A geometria bucal entre as ondas do rádio e as ruas de Cracóvia
Por Ulisses Iarochinski
A maneira de falar de um povo não depende apenas da língua que aprendeu. Depende também de como movimenta a boca, posiciona a língua, articula as palavras e imprime ritmo à fala.
Ao longo da minha trajetória profissional e das minhas andanças pelo mundo, passei a observar esse fenômeno. Chamo isso de mentalidade da língua.
Não se trata apenas de sotaque.
É uma combinação de hábitos articulatórios, ritmo, entonação, comportamento e memória cultural. Uma maneira de falar que acaba identificando pessoas e regiões, mesmo quando utilizam o mesmo idioma.
Percebi isso de maneira muito particular.
Primeiro, no Brasil, trabalhando com rádio e teatro. Depois, na Polônia, especialmente nas ruas de Cracóvia, quando comecei a falar polaco e descobri que minha pronúncia provocava uma curiosidade inesperada.
A língua também precisa de treinamento
Minha primeira experiência importante com a transformação da maneira de falar aconteceu em Curitiba.
O trabalho no rádio exigia uma pronúncia diferente daquela que eu utilizava naturalmente. Não podia carregar determinadas marcas regionais. O chamado R caipira ou retroflexo, por exemplo, não combinava com o padrão de locução que precisava desenvolver.
O teatro aprofundou essa experiência.
O palco exigia domínio da voz, clareza na articulação e controle da pronúncia. A tradição teatral brasileira trabalhava com uma referência de pronúncia considerada culta, próxima de determinados padrões urbanos, especialmente do carioca, mas sem reproduzir necessariamente todas as características daquele sotaque com o chiado do S e o R amolecido.
Era preciso controlar os esses, os erres e, principalmente, a maneira de movimentar a língua.
Descobri que precisava modificar a tensão muscular da boca.
Minha língua tendia a recuar em determinadas palavras, como salvador e governador. Era necessário soltá-la, deixá-la trabalhar com mais liberdade e evitar que a articulação ficasse presa ao fundo da boca.
Foi um exercício.
Uma verdadeira ginástica.
O resultado apareceu na voz.
A pronúncia ficou mais limpa, os sons mais suaves e a articulação mais controlada.
Naquele momento, não imaginava que o treinamento desenvolvido para o rádio e o teatro teria tanta importância anos depois, quando comecei a falar polaco.
Brasileiros, russos e polacos: a ginástica da fala
Certa vez, na Inglaterra, ouvi de um professor de idioma inglês uma observação que me chamou a atenção.
Segundo ele, entre os estudantes estrangeiros, brasileiros e russos demonstravam uma facilidade particular para reproduzir sons de outros idiomas.
A experiência pedagógica daquele professor apontava para uma maior versatilidade articulatória desses grupos.
A observação ficou comigo.
O português brasileiro possui uma variedade considerável de sons vocálicos e consonantais. São sete vogais orais, além das nasais, e diferentes maneiras de articular consoantes. O falante brasileiro aprende desde cedo a movimentar a boca para produzir sons bastante variados.
O russo apresenta outras exigências.
A palatalização, por exemplo, modifica a maneira como determinadas consoantes são pronunciadas. Ao russo veio se juntar o polaco, que também exige um treinamento articulatório específico.
Possui diferentes grupos de sibilantes, consoantes palatalizadas e encontros consonantais que podem representar um verdadeiro desafio para quem não nasceu ouvindo o idioma.
Basta observar uma palavra como chrząszcz.
O polaco também conserva duas vogais nasais, Ą e Ę, uma característica que chama a atenção de quem fala português. Embora a realização fonética dessas vogais seja diferente daquela encontrada no português brasileiro, a familiaridade com a nasalidade pode facilitar a percepção de determinados sons.
Isso não significa que brasileiros, russos ou polacos tenham alguma superioridade natural para aprender idiomas.
Significa que a experiência fonética adquirida desde a infância pode oferecer vantagens na hora de reproduzir determinados sons.
A boca aprende.
A língua se exercita.
