A Polônia não pertence a um presidente
A história da Polônia é uma sucessão de lutas pela sobrevivência. Invasões, partilhas territoriais, ocupações, guerras e tentativas de apagar a identidade de um povo. Uma história de resistência.
Mas também de conquistas.
Por isso, preocupa o que acontece hoje no país.
A Polônia voltou a enfrentar uma disputa entre dois projetos de sociedade. De um lado, a democracia parlamentar, a integração europeia, a modernização econômica e a liberdade individual. De outro, o nacionalismo conservador, a influência política da Igreja Católica e a tentativa de subordinar as instituições a uma visão ideológica do passado.
No centro desse confronto está o atual presidente da República, Karol Nawrocki.
Eleito em junho de 2025 e empossado em agosto do mesmo ano, o professor de história Nawrocki parece confundir a Presidência da República com uma espécie de monarquia.
Como se a vitória nas urnas lhe concedesse poderes superiores aos do Parlamento. Como se o presidente pudesse se colocar acima das demais instituições.
Não pode.
A Polônia é uma república parlamentar. O Sejm, sua Câmara dos Deputados, representa a soberania popular. O governo responde ao Parlamento. O presidente tem atribuições constitucionais. Nenhuma dessas instituições é propriedade de quem ocupa temporariamente seus cargos.
A insistência em apresentar as divergências entre a Presidência e o governo de Donald Tusk como uma tentativa de golpe é uma inversão da realidade. O que existe é uma disputa política. Uma disputa sobre o futuro do país e sobre o alcance das instituições democráticas.
Não se pode transformar qualquer tentativa de reforma em conspiração contra o Estado.
O IPN e a fabricação de uma história oficial
Karol Nawrocki chegou à Presidência depois de dirigir o Instituto da Memória Nacional, o IPN.
O instituto deveria ter uma função importante. Investigar os crimes dos regimes totalitários. Preservar documentos. Recuperar a memória das vítimas. Estudar os períodos mais sombrios da história polaca.
Mas memória histórica não pode ser instrumento de perseguição política.
Sob a direção de Nawrocki, o IPN passou a ser associado a uma interpretação cada vez mais ideológica da história nacional. Uma interpretação que privilegia determinados personagens, transforma outros em inimigos e procura estabelecer uma espécie de tribunal moral sobre o passado.
A história não pode ser submetida a uma inquisição.
Não existe historiografia séria sem confronto de documentos, revisão de interpretações e liberdade de investigação. O passado não pertence a um partido. Muito menos a um presidente.
É preciso lembrar que até a Igreja Católica reconheceu os erros cometidos por suas antigas estruturas inquisitoriais. João Paulo II, o polaco Karol Wojtyła, pediu perdão pelos erros históricos praticados em nome da Igreja.
Não faz sentido que, no século XXI, a Polônia ressuscite métodos de condenação ideológica sob o pretexto de defender a memória nacional.
A segunda emancipação: separar a Igreja do Estado
A Polônia conquistou sua primeira emancipação política em 1989. Derrubou o regime socialista soviético de Moscou e recuperou a possibilidade de decidir seu próprio destino.
Mas deixou uma questão sem solução.
A influência da Igreja Católica Apostólica Romana sobre o Estado.
A Igreja teve participação importante na resistência ao socialismo soviético. Não se pode negar o papel de sacerdotes, comunidades religiosas e do próprio Vaticano naquele processo.
Mas uma coisa é reconhecer essa contribuição histórica. Outra é aceitar que a instituição religiosa continue exercendo tutela sobre a política nacional.
A segunda emancipação da Polônia precisa ser também uma emancipação do poder clerical.
Defendo um Estado laico.
Sem privilégios religiosos.
Sem interferência de autoridades eclesiásticas na elaboração das leis. Sem submissão da educação pública a dogmas religiosos.
É uma questão republicana.
A fé pertence ao cidadão.
O Estado pertence a todos.
Nesse debate, merece atenção a posição de Włodzimierz Czarzasty, presidente do Sejm e representante da Nowa Lewica (Partido da Nova Esquerda). Sua defesa da laicidade recoloca uma questão fundamental para o futuro polaco.
Durante anos, o padre redentorista Tadeusz Rydzyk construiu uma poderosa rede de influência política, econômica e midiática.
A Radio Maryja tornou-se muito mais do que uma emissora religiosa. Seu entorno político, empresarial e institucional passou a exercer influência sobre parcelas expressivas da sociedade, especialmente no interior do país. Pregou o Não, no plebiscito para a entrada da União Europeia, mas foi admoestado pelo Papa João Paulo II e o Sim, venceu e a Polônia é membro desde 2004.
Não se trata de perseguir católicos.
Não se trata de atacar a religião.
