Cartazes da Imaginação conduzem o público por duas dimensões distintas — mas profundamente complementares — da cultura polaca: a arte contemporânea e a memória histórica. Enquanto o primeiro revela um dos mais singulares monumentos funerários da Europa, o segundo mergulha no universo criativo do cartaz artístico.

Juntos, os filmes formam um percurso sensível entre imaginação, cultura visual e reflexão sobre a condição humana. Capela das Caveiras apresenta a impressionante Kaplica Czaszek, localizada na região histórica de Kłodzko. Construída no século XVIII pelo sacerdote Wacław Tomaszek, a capela é revestida por milhares de crânios e ossos humanos, reunidos como memorial das guerras e epidemias que marcaram a história europeia. Ao revelar esse lugar singular, o documentário convida o espectador a refletir sobre a transitoriedade da vida, a memória coletiva e a relação entre cultura, fé e história.



Já em Cartazes da Imaginação, o protagonista é o artista e professor Jerzy Piotr Kunce, representante da tradição da Escola Polaca do Cartaz. O documentário acompanha sua visita ao Brasil, suas reflexões sobre criação e ensino do design e seus encontros com artistas e estudantes em Curitiba, além da exposição de seus trabalhos no Museu Oscar Niemeyer.
O filme revela como o cartaz pode ser, ao mesmo tempo, linguagem artística e instrumento de pensamento visual.

Ulisses Iarochinski é ator, jornalista, escritor e cineasta com trajetória ligada à pesquisa histórica e cultural da Europa Central e da imigração polaca no Brasil. Autor de vários livros sobre história e cultura, também dirigiu documentários dedicados a temas históricos e artísticos. Em seus filmes, investiga personagens, lugares e tradições que revelam aspectos pouco conhecidos da cultura europeia e de suas conexões com o Brasil.

Data: 24 de março (terça-feira)
Horário: 20h Local: Casa da Cultura Polônia Brasil / Sociedade Polono-Brasileira Tadeusz Kościuszko
Endereço: Rua Ébano Pereira, no 502 – Curitiba.