O ouvido reconhece.
E cada idioma exige uma combinação própria desses movimentos.
Gwara: quando a sonoridade aproxima povos distantes
Outra observação interessante surgiu quando comecei a prestar atenção na palavra polaca gwara.
Na Polônia, o termo designa uma variedade regional da língua, uma fala popular, um dialeto. É a maneira como uma comunidade conserva suas particularidades de pronúncia, vocabulário e expressão.
Para um brasileiro, a sonoridade da palavra pode lembrar imediatamente outras referências. O lobo-guará, por exemplo, ou a palavra Guarani.
Não estou afirmando que exista parentesco linguístico entre essas palavras.
Não há fundamento para estabelecer essa relação apenas pela semelhança sonora.
O que me interessa é outra questão.
Como é possível que povos tão distantes produzam combinações de sons que parecem familiares entre si?
A resposta passa pela própria constituição do aparelho fonador humano. Temos estruturas anatômicas semelhantes. Línguas e culturas diferentes podem desenvolver, independentemente, sons parecidos.
A história de cada palavra, entretanto, precisa ser investigada separadamente.
No caso polaco, gwara pertence à história linguística eslava. Sua origem está relacionada a antigas formas verbais ligadas ao ato de falar.
O polaco também utiliza gadać, expressão informal que significa conversar, tagarelar, bater-papo.
A semelhança sonora pode despertar curiosidade.
Mas é a história que permite estabelecer relações.
O dia em que os cracovianos me chamaram de búlgaro
Minha experiência mais curiosa aconteceu na Polônia.
Quando comecei a conversar em polaco pelas ruas de Cracóvia, percebi que meus interlocutores tinham dificuldade para identificar de onde vinha meu sotaque.
O vocabulário estava correto.
A gramática também.
Conseguia conversar e me fazer entender. Mas havia alguma coisa na minha pronúncia que não correspondia ao que esperavam ouvir de um estrangeiro falando polaco.
A pergunta aparecia com frequência:
— Você é búlgaro?
A situação me divertia.
Eu estava em Cracóvia, falando polaco, mas os cracovianos identificavam em minha pronúncia alguma coisa que os remetia à Bulgária. País que nunca fui.
Comecei a compreender que o problema não estava nas palavras. Estava na música da fala, ou ainda, na mentalidade da língua.
O polaco de Cracóvia tem características próprias.
A pronúncia cotidiana pode ser rápida, com articulação bastante marcada e uma maneira particular de tratar as vogais e as consoantes. As diferenças entre as falas masculinas e femininas também me chamavam a atenção. As mulheres, na minha percepção, falavam mais rapidamente.
Eu, entretanto, levava para aquele idioma uma experiência completamente diferente.
Minha formação no rádio e no teatro havia condicionado minha maneira de articular. Tinha aprendido a controlar a tensão da língua, prolongar determinados sons e dar mais espaço às vogais.
Além disso, minha referência de pronúncia polaca não vinha exclusivamente de Cracóvia.
Havia aprendido a língua também a partir das referências familiares e das minhas incursões pelas regiões de origem dos meus antepassados.
O resultado era uma pronúncia que, para os habitantes da Pequena Polônia (Małopolska), parecia diferente demais para ser simplesmente a de um estrangeiro brasileiro.
Resolvi, então, alimentar a curiosidade dos meus interlocutores.
Quando perguntavam se eu era búlgaro, respondia que não. Dizia que era de Suwałki, no extremo nordeste da Polônia, perto da fronteira com a Lituânia.
A explicação era aceita sem maiores dificuldades.
Afinal, naquela região também existem maneiras particulares de pronunciar o polaco. Uma delas é conhecida como zaciąganie, uma forma de falar em que determinados sons e vogais são prolongados, produzindo uma cadência mais cantada.
Era uma brincadeira.
Mas também uma observação linguística.
Eu havia descoberto que não bastava conhecer a gramática de um idioma para ser reconhecido como alguém que o falava. Era preciso compreender a musicalidade regional que acompanha as palavras.