Trata-se de impedir que uma organização religiosa se transforme em poder paralelo dentro do Estado.
A Polônia não precisa escolher entre ser católica ou europeia.
Precisa compreender que democracia não combina com tutela religiosa.
A construção da sexta economia da União Europeia
Existe outro aspecto que precisa ser colocado em seu devido lugar.
A atual posição econômica da Polônia não é obra de um único governo. Muito menos de uma única personalidade.
A Polônia é hoje a sexta maior economia da União Europeia, considerando o Produto Interno Bruto nominal de 2025.
É uma conquista extraordinária para um país que, há pouco mais de três décadas, saía de décadas de economia centralizada, escassez e isolamento.
Essa transformação tem protagonistas.
Em 1989, Lech Wałęsa representava a força política e social do Solidarność. Foi o rosto de uma mobilização popular que enfrentou o regime socialista soviético e abriu caminho para a transição democrática.
Naquele mesmo ano, Tadeusz Mazowiecki assumiu o governo. Foi o primeiro chefe de governo não comunista do bloco soviético no processo de transformação do Leste Europeu. Coube a seu governo iniciar a desmontagem das estruturas políticas e econômicas do regime anterior.
Na economia, um nome se tornou decisivo: Leszek Balcerowicz.
Como vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, implantou o programa de estabilização e transformação econômica iniciado em 1990.
Uma mudança radical.
Privatizações, abertura de mercado, controle da inflação e introdução de mecanismos de economia de mercado.
O chamado Plano Balcerowicz teve custos sociais elevados.
Produziu desemprego, dificuldades e sacrifícios. Mas estabeleceu as bases para a transformação da economia polaca.
Não se pode contar a história da atual Polônia sem reconhecer esse papel.
Outro protagonista foi Aleksander Kwaśniewski.
Presidente da República entre 1995 e 2005, teve participação importante na consolidação institucional do país. Durante seus mandatos, a Polônia ingressou na OTAN, em 1999, e na União Europeia, em 2004.
Foram decisões estratégicas.
A entrada na União Europeia abriu um novo horizonte econômico. Investimentos, circulação de pessoas, acesso a mercados, modernização da infraestrutura e recursos para o desenvolvimento.
A Polônia passou a integrar definitivamente o projeto europeu.
E então chegamos a Donald Tusk.
Seu primeiro período como primeiro-ministro, entre 2007 e 2014, foi marcado pelo fortalecimento da integração europeia, pela atração de investimentos e pela continuidade da modernização econômica.
Depois, presidiu o Conselho Europeu entre 2014 e 2019.
Em dezembro de 2023, voltou à chefia do governo.
Tusk representa uma geração política que compreende a importância da União Europeia para o futuro polaco.
Não inventou a transformação econômica.
Não começou a história em 2023.
Mas tem responsabilidade direta pela continuidade do projeto europeu e pela recuperação das relações institucionais com Bruxelas.
A sexta posição econômica da União Europeia é resultado de uma trajetória coletiva.
Wałęsa abriu a porta.
Mazowiecki iniciou a transição. Balcerowicz promoveu a transformação econômica. Kwaśniewski consolidou a orientação ocidental e europeia. Tusk deu continuidade a esse caminho.
E não podemos esquecer milhões de trabalhadores, empresários, técnicos, agricultores, pesquisadores e cidadãos polacos que fizeram essa transformação acontecer.
É assim que se constrói uma nação moderna.
Os irmãos Kaczyński e o contrapeso conservador
A trajetória, entretanto, não foi linear.
Os irmãos Lech e Jarosław Kaczyński representam uma importante inflexão na política polaca depois da queda do socialismo.
Lech Kaczyński chegou à Presidência da República em 2005. Jarosław assumiu o governo em 2006.
Ambos estavam ligados ao partido Direito e Justiça, Prawo i Sprawiedliwość (PiS).
A atuação política dos dois irmãos não foi idêntica.
Lech exerceu a Presidência. Jarosław tornou-se o principal articulador do projeto político do PiS.
Mas compartilharam uma visão nacional-conservadora que ganhou força e passou a disputar o próprio significado da transformação iniciada em 1989.
A partir de 2015, com o retorno do PiS ao governo, essa orientação ganhou dimensão ainda maior.
O projeto dos Kaczyński estabeleceu um contrapeso à Polônia liberal, europeísta e modernizadora.
Defendeu uma concepção mais centralizadora do poder. Reforçou a aproximação entre Estado e Igreja. Alimentou conflitos com instituições europeias. E promoveu mudanças no Judiciário que provocaram confrontos com a União Europeia.
O resultado foi uma crescente polarização da sociedade.
É preciso reconhecer que o PiS também contou com apoio popular. Seus programas sociais, especialmente os voltados às famílias, conquistaram eleitores.
Não se pode simplesmente ignorar essas demandas.
Mas política social não pode servir de justificativa para o enfraquecimento das instituições democráticas.
A morte de Lech Kaczyński, em 2010, no acidente aéreo de Smolensk, acrescentou outra dimensão à política polaca.
A tragédia passou a ser utilizada como elemento de mobilização política e alimentou interpretações conspiratórias que aprofundaram divisões nacionais.
Jarosław Kaczyński permaneceu como principal liderança do projeto.
O problema não está na existência de uma oposição conservadora.
Democracia pressupõe oposição.
O problema começa quando a oposição não aceita os limites constitucionais e transforma adversários políticos em inimigos da pátria.
A Polônia moderna não precisa de unanimidade. Precisa de instituições que funcionem, independentemente de quem esteja no governo.
A memória do nazismo e a tragédia da traição ocidental
A história polaca exige responsabilidade.
Foi um dos países que mais sofreram durante a Segunda Guerra Mundial.
Em setembro de 1939, foi invadido pela Alemanha nazista e pela União Soviética, em consequência do pacto Molotov-Ribbentrop.
O território polaco tornou-se palco de uma das maiores tragédias da história humana.
A Alemanha nazista promoveu uma política de extermínio. Auschwitz, Birkenau, Treblinka, Majdanek e outros campos representam a dimensão dessa barbárie.
A população judaica foi praticamente exterminada.
Milhões de cidadãos polacos morreram.
Cidades foram destruídas.
Varsóvia foi reduzida a escombros.
A Polônia também foi vítima da dominação soviética.
A repressão stalinista, as deportações, os assassinatos e a imposição de um regime comunista marcaram gerações.
São duas experiências históricas que precisam ser estudadas em suas especificidades.
Não se pode relativizar o nazismo.
Tampouco minimizar os crimes do stalinismo.
Ao final da guerra, veio outra tragédia política.
A Polônia, que havia sido a primeira vítima da agressão alemã, não recuperou sua soberania. Foi deixada sob a esfera de influência soviética.
Os acordos de Yalta e Potsdam determinaram o destino de um país que havia lutado ao lado dos Aliados.
A exclusão da Europa Oriental do Plano Marshall aprofundou a divisão do continente.
Os Estados Unidos privilegiaram o carrasco e abandonaram a vítima.
A traição ocidental deixou uma ferida histórica.
Por isso, a liberdade recuperada em 1989 não pode ser tratada como uma conquista secundária. Foi a recuperação de uma soberania perdida durante décadas.
E justamente por conhecer o fascismo, o nazismo e o autoritarismo, a sociedade polaca deveria ser a primeira a rejeitar discursos de intolerância, xenofobia e perseguição política.
Não é aceitável utilizar a memória dos mortos para justificar novas formas de exclusão.
A memória histórica deve servir à democracia.
Não ao autoritarismo.
Deter o retrocesso e construir o futuro
A Polônia está diante de uma escolha histórica.
Não se trata de escolher entre ser patriota ou europeia. Nem entre conservar suas tradições ou modernizar sua sociedade.
Trata-se de compreender que patriotismo não é propriedade de um partido. A história nacional não pertence ao IPN.
A fé não pertence ao Estado.
E a Presidência da República não é uma coroa.
O país que conseguiu sair da pobreza estrutural, transformar sua economia e alcançar a sexta posição entre as economias da União Europeia não pode aceitar o retrocesso institucional.
O governo de Donald Tusk tem uma responsabilidade enorme. Precisa cumprir seu programa. Recuperar a confiança nas instituições. Fortalecer a independência do Judiciário.
Avançar na laicidade.
E garantir que a modernização econômica alcance toda a população.
O presidente Karol Nawrocki, por sua vez, precisa compreender os limites de seu mandato.
Não recebeu um trono.
Recebeu uma função constitucional.
O Sejm não pode ser tratado como inimigo. O governo não pode ser apresentado como uma conspiração. E a divergência política não pode ser transformada em perseguição ideológica.
A Polônia já conquistou sua primeira emancipação.
Libertou-se do domínio socialista soviético.
Agora precisa completar a segunda.
Uma emancipação do obscurantismo. Da tutela religiosa sobre o Estado.
Do nacionalismo excludente.
Da manipulação da memória histórica.
Uma Polônia laica. Democrática. Plural. Moderna. Europeia.
A Polônia pertence aos seus cidadãos. Não aos dogmas de Tadeusz Rydzyk. Não às ambições de Jarosław Kaczyński. Não às pretensões de Karol Nawrocki.
E muito menos a quem acredita que uma eleição transforma um presidente em rei.
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