Wojcieszków: a voz que atravessou o oceano
Havia ainda uma outra questão que me intrigava.
Na época em que fazia essas observações em Cracóvia, fui conhecer Wojcieszków, a localidade onde nasceu meu avô, Bolesław.
Nunca tive a oportunidade de conhecê-lo.
Morreu muito antes de eu nascer.
Wojcieszków está na região de Łuków, na atual voivodia de Lublin, numa área de transição histórica e cultural em direção à Podláquia, a mesma de Suwałki.
Foi ali que meus antepassados viveram antes de atravessar o Atlântico.
Comecei a pensar na relação entre origem, identidade e maneira de falar.
Até que ponto a maneira como pronunciamos as palavras pode conservar marcas de uma história familiar?
O que permanece de uma região depois que seus habitantes deixam o território e passam a viver em outro continente?
Não tenho como afirmar que a minha pronúncia seja uma herança genética direta do meu avô. Embora o formato da minha boca e a cabeça sejam semelhantes.
A articulação da fala é aprendida, desenvolvida e modificada pelo ambiente, pela convivência e pela experiência individual.
Mas existe uma dimensão cultural que merece atenção.
Os imigrantes levam consigo muito mais do que sobrenomes, documentos e lembranças. Levam palavras, expressões, entonações e maneiras de se comunicar. Essas características podem permanecer nas famílias por gerações, mesmo quando a língua de origem deixa de ser falada.
No Paraná, essa presença é particularmente interessante.
A imigração polaca deixou marcas na cultura, na organização comunitária, na religiosidade, na culinária e também na maneira de falar de determinadas localidades.
Curitiba e diversas regiões de colonização receberam influências de diferentes grupos de imigrantes. Essas influências participaram da formação de uma identidade linguística regional, embora não sejam sua única origem.
Por isso, quando voltei a falar polaco na Polônia, carregava comigo duas experiências.
A primeira era profissional.
O treinamento que havia recebido no rádio e no teatro.
A segunda era cultural.
A história de uma família que saiu da Polônia e estabeleceu suas raízes no Paraná.
A língua como território
Foi assim que comecei a compreender melhor aquilo que chamo de mentalidade da língua.
Não é somente o idioma que identifica um povo.
É também a maneira como esse idioma é pronunciado, ouvido e transmitido.
A voz tem uma dimensão física.
A língua e os músculos da boca se adaptam aos sons que aprendemos a produzir. A fala também tem uma dimensão social.
Cada comunidade desenvolve hábitos próprios de pronúncia, ritmo e entonação.
E existe uma dimensão histórica.
As migrações transportam essas características de um território para outro.
Minha trajetória entre Curitiba e Cracóvia acabou me ensinando isso.
O rádio e o teatro modificaram minha maneira de falar português. O contato com o polaco acrescentou outros movimentos à minha articulação.
As viagens às localidades de origem dos meus antepassados ampliaram minha compreensão sobre a relação entre língua e identidade. Percebia que as pessoas de Lublin pareciam que cantavam, diferente de Cracóvia.
Quando os cracovianos me perguntavam se eu era búlgaro, não estavam ouvindo apenas as palavras que eu pronunciava. Estavam tentando identificar uma musicalidade que não correspondia àquela que conheciam.
E talvez esteja aí a parte mais interessante dessa história.
A língua não mora apenas nos dicionários.
Mora na boca de quem fala.
Nas ruas por onde circula.
Nas famílias que a transmitem.
Nos territórios que a modificam.
A voz também carrega história.
E, às vezes, basta abrir a boca para descobrir que uma parte do passado continua falando dentro de nós.
Referências bibliográficas
• CRYSTAL, David. Dicionário de Linguística e Fonética. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.• JAKOBSON, Roman. Fonema e Fonologia. São Paulo: Acadêmica, 1967.
• MALMBERG, Bertil. A Fonética. Lisboa: Livraria Bertrand, 1954.
• SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 2006.
• IAROCHINSKI, Ulisses. Saga dos Polacos: a história da Polônia e seus emigrantes no Brasil. 1ª edição. Curitiba, 2000.
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